Programa de Internacionalização tem grande potencial na projeção do ensino e da pesquisa internacionais

Internacionalização | Recentemente renovado para o biênio 2022/2023, Print-UFRGS envolve 1,2 mil professores e 10 mil alunos de pós-graduação da Universidade. Alunos que participaram do projeto e outros que ainda estão no exterior relatam suas experiências

*Foto: Kauane Bordin, Adriane Esquivel-Muelbert, Rodrigo Scarton Bergamin e
Estelle Darko em trabalho de campo no Birmingham Institute of Forest Research (Arquivo pessoal)

Considerado um projeto de grandes dimensões e sem precedentes na Capes e na Universidade, o Print–UFRGS foi concebido entre 2017 e 2018 e implementado a partir de 2019. Renovado em fevereiro para o biênio 2022-2023, o programa tem como objetivo institucionalizar a internacionalização da Universidade.

“Sim, havia [internacionalização da pós-graduação], mas era muito restrita a determinados grupos de pesquisa, dependendo da relação de cada professor com representantes de outros países. O Print veio para institucionalizar essa política e oportunizar a todas as áreas da Universidade a participação em especialização no exterior”, pondera o pró-reitor de Pós-graduação da UFRGS, Júlio Barcellos. Hoje há uma comunidade de aproximadamente 1,2 mil professores de pós-graduação e cerca de 10 mil alunos envolvidos na internacionalização da Universidade. Das 36 universidades brasileiras integrantes do Print, a UFRGS tem um dos maiores volumes em termos de orçamento e número de programas envolvidos. “Inicialmente a Capes disponibilizou R$ 40 milhões para o projeto. Ainda temos R$ 20 milhões para usar”, informa o pró-reitor. 

Em 2019, as missões, por exemplo, aconteceram em 137 países, entre eles a Inglaterra, onde a professora Rozane Rodrigues Rebechi realizou visita ao Departamento de Ciências da Computação da Sheffield University. “Agradeço às instituições pela oportunidade inesquecível de ter feito parte desse programa. Infelizmente, logo que retornei, no final de janeiro de 2020, foi declarado estado de pandemia de covid-19, e o programa precisou ser suspenso. Espero que outros pesquisadores possam se beneficiar dessa experiência única”, relata.

Rozane é professora no Instituto de Letras da UFRGS desde 2016. O objetivo da visita à Inglaterra foi acompanhar o uso e desenvolvimento de ferramentas de processamento de linguagem natural e sua aplicação nas tecnologias voltadas à tradução, área em que atua como docente e pesquisadora. Durante o período em que esteve no Centro de Ciências da Computação em Sheffield, trabalhou diretamente com o doutorando Felipe Soares, que desenvolvia uma pesquisa na Escola de Engenharia da UFRGS e na Sheffield University. “Trabalhamos em parceria para aperfeiçoar uma ferramenta de tradução automática a ser aplicada especialmente a textos da área da Biomedicina. Um dos resultados dessa parceria foi compartilhado no periódico Genomics & Informatics e apresentado em evento internacional no Japão. Além disso, pude participar de reuniões de grupos de pesquisa e entrevistar diversos professores do Centro”, relata Rozane.  

Com a pandemia, o Print foi afetado na sua fase inicial, mas mesmo assim obteve resultados consistentes na formação de recursos humanos, no desenvolvimento de teses e dissertações de impacto e na consolidação de um ambiente internacional na Universidade, contextualiza o pró-reitor. Com a renovação para os próximos dois anos e o arrefecimento da pandemia, Barcellos diz que a segunda fase deverá gerar oportunidades e resultados melhores no ensino e na pesquisa internacionais. De acordo com ele, a UFRGS busca a liderança na América Latina e o protagonismo na interação com instituições do exterior, sendo a pós-graduação uma das ferramentas para isso, porque contribui para a excelência da graduação.

Sheffield University, na Inglaterra, local visitado pela docente do Instituto de Letras Rozane Rebechi (Arquivo pessoal)
Experiência no exterior

Conforme Barcellos, o Print é abrangente e integra movimentos de pesquisa das áreas de sustentabilidade e cidades inteligentes, agronegócio sustentável e aquecimento global, temas alinhados aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) preconizados pela Organização das Nações Unidas. Além disso, o programa abrange tecnologia da informação e áreas da Engenharia, tornando a UFRGS um hub de inovação, ou seja, conectada com as tendências mundiais. “Muito por causa da covid-19, a inovação nas áreas de saúde e de tecnologia foram protagonistas”, acrescenta o pró-reitor de Pós-graduação. O programa também trouxe mais oportunidade para a consolidação de redes internacionais de pesquisa, a interação e o contato com outras realidades para o desenvolvimento do conhecimento.

Para Rozane, o mais importante foi a interação com outros cientistas, o que rende frutos na vida acadêmica para a professora até hoje. “A experiência com pesquisadores da área da Ciência da Computação me ajudou a aprimorar a pesquisa que desenvolvo na UFRGS desde 2016 e que gerou o Dicionário Gastronômico, agora transformado em um banco terminológico a ser utilizado como ferramenta de auxílio à tradução. Além disso, a relação com os cientistas da universidade parceira permite a troca de expertise e criação de projetos conjuntos”, conta.

Vinculada ao Laboratório de Ecologia Vegetal da UFRGS, Kauane Maiara Bordin realiza estágio-sanduíche, como parte do doutorado em Ecologia, por um período de seis meses, na University of Birmingham, também na Inglaterra. A doutoranda desenvolve trabalhos relacionados à ecologia de comunidades florestais para compreender como diferentes tipos e intensidades de distúrbio afetam o trade-off entre crescimento e mortalidade de árvores. “Este trade-off é entendido como uma das principais teorias em ecologia, de modo que, espera-se, em geral, que árvores que investem mais em crescimento tenham alta taxa de mortalidade. Isso é observado, inclusive, nas florestas como um todo, mas trabalhos recentes indicam que distúrbios tendem a alterar esse padrão”, explica.

Kauane reforça que o doutorado é um período de muita transformação na vida de uma cientista. São quatro anos dedicados à ciência, e ainda é possível realizar uma parte do estudo em outra universidade, no exterior, o que certamente torna mais importante a experiência. “Tenho muito a agradecer às minhas orientadoras, ao PPG em Ecologia e à Capes, instituição que financia meu estágio aqui na Inglaterra. Financiar a ciência e a educação sempre será investimento, e nunca apenas um gasto. Precisamos lutar cada vez mais pela manutenção desses investimentos, permitindo, assim, que muitos outros cientistas tenham a oportunidade que eu tive”, considera.

A pesquisadora também ressalta que a bagagem científica que construiu no Brasil foi fundamental para chegar à Inglaterra, assim como o conhecimento construído no exterior vai ser importante para a pesquisa brasileira.

“Aqui, tenho a oportunidade de participar de discussões científicas, aprimorar o inglês e aprender muito sobre análise de dados. Esses conhecimentos certamente serão divididos com meus colegas no Brasil, o que vai permitir que mais pessoas tenham acesso ao conhecimento”

Kauane Maiara Bordin

Kauane recebe bolsa mensal de £1.300,00 (aproximadamente R$ 8 mil), valor suficiente para sobreviver na cidade de Birmingham, segundo ela. “Evidentemente, o valor poderia ser reajustado, uma vez que nos últimos meses houve um aumento significativo dos preços, tanto na acomodação quanto na alimentação aqui na Inglaterra”, constata.

Professor de Engenharia da UFRGS desde 2009, Hugo Marcelo Veit realizou estágio de pós-doutorado por 12 meses na University of New South Wales, em Sydney (Austrália). Desse período, três meses foram presenciais; em janeiro de 2020, a Universidade fechou por causa da pandemia, e Hugo realizou o restante do período de forma remota. “O objetivo era desenvolver o projeto de pesquisa em conjunto com os pesquisadores da UNSW e, obviamente, criar novos vínculos acadêmicos para parcerias futuras. A maior experiência, em termos acadêmicos, foi conhecer uma universidade estrangeira com uma enorme estrutura voltada para pesquisa e desenvolvimento tecnológico”, diz o docente.

Rozane fez registro da St George’s Church, que fica em frente ao Computer Sciences Center (Arquivo pessoal)
Foco na saúde

Em estágio de pós-doutorado de seis meses na Inglaterra, entre janeiro e junho de 2021, a docente da Escola de Educação Física, Fisioterapia e Dança (Esefid) Aline Nogueira Haas estudou a Dance Science, um método que usa a dança para o acompanhamento de pessoas com Parkinson. “Pude aprender a utilizar equipamentos inovadores de captura 3D e desenvolver pesquisa inédita relacionada ao estudo do efeito da dança na execução do giro de 180 graus em pessoas com doença de Parkinson”, conta.

Segundo Aline, existem muitos instrumentos de avaliação do movimento humano em 3D. O XSens, utilizado por ela na Inglaterra, não está disponível na UFRGS. “No Laboratório de Pesquisa do Exercício da Esefid, temos os sistemas Vicon e BTS, que capturam o movimento de qualidade, mas utilizam câmaras fixas em uma sala de um laboratório. O Xsens é considerado um equipamento portátil”, explica. O sistema 3D grava e analisa o movimento, auxiliando na compreensão da doença. Esse tipo de sistema pode ser utilizado para a análise biomecânica do movimento, mas também para fins de animação e criação artística.

Já o giro de 180 graus é um tipo de ferramenta por meio da qual pessoas com doença de Parkinson que participaram da pesquisa realizaram um teste chamado Timed up and Go (TUG), em que utilizam uma roupa preta com os sensores wirelles do Xsens que captam os movimentos executados. Na realização do teste, eles fazem um giro de 180 graus. Assim, o movimento foi captado e posteriormente analisado. “Eu analisei o número de passos e o tempo total do giro antes e depois de três meses de aulas de dança, comparando o resultado com o de um grupo que não realizou dança”, ressalta Aline.

Algumas pessoas com Parkinson apresentam um sintoma chamado freezing, que é uma espécie de congelamento dos membros inferiores que, muitas vezes, as leva a cair. Aline explica que o freezing pode ocorrer em momentos em que elas giram e, por consequência, caem. Por isso é importante verificar se a dança auxilia na melhora da performance do movimento do giro, podendo evitar quedas em movimentos feitos no dia a dia, por exemplo.

Além disso, reforça a pesquisadora, o maior objetivo do estágio foi internacionalizar o Programa de Pós-graduação de Ciências do Movimento Humano (PPGCMH) da UFRGS, estabelecendo e consolidando parcerias com pesquisadores internacionais de referência da área da Dance Science. “Essas experiências e aprendizagens foram e são muito importantes para fortalecer minhas pesquisas junto ao PPGCMH e também junto ao grupo de pesquisa que coordeno, o Grupo de Estudos em Arte, Corpo e Educação”, destaca.

Processo de seleção e aprovação

Rozane lembra que realizou a seleção pelo Programa de Pós-graduação em Letras. “Não sei exatamente quantos projetos a coordenação de minha unidade recebeu para avaliar, mas como o período de inscrições era curto, e dependíamos de um convite advindo da universidade onde os estudos seriam realizados, acredito que muitos docentes que desejavam participar do processo podem não ter tido tempo hábil para entregar a documentação exigida.” Antes disso, como pesquisadora desde 2004, apresentou trabalhos em diversas partes do Brasil e do mundo. Em 2014, recebeu bolsa da Nida School of Translation Studies para acompanhar um curso de duas semanas na Universidade San Pellegrino, na Itália.

Para Kauane, fazer um estágio no exterior sempre foi um dos grandes objetivos que tinha enquanto doutoranda. “Quando fui selecionada, fiquei muito feliz, pois queria muito realizar esse desafio que é fazer ciência em um país completamente diferente, falando outra língua, com pesquisadores brilhantes e reconhecidos mundialmente. Quando fiz a seleção, em novembro de 2020, estávamos em meio à pandemia, com muitas incertezas diante do futuro.” Conforme a pesquisadora, não foi uma seleção concorrida – duas vagas, duas inscritas e selecionadas. “Mas isso não significa que o processo não tenha sido intenso e desafiador, pelo contrário. Felizmente, tive muito suporte das minhas orientadoras”, completa.

Kauane ainda recorda que o processo seletivo, desde a inscrição até a chegada e o desenvolvimento dos trabalhos, foi pautado pelo interesse em fazer ciência. “Os objetivos foram muito bem pensados e discutidos, envolvemos vários colaboradores no trabalho, e estamos realizando um estudo com potencial de ser de alto impacto. Particularmente, minhas maiores expectativas estavam em torno de me mudar para um novo país, falando unicamente em inglês e viver seis meses em uma rotina completamente diferente da que eu vivia no Brasil, com clima, alimentação e costumes diferentes”, narra. Segundo ela, todos esses ingredientes tornaram as expectativas e o desafio ainda maiores.

Mesmo com o impacto da pandemia na primeira fase, de acordo com dados da PROPG, a UFRGS mantém em torno de 150 alunos no exterior com recursos do Print, além de cerca de 70 professores. Além disso, cerca de 20 docentes estrangeiros atuam na Universidade com essa fonte de financiamento, contemplando praticamente todas as grandes áreas do conhecimento envolvidas no projeto.