Fotos: Izadora Leal Domingues
Edição: Luana Cruz
A formação do planeta Terra ocorreu há aproximadamente 4,5 bilhões de anos e somente há cerca de 3,5 bilhões de anos atrás surgiram os primeiros organismos vivos. Durante esse período, o planeta evoluiu para alcançar a complexidade nas formas de vida que conhecemos. Hoje, presenciamos seres humanos habitando a superfície e um ambiente propício para uma grande diversidade de plantas, microrganismos e animais.
Um fator determinante para o surgimento e a manutenção dessas formas de vida, é a atmosfera terrestre, que é composta por gases essenciais, como o vapor d’água (H₂O), o dióxido de carbono (CO₂) e o metano (CH₄). É através desse conjunto de gases que a atmosfera terrestre apresenta um fenômeno conhecido como efeito estufa, processo natural e crucial para manter a temperatura do planeta em níveis adequados para o surgimento e a permanência da vida terrestre. No entanto é importante lembrar que, assim como se adaptou para a vida, a Terra também pode se tornar inadequada para ela.
Desde a Revolução Industrial, a ação humana tem sido crucial para o surgimento das mudanças climáticas, processo em que a temperatura terrestre aumenta, resultando em eventos climáticos extremos. Esses eventos prejudiciais se diferem do efeito estufa natural e podem levar a nossa extinção.
Segundo o relatório Estado do Clima Global, divulgado pela Organização das Nações Unidas (ONU), o ano de 2024 foi o primeiro a marcar 1,5ºC acima da temperatura da era pré-industrial, fazendo com que o período seja o mais quente desde o início das marcações, há 175 anos. Sobre o aumento na temperatura terrestre, afirmou António Guterres, secretário geral da ONU: “o planeta está emitindo mais sinais de socorro”.
O impacto das mudanças climáticas foi presenciado em todo o mundo ao longo dos últimos anos, com destaque para 2024. Enchentes, alagamentos, secas, incêndios, ciclones, aumento das temperaturas, elevação do nível do mar e a exposição de parte da fauna e flora a ambientes inóspitos foram apenas alguns dos efeitos sobre a vida terrestre. No Brasil, podemos observar diferentes consequências: no Sudeste e no Centro-Oeste, a população enfrentou a maior seca generalizada da história recente, vivenciando o aumento de incêndios, a fumaça de cinzas tóxicas e a falta de chuvas. Já o Rio Grande do Sul sofreu a maior enchente da história do país em maio de 2024, quando cerca de 876 mil pessoas foram diretamente atingidas e 418 municípios declararam situação de calamidade.
Mudança climática é tema de evento no Planetário
Durante os dias 3, 4 e 5 de junho ocorreu no Planetário da UFRGS a 2ª Semana da Terra, evento que promoveu discussões sobre justiça climática, extremos hidrológicos e a relação entre o Brasil e a Antártica. Ao todo, cerca de 110 pessoas se reuniram no espaço para prestigiar as palestras e refletir sobre formas de reduzir os impactos do aumento da temperatura global.

A abertura foi conduzida pelo doutor em Recursos Hídricos e Saneamento Ambiental Fernando Fan, com a palestra “Mudanças Climáticas e Extremos Hidrológicos: Impactos e Estratégias de Adaptação”. Segundo o especialista, a tendência é que, nos próximos anos, a chuva se torne um fenômeno cada vez mais frequente em algumas regiões do país.
Fan destacou que a principal diferença entre os alagamentos registrados em outras regiões do Brasil e a enchente que atingiu o Rio Grande do Sul em 2024 está na escala e na duração dos eventos. “Uma coisa é a chuva que é curta no tempo, mas grande em quantidade. Essa chuva causa o alagamento, a cidade faz a drenagem e depois a água escoa. Outra coisa é uma chuva que pega uma área grande e tem longa duração. Aí a gente vai ver a invasão das águas, que causa a inundação”.
As chuvas registradas durante a tragédia, em maio do ano passado, foram proporcionais ao previsto para todo o ano de 2024. Segundo o palestrante, no Sul do Brasil um fator determinante para o regime de chuvas é a atuação das massas de ar polar, que influenciam diretamente na dinâmica climática da região. Outro fator que impactou no período foi a presença de um ciclone extratropical e do fenômeno El Niño.



As repercussões da inundação foram observadas ao longo do segundo dia de evento, na palestra “Mudanças Climáticas e Injustiça Ambiental: Um Olhar a Partir de Porto Alegre”, conduzida pela doutora em Sociologia Ambiental, Lorena Fleury. A pesquisadora abordou o impacto desigual das mudanças climáticas sobre diferentes grupos sociais que residem na região metropolitana de Porto Alegre. Estudos recentes, realizados em estados brasileiros no contexto de mudanças climáticas, demonstram que mulheres chefes de família são as mais atingidas por eventos extremos e se encontram em maior vulnerabilidade após as catástrofes, situação que se repetiu no Rio Grande do Sul.
“A gente precisa de soluções pautadas na realidade local”, afirmou a pesquisadora sobre a desigualdade presenciada durante a tragédia. Ela afirma que existe um medo das mães ao serem separadas dos filhos e que é necessário pensar em meios de reduzir esse desgaste emocional nas famílias. “Os lugares que a gente não olha, as ausências, elas nos dizem muito”, completou, ao refletir sobre as invisibilidades sociais durante o período de reconstrução do estado.Apesar de muitas vezes pensarmos na vida pós-enchentes como um processo de superação da tragédia climática, Francisco Aquino, Doutor em Geografia com ênfase em mudanças climáticas entre a Antártica e o Sul do Brasil, alertou para os danos irreversíveis durante sua apresentação “Emergência Climática: a Antártica e o Brasil”.

No Rio Grande do Sul há um fenômeno característico que são as correntes de jato, fluxos de vento de alta velocidade, que podem atingir cerca de 300 quilômetros por hora. A formação predominante do fenômeno ocorre por conta do aquecimento desigual da superfície terrestre. Nesse processo, o ar quente e o ar frio interagem com a rotação terrestre, movimento conhecido como Efeito Coriolis.
Essa interação, intensificada pelo derretimento das geleiras no Polo Sul, acaba originando os ciclones explosivos, também conhecidos como ciclones bomba. Em temperaturas normais, as correntes de jato são responsáveis por transferir calor entre os trópicos, mas com o aquecimento da superfície terrestre, esses fenômenos têm se aproximado cada vez mais das áreas urbanas, colocando a população em risco.
Uma das características das correntes de jato é o espaço em que elas acontecessem, ao percorrerem a troposfera – camada mais baixa da atmosfera terrestre – esses fenômenos passam a acontecer predominantemente em ambientes próximos da civilização. Sobre isso, Aquino pontua: “No Rio Grande do Sul, a gente tem uma corrente de jato, e ela está mais rápida”
Na prática, o que ocorre é que, com o aquecimento do planeta, as geleiras derretem, liberando grandes volumes de água doce e fria nos oceanos. Essa mudança altera as correntes oceânicas, que funcionam como sistemas circulares de troca de calor entre os pólos e o equador.A redução na diferença de temperatura entre as camadas da atmosfera e as águas oceânicas diminui a estabilidade desses sistemas, criando um ambiente propício para formações meteorológicas instáveis e violentas, dentre elas, os ciclones explosivos.
Quando a cidade precisa encontrar o seu “Futuro Ancestral”
Voltando algumas páginas, ou séculos, na história do mundo, é possível observar que a destruição dos biomas e ecossistemas terrestres está erroneamente interligada à concepção que temos de qualidade de vida. A intervenção humana, que hoje relacionamos a palavras como desmatamento e crise climática, foi concebida, na verdade, como prosperidade ou progresso. Porém, esse processo conceitual, que interage fisicamente com a nossa realidade e ganhou força com a Revolução Industrial, iniciou muito antes do êxodo rural – ele data de séculos atrás.

Quando analisamos as relações sociais que ocorreram durante a colonização no Brasil, é possível observar a legitimidade conceitual da “civilização”, que autorizou a escravização dos povos originários e o sequestro do seu território. Assim como o desmatamento das florestas, matas e demais biomas preservados pelos povos que aqui viviam.
O Brasil sempre carregou um modo de vida próprio, mas hoje parte dessa diversidade virou cidade a céu aberto, planejada a partir de uma lógica importada, que não respeita a natureza do território. Como aponta Ailton Krenak: “Eu acho engraçado que tem gente que aceita com naturalidade considerar um rio sagrado desde que ele esteja lá na Índia, e saiba de cor que ele se chama Ganges, enquanto ousa saquear o corpo do rio ao lado, cujo nome desconhece […]”.
Segundo o Censo de 2022, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 58,7 milhões de pessoas moram em vias sem arborização. O percentual representa 33,7% da população total do país. Além disso, cidades como Porto Alegre, São Paulo e Rio de Janeiro sofrem diretamente as consequências da crise climática.
A partir disso, surge a pergunta: “como conciliar o avanço das cidades com o aquecimento do planeta?” Já sabemos que o nosso consumo excessivo é prejudicial, por isso, separamos algumas dicas da Semana da Terra para tornar o planeta um lugar mais agradável.
Diante desse cenário, compreender a história, como ocorrem os fenômenos ambientais e suas consequências é essencial para enfrentarmos os desafios trazidos pela mudança climática. Está na hora de repensar nosso modo de vida e preservar o meio ambiente enquanto ainda há tempo. É preciso agir. Plante, cuide, transforme o lugar em que você mora.
Apoie empresas e iniciativas sustentáveis! A 2º Semana da Terra no Planetário contou com expositores que buscam a sustentabilidade e a preservação ambiental como estratégia de produção. Entre as iniciativas estiveram a Associação Patas Dadas, o Coletivo Casa Coração, a Planetária Produtos Naturais, a Associação ContraPonto, a Mimos da Terra e Composteiras, Repense Bordados, a Ludere Ideias e a Sociedade Astronômica Riograndense.
Os participantes também tiveram a oportunidade de prestigiar um artista mirim e sua reprodução do sistema solar em massinha de modelar e biscuit, além de conferir a coleção de produtos do Planetário, desenvolvida em parceria com a loja Ponto UFRGS. Além de comerciantes, a equipe de divulgação do Greenpeace Porto Alegre participou com materiais informativos e ações de conscientização ambiental, contribuindo para ampliar o debate sobre sustentabilidade ao longo do evento. Cerca de 100 quilos de alimentos foram arrecadados e repassados para a ONG Mistura Aí, encerrando os três dias de muita troca, afeto e valorização da ciência. Esperamos que a terceira edição da Semana da Terra seja ainda mais rica.
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Cores do Planetário
Cores do Planetário é uma série de textos destinada a explorar e debater temas de relevância social na atualidade. Todos os meses, um destes temas é abordado em nosso site e representado pelas cores das luzes que iluminam o Planetário durante a noite.
Referências:
Agência Gov (MCTI). Temperatura média do planeta rompe limite de 1.5 °C em 2024, apontam centros meteorológicos. Agência Brasil. 10 jan. 2025. Disponível em: https://agenciagov.ebc.com.br/noticias/202501/temperatura-media-do-planeta-rompe-limite-de-1-5degc-em-2024-apontam-centros-meteorologicos. Acesso em: 18 jun. 2025.
Organização das Nações Unidas. Relatório sobre clima revela que planeta está emitindo “sinais de socorro”. UN News, português, 19 mar. 2025. Disponível em: https://news.un.org/pt/story/2025/03/1846346. Acesso em: 18 jun. 2025.
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UFRGS Notícias. Planetário promove debate com especialistas na Semana da Terra. 2025. Disponível em: https://www.ufrgs.br/site/noticias/planetario-promove-debate-com-especialistas-na-semana-da-terra/. Acesso em: 18 jun. 2025.
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