Espaço da Reitoria | Francisco Marshall, diretor do Instituto Latino-Americano de Estudos Avançados (ILEA), reflete sobre liberdade e mobilização coletiva
*Foto: Gustavo Diehl/Secom
Há duas palavras essenciais para fundamentar o regime que chamamos democracia. Primeiramente, os gregos o chamaram isonomia, a partir de 508 a.C., declarando com isso a potência de um princípio de equalização social por meio jurídico e político. Os atenienses lutaram muito para consolidar e expandir esse regime ao longo do século V a.C., época de ouro da cultura grega. Por volta de 440 a.C., o historiador Heródoto (485-425 a.C.) simulou um debate em que persas sublevados escolhiam seu regime político após uma revolução. Diante de defensores da oligarquia (poder de poucos) e da monarquia (poder de um só), o general democrata Otanes então pronuncia a célebre frase: “Isonomia, a mais doce palavra!”.
A doce palavra isonomia significa que o regime da liberdade e da igualdade produz um estado de graça, a qualidade de vida com dignidade e felicidade, em uma comunidade valorizada e animada por sonhos e ambições possíveis. É notável que no texto do pai da História (diálogo dos três persas, Heródoto, Histórias, livro III, 80-82) o regime monárquico seja atacado por promover violência sexual, como parte dos abusos de quem tem meios para fazer o que quer sem se preocupar com o outro; a isonomia é o oposto disso, também no respeito à intimidade e à integridade sexual.
Depois de muito tempo, após 424 a.C., os atenienses começaram a usar a palavra democracia, que descreve outro aspecto daquele regime revolucionário: sua fonte, a soberania popular. Se a isonomia fala de igualdade, democracia aponta para a legitimidade. É com a democracia que se constrói uma comunidade emancipada e coesa, soberana e autora de seu destino. A democracia requer, portanto, o tipo de sujeitos que a Universidade mais almeja, no câmpus e na vida social: indivíduos com o senso de coletividade, sujeitos livres, responsáveis e aptos a criar o futuro com o melhor de suas possibilidades.
É certo que os atenienses possuíam cacoetes que abominamos, como a misoginia e o escravismo, em um regime imperialista. Paradoxalmente, o regime que inventaram, isonomia com democracia, é também o melhor meio para enfrentarmos os horrores do passado com lucidez e coragem. Ou seja, podemos aproveitar o que havia de virtuoso naquele mundo político sem sucumbir aos seus problemas, porque o que animava a pólis e também pode nos inspirar é o desejo de liberdade e a mobilização coletiva para defender e promover a qualidade de vida da comunidade.
A UFRGS ora entra em nova era, liderada pela profa. Márcia Barbosa e pelo prof. Pedro Costa, bradando com entusiasmo, orgulho e afeto a palavra democracia. Eis agora nossa chance de reconstruímos o valor daquela palavra tão doce, isonomia, com o respeito e o valor da soberania popular, conquistada com o exercício da paridade. Mas há muito mais. O que queremos com a liberdade, para onde iremos com nossas potências reconhecidas? Eis o ponto em que isonomia e democracia nos acordam para prazeres quase aniquilados na era recente, para uma festa celebrada conjuntamente, em vias que se abrem, em alívios e sorrisos, e nos desejos de enfrentarmos os desafios de nosso planeta doente e de nossa sociedade carente e iníqua, animados pelo fogo da paixão pelo conhecimento, pela coragem de abrir novos caminhos, em um mundo que se abre à nossa frente movido pelo valor democrático dos três tês de que fala nossa reitora: talento, trabalho e tesão! E vivamos com espírito livre e desbravador este belo ciclo de nossa Universidade sob o signo da democracia, avante e além!
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