Os sentidos da violência

Crítica | Observatório de Comunicação Pública analisa nas edições de abril do JU as escolhas pelas experiências de entrevistados, em detrimento das estatísticas, ao tratar desse tema sensível

Foto: Flávio Dutra/Arquivo JU 17 nov. 2021

Física e psicológica, cultural e institucional, interpessoal e coletiva: a violência é uma prática social com impactos traumáticos para quem experiencia e testemunha ações contra si ou contra os outros. Desde 1996, a violência é oficialmente considerada um problema de saúde pública pela Organização Mundial da Saúde (OMS), o que viabilizou um novo tratamento à questão para além das páginas policiais. A alteração oficial do estatuto da violência foi uma medida de visibilidade fundamental e um ponto de partida para o principal desafio, que é a mudança da cultura da violência, enraizada e, por vezes, escondida entre as quatro paredes da vida privada. Qual o papel do jornal universitário diante da violência? Como tornar público um tema sensível sem transformá-lo em espetáculo? Nesta crítica, o Observatório da Comunicação Pública tem como objetivo refletir sobre essas questões. 

A partir das quatro edições publicadas no mês de abril de 2022 (#95, #96, #97, #98), o nosso argumento reside na abordagem do Jornal da Universidade sobre a violência. Não apenas os últimos acontecimentos mundiais, como a pandemia de covid-19 ou a Guerra da Ucrânia, reforçam essa necessidade, mas também as nuances que cercam o debate. Nas edições citadas, os sentidos de violência são expostos em seus diferentes contornos pelo jornal. 

Na edição #95, o sentido de violência é marcado pela desigualdade vivenciada por estudantes na pós-graduação.

A desconsideração da diversidade e o modo como as condições externas e subjetivas influenciam, de diferentes maneiras, cada indivíduo, é uma forma de violência intrinsecamente presente no ambiente universitário. Além disso, a lógica produtivista, fortalecida na pós-graduação, incentiva a competição e, consequentemente, os meios mais individualistas de se obter reconhecimento. Esse modus operandi, é preciso salientar, não está ancorado à garantia de qualidade da pesquisa. 

Durante a pandemia, o debate sobre produtivismo só reiterou a urgência de tensionar a complexidade inerente a cada realidade contemplada na pós-graduação. Em artigos a esse respeito, o JU divulgou meios interessantes de problematizar o modo como a pandemia alargou ainda mais os abismos que separam as condições ideais de estudo do tipo de exigência produtiva estabelecida ainda pela Universidade. Repensar, portanto, sob a égide da prevenção à violência, as maneiras de se incentivar e desenvolver a produção científica na pós-graduação é um passo importante para o aprofundamento da reflexão. Se orientado pelo registro da pluralidade, o papel do JU é necessário por ressaltar a complexidade no ambiente universitário e realizar críticas ao funcionamento da Universidade. 

Além da violência acima referida, o jornal aborda a violência contra a mulher (#97) e a violência no futebol (#98), priorizando, no lugar das estatísticas, as experiências de entrevistados e entrevistadas. A condução das reportagens pelas entrevistas é uma decisão editorial importante, pois mais do que os números, oportuniza o reconhecimento da alteridade pela qual o leitor exercita a percepção da própria vivência nas experiências dos outros.

Quando se trata de violência, os números, as estatísticas e os dados oficiais costumam ser preponderantes em notícias e reportagens jornalísticas. O JU quebra este padrão.

A possibilidade de reconhecimento da alteridade, percebida nas reportagens citadas, é um acerto do JU ao ampliar os sentidos de violência com a combinação entre os danos físico e psicológico das práticas. Em comparação, o dano físico tende a ser uma resposta automática quando se fala em violência, enquanto o dano psicológico, apesar de ser oficialmente classificado como tal, é desacreditado e colocado sob suspeição. As desconfianças causam mais constrangimentos à vítima e, por isto, é papel do jornalismo chamar atenção para sentidos já previstos em relatórios oficiais, mas que encontram dificuldades de aceitação social e cultural.

Nas sociedades contemporâneas em que a violência é exercida de diferentes formas, mais e menos sutis, a singularidade do relato publicizado pelo jornalismo é uma forma de o leitor acessar outras realidades.

A discussão sobre um tema sensível exige o aprimoramento dos argumentos, com o qual o JU parece compromissado ao incluir, no lugar da generalidade, do espetáculo e da banalidade, o exercício empático, sensível e atualizado sobre os diferentes sentidos de violência na sociedade contemporânea.  


Observatório de Comunicação Pública é mantido por doutorandos, mestrandos e pesquisadores que integram o Nucop – Núcleo de Pesquisa em Comunicação Pública e Política, grupo de pesquisa coordenado por Maria Helena Weber e vinculado ao PPGCom/UFRGS.


“As manifestações expressas neste veículo não representam obrigatoriamente o posicionamento da UFRGS como um todo.”