Artigo | Bruno Xavier Silveira, doutorando em Geografia, reflete sobre experiências escolares e como isso se relaciona com as formas como jovens populares vivem e elaboram as suas espacialidades
*Por Bruno Xavier Silveira
*Ilustração: Katherine Avila/ Programa de Extensão Histórias e Práticas Artísticas, DAV-IA/UFRGS
Neste ano de 2023, ingressei no doutorado em Geografia, a fim de investigar as relações entre juventude, cidade, questões raciais e escola. Sou professor na Escola Municipal de Ensino Fundamental Nossa Senhora de Fátima, no Bairro Bom Jesus, em Porto Alegre, onde, junto com os estudantes, criamos um projeto de educação das relações étnico-raciais chamado QuilomBonja e dialogamos sobre território, identidades, cidade e juventudes. A iniciativa faz ensino com pesquisa no bairro. Desde o retorno ao trabalho presencial, em meio à pandemia, a quantidade de jovens que observo no bairro, principalmente jovens negros, tem me causado questionamentos por sua presença no território e progressiva ausência nas salas de aula.
Tal questão ecoa nestas linhas como síntese provisória que busca entender experiências e apropriações que os jovens fazem no espaço urbano, a fim de compreender as práticas de espaço desses jovens e como as representam. Parto da espacialidade para implicar a ciência geográfica com o engajamento na pesquisa com as juventudes. Meu olhar se dá em diálogo com a Educação das Relações Étnico-Raciais (Erer), problematizando a interação dos diferentes cidadãos com seus pertencimentos étnico-raciais no espaço urbano, para que se eduquem quanto à pluralidade étnico-racial do direito à cidade e à sociabilidade. Observando as espacialidades dos jovens em Porto Alegre, precisamos entender que essa é a capital em que a desigualdade entre negros e brancos é a mais acentuada do país, condição que interfere na sociabilidade dos jovens e em suas formas de se apropriarem do espaço e representarem a cidade.
Tratadas a sociabilidade como necessária à condição cidadã das juventudes, entendo que, ao pesquisar suas práticas espaciais, conforme Dori. Massey, é que se pode conectar as possibilidades de um acontecer solidário, a constituição das identidades e o suporte humano do fazer político, vistos como instrumentos de cidadania dos jovens. Na esteira dessas reflexões, pretendo realizar uma pesquisa que visibilize as existências das juventudes em Porto Alegre, sobretudo dos jovens da Bonja.
Dialogo com Nécio Turra-Neto, que denomina como não hegemônicos os jovens pobres, negros, periféricos e da comunidade lgbtqiapn+, por se tratarem de jovens que, na sua trajetória, não se tornaram centrais na construção das juventudes. Foram postos à margem social, geográfica e epistemológica da produção do conhecimento. Optei por referenciá-los como jovens populares, tendo em vista como seus corpos são historicamente marcados em suas experiências de espaço e socialização. E em se tratando dos jovens negros, a margem se dá como destituição do estatuto ontológico de sua humanidade.
São também esses jovens os sujeitos ocupantes dos bancos das escolas públicas, quando não delas expulsos, explorados por um sistema de ensino neoliberal e “desconfiados” pelas políticas públicas, gerando o desafio de pensá-los pela ótica da Erer, pois “desde dentro” possuem uma concretude que não se deixa imobilizar por concepções liberais colonizadas. Daí que trago o “popular” para qualificar essas juventudes, pois dialogo com Guerreiro Ramos para compreender a atualidade da racialidade inscrita nos seus usos e representações de espaço.
Para construir essa pesquisa, considero trabalhar com etnogeografia, a partir de Elvis Chirstian Madureira Ramos, por se tratar de um método que faz o pesquisador se aproximar do grupo pesquisado para conhecer suas práticas, os saberes-fazeres cotidianos, as relações com o meio e suas representações.
Pensar as questões raciais me move ao entendimento de que todos os seres humanos possuem o mesmo valor ontológico, por isso construir junto com os sujeitos um caminho dialógico na apreensão das diversidades dos jovens, gerando contrastes e generalizações dos percursos individuais e da experiência coletiva comum parece uma atitude ética.
Nesta ocasião, reflito com a professora Petronilha Beatriz Gonçalves e Silva, que nos orienta sobre o fazer pesquisa em relações étnico-raciais enquanto um ato de exigência ao engajamento ético. A prática de pesquisa com as juventudes populares pode revelar uma espécie de forja, pois no momento em que esses grupos têm sido fruto de estigmas e estereótipos coloniais que abreviam suas vidas, forjar na escuta atenta e na participação das pessoas significa elaborar um processo de pesquisa ontológico e popular, já que a produção do conhecimento não precisa reproduzir perspectivas que se alimentem da lógica sujeito-objeto.
Por meio da espacialidade, as análises geográficas são enriquecidas e podem desvendar a natureza da condição dos sujeitos na cidade e, por consequência, a posição que indivíduos e grupos ocupam na sociedade. Simultaneamente, pesquisar em Erer oferece uma perspectiva que permite enxergar a cidade a partir de novos arranjos e sociabilidades que se combinam na multiplicidade de trajetórias produzidas pelos jovens. Uma vez que a dimensão espacial dos fenômenos é condição do geográfico: (a) considerá-la na educação escolar atualiza nosso projeto com as juventudes; e (b) entender o conjunto das experiências espaciais dos jovens populares nos diz sobre a cidade que vivemos, por isso importa a existência dos jovens do bairro Bom Jesus.
Por ora, essas são ideias iniciais sobre uma investigação ainda a ser realizada. Elas nascem a partir de minha prática no Projeto QuilomBonja, ilustrada pelo estudante-pesquisador Ygor Felisberto, ao dizer “pensei um jovem igual a mim, com um mundo para conquistar e cheio de sonhos para realizar”. A mensagem que fica, interpela: “O que pode o jovem popular?” Para mim, primeiramente, precisamos garantir sua existência.

Bruno Xavier Silveira é professor de Geografia na Rede de Educação Básica da Prefeitura Municipal de Porto Alegre e doutorando no PPG em Geografia (UFRGS).
“As manifestações expressas neste veículo não representam obrigatoriamente o posicionamento da UFRGS como um todo.”





