Para além do expediente

Foto: arquivo pessoal (Paulo Roberto Oliveira)
Comportamento | Histórias de projetos pessoais de profissionais que fazem a Universidade

A profissão, de modo geral, é marca identitária importante, mas esse costume de jogar luz sobre o que uma pessoa “faz da vida” deixa apagada uma parte importante da individualidade: os desejos pessoais, as atividades e interesses que existem para além do campo das obrigações profissionais. Num universo que abriga uma gama tão ampla de pessoas como a UFRGS, é natural que existam perfis tão diversos que chegam a ser antagônicos entre si. São pontos de vista, histórias e identidades que às vezes ficam encobertos sob títulos, uniformes ou funções no espaço de trabalho e que se sobressaem quando se encerra o expediente.

Devoção

Para ter energia depois da jornada de trabalho, é preciso motivação e entrega, como no caso de Paulo Roberto Oliveira. Aficionado por carnaval, concilia a função de técnico terceirizado na sonorização e iluminação dos eventos do Salão de Atos da UFRGS com os desfiles das escolas de samba. Desde 1986, sai como mestre-sala sob a alcunha de Tadeu Pé de Vento e explica que o que se vê na avenida é apenas “a ponta do iceberg”, a concretização de uma preparação que dura meses e que os foliões conciliam com outras atividades, inclusive remanejando turnos de trabalho para poder comparecer a ensaios e apresentações. “Quando alguém vê no desfile uma madrinha de bateria acha lindo, mas não sabe que ela trabalhou oito ou doze horas no plantão de um hospital. Acha tudo maravilhoso, mas não é tão simples assim: tem que estar preparado, aquecido, entrosado. Quando fui profissional de som no carnaval e saí pela minha escola, minha diretora me liberava antes do desfile para me preparar”, aponta.

Uma dura rotina de preparação também foi o cenário enfrentado por Jorge Visintainer para poder levar a vida “entre as academias”: apaixonado por musculação desde jovem, aos 26 anos iniciou a carreira acadêmica e atualmente é docente do Departamento de Filosofia da UFRGS. Hoje com 65 anos, segue revezando halteres e livros, mas já não compete em eventos de fisiculturismo, como na década de 1990. “Ao invés de atrapalhar a atividade intelectual, o treino garante um aumento na capacidade de raciocínio. Há hipóteses de que a testosterona tenha esse componente ligado ao intelecto, não só à força física. Não foram coisas opostas que tive que conciliar; andaram juntas. Mas competir é duro, exige demais da pessoa, envolve dietas, uso de substâncias. Quando a gente fica cansado demais, não consegue fazer um exercício intelectual. No início do treino, sim, o teu desempenho intelectual até aumenta, mas depois de doze semanas de dieta fica muito complicado, tem que comer muita fibra mas pouco carboidrato, que é o combustível do cérebro.” Jorge aponta que em certo momento foi necessário escolher entre se profissionalizar ou manter as duas atividades: “Sempre competi como amador, porque para se profissionalizar é preciso sair do país e se dedicar exclusivamente, então parar com as competições foi algo natural”.

Motivação

Geralmente é na infância que se constroem as paixões que nos acompanham por toda vida, e muitas vezes se trata de uma herança familiar. Janice Rodrigues Correa teve contato com atividades de tear desde a infância influenciada pela mãe e pela avó. A auxiliar em administração da Pró-reitoria de Gestão de Pessoas (Progesp), não só continuou a tradição de família, mas lhe deu um novo significado, o de reutilização de recursos. Janice utiliza retalhos de tecidos que seriam descartados para confecção de roupas, tapetes e cobertas.

A servidora, que tentou anteriormente viver de artesanato – e hoje mantém a prática como uma forma de viver fora do padrão consumista –, alia a atividade com o cultivo de plantas para poder sentir que contribui para a noção de sustentabilidade na sociedade e até mesmo na própria Universidade. “Acho que a visão sobre a importância da sustentabilidade está aumentando, mas depende muito do meio em que se está. Mesmo na UFRGS, por exemplo, no meu convívio, muita gente ainda está desligada até para a questão de separar lixo. Já ouvi dizerem: ‘de que adianta separar aqui se lá fora misturam tudo’”, lamenta. Janice também cuida de seu sítio em Maquiné e pretende um dia expor seu trabalho com artesanato para passar adiante o que aprendeu. “É tudo tão natural para mim. A motivação é ver no que podem se transformar os retalhos. A beleza de ver algo que seria jogado fora ser útil e novo.”

Trajetórias

Se a tradição familiar de Janice foi passada como conhecimento e hábito, no caso de Paulo Roberto há um elemento concreto que simboliza a herança cultural de uma família apaixonada pelo carnaval. Filho de um dos fundadores da Imperadores do Samba, nasceu no mesmo ano em que a instituição foi criada, o que considera como se fosse um presente paterno. A ligação com a escola, porém, não muda o seu profissionalismo na hora de encarnar o mestre-sala Tadeu Pé de Vento, que já foi para a avenida representando várias agremiações. “A primeira escola em que desfilei, na cidade de General Câmara, foi a Rei da Folia. Em Porto Alegre, sou Imperadores, mas hoje em dia tem que ser profissional. Se a escola me convida e diz que não vai pagar, eu não aceito. Quando a gente leva o carnaval a sério, tudo é sério”, sintetiza.

Quando a influência não se dá por conta da família, ainda assim é oriunda de uma simbologia forte. No caso do professor Jorge, que recebeu a alcunha de “halterofilósofo” entre alguns alunos, a influência vem dos quadrinhos, de figuras que o inspiravam na infância, como Batman, Superman e Hércules. São personagens que têm grandes virtudes morais e inteligência, mas que se destacam dos homens comuns pelo físico. Tal mentalidade foi reforçada pelo estudo de filosofia e cultura da Grécia antiga. “Vejo muito claramente a vinculação da cultura de quadrinhos com a mentalidade grega do herói estetizado, não apenas ético, mas ético-estético – a arte grega não expressa o heroico através do homem comum.” O valor estético, essencial para o desenvolvimento do fisiculturismo, fica aliado à satisfação causada pelo exercício físico e pelo bem-estar. “Enquanto eu puder me manter treinando, vou em frente. As vantagens que me dá essa atividade, que me toma uma hora por dia, são enormes”, conclui.

Olhar de repórter

A execução da pauta foi desafiadora e fala mais sobre materializar uma ideia do que efetivamente das barreiras específicas enfrentadas nesta reportagem. Quando surgiu, a pauta ainda era como uma ‘ideia que existe na cabeça, mas não tem pretensão de acontecer’. Falar ‘das paixões’ tem certo direcionamento, mas ainda é bastante vago. Embora nem todo mundo desenvolva como projeto pessoal, todos têm interesses que extrapolam a profissão e, logicamente, não seria possível fazer um levantamento entre todos profissionais da universidade. Decidimos, então, elencar alguns casos que retratassem a proposta. Como todos os entrevistados disseram, são coisas que os acompanham desde muito tempo e que, provavelmente, seguirão com eles até o fim da vida. Afinal, assim são as paixões.

Emerson Trindade Acosta

Estudante de Jornalismo da UFRGS