Perfil: Sérgio Leite

Foto: Gustavo Diehl/ Secom

O porto-alegrense Sérgio Leite sempre morou entre prédios e sobre o asfalto. Seus pais não tinham tanto contato com a natureza, mas esta foi uma paixão que esteve sempre com ele. “Eu traduzo essa minha relação com a natureza onde eu moro: é uma casa que, para os vizinhos, é um jardim mal cuidado, mas, para mim, é um jardim ecológico”, ressalva. Confessa que sempre gostou de estar em contato com plantas, mas que sua paixão foi reforçada na adolescência. “Nas minhas férias, eu ia para uma fazenda. Eu pedia para ir para lá. Foi uma das melhores experiências da minha vida”, diz.

Com graduação em Agronomia pela UFRGS e mestrado em Ecologia pela Universidade de Brasília (UnB), o professor de Botânica brinca que foi “adotado pelos biólogos”. Não contém o sorriso quando perguntado sobre sua relação com os alunos: “A minha motivação na Universidade é dar aula”. E conta que prefere as aulas práticas para “colocar o aluno em contato com a natureza e fazê-lo pensar”. “O resto é lucro”, complementa. Ele lembra que não pensava em ser professor até surgir a oportunidade de dar aulas na Universidade. Por não ter um curso de licenciatura, confessa que aprendeu a ensinar com seus antigos professores. “Eu não tinha me programado para ser professor, mas encontrei minha vocação”, reitera.

Relembra que, no começo de sua carreira como professor, sua timidez atrapalhou um pouco. “Se os alunos não batiam em mim, já estava bom”, brinca. Porém, ao caminhar pelo Câmpus do Vale, o professor se mostra uma pessoa muito popular entre os estudantes. Ele estava mostrando sua sala e uma aluna o parou para lhe dar uma carteira personalizada – com árvores, animais e sua imagem no meio da natureza. Depois, um longo abraço. “Até me caiu os butiá do bolso”, gargalha. O professor lembra a brincadeira de um amigo seu que diz que ele parece “tronco de árvore em uma enchente”, pois sempre vai interrompendo suas caminhadas para conversar com alunos e colegas.

Esse carinho todo que recebe pode estar atribuído a suas atitudes em sala de aula. “Abro mão do poder de professor, da minha autoridade, em favor de uma relação mais autêntica, mais aberta”, relata. Considera-se um homem do diálogo e conta que em uma de suas aulas surgiu uma discussão entre veganos e não veganos na qual interviu para que o consenso prevalecesse. “Eu já podia ter me aposentado, pois já tenho 35 anos de carreira, mas acredito que tenho mais uma missão aqui.” Sua relação de afeto com a comunidade acadêmica é notável. Caminhando pelo departamento de Botânica, faz questão de apresentar cada um que trabalha com ele: “Essa é a Camila, ela já foi minha aluna e agora é minha colega. Mas também é minha amiga”.

Hesita um pouco para falar de sua infância, um ato involuntário que demonstra um pouco a timidez em falar de si. “Fui muito amado pelos meus pais”, diz com nostalgia. Filho de pais adotivos – a mãe foi professora de ensino fundamental, e o, pai advogado –, conta que sempre teve uma ótima relação com eles. Ainda assim, foi à procura de seus pais biológicos. “Eu encontrei um monte de irmãos, tanto por parte do meu pai quanto por parte da minha mãe, e hoje eu convivo com meus irmãos biológicos e com minha irmã adotiva. Minha família se ampliou.”

Quando está fora da Universidade, é um ávido leitor. “Procuro estar muito atualizado com a realidade, mas sou um cara pouco virtual. Leio a imprensa tradicional, a imprensa escrita”, complementa. E, quando o assunto é meio ambiente, diz que consegue perceber uma preocupação maior das pessoas em relação à preservação, mas ainda assim levanta uma questão: “Eu tenho muita preocupação em viver no mundo urbano com essas tecnologias”.

O professor não se cansa de falar que se sente bem na UFRGS e sorri ao dizer que, nas férias, fica “meio desasado”. Ele reitera o quão importante é sua relação com a comunidade acadêmica para exercer sua profissão. Ainda, revela que sua vida pessoal está diretamente ligada à vida profissional e conta que certa vez estava concentrado e perdeu o último ônibus. “Trabalhei até umas 2h da manhã e depois dormi no chão da minha sala”, lembra. O professor é, ao mesmo tempo, um homem tímido que se torna professor e um menino que cresceu na capital e se tornou botânico. E sintetiza: “Sérgio Leite é um cara que está tentando se encontrar”.

Karoline Costa

Estudante de Jornalismo na UFRGS