Equipe
Carmem Zeli de Vargas Gil [1] (Coordenadora da Ação de Extensão)
Almerinda Gambin [2]
Christiane Kammsetzer [3]
Débora Wobeto [4]
Lourenço Stefanello Teixeira [5]
Maria Amélia Medeiros Mano [6]
Naiara Rotta Assunção [7]
Renata Soares Costa [8]
Resumo
O projeto originou-se de uma ação realizada por alunos do Curso de História da UFRGS, na disciplina de Estágio de Docência III – Educação Patrimonial junto a Unidade de Saúde Santíssima Trindade – GHC. Aos poucos, os acadêmicos entraram em contato com a complexa situação das famílias que estão sendo removidas e perdem os vínculos com o lugar de origem. Em 2011, a ideia se transforma em Projeto de Extensão e, em 2012-2013 recebe recursos através do Edital Proext consolidando ações que envolvem rodas de memórias, entrevistas e oficinas de fotografia e cinema. Trata-se de estratégias que propiciam a construção de memórias coletivas compartilhando experiências e resinificando o processo de remoção e de reassentamento. O projeto resultou na publicação de dois livros, além de oito apresentações em eventos científicos e um artigo publicado em livro no ano de 2012. Em 2013 a equipe já participou de 4 eventos científicos e, em 2014, o projeto continua com recursos já aprovados pelo Edital do Proext 2014.
O Contexto e os desdobramentos
A Vila Dique se configura como uma área de ocupação localizada próxima ao Aeroporto Internacional Salgado Filho, em Porto Alegre. Há mais de 40 anos, famílias oriundas do interior do Rio Grande do Sul, de característica rural, começaram a povoar a vila trazendo hábitos rurais, como relações mais próximas de vizinhança e solidariedade, distantes da urbanidade, às vezes, mais solitária. Desde 2009, cerca de 3000 pessoas estão sendo removidas para o Conjunto Habitacional Porto Novo, zona norte da capital. Atualmente, mais de 70% das famílias já foram reassentadas.
A primeira e a segunda edição do projeto (2011-2012) possibilitaram conhecer mais dessa população. Ao passar na Avenida Dique nem se sonhava que no meio do barro, da escuridão dos becos, do cheiro do valo, existia bordado, desenho, costura, ternura. O que vemos é tão somente o limite do que os nossos olhos conseguem alcançar diante de tantos enganos, distorções e preconceitos.
A terceira edição é um desdobramento das anteriores quando a equipe de trabalho, ao dialogar com os moradores do Porto Novo, depara-se com a situação dos jovens que buscam reafirmar suas práticas culturais no novo local de moradia. Assim, em 2013, o foco direciona-se para os jovens buscando a produção de um vídeo-documentário com roteiro dos jovens, após a participação em oficinas de formação. Assim, cartografam suas práticas culturais entre o “novo” e o “velho” território, o que, talvez, possibilite acompanhar os movimentos de (re)significação provocados pelo processo de remoção que se operam, a partir da mudança do local de moradia.
Na quarta edição, prevista para 2014 e com recursos já aprovados pelo Edital Proext 2014, mantem-se as rodas de memórias e, com as histórias narradas pelos moradores, produzem-se marcas de memórias, ou seja, diferentes composições retratando o patrimônio dos moradores; um memorial em processo com grafites, outdoor, fotografias… que não encontra um lugar fixo para se abrigar. Trata-se de marcas de memórias da Vila Dique apresentadas nos diferentes lugares do Porto Novo. Assim, o projeto se insere na perspectiva de atuação patrimonial e educativa entre os moradores da Vila Dique/Porto Novo, considerando que patrimônio não é somente o consagrado, posição que rompe com os critérios de exclusividade, originalidade e excepcionalidade que marcaram as abordagens dessa temática até o século XX. A potencialidade da reflexão reside exatamente no reconhecimento dos patrimônios não consagrados fazendo com que a problemática do patrimônio não seja vivida como algo externo aos sujeitos.
Do ponto de vista teórico, o projeto baseia-se na suposição de que a memória é um elemento importante do sentimento de continuidade e de coerência de uma pessoa ou de um grupo em sua reconstrução de si. Compreende-se que a História, o passado, os pertencimentos concedem cidadania. Porém, estamos falando aqui de uma história que se constitui como expressão da pesquisa histórica e não mero instrumento de produção de identidades. A História como espaço de encontro dos grupos com seu próprio passado e também com o passado de outros grupos. O passado como experiência singular que nos ajuda a pensar o presente, agir e reagir.
Compreende-se que todo processo de reassentamento e remoção gera impactos sociais e culturais que precisam ser, minimamente, reduzidos a partir de um trabalho articulado e intersetorial das áreas envolvidas. Com o projeto de extensão Memórias da Vila Dique, a Universidade também se insere nessa rede de atenção à situação dos moradores que estão vivendo o processo da remoção.
O projeto se justifica, então, nos seguintes pontos:
– promove a valorização da memória coletiva e a apropriação do novo local de moradia através de modificações no espaço, contribuindo na construção de um sentimento de pertencimento e cuidado com o lugar em que vivem, em uma ação comunitária que envolve diversos segmentos da população, mas, especialmente, as crianças e jovens.
– permite que diferentes gerações possam dialogar e discutir sobre suas histórias e o território em que convivem;
– oportuniza ao público em geral conhecer outras versões a respeito das vivências dos jovens moradores da Vila Dique, submetidos a muitos estereótipos.
– aos graduandos propõem-se, além da formação, o convívio com a comunidade estabelecendo trocas profícuas entre o saber produzido na universidade e aquele construído no dia a dia da comunidade.
– possibilita aos participantes e aos alunos da disciplina de Educação Patrimonial discutir o patrimônio cultural na perspectiva da ampliação de seu conceito congregando práticas de grupos populares que vão muito além dos patrimônios consagrados, sendo possível e necessário que, a partir dessa perspectiva, se discuta as práticas culturais tidas como patrimônio imaterial brasileiro.
Quando projetos sociais apostam em geração de trabalho e renda estão fazendo algo valioso, sim, mas limitado. Para além do direito à sobrevivência, há o direito ao sonho, à esperança, ao reconhecimento de belezas e potencialidades. Com o Projeto Memórias da Vila Dique estamos todos convidados, não só a não esquecermos a Dique, mas a resignificar as ditas coisas humanas e sociais que, conforme Brandão (2003, p. 46) “têm não apenas causas, mas provavelmente também alma”. Alma que se sente na utopia de uma construção conjunta, de um desejo de reunir, diminuir a fragmentação instituída pelas remoções. Lembrar que as remoções foram feitas aos poucos, desfazendo laços, deixando escombros, criando vazios. No reassentamento as mesmas pessoas se reencontram em outros lugares, outras calçadas, outras relações e novos desafios. Reconstituir, nas rodas de memórias, o jeito de contar a vida pode ser um caminho novo de alinhavo, costura de dias mais inteiros. Dias ainda exigentes em demandas reais: a casa mal acabada, a correspondência que não chega, o contrato que não se assina, a prestação que não se consegue pagar…
E continua a imprevisível trajetória de uma comunidade que certamente não aparecerá no noticiário como parte da história do megaevento da Copa do Mundo de 2014. Como tantas remoções em nome do progresso, os silêncios necessários são pactuados.
Referências
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BAUMAN, Z. Comunidade: A busca por segurança no mundo atual. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003.
GARCÍA CANCLINI, Nestor. Culturas híbridas: estratégias para entrar e sair da modernidade. São Paulo: EDUSP, 1997.
CLAVAL, P. O Território na Transição da Pós-Modernidade. In: GEOgraphian. 2, vol. 1, p. 7-26, 1999.
FREIRE-MEDEIROS, Bianca. Favela como patrimônio da cidade? Reflexões e polêmicas acerca de dois museus. Estudos históricos, Rio de Janeiro, n.38, p.49-66, jul.-dez.2006.
GIL, Carmem Zeli de Vargas . Jovens e Juventudes: consensos e desafios. Educação (UFSM), v. 36, p. 25-42, 2011.
HARTOG, François. Tempo e patrimônio. Varia Historia, Belo Horizonte, v.22, n.36, jul-dez. 2006, p.261-273.
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JEUDY, Henri-Pierre. Memórias do social. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1990.
LE GOFF, Jacques. História e Memória. Tradução Bernardo Leitão, etall. 2° Ed. Campinas: UNICAMP, 1992.
MELUCCI, Alberto. A invenção do presente: movimentos sociais nas sociedades complexas. Rio de Janeiro: Vozes, 2001.
[1] Doutora em Educação. UFRGS/FACED. carmez.gil@gmail.com
[2] Agente de Saúde do Grupo Hospitalar Conceição
[3] Psicóloga da Unidade de Saúde Santíssima Trindade – GHC e mestranda em Psicologia Social – UFRGS
[4] Graduanda em Ciências Sociais – UFRGS
[5] Graduando em História – UFRGS
[6] Médica de família da Unidade de Saúde Santíssima Trindade – GHC
[7] Graduanda em História – UFRGS
[8] Mestranda em História – UFRGS