Meu lugar na UFRGS: Osvaldo Arboit

Foto: Gustavo Diehl/ Secom
Torre de Transmissão da Rádio da Universidade | Fora do mapa

“Eu costumo dizer que tenho 11 meses de férias e um de trabalho, que é o meu mês (oficial) de férias.” É assim que, sorrindo, Osvaldo Arboit, o Osvaldinho, descreve o que faz. São 37 anos operando os transmissores da Rádio da Universidade. Como ele mesmo brinca: é mais tempo de UFRGS do que de casamento.Todos os dias, Osvaldinho se desloca de Guaíba, onde mora, para Eldorado do Sul, local em que ficam os transmissores e a antena que levam aos fiéis ouvintes da AM 1.080 sua variada programação: do jornalismo experimental dos alunos aos clássicos da música de concerto, sua marca registrada.

Apesar da curta distância entre a Rádio, que fica no Câmpus Centro, e sua torre de transmissão, os dois lugares pouco têm em comum. Em uma viagem de apenas vinte minutos, a euforia do movimentado centro de Porto Alegre é deixada para trás, dando lugar à tranquilidade daquilo que mais se parece com um pequeno sítio. Sua localização é imprecisa: para chegar lá, é preciso perguntar a quem já conhece. Mesmo próximo a uma das mais importantes rodovias federais do Estado, a BR-290, o silêncio da natureza prevalece.

E é isso que faz Osvaldinho querer ficar. “Aqui no mato, longe da bagunça, a gente foge do padrão, tem que ser um pouco diferente. São coisinhas pequenas, coisas simples a serem feitas. Eu só vou a Porto Alegre quando sou obrigado”, ele ri. E ressalta: “É um lugar simples, tranquilo, mas, sem isso aqui, a nossa rádio não conseguiria ir para o ar. Se o transmissor estiver fora do ar, esquece”.

Além da pequena casa onde ficam os transmissores, do lado de fora, um pouco mais afastada, alta e imponente, está a antena. É fascinante, mas perto dela ninguém chega. “Colocou a mão, já era, não tem volta. É o que diz o nosso engenheiro. Eu é que não vou tirar prova”, ri Osvaldinho. E nem é preciso chegar tão longe: encostar-se no aparelho que aciona a antena também pode ser fatal. Reza a lenda que já houve uma vítima: “Vocês estão vendo aquele risco na parede, do lado da bobina, que vai até ali em cima? Uma cobra que entrou no verão. Subiu e encostou a cabeça na bobina. Torrou, literalmente”, revela Osvaldinho, com tranquilidade.

Depois de tantos anos de serviço (e nenhuma refeição no RU), hoje Osvaldinho se diz fiscal, ou seja, supervisiona o trabalho dos outros operadores – que, aliás, foram todos treinados por ele. “A primeira orientação é: não sabe o que fazer, tira do ar e me chama. Não interessa se é dia, noite, fim de semana. Me comunica. É melhor do que tentar fazer alguma coisa e estragar o equipamento, que é caríssimo. A gente vai com calma, olha, analisa, e vambora”, afirma, contundente. Feliz com sua equipe, não economiza elogios aos colegas. Patrícia da Silva, responsável pela limpeza, nas palavras dele, é “fora de série, foi a nossa salvação”. Já o operador Doreni Antônio Fortes, o Toninho, é seu amigo de longa data. Entre boas histórias e brincadeiras, o clima é de descontração. “Aqui, o nosso tratamento é assim: somos uma família”, reforça Osvaldinho.

Se a torre de transmissão da rádio tivesse um rosto, seria o de Osvaldinho. Contudo, ciente da sua singularidade, ele prefere o mistério: “Não vai divulgar onde é, que depois todo mundo vai querer vir para cá”.

Foto: Gustavo Diehl/Secom

Olhar de Repórter

Escrever para o Meu Lugar foi um desafio bastante interessante. Em geral, estou mais acostumada a trabalhar com dados, estatísticas e pessoas, que são muito mais palpáveis do que um espaço. Ainda que ele exista como algo concreto, ainda que possua diversos aspectos descritíveis, não é tão simples passar para o papel aquilo que não se vê. No caso da torre de transmissão da Rádio da Universidade, como falar da energia que emana da enorme área verde que envolve a antena e da pequena casa onde trabalham os operadores? Como transmitir ao leitor a conexão de Osvaldinho, que opera os transmissores há 37 anos, com o lugar que considera uma segunda casa? Foi um exercício de escrita e memória visual difícil mas divertido.