Pró-reitoria de Ações Afirmativas e Equidade | 03.07.25

Espaço da Reitoria | Alan Alves Brito e Marcia Barbosa observam que a criação da Proafe simboliza a construção de uma universidade mais justa e eficiente

*Foto: Projeção mostra organograma da Pro-reitoria de Ações Afirmativas e Equidade durante sessão do Conselho Universitário que criou a PROAFE (Crédito: Flávio Dutra/Arquivo JU –09/05/2025)

Qual o papel da diversidade na sociedade do século XXI? A pergunta pode parecer uma provocação em um momento em que uma das maiores lideranças mundiais censura o tema em seu país e o financiamento internacional sobre a questão. Como cientistas, respondemos à pergunta com metodologia que apresentamos com quatro palavras estruturantes: evidência, eficiência, equidade e empatia.

Quais são as evidências? Apesar de existirem políticas promovendo a diversidade no ingresso nas universidades e na contratação do setor público, a diversidade está muito longe de ser uma realidade. Mulheres, negros e negras e pessoas lésbicas, gays e bissexuais já estão presentes no mercado de trabalho em um percentual semelhante ao da sua participação na sociedade, mas não em cargos de liderança. Mulheres compõem 18% do congresso, 36% como bolsistas de produtividade em pesquisa do CNPq e 17% como parte da Academia Brasileira de Ciências. Os percentuais de negros e negras em postos de destaque são ainda menores. No caso de indígenas, pessoas com deficiência e da população trans/travesti, a presença nas universidades ou no mercado de trabalho é um desafio.

Por que uma sociedade diversa tem mais eficiência? Obviamente, a busca pela diversidade não pode se limitar a uma visão termodinâmica de buscar um sistema que maximize a eficiência. Uma sociedade mais diversa é mais democrática e possibilita o pleno exercício da cidadania. Além desse aspecto do bem viver, estudos mostram que empresas mais diversas ganham mais dinheiro e que o ingresso de grupos sub-representados gera mais inovação disruptiva.

Políticas de ações afirmativas existem na UFRGS desde 2007 e no conjunto das universidades brasileiras desde o início dos anos 2000. Apesar de grandes avanços em algumas áreas com a formação de uma nova geração de mulheres, negros e negras entre as lideranças políticas, há áreas em que ainda avançamos muito pouco. Só para dar um exemplo, a participação de mulheres na pós-graduação de exatas (incluindo informática) vem diminuindo e, de maneira global, o sistema de pós-graduação brasileiro é composto majoritariamente por pessoas brancas.

Se, por um lado, é fácil trazer mais autores negros e negras e autoras mulheres para compor a formação acadêmica e fomentar a representatividade, há temas das exatas e tecnológicas em que isso é um grande desafio. De forma similar, é mais fácil adaptar a dinâmica da progressão na carreira à maternidade em áreas nas quais as mulheres estão mais presentes, como a enfermagem, do que em outras em que estão ausentes, como a física.

Para impulsionar a diversidade, urge estabelecermos uma política de equidade que tenha a função de compensar as ausências curriculares ou as dificuldades intrínsecas de cada grupo com medidas compensatórias.

A criação da Pró-reitoria de Ações Afirmativas e Equidade tem esse papel. Ela não simplesmente irá acompanhar os processos de ingresso e permanência de discentes, técnicos em educação e docentes, mas terá esse olhar sobre a UFRGS e sobre o modo como podemos transformar a própria Universidade nos seus papéis de ensino, pesquisa, extensão e gestão, para incorporar a riqueza cultural dos grupos sujeitos das políticas públicas de ações afirmativas e equidade: pretas e pardas; indígenas; quilombolas; pessoas com deficiência; travestis e transexuais; refugiadas ou com visto humanitário; migrantes em condições de vulnerabilidade social.

Além das evidências de que uma sociedade mais diversa tem mais eficiência e que esse processo só é atingido com a equidade, é necessário criar um ambiente de empatia mobilizadora. Somente com empatia seremos capazes de perceber o privilégio que perpassa as desigualdades históricas e entender que alguns e algumas teremos que abrir mão dele para garantir uma UFRGS mais justa e eficiente.


Marcia Barbosa é reitora da UFRGS.
Alan Alves Brito é futuro pró-reitor de Ações Afirmativas da UFRGS.