Artigo | Mariana Fagundes, Gabriela Sampaio e Bianca Brochier, das Artes Cênicas e da Dança, defendem espaço acolhedor para que pessoas negras possam explorar a prática como exercício físico e como arte
*Ilustração: Fernando Rodrigues Siqueira Silva / Programa de Extensão Histórias e Práticas Artísticas, DAV-IA/UFRGS
Acreditamos que todo mundo já ouviu ou viu alguma imagem relacionada à Pole Dance, seja em séries ou filmes como o Striptease, em videoclipes de músicas como “Gimme more”, de Britney Spears, seja até mesmo em novelas brasileiras, como Duas Caras (2007) e Terra e Paixão (2023). Quem vê pela primeira vez se impressiona pela novidade e diferença de movimentos, e quem vivencia a prática percebe que há uma construção que tenta padronizar e homogeneizar os corpos que dançam com a barra na vertical.
É nesse sentido que as três pesquisadoras e autoras deste texto passam a questionar e tensionar os sentidos e significados, sobretudo dos corpos que podem ou não praticar pole dance. A cena porto-alegrense da atividade teve início em 2011, quando o primeiro estúdio abriu, o High Heels. Desde seu começo, Bianca Brochier já fazia parte, primeiro como aluna e depois como instrutora e, paralelamente, cursava Ciências Sociais na UFRGS. Foi durante a vivência de sala de aula que percebeu que queria construir um outro modo para a cena gaúcha, evidenciando o contexto histórico da origem dessa prática que vem das dançarinas de striptease. Sendo assim, abriu seu próprio estúdio, o Velvet Pole, em 2016.
Paredes decoradas com discursos que evidenciam que todos os corpos dançam, mais que isso, eroticamente. Saltos altos de, pelo menos, 17 cm expostos na parede, luzes neon criaram um espaço em que a comunidade queer se sente confortável. Ainda que existisse um posicionamento político construído na arquitetura, pessoas negras não sentiam que o Pole Dance também podia ser uma possibilidade de prática corporal. Não só no Velvet, como na cena do Brasil inteiro, em que é possível contar nos dedos das mãos quantas pessoas negras são referências no Pole.
Essa baixa representatividade de pessoas negras pode estar relacionada às representações de hipersexualização histórica dos corpos negros, tanto de mulheres – quem não lembra da Globeleza nos intervalos da TV aberta – quanto de homens. A sexualização do corpo negro funcionou, ao longo da história, como um mecanismo de desumanização, reduzindo a objetos de desejo e controle. Baseado no olhar branco de exotificação e animalização, a sexualidade e o erotismo de pessoas negras foram considerados descontrolados e perigosos.
O Brasil que arde nas cicatrizes da escravização reproduz e produz discursos que afastam e negam que mulheres e homens negras/os ocupem espaços majoritariamente brancos, como é o caso do Pole Dance. Aquelas/es que ousam afrontar e se inserir, frequentemente, enfrentam exclusão e/ou violências, como aconteceu com as outras duas pesquisadoras, Gabriela e Mariana.
Paradoxalmente, quando analisamos o contexto histórico do Pole Dance, percebemos que quem praticava no início eram as pessoas que tinham o sexo como trabalho e, consequentemente, eram pessoas entendidas como dissidentes. É quando Pole se torna um produto possível de ser vendido, que um processo de higienização também acontece, de modo a possibilitar a inserção de pessoas que possuíam o capital econômico e social, no caso, pessoas brancas, especialmente mulheres cisgênero que se constituem como a maioria das pole dancers.
Ao compreender o contexto brasileiro e histórico da prática, entendemos que era necessário criar um espaço negro de Pole Dance para a cena gaúcha. Inspirado nos projetos Perifa no Pole, de São Paulo (SP), e Poleferia, de Vila Velha (ES), com parceria do Coletivo AFROntosas e com o Velvet Pole, Mariana e Gabriela fundaram a Gira Corpo – Pole Dança. A proposta nasce do coração apertado das duas artistas negras que desejam construir e acolher pessoas negras em um espaço seguro, afrocentrado para que possam explorar a prática, como exercício físico e arte, um Pole Dance politizado e negro.
Gira Corpo carrega como símbolo uma Sankofa, um ideograma africano Adinkra do povo Akan, representado por um pássaro com a cabeça voltada para trás ou também pela forma de duas voltas justapostas, espelhadas, lembrando um coração. Representa a importância de voltar ao passado, aos nossos ancestrais, para adquirir conhecimento e sabedoria para construir um futuro melhor. As aulas são para pessoas negras e indígenas, acontecendo aos domingos, para que seja possível contemplar trabalhadoras/es da maioria das áreas, com valor social mensal. Atualmente, já contempla 10 pessoas e está com inscrições abertas para que mais pessoas façam parte em 2026.
Não só o Pole Dance como outras práticas ainda não são e não parecem buscar formas de inserir pessoas negras e indígenas, com diversas justificativas. A questão aqui é refletir e tensionar até quando corpos negros e indigenas serão, de forma sistemática, afastados e negados nos espaços – inclusive, daqueles que eram seus de início. Mais que isso, até quando o comportamento antirracista ficará restrito ao mundo online? Resistir é re-existir, construindo novas formas para que os nossos possam escolher e ser, na vida profissional, acadêmica e nas artes.
Mariana Ghignatti Fagundes ou AfroNana, seu nome artístico, é doutoranda e mestra em Ciências do Movimento Humano (UFRGS), licenciada e bacharela em Educação Física (UFRGS). Sua pesquisa acadêmica é voltada para a interseccionalidade de raça, periferia, gênero e sexualidade no Pole Dance e nos palcos, em contar a versão negra da história. Além disso, é fundadora da Gira Corpo – Pole Dança, integrante do Coletivo AFROntosas e membro do Grupo de Estudos sobre Relações de Gênero, Educação e Violência.
Gabriela Francisco Sampaio é artista da dança, mestra em Artes Cênicas (PPGAC/UFRGS), especialista em Tópicos Contemporâneos em Dança e licenciada em Dança, ambos pela pela Universidade Federal da Bahia. Integrou trabalhos com artistas como Carlinhos Brown, Larissa Luz e Baco Exu do Blues. Iniciou sua formação em dança no Centro de Formação Artística da Fundação Clóvis Salgado (CEFAR), em Belo Horizonte/MG, com experiências em ballet e dança contemporânea. É bailarina da Companhia Municipal de Dança de Porto Alegre, instrutora de pole dance no Velvet Pole Tease e fundadora da Gira Corpo – Pole Dança.
Bianca Brochier é artista da dança, graduada em Ciências Sociais pela UFRGS e mestranda em Artes Cênicas pela UFRGS. Participou do Grupo Experimental de Dança de Porto Alegre em 2013 e participou de festivais e campeonatos pelo Brasil como artista, curadora e jurada. Seu trabalho artístico passa pelos temas da sensualidade e erotismo. A busca é pela experimentação constante desses assuntos através do corpo em movimento, sendo a improvisação o principal fio condutor de suas criações. Atua como instrutora, facilitadora, diretora artística e de movimento nas áreas de pole dance, danças eróticas e performance.
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