Com o sucesso do golpe articulado contra a União Soviética, em 1991, surgiram quinze novos Estados no Sistema Internacional. Dentre aqueles obrigados a declarar (forçadamente) a independência, estiveram os países da Ásia Central. Uma vez que foram conservadas as fronteiras nacionais-administrativas, herdadas do período soviético, inúmeros problemas relacionados à infraestrutura, ao sistema de transportes e às questões étnicas eclodiram nas jovens repúblicas que, entregues a sua própria sorte, precisaram se estabelecer rapidamente enquanto Estados independentes sem a experiência tê-lo feito anteriormente. No caso do Cazaquistão, o fim da URSS significou enfrentar desafios para provar sua solidariedade nacional e manter unido seu vasto território ao tempo em que precisou organizar, em um curto período, quadros tecno-burocráticos e estruturas político-administrativas.
Em 1997, a antiga capital, Almaty (hoje centro financeiro e maior cidade do país), foi considerada “inadequada” para o futuro do Estado cazaque. O assentamento milenar, que remonta à Idade do Bronze e que por muitos séculos foi itinerário da lendária Rota da Seda, é geograficamente cercado por montanhas e encostas íngremes, o que poderia dificultar o estabelecimento de um governo central sobre o restante do país na ausência do suporte político-econômico soviético. Assim, em dezembro daquele ano, Akmolinsk, que recebeu a condição de cidade em 1862 e que posteriormente mudou seu nome para Tselinograd, e depois para Astana, foi escolhida como a nova capital. Esta decisão, oficialmente justificada pela estabilidade sísmica e topografia plana do local que permitiria a futura urbanização, possuía, sobretudo, uma motivação estratégica[1].
Diferente de Almaty, a nova capital, localizada ao norte do país, mantém um distanciamento significativo das fronteiras ocidentais chinesas, quirguizes e uzbeques, uma característica que tornava o antigo centro administrativo vulnerável às invasões e ameaças estrangeiras iminentes[2]. Além disso, Almaty foi um símbolo do controle czarista russo sobre o Cazaquistão, o que se chocava de maneira frontal com o projeto nacional emergente do então presidente, e ex-líder soviético, Nursultan Nazarbayev, e implicava na necessidade de construção de uma nova capital que mostrasse o poder do Cazaquistão enquanto um país independente[3] [4]. Outro aspecto considerável para a mudança está no fato de que durante a industrialização soviética e a Segunda Guerra Mundial, um fluxo migratório substancial, especialmente de russos e ucranianos, ocorreu na região fazendo com que, após 1991, milhões de pessoas fossem transformadas em “estrangeiras” mesmo que, no caso dos russos assentados ao norte do Cazaquistão, o percentual quase se igualasse ao dos nacionais no país. Com a realocação da capital, uma onda de redistribuição de poder viabilizou aos cazaques cargos no governo para aumentar sua participação política, o desenvolvimento e a povoação de uma área do país até então ocupada majoritariamente por russos e considerada, de maneira geral, subpovoada[5].
Nesse sentido, Astana, que possuí cerca de 700 km²[6], em termos de comunidade, destinava-se também a reunir todos os cazaques e seus territórios[7] de um único ponto no mapa. Assim, mesmo que as regiões ao norte fossem treladas à Rúsia, a capital, administrada por um membro da Horda Maior, estaria cimentada em um território historicamente associado à Horda Média, e poderia extrair os recursos da parte ocidental do país, a Horda Menor, que possui uma longa trajetória de lutas por autonomia política[8]. É importante considerar que, além de representar um movimento ousado que levou a unificação das três Hordas[9] [10], a localização da nova capital, no distrito de Akmola (principalmente agrícola com pequenos assentamentos rurais) foi também o impulso para a sua transformação em uma cidade altamente modernizada de status global.
O custo inicial para este imenso investimento foi estimado em US$ 400 milhões e na prática significou realizar reformas institucionais de reduções do setor público e projetos de privatização maciça em troca do financiamento (advindo sobretudo de instituições internacionais ocidentais). Empresas de construção turcas assumiram um papel de liderança no desenvolvimento da nova capital para ajudar a concretizar o plano estratégico Astana 2030. Os investimentos especialmente no setor de petróleo, gás e minerais aumentaram juntamente com doações de investidores, apoiando assim a ideia amplamente midiatizada de que a nova capital não custaria nada ao país[11]. O desenvolvimento de Astana exigiu a construção de novas redes rodoviárias e de infraestrutura, bem como a modernização dos assentamentos existentes e a criação de bairros residenciais “futuristas” e atraentes e edifícios públicos projetados pelo arquiteto japonês Kisho Kurokawa[12].
Em um período de quase duas décadas, Astana alcançou uma posição de renome em sua região. A capital anfitriã de megaeventos (como os Jogos Olímpicos de Inverno da Ásia 2011, a Astana Expo-2017 e conferências da ONU, principalmente da OMS, OMT e UNICEF) tornou-se a cidade que mais cresce em termos de população no Cazaquistão, atingindo 780.880 residentes em 2013, o que representa cerca de 5% da população do país[13]. A cidade é hoje um imã regional; atraindo residentes e investimentos externos e, em março de 2019, foi renomeada para se tornar ‘Nur-sultan’, homenagem ao ex-presidente Nazarbayev que governou o país por quase 30 anos[14].
NOTAS:
[1] Ghalib, H., El-Khorazaty, M., Serag, Y. 2021. New capital cities as tools of development and nation-building: Review of Astana and Egypt’s new administrative capital city, Ain Shams Engineering Journal, Volume 12, Issue 3, 2021, Pages 3405-3409.
[2] De origem turco-mongol, o Cazaquistão se configurou uma região povoada por nômades que pouco possuíam relação com as comunidades turco-islamizadas assentadas na faixa meridional da Ásia Central. Esta característica não apenas fez com que, por séculos, a região tenha sido marginalizada pelo protagonismo histórico de outras sociedades, como também a afastou da influência do Islã e dos movimentos radicais que surgiram na década de 1990. É importante ressaltar que, durante o período em que a transferência da capital foi proposta, a Ásia Central estava em polvorosa com a eclosão do Movimento Islâmico do Uzbequistão (IMU), a radicalização dos Uigures, a Guerra Cívil Tadjique e o domínio do Talibã sobre o Afeganistão.
[3] Köppen, B. 2013. The production of a new Eurasian capital on the Kazakh steppe: architecture, urban design, and identity in Astana Natl Pap J Natl Ethn, 41, pp. 590-605.
[4] Um movimento que, para o então presidente, enaltecia a soberania e a autonomia do país ao enviar uma forte mensagem à comunidade nacional e internacional de que os cazaques estavam prontos para a independência.
[5] Ghalib, H., El-Khorazaty, M., Serag, Y. 2021. New capital cities as tools of development and nation-building: Review of Astana and Egypt’s new administrative capital city, Ain Shams Engineering Journal, Volume 12, Issue 3, 2021, Pages 3405-3409.
[6] Official website of the President of the Republic of Kazakhstan. 2019. The capital of Kazakhstan – Nur-Sultan 2019. Disponível em: https://elbasy.kz/en/capital-kazakhstan-nur-sultan (acesso em 24 de Jun. 2022).
[7] A sociedade cazaque é culturalmente dividida em três tribos ou hordas principais; a Horda Maior, cujo território ao sul abrigava a antiga capital Almaty e à qual pertence o ex-presidente Nazarbaev, a Horda Média, cujo território fica ao norte e abriga Astana, e a Horda Menor, cujo território detém a maioria dos recursos minerais do país.
[8] Schatz, E. 2004.What capital cities say about state and nation building Natl Ethn Polit, 9, pp. 111-140.
[9] Köppen, B. 2013. The production of a new Eurasian capital on the Kazakh steppe: architecture, urban design, and identity in Astana Natl Pap J Natl Ethn, 41, pp. 590-605.
[10] Arslan, M. 2014. The Significance of shifting capital of Kazakstan from Almaty to Astana: an evaluation on the basis of geopolitical and demographic developments Procedia – Soc Behav Sci, 120, pp. 98-109.
[11] Schatz, E. 2004.What capital cities say about state and nation building Natl Ethn Polit, 9, pp. 111-140.
[12] Ghalib, H., El-Khorazaty, M., Serag, Y. 2021. New capital cities as tools of development and nation-building: Review of Astana and Egypt’s new administrative capital city, Ain Shams Engineering Journal, Volume 12, Issue 3, 2021, Pages 3405-3409.
[13] Arslan, M. 2014. The Significance of shifting capital of Kazakstan from Almaty to Astana: an evaluation on the basis of geopolitical and demographic developments Procedia – Soc Behav Sci, 120, pp. 98-109.
[14] BBC News. 2019. Nursultan: Kazakhstan renames capital Astana after ex-president. Disponível em: https://www.bbc.com/news/world-asia-47638619 (acesso em 24 de Jun. 2022).
Guilherme Geremias
Mestrando no Programa de pós-graduação em Relações Internacionais (UNESP/UNICAMP/PUC-SP)