Perfil: Gonçalo Ferraz

Foto: Esteban Q. Corzo

Para quem ainda acredita na dicotomia entre ciências humanas e exatas, conhecer Gonçalo Ferraz talvez seja uma interessante provocação. Lisboeta em sua origem, mas de alma cosmopolita, é um crítico contumaz de tal divisão – e com fundamento. Há quase 20 anos se dedica à pesquisa científica na área de Biologia, e há um mês lançou na Feira do Livro de Porto Alegre sua primeira obra poética: Palavras com Som, publicada pela editora Libretos. No entanto, já faz tempo que arte e ciência convivem em sua rotina.

“Cresci acostumado à ideia de que as coisas realmente importantes a gente fala em verso”.

Gonçalo Ferraz

Gonçalo destaca que a poesia na família já está na quarta geração: pai, avô e bisavô também escreviam. Sendo o quinto de seis filhos, desde muito cedo percebeu que compor versos e lê-los para os outros era uma forma de chamar a atenção. “Sempre teve também esse lado meio perverso”, ele ri. Sua mãe, que é matemática de profissão, começou a escrever depois dos 60 – seu primeiro livro se chama Os meninos com nomes de números. Foi também por influência dela, Gonçalo presume, que desenvolveu o gosto pelo raciocínio lógico. Quando pequeno, acompanhava as experiências da mãe em casa, e as brincadeiras numéricas que ela preparava para seus alunos o encantavam.

“Sempre gostei de andar no campo, ver bicho, sentir o espaço à minha volta, o silêncio”, ele conta. Aos 15 anos, fez parte de um grupo de observação de aves. Com a saída do professor responsável, ele e alguns colegas decidiram dar continuidade às atividades da equipe e dedicaram-se à elaboração de um projeto. Com a ajuda do cunhado, que na época estava iniciando o doutorado, teve o primeiro contato com a pesquisa. “Aconteceu uma coisa muito legal: eu e meus amigos nos dedicamos muito para fazer esse projeto funcionar. Só que a gente não tinha experiência, não tinha noção de o quanto a clareza da pergunta inicial é fundamental para uma iniciativa científica. Então fizemos um megaprojeto para coletar o máximo de dados que pudéssemos, jogar tudo numa base de dados e ver o que acontecia. Foi muito interessante, academicamente, eu fazer errado nesse momento, porque o projeto nunca chegou ao fim. Gerou uma caixa cheia de fichas, e a gente nunca fez nada. Mas para mim foi uma lição enorme”, acrescenta.

Depois da graduação em Biologia pela Universidade de Lisboa, Gonçalo transformou o gosto pela natureza e pelos números em trabalho: cursou mestrado e doutorado em Ecologia e Biologia Evolutiva na Universidade Columbia, em Nova Iorque, com ênfase em dinâmica de populações. Nas suas próprias palavras, trabalha “contando bicho”.

Em suas andanças, viveu por oito anos em Manaus antes de se mudar para Porto Alegre, em 2012, para se tornar professor do Departamento de Ecologia da UFRGS, onde coordena o Laboratório de Ecologia de Populações e atua como pesquisador, colaborando com o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA).

Foi em Manaus que Gonçalo conheceu dona Omarina Guerra, advogada e mãe de cinco filhas, das quais ele recorda com carinho. Acolhido por elas em um dia difícil, escreveu e lhes dedicou As Amazonas, o único poema que fez em um período de sete anos. “Mandei para um amigo, que mandou para elas, e no dia seguinte já me chamaram para almoçar. Um almoção de domingo. Dona Omarina trouxe uma caixa de papéis que tinha em casa, e a família inteira leu poesias, provindas de várias ocasiões. Sei lá o que é que a poesia faz, e não sei se estou interessado em desmontar isso, mas essa experiência me marcou muito. Me deu uma convicção muito forte: eu preciso dar um jeito de existir dessa forma também. É uma satisfação muito grande. A gente não leva nada daqui se não forem esses momentos.” Até então, Gonçalo costumava esperar ser tomado de muito sentimento para escrever. Ao chegar a Porto Alegre, aos poucos isso mudou. Começou a frequentar saraus e slams – campeonatos de poesia falada – e, fascinado pelos encontros, passou a escrever uma vez por semana. Foi dessa rotina que nasceu seu livro.

Para Gonçalo, tanto no verso quanto na pesquisa, é preciso dar espaço para que as palavras “tomem vida própria”. No entanto, segundo ele, são diferentes as regras do jogo. “Na Biologia existe uma verdade; na poesia, não. Quando a gente se sente meio esmagado pela responsabilidade de fazer as perguntas certas, coletar dados corretamente e analisá-los de maneira a alcançar uma verdade científica, a poesia dá uma liberdade complementar. O campo de jogo é outro. Na poesia não existe uma coisa certa, mas, sim, maneiras de expressar ideias”, sintetiza.

Publicado na edição impressa de Janeiro/Fevereiro de 2019 (Edição 220)

Natalia Henkin

Estudante de Jornalismo da UFRGS

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