Defesa de Tese-Bruno Paim

MODELOS DE CRESCIMENTO E ENDIVIDAMENTO DAS FAMÍLIAS: CONTRIBUIÇÃO A PARTIR DO PERFIL DA DÍVIDA NO BRASIL

Resumo:

O texto apresenta uma análise do endividamento das famílias e de seus impactos sobre o crescimento econômico. A partir da Crise Financeira Global de 2008-09, o endividamento das famílias ganha centralidade na literatura econômica, originando dois eixos principais de desenvolvimento: um empírico, voltado à análise de dados e aos impactos sobre consumo, crescimento e distribuição de renda; e outro teórico, que incorpora esse tipo de dívida aos modelos de crescimento. Este trabalho busca conciliar ambos os eixos. Para tanto, adota uma abordagem heterodoxa pós-keynesiana, utilizando modelos neo-kaleckianos e do supermultiplicador, baseados na liderança da demanda no crescimento econômico. Aos modelos eleitos como “canônicos”, incorporam-se recentes abordagens que incluem o endividamento das famílias. De modo geral, os modelos neo-kaleckianos convergem em mostrar que o impulso inicial no crescimento econômico gerado pelo consumo a partir do endividamento é revertido, em um segundo momento, para uma situação de menor dinamismo da demanda agregada, pois o serviço da dívida transfere renda de trabalhadores para capitalistas ou rentistas, de menor propensão marginal a consumir. Já a inclusão do crédito como componente autônomo da demanda nos modelos do supermultiplicador, ao sustentarem o aumento da demanda em um modelo liderado por este componente, tornam o endividamento funcional para o crescimento da economia. Empiricamente, o trabalho foca no Brasil,
adaptando as contas nacionais para captar o fluxo de caixa das famílias, o que revela o aumento da participação do pagamento de juros em paralelo à redução da participação do consumo final como proporção da renda nacional disponível. Em seguida, a análise mostra um aumento do comprometimento da renda com o serviço da dívida no país e evidencia que o crescimento do endividamento não decorre apenas do aumento do consumo, mas também da incidência de juros sobre o estoque da dívida. O resultado se mantém quando observadas séries históricas de concessão e serviço da dívida por modalidade de crédito, construídas a partir da implementação de duas abordagens distintas de cálculo. Destaca-se também a heterogeneidade entre as modalidades analisadas, com algumas — como cartão de crédito e cheque especial — apresentando forte impacto sobre o orçamento familiar apesar de menor participação no estoque total. A análise econométrica, utilizando modelos de vetor autorregressivo (VAR) e de vetor de correção de erros (VEC) revela que aumentos na taxa de juros elevam o custo do serviço da dívida e reduzem a renda disponível das famílias, podendo configurar um “canal de fluxo de caixa” na transmissão da política monetária. Em certos casos, a elevação dos juros não reduz as concessões como seria esperado e ainda aumenta o peso das dívidas existentes. Como contribuição teórica, o trabalho propõe um modelo de supermultiplicador com dois tipos de crédito: um autônomo e outro induzido. Os resultados mostram que a coexistência de um tipo de crédito de custo mais alto e induzido pela renda amplificou os efeitos das condições financeiras e da taxa de crescimento do consumo autônomo. A maior sensibilidade se manifesta como uma maior instabilidade do modelo, resultando em maior fragilidade.
Palavras-chave: Endividamento. Comprometimento da Renda das Famílias. Modelos de Crescimento. VAR. VEC. Fluxo Financeiro. Brasil. Macroeconomia. Política Monetária.

Local: Online, através deste link.

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