Texto de Amanda Verrísimo publicado em 20 de Março de 20225, no Jornal da Universidade UFRGS.

Em expansão no país, a pós-graduação profissional possibilita que egressos proponham soluções inovadoras para os desafios do mercado
A pós-graduação, como o próprio nome sugere, é um nível de estudo que vem após a graduação, ou seja, depois que se conclui um curso superior. Serve para aprofundar os conhecimentos adquiridos durante a faculdade e/ou para se especializar em um campo específico. São divididas em dois grupos, com terminologias que derivam do latim: lato sensu, que significa “em sentido amplo” e é usado para descrever cursos mais gerais de pós-graduação, como especializações e MBAs (estes últimos voltados à área de administração e negócios); e o stricto sensu, que significa “em sentido estrito”, e se refere a cursos como mestrados e doutorados, que se desenvolvem a partir da pesquisa de um tema específico vinculada à área de estudo.
O modelo lato sensu de pós-graduação foi introduzido na década de 60, enquanto nos anos 70 e 80 consolidou-se a pós-graduação stricto sensu, voltada principalmente à formação de pesquisadores. Nesse período, o viés acadêmico foi predominante na criação e no desenvolvimento da pós-graduação, impulsionado pela necessidade de qualificar profissionais para o ensino superior e institucionalizar a pesquisa no país.
Foi, portanto, somente em 1995 que surgiram os cursos de mestrado na modalidade profissional com o objetivo de formar e qualificar profissionais para o mercado de trabalho – diferenciando-se dos mestrados acadêmicos, que buscam formar pesquisadores, com ênfase na docência.
A modalidade profissional foi estendida também para o doutorado: em 2017, o Ministério da Educação aprovou a criação dos doutorados profissionais. Hoje, segundo dados da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), há 99 cursos desse tipo em funcionamento no país.
Outros 69 estão em fase de projeto, isto é, já aprovados pela entidade, mas ainda não iniciaram as atividades [confira os dados detalhados ao final da reportagem]. Integra esse grupo o primeiro doutorado profissional da UFRGS, na área de Economia, que deve realizar processo seletivo agora em 2025.

O que torna a pós-graduação profissional necessária?
Historicamente, o mestrado tem sido visto como uma etapa de transição entre a graduação e o doutorado, uma preparação para a vida acadêmica. No entanto, como pontua Marcelo Milan, professor do Programa de Pós-graduação em Economia da UFRGS, “ao longo dos anos, percebeu-se que muitos profissionais não desejavam seguir para o doutorado nem para a docência, desejavam apenas ter uma formação mais aprofundada em suas áreas de atuação”. Foi assim que surgiu o mestrado profissional, que foca no desenvolvimento de habilidades voltadas para a atuação prática.
O mestrado profissional em Economia da UFRGS, por exemplo, destina-se a profissionais que já atuam no mercado de trabalho e buscam um conhecimento mais técnico e especializado. “Ao contrário do mestrado acadêmico, que tem [na pesquisa] um caráter mais teórico, o mestrado profissional aplica o conhecimento em situações reais do mercado”, afirma Milan.
Esse enfoque na pesquisa é uma das principais diferenças entre as duas modalidades. “Os trabalhos de pesquisa no mestrado profissional são voltados necessariamente para a resolução de problemas do mercado de trabalho, podendo incluir desde estudos de caso até programas de computador desenvolvidos para solucionar questões específicas”, destaca o professor.
A diferença entre os tipos de programas pode ser percebida também no processo seletivo: enquanto no mestrado acadêmico se dá maior importância à experiência em pesquisa, como publicação de artigos e atividades de iniciação científica, no mestrado profissional se valoriza a experiência prática dos candidatos.
“Aqui o foco está na bagagem adquirida fora do ambiente acadêmico e na capacidade de aplicar esse conhecimento de forma eficaz no mercado de trabalho”Marcelo Milan
Outro aspecto relevante do mestrado profissional é o perfil do corpo docente: como se valoriza a experiência prática, é permitida a atuação de professores externos, que não necessariamente possuem doutorado. A troca de experiências entre professores e alunos, que também trazem vivências do mercado de trabalho, cria um ambiente de aprendizado dinâmico e enriquecedor. Isso se reflete na flexibilidade quanto aos tipos de trabalhos de conclusão, que podem variar de dissertações tradicionais a relatórios aplicados, com o objetivo de promover um impacto aplicado na área de atuação a que se destina.

Mestrado profissional transformando carreiras
Com experiência no mercado de trabalho e sem interesse imediato na docência, a produtora audiovisual Erika Araújo tinha muitas dúvidas sobre a real aplicabilidade de um mestrado em sua carreira. A virada aconteceu quando ela encontrou o mestrado profissional em Economia da UFRGS, que se apresentou como uma opção mais alinhada aos seus objetivos.
Ao ler o edital do processo seletivo, Erika sentiu-se motivada a ingressar. Ao longo do curso, a aluna teve a oportunidade de se aprofundar em conteúdos teóricos que eram diretamente aplicáveis ao seu campo de atuação. Ela destacou a importância da combinação entre teoria e prática, especialmente na troca de conhecimentos que ocorria na sala de aula. “Foi uma experiência muito rica. Os professores tinham um domínio profundo da teoria, mas também estavam muito preocupados em entender e aplicar esses conhecimentos nas práticas profissionais dos alunos”, relata Erika, destacando o impacto da interação entre a vivência profissional dos alunos e a expertise teórica dos docentes.
Após o mestrado, além de aprimorar seus conhecimentos no setor audiovisual, Erika passou a dar aulas em cursos técnicos e de pós-graduação, uma transição que ela atribui diretamente ao mestrado. “O mestrado me deu o conhecimento teórico necessário para compartilhar esses conceitos de forma clara e robusta com meus alunos”, explica.
Já para a arquiteta Renata Galbinski, também egressa do mestrado profissional em Economia da UFRGS, a escolha por esse tipo de mestrado foi desde o início uma decisão estratégica e pessoal. Com uma carreira sólida voltada para a prática – que inclui anos de trabalho na Secretaria de Obras do Estado e no Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) –, Renata sentiu necessidade de se aprofundar em um tema específico que ligasse suas experiências à teoria, sem, no entanto, entrar no campo acadêmico tradicional.
A busca por soluções inovadoras, especialmente na interseção entre a preservação do patrimônio e a economia criativa, foi uma de suas motivações. Para ela, o mestrado foi uma chance de aprofundar seus conhecimentos sobre a relação entre essas duas áreas. “A temática que eu queria estudar era justamente essa interação, e foi essa abordagem que me levou ao mestrado profissional [da UFRGS]”, explica.
O impacto da escolha de Renata para o seu campo de atuação foi notável. Sua dissertação, que tratou de questões de sustentabilidade na preservação cultural, não apenas lhe trouxe uma nova perspectiva sobre seu trabalho como também gerou resultados concretos. “Em 2023, quando estava na fase final de elaboração da minha dissertação, fui convidada a participar de uma consultoria para a Prefeitura Municipal de Rio Grande e contribuí exatamente com a metodologia que desenvolvi no mestrado”, conta Renata. “Em 2024, a equipe foi contemplada em um edital de economia criativa do Banrisul, e seguimos o projeto.”
As interações no ambiente do mestrado profissional foram cruciais para a evolução de Renata. Segundo ela, essa diversidade de experiências e o corpo docente altamente qualificado foram aspectos fundamentais. A arquiteta enfatiza que o mestrado não foi apenas uma oportunidade de aprendizado, mas uma verdadeira cocriação entre alunos e professores. “As trocas e vivências foram espetaculares, extremamente enriquecedores; eu pude ampliar muito a minha visão nessas interações. Me fez enxergar minha área de atuação de uma forma totalmente nova”, afirma.

Primeiro doutorado profissional da UFRGS
Em novembro de 2024, a UFRGS anunciou a criação do doutorado profissional em Economia, com foco em educação, cultura e desenvolvimento, em parceria com a Fundação Itaú Cultural. O programa, que terá seu edital de seleção divulgado ainda em 2025, é um dos pioneiros na área no Brasil, sendo o primeiro doutorado profissional a ser oferecido pela UFRGS. O curso surge como uma extensão do sucesso do mestrado profissional, que está para iniciar a sua quinta turma.
O programa em questão oferece duas grandes áreas de concentração: “Economia” e “Economia e Política das Indústrias Criativas e Culturais”. A primeira inclui ênfases em duas linhas de pesquisa: (1) Finanças e Ciência de Dados; e (2) Avaliação Econômica de Políticas Públicas. Já a segunda área se dedica a temas relacionados à dinâmica econômica e política das indústrias culturais e criativas, com uma linha de pesquisa que recebe o mesmo nome. Esse enfoque permite que os alunos se aprofundem nas complexas interações entre a economia e o setor cultural.
Conforme explica o professor do PPG Economia André Cunha, o novo doutorado foi estruturado a partir de uma extensa análise de demanda no setor cultural, considerando as abordagens de pesquisa do programa. Segundo o docente, muitos profissionais já possuem mestrado e buscam uma formação adicional que envolva aprofundamento acadêmico e prático, além de uma rede de contatos mais ampla.
“A proposta do doutorado é justamente oferecer esse ‘algo a mais’, com foco em políticas públicas, gestão de organizações culturais e práticas internacionais”André Cunha
Um dos grandes diferenciais do doutorado será a realização de estágios práticos em instituições governamentais e do terceiro setor, com parcerias já estabelecidas com diversas Secretarias de Cultura de todas as regiões do Brasil. Essas experiências permitirão que os alunos desenvolvam trabalhos aplicados voltados para a resolução de problemas reais enfrentados por essas organizações. “A formação será mais densa e aplicada, com um foco significativo em redes de contatos e práticas no setor”, destaca Cunha.
O curso é direcionado sobretudo a profissionais com experiência no campo da cultura e das indústrias criativas, proporcionando uma formação que vai além da academia. Com duração maior que o mestrado, o doutorado permitirá que os estudantes se aprofundem nas questões e nos desafios do setor cultural e das políticas públicas. Para Cunha, a expectativa é de que os doutorandos possam não apenas aprofundar seu conhecimento, mas também propor soluções inovadoras para as áreas em que atuam.

O crescimento da pós-graduação profissional na educação
Nos últimos anos, a pós-graduação profissional também tem ganhado destaque no campo da Educação. É o que aponta o administrador Alexandre Shigunov Neto, do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo (IFSP). Durante o doutorado em Educação na Universidade Estadual de Campinas, Alexandre investigou a gênese e o desenvolvimento das pesquisas em educação em ciências de programas de pós-graduação de perfil tanto acadêmico como profissional.
Ele aponta que, embora o mestrado profissional em educação tenha crescido nas últimas décadas, ainda existe uma resistência tanto das instituições quanto dos educadores a essa modalidade. Entretanto, Alexandre sinaliza que esse tipo de formação pode gerar resultados práticos pertinentes.
“Na área de educação, por exemplo, o pesquisador pode desenvolver um projeto focado na análise e no aprimoramento de sistemas, como o sistema de Registro Acadêmico. Esse profissional teria a tarefa de avaliar o funcionamento atual desse sistema e propor melhorias para torná-lo mais eficiente. O produto do seu trabalho, nesse caso, não seria uma dissertação acadêmica, mas, sim, um produto prático que visa aperfeiçoar processos no ambiente de trabalho público”, assinala.
Uma questão levantada por Alexandre, porém, é que nas áreas administrativas as demandas por formação prática e especializada são mais evidentes. Já na educação, o avanço tem sido mais gradual. Ele ressalta que a falta de confiança em relação ao mestrado profissional é um desafio a ser superado, mas acredita que, à medida que mais produtos e resultados práticos forem gerados, essa perspectiva pode mudar.
“Ainda existe uma grande preocupação da área da educação quanto à qualidade e à natureza dos produtos gerados pelos mestrados profissionais. A comparação com o mestrado acadêmico, mais consolidado, ainda pesa nesse contexto”Alexandre Shigunov Neto
Este cenário evidencia a evolução da pós-graduação profissional, uma tendência crescente que, apesar dos desafios, oferece contribuições importantes para o aprimoramento dos sistemas educacionais e administrativos no Brasil.
Fonte: Site do Jornal da Universidade UFRGS.

