Redescobrindo a Bonja

Professor Bruno Xavier Silveira com os alunos integrantes do Quilombonja (Foto: Gustavo Diehl/ Secom)
Educação | Projeto Quilombonja leva estudantes que moram no bairro Bom Jesus a pesquisarem origens e questionarem as visões negativas construídas sobre a região

A Escola Municipal de Ensino Fundamental Nossa Senhora de Fátima fica na vila de mesmo nome, no bairro Bom Jesus. Sua localização exata é a rua A – uma via estreita e longa, em um cenário típico das regiões periféricas de Porto Alegre –, que conta com pequenos estabelecimentos comerciais e se liga a outras ruas semelhantes, muitas com nome genérico, com trechos sem asfalto e casas humildes. Nos horários de aula, crianças e adolescentes vão até a escola, subindo ou descendo a lomba em que fica a instituição e disputando espaço na rua com os carros quando o caminho pela estreita calçada é interrompido por um poste ou outro obstáculo.

A Bonja, como é conhecido o bairro, não goza de grande prestígio na cidade. Geralmente ligado à pobreza e violência, o nome da Bom Jesus aparece com maior frequência nas páginas policiais do que em qualquer outra editoria, apesar de guardar tantas histórias de vida interessantes e riqueza cultural quanto qualquer outro lugar da cidade.

Lecionando na EMEF Nossa Senhora de Fátima desde 2015, o professor de geografia Bruno Xavier Silveira observou que a situação poderia servir como ferramenta de ensino e ao mesmo tempo de valorização do sentimento de pertencimento dos seus alunos à região em que moram. Em 2017, começa a tomar forma o projeto que recebeu o nome de Quilombonja, que trata das relações étnico-raciais da cidade a partir da formação da Bom Jesus e transforma o jeito como os alunos se relacionam com o lugar.

“A formação do bairro Bom Jesus está ligada com a desagregação dos territórios negros do centro de Porto Alegre. As pessoas foram colocadas aqui no que era então o Mato Sampaio e desde aquela época o que hoje é a Bom Jesus tem tido representações negativas na cidade. Entendo que essas representações afetam muito a identidade dos alunos, a forma como se entendem no mundo.”

Bruno Xavier Silveira

O professor ressalta que a primeira questão trazida pelos alunos foi o racismo. “Como sou professor de geografia, pensei que dentro dessa questão poderíamos trabalhar como o bairro Bom Jesus é visto na cidade. Se formos olhar, a localização ainda é central, e bairros centrais de maioria de pessoas empobrecidas são muito disputados pela especulação imobiliária. Então, discutimos a quem serve essas representações negativas da Bonja. Aqui a gente fala de identidade, de território, da inserção dessa gurizada no espaço urbano. Quando discutimos estas questões e a educação das relações étnico-raciais, estamos fortalecendo uma leitura antirracista do território e das pessoas que nele vivem.”

Bruno sublinha que a iniciativa também é uma forma de cumprir o disposto no artigo 26-A da Lei de Diretrizes Básicas da educação brasileira. “O Quilombonja se orienta nessa lei, que inclui história e cultura africana, afro-brasileira e indígena no currículo escolar, e o grupo faz essa leitura a partir de como a sociedade brasileira se relaciona o com território nacional a partir da Bom Jesus”, destaca.

Professor Bruno
(Foto: Gustavo Diehl/ Secom)

A estudante Taissa Elisângela Gomes, de 14 anos, participa desde 2017 do Quilombonja e aponta que o trabalho é importante para que os estudantes possam aprender sobre o bairro, mas também para que possam se sentir protagonistas e contar a própria história, e não serem apenas objeto de observação e preconceito de outros. “O grupo ajudou a gente a descobrir quem nós somos de verdade, não na questão do que a gente gosta, prefere, mas do que queremos debater, do que queremos ser – e não do que os outros querem que a gente seja. Antes a gente pensava, mas tinha medo de expor os pensamentos. A gente não tinha voz e agora tem voz própria. Porque era uma história da Bom Jesus dita de fora, mas era uma história que tinha várias histórias escondidas dentro dela.”

A partir das discussões sobre o lugar de moradia, também surgem reflexões dos alunos sobre sua posição em outras questões. A consciência sobre o pertencimento reflete também na visão sobre si mesmo, atesta a estudante Dhayana da Rosa Severo, de 12 anos.

Irmã de um ex-participante do Quilombonja e integrante recente do grupo, ela conta que teve interesse em participar ao notar que a desvalorização de traços físicos de negros, grande parte da comunidade da região, também estava em discussão. “O interessante é que o projeto trabalha bastante com o preconceito de ser negra na sociedade. Me ajudou a me aceitar do jeito que sou; se o meu cabelo é afro, sou bonita assim”, conta.

Taissa lembra que também na relação com os colegas houve mudanças. “Desde que o grupo se constituiu, a gente trouxe bastante essa questão da atuação das mulheres negras no nosso território. E os meninos perguntavam: ‘Mas por que só as mulheres?’, ao quererem falar que homens também sofrem com machismo. Mas não brigavam, queriam debater e começaram a entender. Hoje mudou bastante. A gente foi entrevistar mulheres empoderadas, e isso ajudou bastante porque antes as gurias se sentiam diminuídas, sem voz’’, conclui.

Para saber mais – A experiência do grupo já virou trabalho de dissertação, tendo participado da primeira edição do curso de extensão Educação das relações étnico-raciais e territórios negros em Porto Alegre: diálogos afrocentrados. O grupo tem uma página no Facebook e prepara um canal no Youtube.

Emerson Trindade Acosta

Estudante de Jornalismo da UFRGS