O primeiro seminário de 2020 teve como objetivo a abordagem de diferentes perspectivas do conceito de COMUM, considerando a assunção do público e do comum como alternativa redentora à produção urbana hegemônica da cidade.
A conjuntura de instabilidade política, econômica e social que assola o ocidente na contemporaneidade nos convoca a pensar a configuração da cidade a partir de uma lógica narrativa e ordinária de histórias cotidianas, narradas a partir de condições de vulnerabilidade e precariedade. Isso se verifica, por exemplo, no momento em que se amplia o direito à fala desses sujeitos, e são criadas plataformas de escuta nas quais outros sujeitos em condições parecidas são capazes de se reconhecer. Assim, a desnaturalização do modus operandi do planejamento urbano ocidental, faz emergir novos modos de subjetivação e abre caminho às práticas urbanas que recuperam o comum como racionalidade alternativa ao planejamento hegemônico.
As dinâmicas do seminário, que envolveram pequenas oficinas de discussão para cada autor e autora e um sarau de compartilhamento entre o grupo de pesquisa, trabalhou sobre textos de Dardot e Laval (2017), Peter Pal Pelbert (2019), Silvia Federici (2017) e Judith Butler (2018). Diferentes entradas e questões associadas ao COMUM foram colocadas em diálogo com as praticas narrativas e ativistas do grupo em ações de pesquisa e extensão com grupos e comunidades apartadas de direitos humanos e urbanos em Porto Alegre.
O tema do COMUM, já relevante em qualquer tempo, foi também importante como articulador de alternativas de mundo em uma época inicial de pandemia. Em meio ao desmantelamento do Estado e de políticas públicas, crise e social e econômica, e a força de um vírus desconhecido, as atividades do seminário abriram temas que podem agenciar argumentos sobre a dimensão pública e comum da paisagem urbana de Porto Alegre, objeto de pesquisa atualmente em desenvolvimento no grupo.
Bibliografias
DARDOT, Pierre; LAVAL, Christian. Comum: ensaio sobre a revolução no século XXI. São Paulo: Editora Boitempo, 2017.
PELBART, Peter Pal. Ensaios do assombro: Biopolítica, necropolítica, subjetividade. São Paulo: N-1 Edições, 2019
FEDERICI, Silvia. O feminismo e a política dos comuns. Pensamento feminista: conceitos fundamentais. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, p. 379-396, 2019.
BUTLER, Judith. Corpos em aliança e a política das ruas: notas para uma teoria performativa de assembleia. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2018.

Narrativas à margem: deslocar epistemes para uma metodologia do comum
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Esse é o nome do artigo que publicamos na Revista V!rus em julho de 2020. Dentro da temática “Questão de Método”, o trabalho é de autoria de Daniele Caron, Rodrigo Isoppo, Katia Oliveira e Gianluca Perseu.
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[Resumo] A conjuntura de instabilidade política, econômica e social que assola o ocidente na contemporaneidade nos convoca a discutir os pressupostos epistemológicos que agenciam a problemática urbana em sua colonialidade, apontando para a necessária ruptura de um regime de autorização discursiva que invisibiliza as narrativas situadas à margem da produção urbana hegemônica. Rever tais pressupostos implica desnaturalizar o modus operandi do planejamento urbano ocidental, fazendo emergir modos de subjetivação que escapam à normatividade imposta pelo sistema patriarcal e neoliberal, e abrir caminho às práticas urbanas que recuperam o comum (DARDOT, LAVAL, 2017) como racionalidade alternativa ao capitalismo e como composição complexa das diferenças. A partir do reconhecimento da narrativa como epistemologia da experiência, a metodologia busca cartografar as narrativas historicamente apagadas e excluídas da cidade, a fim de atualizar e ampliar os limites dos métodos de pesquisa nos estudos urbanos, tendo em vista a complexidade da cidade contemporânea. A espiral da mimese de Ricoeur (1994) nos possibilita agenciar as derivas e intervenções urbanas como experiência narrada para entrever as singularidades que compõem a heterogeneidade do comum, e fazer emergir argumentos outros sobre a cidade vivida, capazes de deslocar a colonialidade do saber que ainda impera na disciplina urbanística.
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[Palavras-chave] Planejamento urbano, Colonialidade, Comum, Narrativa, Cartografia
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