Deixe um comentário / Bancas de Tese e Dissertação / Por Helena Camillo
A ERA DA INCERTEZA CLIMÁTICA: BANCOS CENTRAIS E SISTEMAS FINANCEIRO SOB O ANTROPOCENO
Resumo:
A análise desta tese concentra-se nos bancos centrais, investigando suas funções e atuação nas interconexões entre os sistemas financeiros e as mudanças climáticas. Tais interconexões tendem a ser bidirecionais: por um lado, os sistemas financeiros canalizam abundantes fluxos de recursos para atividades intensivas em carbono, agravando os desequilíbrios ambientais; por outro, as mudanças climáticas, através dos canais de riscos físicos, de responsabilidade e de transição, acentuam a instabilidade dos sistemas financeiros. A investigação concentrar-se-á, com mais diligência, na segunda direção. Para isso, a metodologia adotada desdobra-se em três técnicas de análise: a teórica, a econométrica e a histórica. O exame teórico, por meio do cabedal minskiano, elucida os processos pelos quais os cenários que orientam as decisões de investimento tornam-se mais opacos diante da incerteza climática. Ademais, os fluxos de entrada e saída de caixa tendem a ser comprometidos pela emergência climática, de modo que unidades inicialmente operantes sob o regime de financiamento hedge podem migrar para o regime especulativo ou até mesmo ponzi, instabilizando ainda mais os sistemas financeiros. A medida profilática passaria pela construção de um “Grande Banco central Verde”. A investigação econométrica, por sua vez, permite mensurar os impactos da crise ambiental sobre a volatilidade monetária. Para uma amostra de 90 países entre 2002 e 2020 verificou-se, através do método dos momentos generalizados (GMM), uma relação positiva entre degradação ambiental e instabilidade inflacionária. Evidenciando, assim, os efeitos instabilizadores macroeconômicos das mudanças climáticas. Enquanto isso, os bancos centrais – responsáveis pela manutenção da estabilidade – permanecem comprometidos com políticas monetárias convencionais, abandonando-as apenas em períodos de crise. Por fim, o emprego da análise histórica revela, dentre outras “lições”, o suporte que os bancos centrais sistematicamente ofereceram ao processo de acumulação capitalista, garantindo que os entraves aos circuitos de produção e circulação fossem superados e não interrompessem a acumulação. O mesmo processo de acumulação demandou inquantificáveis volumes de recursos naturais e gerou um gigantesco passivo ambiental, engendrando um nova era geológica: o Antropoceno. A análise histórica expõe, dessa forma, os vínculos indiretos entre a política dos bancos centrais e a degradação ambiental, ainda que a temática tenha aparecido na agenda de pesquisa econômica apenas muito recentemente.
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