Esporte | Apesar de raros, óbitos em corridas de rua levantam discussões sobre a regulamentação desses eventos e a importância de exames preventivos
*Foto: Pietro Scopel/JU
Desde o dia 1.º de setembro, Porto Alegre é a capital da corrida de rua. Junto com a aprovação do projeto de lei dos vereadores Marcos Felipi (Cidadania) e Gilson Padeiro (PSDB) e da sanção do prefeito Sebastião Melo (MDB), abre-se o debate acerca dos riscos que envolvem correr longas distâncias sem o devido acompanhamento médico. Participar de uma meia maratona, que possui um percurso de 21km, equivale a ir do Aeroporto Salgado Filho, na saída da cidade, até a praia Espírito Santo, na zona sul, a pé. O trajeto em ritmo de caminhada, segundo o Google Maps, duraria cerca de 5 horas.
Foi executando essa quilometragem que o estudante João Gabriel de Lamare, de 20 anos, sofreu uma parada cardiorrespiratória e faleceu na 40.ª Maratona Internacional de Porto Alegre, em junho. O regulamento da maratona orienta rigorosa avaliação prévia e recomenda aos atletas a realização de exames, mas não os obriga a preencherem requisitos técnicos e diz não se responsabilizar pela saúde física dos competidores. Os ingressos para participar da atividade, entretanto, variam de R$215 a R$550.
Professora do departamento de Direito Público e Filosofia do Direito da UFRGS, Nicole Rinaldi explica que, havendo ou não cobrança de valores por parte do fornecedor do serviço, há relação de consumo. “Quando há relação de consumo, há responsabilidade objetiva. Por exemplo, a pessoa está numa corrida de rua e não tem sinalização adequada ou a ambulância não chegou a tempo. Aqui pode haver, de fato, uma falha na prestação de serviço. Agora, vamos imaginar assim: o corredor participa do evento, entende que está em condições e passa mal. Nesse caso, há uma dificuldade maior de fazer um nexo causal entre o acidente e a entidade responsável pela competição”, pondera.
A Maratona Internacional de São Paulo e a Maratona do Rio também não exigem dos corredores a apresentação de comprovantes médicos, apenas indicam a importância de estar com exames e consultas em dia. Mas essa prática não é uma regra em todo lugar: no Uruguai, por exemplo, o artigo 8 do Decreto 312/021 tornou lei a entrega de documentos que certifiquem a aptidão física dos participantes de corridas de rua, independentemente da distância a ser percorrida. Por isso, o pós-doutorando do Laboratório de Pesquisa do Exercício da Escola de Educação Física, Fisioterapia e Dança (Esefid) e atleta de triatlon Rodrigo Quevedo precisou levar um atestado para a Maratona Internacional de Punta del Este, que ocorreu no dia 7 de setembro.
“Sou a favor de que as pessoas estejam em dia com seus exames médicos e clínicos, mas para isso tem que pagar, ter um plano de saúde ou entrar na fila do SUS”, comenta o pesquisador. Para ele, apenas uma liberação médica não é suficiente para impedir fatalidades, pois a medição da pressão arterial e da frequência cardíaca não revelam todos os problemas de saúde.
Atualmente, Quevedo treina 106 corredores em uma empresa que assessora pessoas de forma especializada e individualizada para que aprimorem sua corrida e tenham qualidade de vida. “Temos orientado os atletas de maneira contundente a realizarem exames”, garante.
Uma proposta que prevê a exigência de atestado em corridas de rua com mais de 3km está em discussão nas comissões da Câmara Municipal de Porto Alegre. De acordo com o vereador proponente, Moisés Barboza (PSDB), a intenção é padronizar o método de inscrição e ampliar a conscientização sobre casos de pessoas que possuem comorbidades cardíacas sem saber.


Riscos não devem ser entraves à prática de exercício físico
A quilometragem oficial de uma maratona, por sua vez, é de 42.195km, o dobro da meia maratona. Em geral, quem participa dessas provas são atletas bem preparados, com acesso ao acompanhamento de profissionais da Nutrição, Fisioterapia, Medicina, Psicologia e Educação Física. Isso porque ser maratonista equivale, aproximadamente, a caminhar da praia Espírito Santo, na Zona Sul de Porto Alegre, até o zoológico de Sapucaia do Sul, na região metropolitana – um percurso que levaria 9 horas e 42 minutos, se realizado em baixa velocidade.
Um estudo do The Race Associated Cardiac Event Registry, publicado neste ano, indicou que para cada 100.000 corredores estadunidenses que completam os 42.195 m, um terá parada cardíaca. A chance de que o evento produza morte, contudo, diminuiu significativamente da primeira para a segunda década dos anos 2000: foi de 71% para 34%. É um sinal de que as corridas de rua estão mais bem planejadas para lidar com situações adversas, mas ainda é difícil identificar previamente pessoas em risco.
“Só vai haver evento cardíaco se [o corredor] tiver alguma doença estrutural ou não estrutural do coração. Se não houver esse tipo de situação, a maratona não vai ser um gatilho para que essas doenças se manifestem, como uma parada cardíaca ou morte súbita”, esclarece Ricardo Stein, coordenador do setor de Reabilitação Cardíaca do Hospital de Clínicas e diretor científico do Departamento de Ergometria, Exercício e Reabilitação da Sociedade Brasileira de Cardiologia.
Conforme o médico, o exercício físico é tratamento para diversas doenças. Por isso, realizar avaliações pré-participação em maratonas evita o temor de se movimentar e ajuda a encontrar alguma complicação que, naquele momento, possa contraindicar a corrida.
É nessa perspectiva que o Grupo de Corrida Locomotion, atividade de extensão da Esefid, demanda liberação médica e eletrocardiograma de todos os interessados em participar dos treinos. Hoje, 25 adultos compõem o projeto e três deles são maratonistas. “Pedimos [eletrocardiograma] não só para nossa segurança, mas para a segurança deles. [O exame] também vai nos dar a frequência cardíaca durante a velocidade, que já é um parâmetro para adequarmos o treinamento individualizado”, explica o integrante do Grupo de Pesquisa da Mecânica e Energética da Locomoção Humana e um dos coordenadores da iniciativa, Alex Fagundes.
Seguros de que podem correr, a turma do Locomotion encontrou saúde física e mental na corrida, além de se tornarem amigos. “Eu tenho crise de ansiedade. Troquei de psiquiatra, troquei de medicação e não melhorava. Melhorei só depois que eu entrei no grupo”, conta o advogado Pablo Scherer, de 46 anos.
Fora a avaliação cardiológica prévia e o atestado médico, os alunos realizam, pelo menos duas vezes ao ano, novos testes no Laboratório de Biodinâmica da Esefid.
O que dizem as entidades organizadoras?
Questionada sobre a responsabilidade dos eventos pelas condições físicas dos competidores, a Associação dos Organizadores de Corrida de Rua e Esportes Outdoor (Abraceo) comentou, em nota, que iniciou neste ano o acompanhamento dos óbitos ocorridos em corridas de rua no país. A entidade destaca que, até o momento, foram registrados 12 casos, sendo quatro deles em maratonas realizadas em São Paulo, Amazonas, Paraíba e Rio Grande do Sul, considerando-se aproximadamente 2.000 eventos de corrida de rua realizados no primeiro semestre de 2025.
A Abraceo também destaca o projeto Corrida Segura, que está em andamento e vem sendo realizado em parceria entre organizadores de corridas de rua, Confederação Brasileira de Atletismo (CBAt) e profissionais da área médica. O objetivo é estruturar um modelo consistente, que possa ser implementado em breve, incentivando a realização periódica de exames cardiológicos e promovendo maior segurança para os atletas, afirma a associação.
A entidade pondera, ainda, que a exigência de documentos, como atestados médicos, pode representar uma barreira à participação, principalmente para corredores que dependem do sistema público de saúde, em que o acesso a consultas e exames não é imediato. “O Projeto Corrida Segura busca, justamente, criar um modelo estruturado que incentive a realização periódica de exames cardiológicos sem comprometer a inclusão e a participação dos atletas”, finaliza a nota.
A Confederação Brasileira de Atletismo, por sua vez, disse não fiscalizar nem regular esse tipo de evento, pois sua incumbência está atrelada ao movimento olímpico e ao governo federal. O Clube dos Corredores de Porto Alegre (Corpa), responsável pela Maratona Internacional de Porto Alegre, a Yescom, organizadora da Maratona Internacional de São Paulo, e a Maratona do Rio não responderam até o fechamento da matéria.







