Gargalos do Ensino Básico

Foto: Gustavo Diehl/ Secom
Ensino | O desafio de formar mais professores começa com a valorização das licenciaturas

A professora Tirza espalha letras e sílabas no pátio da Escola Estadual de Ensino Fundamental Medianeira, de Porto Alegre. Bernard, sete anos, forma pela primeira vez uma palavra relacionada à natureza. Provavelmente, árvore. Ele reconhece que teve ajuda de um dos coleguinhas, mas a vitória é sua. O começo da alfabetização é instigante: ao sair do colégio, ao meio-dia, a turminha já aguarda pelo dia seguinte. “Amanhã vamos aprender a contar”, teria dito o pequeno Bernard Martins Monteiro nos idos do ano de 1996.

Hoje professor de três escolas em Sapucaia do Sul, ele fala da professora como a grande inspiração para que seguisse a carreira, além da mãe que sempre incentivou os estudos. Formado em Ciências Biológicas pela UFRGS, Bernard fala com carinho dos dias no primeiro ano do ensino fundamental. “A professora nos cativava, nos levava para o pátio como para viver a educação como a vida real. Em casa também tive muito estímulo para estudar, minha mãe sempre deu muito valor para isso, comprava livros. Na escola me encontrei. Eu sabia que seria professor e hoje tento utilizar a criatividade para instigar meus alunos.”

Poucos de seus amigos buscaram carreira semelhante. “Para dizer a verdade, não me lembro de nenhum amigo que seja professor”, titubeia. Com uma rotina de 40 horas semanais, a Escola Municipal Primo Vacchi é o local onde ministra mais aulas e desenvolve um projeto de educação ambiental com as crianças. Egresso da rede pública e profissional do sistema público, sabe das dificuldades do ensino no país, mas aposta no ensino superior como caminho para superar os desafios da educação básica. “Muitos alunos não sabem ler nem escrever quando chegam às séries finais. Quando as crianças são estimuladas, no entanto, é possível cativá-las na escola. Um professor bem formado faz toda a diferença; até porque a docência também é paixão pelo que se faz”, sustenta.

Professor Bernard Martins Monteiro, que dá aula de Ciências da Natureza na Escola Municipal de Ensino Fundamental Prefeito João Freitas Filho, em Sapucaia (Foto Gustavo Diehl/ Secom)

Para além das dificuldades dos alunos nas escolas, os gargalos na formação de professores também têm diversas causas. Em áreas como Química, Matématica, Filosofia e Geografia, historicamente registra-se a falta de profissionais. Segundo o Centro dos Professores do Estado (Cpers), instituições de todas as cidades do Rio Grande do Sul têm algum professor faltando. Nesse sentido, a evasão dos graduandos de licenciaturas nas universidades pode estar associada à ausência de identidade com o curso, à falta de estratégias metodológicas alternativas, à didática ineficaz por parte dos professores e ao alto índice de reprovações iniciais. Educadores, no entanto, apontam os caminhos para superar esses problemas.

Imagens da Escola Municipal de Ensino Fundamental Prefeito João Freitas Filho, em Sapucaia do Sul (Futos: Gustavo Diehl/ Secom)

Ensino e formação

Rafael Vieira Pires queria ser geólogo quando criança. Fascinado por pedras e cristais, por conta própria começou a estudar morfologia dos minerais. No entanto, aos 16 anos passou a vasculhar as prateleiras do pai, que é formado em Filosofia, e se deparou com autores como Nietzsche e Marx, passando em seguida a ler Platão, Sócrates, os pré-socráticos, e nunca mais abandonou a Filosofia.

Hoje ele cursa o sexto semestre da faculdade na UFRGS e pretende ser professor. “A Filosofia te torna mais capaz para interpretar e interagir com o mundo. Se o aluno tem uma visão restrita, dogmática, ele não consegue olhar o entorno e se abrir para novas possibilidades de reflexão. Outras disciplinas, como Sociologia e História, têm seu escopo de estudo. A Filosofia vai abrir um debate sobre o entendimento de História, sobre a maneira como se entende o social. São questões que serão desdobradas, e o próprio aluno terá de responder a essas questões e a outras que ele mesmo propuser”, destaca o estudante.

Rafael admite que quase trocou a licenciatura pelo bacharelado quando houve a mudança de currículos implementada integralmente neste ano, mas percebeu que tem o dom para ser professor. Uma resolução de 2015 do Conselho Nacional de Educação determina que a formação de professores em ensino superior no Brasil requer o cumprimento de 400 horas de práticas focadas na escola, além de 400 horas de estágio supervisionado ao longo de 3.270 horas de graduação. Algumas licenciaturas também tiveram aumento de carga horária e, consequentemente, se tornaram mais longos. “Todos os cursos tiveram de fazer adaptações. Alguns mais, outros menos. Além dos estágios, é necessário fazer várias práticas como situações de visitas a escolas e trabalhos com estudantes da educação básica. A prática agora está explícita dentro dos currículos”, ressalta o coordenador do curso de Pedagogia da UFRGS, Sérgio Franco.

No caso da Filosofia, com o aumento da carga horária, a graduação passou de 2.850 para 3.270 horas. A média de diplomados por ano para o curso de Licenciatura em Filosofia tem sido pouco mais de oito. Esse número está, sem dúvida, muito aquém do que o curso é capaz de formar, de acordo com o coordenador do curso na UFRGS, Raphael Zillig. Ele lista algumas das dificuldades para que mais alunos cheguem ao final da graduação em Filosofia. “Entendemos que vários fatores contribuem para esse resultado. Há dificuldades relativas ao mercado, já que, além da não obrigatoriedade da disciplina no colégio, pesam sobre os professores da área os problemas que afetam a carreira docente em geral. Há de se considerar também que, a despeito do baixo índice de candidatos por vaga para o ingresso, o curso é muito exigente, o que pode explicar parte da evasão e da retenção”, sustenta.

Com a reforma curricular, sem abrir mão das disciplinas de cunho propriamente teórico, foram incorporadas à licenciatura várias matérias voltadas à prática docente, como Didática em Filosofia Prática, Didática em Lógica e Observatório de Ensino. “Espera-se que projetos como o PIBID – Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência – e, mais recentemente, a residência pedagógica contribuam para a fixação dos alunos no curso”, complementa o coordenador da Filosofia. Esses programas promovem a prática docente em diferentes períodos da graduação.

Identidade da licenciatura

Para Ana Cristina Souza Rangel, professora universitária inativa da UFRGS e da rede privada, a formação do professor no Brasil é deficitária. Ela destaca que o problema básico está na formação e valorização dos professores. “Tudo tem relação com a valorização social do professor porque, se houvesse um consenso em relação ao tema, ele deveria ser prioridade em um projeto apartidário. Assim, obviamente ganharia mais, teria formação em excelência, com muito conhecimento em português, matemática, do objeto que ensina e todo um trabalho de didática”, sublinha.

Uma pesquisa divulgada em julho do ano passado revela que 49,7% dos professores brasileiros não recomendam sua profissão por considerá-la desvalorizada. Os dados são da pesquisa Profissão Docente, iniciativa do Todos pela Educação e do Itaú Social, realizada pelo Ibope Inteligência. De acordo com o estudo, os fatores de decisão pela carreira indicam principalmente uma escolha consciente, relacionada ao prazer por ensinar, mas para pouco mais de um terço dos en trevistados foi também uma questão de falta de opções.

Nessa lógica, a educadora critica a formação e a pouca atenção que a graduação recebe em termos de políticas de ensino. “Os professores estão muito preocupados que têm de publicar artigos, participar de vários projetos de pesquisas, orientar vários doutorandos, e a graduação fica de lado. As políticas educacionais do Brasil não são voltadas para a educação básica. Se assim fosse, estaríamos fazendo muitas pesquisas a respeito dos processos de ensinar-aprender, dos processos de inclusão das crianças. Não adianta ter escola para todos se as crianças não sabem ler”, acrescenta Ana Cristina.

Paralelamente à desvalorização dos profissionais da educação básica, a professora Roselane Zordan Costella ressalta que mesmo com um trabalho pesado na reestruturação da formação de docentes, ainda falta a constituição de uma identidade da licenciatura. À frente da Coordenadoria de Licenciaturas da UFRGS (Coorlicen) durante as discussões para a modificação dos currículos e implementação das mudanças a partir da determinação do Conselho Nacional de Educação, a educadora considera que as universidades não devem ficar presas ao número de horas do currículo, mas sim garantir a qualidade dessas horas e a discussão coletiva que possa pautar essa qualidade. “Não defendo uma separação entre o bacharelado e a licenciatura, mas os currículos e suas respectivas disciplinas dos cursos superiores precisam mostrar com clareza o que é formar um educador”, ressalta.

Glaucia Grohs, atual coordenadora do Coorlicen, concorda que uma carreira mal remunerada afasta muitos profissionais da docência, mas discorda da fala corrente sobre a má formação de professores. “Acho que falar em formação falha não é correto. A UFRGS tem um bom caminho de formação, por exemplo. Concordo com a existência de dificuldades na manutenção da atualidade dos professores, considerando as realidades da educação pública. Há escolas que não têm equipamentos, acesso às redes, então como atualizar conteúdos quando existem mazelas que impedem os professores de se atualizarem? Ao mesmo tempo, a educação básica começa na universidade, com a formação dos educadores”, questiona.

A baixa remuneração pode ser o fator responsável pela taxa de diplomação, que gira em torno de 60% nas licenciaturas de todas as universidades do país. Enquanto a Pedagogia fica com essa média de formandos, outros cursos, como a Física, têm historicamente uma média de 20% de finalização de curso do total de estudantes que ingressam na graduação, de acordo com dados do portal CultivEduca.

Nenhum estudante a menos!

“Não gostamos e não podemos aceitar como natural a retenção dos alunos nas disciplinas mais difíceis ou o abandono da faculdade. Um aluno que desista é muito! Eles passam muita dificuldade para ingressar no curso, deixam de viver outras experiências para estudar, portanto, cada um que desiste é muita coisa. No entanto, o curso tem alta taxa de retenção e evasão”, reflete a professora do Instituto de Química, Rochele Loguercio. A licenciatura em Química, assim como os demais cursos da área de exatas, é pesada em termos de conteúdos desde o primeiro semestre. Observou-se que disciplinas como Química Geral são responsáveis pela retenção de 40% dos estudantes. Ou seja, o índice de reprovação é muito elevado. Como se trata de uma disciplina básica, ela é pré-requisito para várias outras matérias, o que compromete a continuidade da graduação.

Com a recente reformulação dos currículos das licenciaturas nas universidades, foi criada na UFRGS mais uma disciplina para tentar diminuir o problema da retenção dos alunos em Química Geral. A Introdução à Química, recentemente implementada, é ministrada por professores formados em educação em química e poderá ser uma saída para auxiliar os ingressantes. A criação da matéria leva em conta a reformulação dos currículos, mas também o trabalho de conclusão de curso do estudante André Cristo Daitx, que encontrou como fatores determinantes para a evasão e retenção o acolhimento ruim por parte de colegas e professores, a falta de identidade relacionada à carreira, a falta de estratégias metodológicas alternativas, a didática ineficaz por parte dos professores e o alto índice de reprovações iniciais.

Outra medida implantada neste ano pelo Instituto de Química foi a seleção de um bolsista para auxiliar os ingressantes a se “localizarem” na Universidade, ou seja, para que tenham informações sobre onde estão as bibliotecas, o ponto de xerox e todos os caminhos para resolver problemas com matrículas. A professora Rochele também destaca que o PIBID tem sido fundamental para manter mais alunos na licenciatura, porque eles recebem uma bolsa e participam de projetos ligados diretamente à docência. “É fundamental porque alguns alunos não têm dinheiro para pagar a passagem. Muitos vêm da região metropolitana, e as aulas da licenciatura são à noite. O PIBID integra os estudantes; eles podem interagir, têm sala com computadores e equipamentos para elaboração das aulas”, argumenta.

Entretanto, o último edital do programa foi publicado ainda no ano passado e não se sabe se o Ministério da Educação vai mantê-lo. Um dos gargalos é a dependência das bolsas da Capes, conforme o professor Sérgio Franco. O educador explica que o ideal seria obter recursos diretamente do orçamento da Universidade para manter o programa.

Samantha Klein

Repórter