Sistema educacional LMD no Togo

Artigo | Ayawovi Djidjogbe Fanho e Omar Ouro-Salim refletem sobre os obstáculos encontrados na implementação, no país da África Ocidental, de sistema imposto por países desenvolvidos e estranho à realidade africana

*Por: Ayawovi Djidjogbe Fanho e Omar Ouro-Salim
*Foto: Vic Macedo

O Togo é um pequeno país da África Ocidental com 8,3 milhões de habitantes (CIA, 2021), limitado ao norte por Burkina-Faso, ao sul pelo Oceano Atlântico, a leste pelo Benin e a oeste por Gana. País de língua francesa, o Togo possui um sistema educativo muito precário. Caracteriza-se por uma crescente falta de professores e por materiais didáticos inadequados para instalar um programa de nível global. O Togo tem duas universidades públicas, a de Lomé, criada em 1970, e a Kara, criada em 2004.

O sistema educativo no nível superior foi obrigado pelos países desenvolvidos a transitar de um sistema educacional tradicional para um novo sistema inovador denominado LMD (Licença, Mestrado e Doutorado). Para esse sistema, o desempenho e o bem-estar de professores e alunos são considerados uma necessidade. Para isso, o LMD foi adotado pelas autoridades togolesas em 2009 (OMAR OURO-SALIM, 2018). Nesse contexto, Zineddine Berrouche (2009) afirma que “desde 2005, o sistema LMD tornou-se uma realidade concreta em um panorama do ensino superior nos países africanos […]. O número de instituições acadêmicas que adotaram o sistema LMD aumentou consideravelmente no continente”.

O sistema LMD foi aceito em 2006 pelas instituições acadêmicas africanas reconhecidas internacionalmente, denominadas, respectivamente, CAMES (Conselho Africano e Malgaxe para o Ensino Superior) e RESAO (Rede para Excelência no Ensino Superior na África Ocidental). Destarte, o sistema LMD incorpora nova era acadêmica cuja principal diretriz é a criação de redes que reúnem universidades com os mesmos objectivos e a formação de alunos competentes para o mercado de trabalho. Nesse contexto, as universidades do Togo foram condenadas a cumprir os requisitos que lhes são impostos no âmbito da inovação universitária que contém o sistema LMD (OMAR OURO-SALIM, 2018).

O sistema LMD é baseado em um padrão que exige uma mudança radical em todos os níveis educacionais, tanto em termos de conteúdo como também em termos de procedimentos de ensino ou avaliação do aluno. O LMD baseia-se no profissionalismo para cumprir as obrigações do mercado de trabalho e permitir uma melhor relação entre a pesquisa e a formação (OMAR OURO-SALIM, 2018).

As universidades togolesas têm conhecimento dos requisitos e padrões estabelecidos que devem ser cumpridos no âmbito desse sistema. No entanto, as autoridades togolesas não estavam realmente prontas para acolher o sistema, pois foi imposto à força ao sistema educacional togolês, considerado tradicional – sob pena, em caso de recusa, de não receber auxílio educacional dos países desenvolvidos.

As primeiras dificuldades encontradas pelas autoridades do país foram: falta de professores (a maioria tem mais de 40 anos e foi formada num sistema de ensino tradicional diferente do sistema LMD, o que tem um impacto considerável na sua forma de ensinar e acompanhar os alunos na sua formação), falta de infraestrutura adequada (salas de aula para alunos e laboratórios para pesquisadores e professores) e problemas relacionados à gestão do número de alunos, que só aumenta a cada ano. Todas essas barreiras agem negativamente no desempenho dos aprendizes no sistema LMD no Togo (OMAR OURO-SALIM, 2018).

Entretanto, o sistema LMD foi baseado em fatores como trabalho em equipe e promoção da excelência, o que permite a harmonização dos ensinamentos e o domínio das disciplinas pelos alunos. Esse sistema causou várias mudanças e convulsões no sistema educacional do Togo. É um sistema que nasceu no Ocidente e foi imposto, como sublinhado acima, aos países africanos; no entanto, não está adaptado à realidade africana (OMAR OURO-SALIM, 2018). Estamos, portanto, cientes da eficácia e da evidência que este sistema tem mostrado nos países que dispõem dos meios para a sua aplicação, mas também estamos convencidos de que leva tempo para aceitar esse programa que exige tanto esforço para uma mudança real em todos os níveis do sistema educacional.

Enfim, as autoridades dos países africanos devem estudar esse sistema em profundidade e ter uma ideia precisa e concisa da sua gestão, tendo em conta a falta de meios em vários dos nossos países africanos, como é o caso do Togo. Os relatos dos países desenvolvidos sobre os resultados do sistema LMD são impressionantes, mas a experiência do sistema em nossos países africanos nos obriga a fazer uma profunda reflexão sobre a sua adaptação à realidade africana (OMAR OURO-SALIM, 2018).


Ayawovi Djidjogbe Fanho é aluno de mestrado do Programa de Pós-graduação em Desenvolvimento Rural da UFRGS.
Omar Ouro-Salim é doutorando em Administração na Universidade de Brasília (UnB).


“As manifestações expressas neste veículo não representam obrigatoriamente o posicionamento da UFRGS como um todo.”

Especial África

As imagens desta edição foram feitas por Vic Macedo. A partir de um capítulo trágico da história do continente africano, Vic aborda os atos de suicídios dos cativos durante o período do tráfico negreiro— não como sinal de fraqueza, mas como ato de insubmissão e resistência ao trabalho escravo.

Vitória Macedo (Porto Alegre, 1994) é artista visual e graduada em Fotografia pela Unisinos. Clique aqui e confira o ensaio completo que ilustra o Especial África do JU.