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A figura esguia de passos leves e olhos vivos faz dançar o pensamento diante dxs ouvintes atentxs. O início frágil, aparentemente titubeante, dá sequência a uma associação de ideias que não parece ter muito futuro. Mesmo assim, a plateia segue a dança descrente do desfecho. Pouco a pouco os movimentos do pensamento vão construindo seu próprio chão, e aquilo que parecia um passeio banal e gratuito se revela uma rigorosa aventura. A senhora de gestos sutis e vivos olhos emoldurados por seus óculos não parece mais uma figura tão frágil. Seus movimentos que pareceriam sem rumo se revelam precisos, seu corpo esguio dá passagem a intensas afetações sem sucumbir à violência destas forças. Tão forte quanto frágil. Mal adivinharam, aqueles que lhe escutavam, que sua força provinha exatamente de sua fragilidade, de sua capacidade de lançar-se na experimentação desconhecida. Um olhar de frente para a morte e a finitude sem querer-se forte, mas sem virar o rosto para evitá-las.
Tania Mara Galli Fonseca nos demonstrou tal força frágil não apenas em suas magníficas aulas-dança, mas também em sua escrita onde descreveu a experiência do luto quando do falecimento do seu amado Paulo. No texto “After Life”, proveu-nos de palavras para descrever algo próximo do que sentimos hoje ao vê-la partir:
Não poderia deixar de escrever sobre este ‘after life’ impulsionado, agora, pelo ‘nachleben’, ou seja, por este impulso de fazer sobreviver aquilo que não temos mais em nossa presente vida. Tudo se passa no compasso de dois tempos: o de “um tarde demais” e o do “por vir”. Enclausurados na passagem dos instantes, já não decidimos voluntariosamente o que nos acontece. Diante do morto e da perda que ele suscita, tornamo-nos náufragos à deriva do que os momentos nos reservam. Ondas grandes e pequenas nos balançam e desequilibram, nossos pés não atingem o fundo, suspensos ficamos nas águas do ir e vir das sensações sequenciais, em cada onda, em cada balanço, um novo rosto se descortina, nossa paisagem interior se transmuta na imediatez dos afetos que as águas dos momentos nos traduzem. Por isso, dizemos que nos tornamos náufragos. Foram para longe o leme e a bússola, tudo o que temos é um corpo sensível e em sofrimento, ainda mudo para as vibrações que o afetam, mas que se torna barco, precário e solitário abrigo do que podemos frente às forças do Fora da morte e de um morrer que permanece, como expressão de um negativo radical. Constatamos que há ocasiões em que precisamos nos tornar suficientemente humanos para que possamos nos deixar desmaiar diante do desastre. (…)” (2018).
Uma fagulha sutil, suave, mas também intensa a queimar o ar em ardor de incêndio das ideias. Uma fagulha que faz tremeluzir em seu balé a escuridão noturna da sala de aula. Noite e dia se unem em um fogo frágil que não nega a noite em dia, mas nos permite entrever lusco-fuscos muitos. Ninguém tem dúvidas de que Tania era ela mesma um dos vaga-lumes sobreviventes que faz da noite o labor do dia e o dia, por sua vez, labor da noite. Uma fagulha frágil, fina, rápida, mas que irrompe imensidões em sua entrega ao desconhecido. Tania jamais cessara de experimentar, aprender novxs autorxs, abrir novas questões. Todo início de semestre voltava com aquele brilho no olhar vivo a nos contar sobre novas leituras, novxs interlocutorxs, novas aventuras e novas terras longínquas a serem experimentadas. Nunca passou pela sua cabeça sentar-se na fortaleza conceitual construída com rigor em estudos passados. Sempre queria passar através do portão e ir a novos mundos e experienciar descobertas, invenções e não-saberes. Uma professora e pesquisadora que tanto sabia, mas que sempre se apresentava como se fora uma ignorante que a tudo desconhecia. Sua força frágil lhe permitia desbravar desconhecidos mesmo onde isso parecia impossível. Frágil e forte, suave e intensa, sutil e cortante. Em outubro de 2018, na conferência de encerramento do evento comemorativo aos 20 anos do PPGPSI cujo título era “A Psicologia em tempos extremos”, Tania reflete sobre os desafios que se impõem à psicologia social entre eventos como a tragédia de Mariana em MG e o retrocesso agudo dos direitos sociais no país. A sensação de asfixia diante da rarefação extrema dos possíveis faz com que Tania descreva esse confronto com o trágico de um modo que nos recorda os dias que sucedem a notícia de sua morte:
Momentos de crise, de ruptura e colapso, oscilantes entre o ser e o nada, suspensão entre o tudo é possível e o nada é possível. Emudecemos diante do que ouvimos, do que vemos e imaginamos, como se nos defrontássemos diante de signos de um acontecimento improrrogável que se aproxima e abate nosso atual mundo. Tal como no filme Melancolia, estrelado em 2011, sob a direção do dinamarquês Lars Von Trier, diante do que se aproxima de forma incontrolável parece-nos que o que podemos produzir não passa de uma pequena cabana de galhos rarefeitos que não suportariam sequer o sopro de uma brisa. Desamparo, solidão, desespero e medo. Eis um quadro importante que assoma em nós como um reflexo do que nos afeta, do que está por vir, do que já está vindo, e, sobretudo, do que já aconteceu sob o silêncio dos costumes e da distração, sem que nos déssemos conta da periculosidade que transportava. Periculosidade e surpresa, pois fomos, sim, surpreendidos pelo aparecimento de fissuras nas porcelanas das chávenas de nosso usual convívio (2019).
Tania é uma das fundadoras deste programa de pós-graduação. Seu gosto pela aventura a fez abrir estas sendas pelas quais centenas de novxs professorxs e pesquisadorxs se formaram e formam ainda hoje. Ela imprimiu aqui o gosto pelo desassossego e o ímpeto pela experimentação. Essa força frágil e forte daquelxs que se colocam como inventores em meio ao desconhecido.
Sua trajetória de desassossego marca as variações no seu grupo e projetos de pesquisa: “Modos de trabalhar e subjetivar”, “Corpo, Arte e Clínica”, “Arquivo e testemunho”. Tania sempre manteve-se no tensionamento das suas potências do dizer, ver e pensar: da Psicologia do Trabalho a fazer questões feministas à realidade industrial na sua tese de doutoramento “Vozes e silêncio do feminino: de mulher à operária” (1996); passando pelo feliz encontro com os autores Henri Bergson, Deleuze e Guattari, sobre os quais se debruçou com sua singular mistura de rigor e leveza; até seus últimos trabalhos acerca das imagens e suas narrativas testemunhais envoltos em novas e felizes descobertas como Didi Huberman e Walter Benjamin. Da questão do trabalho, pela questão do tempo, até a questão da imagem e testemunho, podemos acompanhar a constante reinvenção desta pesquisadora que jamais se acomodou na autoridade constituída pelos rigorosos estudos anteriores, sempre se lançando em um porvir desconhecido e intempestivo.
Dedicou-se a pensar os impactos do neoliberalismo dos anos 1990 no mundo do trabalho no projeto “Modos de Trabalhar, Modos de Subjetivar no Contexto da Reestruturação Produtiva”. No início dos anos 2000, com a realidade da lei nacional da Reforma Psiquiátrica, por meio do projeto “Modos de Trabalhar, Modos de Subjetivar no Contexto da Reforma Psiquiátrica” passou a concentrar seus esforços nas transformações dos modos de trabalhar dxs profissionais do SUS a partir dos novos desafios colocados pelo trabalho transdisciplinar em rede. Foi quando se deu seu reencontro com o velho hospício e sua nova Oficina de Criatividade. O alegre encontro com os trabalhos da Oficina de Criatividade do Hospital Psiquiátrico São Pedro ampliaram e intensificaram as relações entre corpo, arte e clínica nas pesquisas coordenadas por Tania. Emergiu, assim, em 2006 o projeto “Corpo, Arte e Clínica nos Modos de Trabalhar e Subjetivar” que seguiria uma década com o mesmo nome e formato. Foi no decorrer deste projeto que surgiu o Acervo da Oficina de Criatividade. Também foi neste período que sua famigerada cadeira das quartas pela manhã mudou-se do prédio interditado do Instituto de Psicologia para o interior do Hospital Psiquiátrico São Pedro e lá ficou até sua última aula. A construção do Acervo com as obras produzidas durante décadas na Oficina de Criatividade do HPSP deram corpo a dois projetos de pesquisa que serviram de casa para dezenas de orientandxs desde 2009 até 2019: “Potência Clínica das Memórias da Loucura” e “Arquivo e Testemunho de Vidas Infames: Restos que insistem”. Em 2016, já experienciando intensamente os limites da vida e as dores das possíveis perdas, lançou-se em um projeto tão íntimo quanto transversal a todas as suas pesquisas anteriores e atuais: “O Interminável Limiar da Experiência: o cotidiano a contrapelo”. Pesquisa tão pessoal quanto impessoal que de certo modo nos parece um esforço de sistematização conceitual da prática de toda uma vida: como manter-se sempre na experiência limiar em sua intensidade e riqueza singulares a forçarem novos possíveis?
Na sua maquinação do mundo, Tania nos ensinava a responder ao tempo com paixão e precisão, delicadeza e determinação, resistência e criação. Arte, afeto e imaginação marcavam tudo o que ela expressava no seu modo porcelana-vulcão.
Texto elaborado pelo prof. Luís Artur Costa, em nome do coletivo de professores do PPGPSI.
Homenagens institucionais
Nota do Conselho Federal de Psicologia
O Conselho Federal de Psicologia (CFP) lamenta profundamente o falecimento da professora Tânia Mara Galli Fonseca, psicóloga, docente e pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em Psicologia Social e Institucional da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
A professora deixa como legado uma extensa e importante contribuição para Psicologia Social brasileira. Além de sua carreira como docente, ela foi presidente da Sociedade de Psicologia do Rio Grande Sul, com ênfase em Estudos da Subjetividade e do Trabalho.
O CFP manifesta solidariedade aos familiares, colegas e alunos da professora e informa que o velório ocorrerá nesta quinta-feira (12/9), a partir das 10h, na Capela 3 do Crematório Metropolitano de Porto Alegre (RS). A cerimônia de cremação ocorrerá às 18h, no mesmo local.
Frente em defesa da psicologia RS – Chapa 12 – CRP-RS
A Frente em Defesa da Psicologia no RS vem a público manifestar seu enorme pesar pela perda inestimável da colega, mestre e amiga TANIA MARA GALLI FONSECA, ocorrida neste 12 setembro 2019. Tendo dedicado sua vida profissional à docência, Tânia, observadora arguta de nossos tempos, influenciou a formação de diferentes gerações de psicólogas/os em nosso estado e marcou de forma incisiva o pensamento da psicologia brasileira, com uma produção densa e extensa sobre os modos de subjetivar e trabalhar, sobre as relações entre memória e loucura, sobre os limiares da experiência entre ciência, filosofia e arte. Mais ainda, Tânia soube transmutar as ideias em gestos, afirmando o caráter ético de nosso ofício, a vida como potência, o brilho dos vagalumes. Sua força e delicadeza nos enchem de coragem e sutilezas para seguir perseverando na vida mesmo em tempos sombrios.
EBBEPOA – Espaço Brasileiro de Estudos Psicanalíticos de Porto Alegre
O EBEPPOA manifesta seu profundo pesar diante do falecimento da colega, mestre e amiga TANIA MARA GALLI FONSECA, ocorrido neste 12 setembro 2019. Uma vida dedicada à docência, onde Tania ensinou a potência do afeto, da transgressão, do brilho dos vagalumes, antena de nossos tempos que foi. Participou da formação de diferentes gerações de psicólogas/os em nosso estado e agregou muito ao pensamento da psicologia brasileira, com uma produção densa e extensa sobre os modos de subjetivar e trabalhar, sobre as relações entre memória e loucura, sobre os limiares da experiência entre ciência, filosofia e arte. Ela permanece como vida dentro de nós.
Laboratório de História e Memória da Psicologia – Clio-Psyché
O Laboratório de História e Memória da Psicologia – Clio-Psyché lamenta profundamente o falecimento da professora Tânia Mara Galli Fonseca (10/02/1948 – 12/09/2019). Tânia era psicóloga formada pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul em 1970, doutora em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (1996) e realizou um pós-doutorado pela Universidade de Lisboa em 2004. Era Professora Titular da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, docente e pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em Piscologia Social e Institucional, dirigindo a Coleção Cartografias editada pelas editoras UFRGS e Sulina. Atuava a partir dos referenciais da filosofia da diferença nos temas tempo e subjetividade, corpo-arte-clínica, trabalho e tecnologias com ênfase nos processos de resistência e criação. Discutiu sobre temas como os modos de subjetivar e trabalhar, as relações entre memória e loucura e os limiares da experiência entre ciência, filosofia e arte. Tânia faleceu no dia 12 de setembro, deixando um legado de grandes contribuições para a psicologia brasileira. As marcas deixadas por sua dedicação à docência, além de sua densa e extensa produção, permanecerão vivas. Aos familiares e amigos, nossas sinceras condolências.
Em uma de suas últimas produções, Tânia discorreu sobre luto e sobrevivências: “Por que e para que escrever diante das perdas? Neste texto, buscamos alguma resposta a essas questões, e juntamo-las ao risco de dizer que é diante da ausência e do vácuo que o escritor escreve, que é separando-se de si mesmo e do mundo sensível imediato que ele obtém a desaparição que lhe pode devolver a aparição. (…) Rasgar para reparar, ferir para cicatrizar, fazer do casulo escuro e fechado um ponto de visão, agir por rompimentos e rasgos, romper o casulo da visão que o hábito nos delegou, ver as coisas, os objetos e todos os entes em sua nudez para transformar-se em aprendiz diante de um mundo visto pela primeira vez” (Fonseca, 2018)
Nota do PPG Psicanálise, Clínica e Cultura – PPGCLIC UFRGS
É com pesar que o PPG de Psicanálise: clínica e cultura da UFRGS comunica o falecimento da querida colega Tania Mara Galli Fonseca . Tania praticava em sua atividade de professora e pesquisadora voos suspensos abrindo sempre espaços inéditos de criação. Sua inquietude intelectual inspirou muitos de nós e certamente este néctar de pensamento vai continuar vivo naqueles que tiveram a chance de tê-la como colega ou como professora. Uma imagem que guardaremos como um grande ensinamento aconteceu em uma reunião dos professores do Instituto de Psicologia na época das ocupações da universidade em 2016. Tania era sempre a primeira a defender o movimento dos alunos e alunas , seus direitos a revolta e a aposta de que só haverá futuro se podermos confiar na força criativa de nossa juventude. Nesta reunião tensa ela entra na sala com um buque de jasmim de seu jardim e vai distribuindo as flores, que vão passando de mão em mão. Em um instante o néctar das flores inundou a sala e este gesto abriu um espaço inédito de escuta e esperança. Tania foi uma das idealizadoras e fundadoras do Programa de Pós-Graduação em Psicologia Social e Institucional. Nos últimos anos trabalhou intensamente junto a Oficina de Criatividade do Hospital Psiquiátrico São Pedro tendo deixado inúmeros livros e artigos sobre este trabalho que certamente vão inspirar os futuros pesquisadores a continuar este trabalho tão fundamental. Transitou com desenvoltura em vários campos do conhecimento: psicologia, filosofia, artes, literatura, politica, psicanalise apostando sempre que é no tensionamento das diferenças que o pensamento pode efetivamente avançar. Esperamos estar à altura desta bela herança que ela nos deixou.
Mensagens de professores, alunos e amigos
Sair do velório de minha amiga e mestra Tania Galli Fonseca é quase o mesmo que sair de uma de suas grandes aulas ou melhores conversas: turbilhão de intensidades, reverberações incessantes, profusão de pensamentos que pedem escrita. Deu vontade de compartilhar um dos muitos efeitos das provocações que ela me fazia desde que eu era uma guria petulante e recém formada, que jamais deixou de receber com imensa honra e responsabilidade as tarefas que ela me confiava na forma de assumir seus grupos de alunos e estágios na UNISINOS, seus clientes de consultoria e, mais tarde como colega de UFRGS, na participação em seus livros, aulas e bancas. O texto de Clínica Ampliada que ela me encomendou para o seminário Corpo, Arte e Clínica, nos idos de 2004, até hoje me conecta com leitores curiosos em cantos diversos. E a recente coordenação do Pós-graduação em Psicologia Social que ela criou, e motivou nosso último contato, passa a ser um desafio ainda mais rigoroso e, como ela, prenhe de vida. Grata, professora, vá em paz que ficamos com teu imenso legado de sabedoria e afetos.
Profa. Simone Mainieri Paulo
Coordenadora PPGPSI UFRGS
Hoje perdemos um verdadeiro vulcão de vida, nossa querida amiga e colega TANIA MARA GALLI FONSECA faleceu. Para quem teve a chance de conviver com ela sabe da força deste vulcão, sempre acionando vida, pensamento, movimento, liberdade, criação, coragem, sonho, utopia, generosidade. Acordo de madrugada e vou reler talvez um dos seus últimos textos publicados no livro IMAGENS DO FORA – UM ARQUIVO DA LOUCURA, que organizamos juntos com Claudia Caimi e Luis Artur Costa. O texto que ela escreveu tem como titulo “Túmulo e palavra: “After life” para prolongar um último toque com a ponta dos dedos”. O texto começa com uma pergunta: ” Por que e para que escrever nossa perdas? ” Perscrutamos nosso intimo para dele extrair as fagulhas que alimentarão as ardências qe poderão INCENDIAR NOSSA ESCRITA”. Tania , nos deixa este incêndio vivo de vida. Deixou uma herança imensa cujas brasas precisaremos cuidar com a ponta de nossos dedos!!!!!!
Prof. Edson Luis André de Souza – PPGCLIC UFRGS
Em 2013 concluí minha dissertação de mestrado chamada “Da vida o verso: Psicanálise e Utopia na obra de Paulo Leminski”. Fiz uma foto das minhas mãos sobre a fotografia das mãos “datilografantes” de Leminski, tornando assim possível este encontro. Imaginei que Leminski poderia estar comigo (e estava, afinal!) e então, que juntos, poderíamos convidar os amigos a estarem conosco na defesa do meu (nosso) mestrado. Hoje lembrei deste momento, entre tantos outros vividos com a Tania Galli. Foi uma honra tê-la conhecido e por sua força e transgressão ter me apaixonado, desde os tempos em que fui estagiária na Oficina de Criatividade do Hospital Psiquiátrico São Pedro. Foi uma honra reencontrá-la no PPG da UFRGS e aprender mais tanto, tanto, tanto. Ela que me apresentou o abecedário de Deleuze, que me ensinou a transver e ampliar infinitamente o sentido das palavras e das coisas, que me ensinou que a força do afeto nos torna gigantes e fortes. Foi uma honra Tania ter aceitado meu convite pra compôr a banca na defesa do meu mestrado, com a orientação de outro gigante, nosso amado Edson. E hoje, depois de me despedir dela, fui tentar reencontrá-la nas palavras que ela deixou pra mim: “No convite digital para esta sessão de defesa, vemos as mãos de Roberta com unhas vermelhas. A imagem leva-nos a impressão de que tenha se colocado de pé, ao lado de Leminski, enquanto ele escrevia em sua máquina. Podemos ver que ela segura o papel preso aos engates da máquina de escrever, como se estivesse a cuidar para que o texto, durante o ato de sua escrita, contemplasse suas próprias palavras. Alí, parece-nos que Leminski escreve as palavras ditadas por Roberta. Torna-se instrumento de sua coragem para tornar público o estudo que realizou em seu Mestrado. É Leminski quem convida e se cumplicia ao ditado de Roberta. Quem escreveu esta dissertação? O que teria acontecido durante estes dois anos neste encontro entre-corpos, entre a psicanalista e o poeta? Quantas reviravoltas se fizeram para que o espaço de sua conversa possibilitasse a mistura entre os dois? Das unhas vermelhas da imagem do convite, podemos ver que nelas, por debaixo, corre um sangue vivo e quente como que a mostrar o tom de uma paixão que queimou como inferno. Roberta foi atrás de Leminski, perseguiu-os nas letras que ele deixou como suas marcas. Sabia que com os mortos, a única maneira de conversar é por uma espécie de mediunidade que exige uma entrega muito especial para que, na ficção da presença do ausente, ele se faça novamente vivo, através do empréstimo que a ele foi dado de sua própria respiração.” – e hoje, querida, sou eu quem te empresto minha respiração a cada palavra tua que vive em mim. Inspiro, expiro, piro. Inspiração, você. Inspira ação, você! E que a cada vez que eu expirar este ar, jogando no mundo tuas lembranças, que eu possa fazer ventar um pouquinho, ao lembrar da grandeza que foi tua existência. Obrigada.
Roberta Trombini Pires – Mestra em Psicologia Social – PPGPSI UFRGS
Uma voz de alcance imenso que não cessa em sua reverberação.

Hoje fiquei um pouco órfã, minha amiga e companheira de um belo trabalho se foi. A sabedoria, sensibilidade e generosidade da Tânia me acompanharão, espero saber multiplicar.
Profa. Cláudia Caimi – PPGPSI UFRGS
Tania Galli Fonseca: minha orientadora, colega de trabalho e amiga, em UMA vida! Fica nosso imenso agradecimento por sua inteligência, generosidade e inspiração.
Profa. Fernanda Amador – PPGPSI UFRGS
Ontem, dia 12 de setembro, nossa amiga Tania Galli da Fonseca foi desbravar outros ares… Sei que vou seguir pensando “o que a Tania diria sobre isto”… sempre, com o desejo de pensar com ela… Entre nossos tantos encontros, entre amores, divergências e consensos, fica, agora, uma saudade… Talvez a vida, na sua simplicidade, seja feita de encontros, sempre muito curtos quando se ama… encontros que, por serem rápidos demais, só podem se alimentar de nossas intensidades… Saudade e muita gratidão!!!
Profa. Jaqueline Tittoni – PPGPSI UFRGS
“Não invente nada que eu não autorizar” me disse uma vez Tania Galli, numa de nossas divertidas conversas por whatsapp, quando eu brincava com ela que escreveria sua biografia. Tania foi minha primeira leitora “de verdade”… Tania tinha pressa. Pressa de viver, de escrever, de ler, estudar. Quem a tem como orientadora sabe que Tania tinha avidez por ler cada linha de nosso pensamento, orientadora no sentido mais amplo do termo, uma mestre de vida. “Eu escrevo sempre para a a Tania”, me disse Juli Far. E eu concordo. Tania nunca deixou um texto sem resposta, sem um comentário, sem uma carta anexada. Quando escrevi minha dissertação, ela escrevia parágrafos imensos nos comentários, que eu entendia que tinham de ser incorporados ao texto, que depois ela mesma esquecia que os escreveu, e depois, ironicamente, comentava: que lindo isto que escreveste. Mal sabia ela que era ela mesma que havia escrito. Eu tenho muitas histórias da Tania guardadas comigo. E tenho a sorte de ter tido com ela só momentos bons, sabe aquela sensação de ter vivido tudo que foi possível junto de alguém? Mas Tania se imortaliza nas palavras, como no prefácio que ela escreveu para meu futuro livro, Hotel dos Viajantes : “Como se poderia vir a justificar o advento de uma vida? E de uma extra-vida? De uma sobrevida? Para que serve uma vida, seria realmente uma pergunta que se possa fazer?” Tania nos deixa aqui, um tanto desamparados mas certos de sua extra-vida sempre presente em suas perguntas. E com o coração pulsante enviado por ela há alguns dias no meu whatsapp, coração pulsando, sempre pulsando.
Laura Pujol – Mestra em Psicologia Social – PPGPSI UFRGS

Perda inestimável para quem com Tânia Mara Galli Fonseca conviveu
Perda inestimável para a psicologia social brasileira
Profa. Andrea Zanella – UFSC
A professora Tania Galli nos deixou hoje… Professora dos instituto de psicologia da UFRGS, a conheci já no doutorado ao cursar por 3 semestres seguidos sua disciplina Arquivo e Testemunho. Nas aulas, fui encantado com o seu modo apaixonado de fazer de cada duas horas um curso inteiro.
IRREPARÁVEL
para TANIA MARA GALLI FONSECA
Chora meu coração neste instante em que se confirma a nossa impotência diante da vida. Nossa amiga, que iluminou as obscuras dúvidas e arejou pensamentos estagnados, agora nos deixa. Mas vai deixando um rastro de lucidez e referências. Um rastro de aromas que continuarão a impulsionar novos devires, como ela gostava de incentivar.
Nossos 40 anos de confluências não é qualquer data. É realmente uma vida compartilhando intenções, ideias e afeto.
Dediquei meu livro OUTRO(S) DE MI (2012) a ela, pois uma amizade como a nossa, no mínimo, merecia uma dedicação.
E neste triste setembro de 2019, é mais que premente relembrar este momento.
para TANINHA
te quero sempre perto
começas sempre de um jeito recolhido
como se o recado fosse um breve comentário
e vais
e nesta ida paulatinamente abres
uma a uma várias seteiras
por elas entrevemos paisagens
cujo corpus potencial colore sentimentos
triplicados
pensamentos surgem
numa perdição de estranhamentos
e deslizam
escorregam ao fundo do ser
iluminando inacessíveis
poderia até dizer ser um presente
mas é mais
é doação
são buquês do teu jardim de palavras
abrindo comportas sem alarde
num efeito de magia alastrante
e passo a passo o coração se aquece
até a queimadura
por esta poiesis existencial
da tua assinatura.
Profa. Liana Timm – Aposentada FA UFRGS
Nos dois anos que trabalho na Biblioteca do Instituto de Psicologia, vi Tania apenas uma vez, durante a banca de defesa da tese de uma orientanda sua. Foi o suficiente para perceber que estava na presença de alguém incomum, alguém que, com sua existência, marca outras pessoas, com uma voz e fala que encantam e transformam.
Hoje percebi que vi e falei com ela várias vezes, na forma dessas marcas que ela deixa nas vidas de outras pessoas ali, cujas falas e escritas também me encantam e me convocam a pensar/ser de outra forma.
Tania faleceu hoje… Há tempos lutava com o câncer. As palavras do prof Edson, resgatando seus últimos escritos, mostram a imensidão dessa presença, capaz de transformar a relação com a morte em uma dança poética com as palavras.
Tania segue, nessa existência expandida, em rizoma, nas pessoas que tocou com sua presença.
Celvio Derbi Casal – Bibliotecário do Instituto de Psicologia UFRGS
Tânia era linda, suas palavras, o seu olhar. Pura potência de vida. Oferecia luz e coragem. Dava lugar, abria espaços para a vida passar. Agora que ela vai, leva um pedaço da gente junto. Mas os tesouros que ela nos ensinou tão generosa, seguem conosco. Chama ardente.
Andréa Fricke Duarte – Doutora em Psicologia Social – PPGPSI UFRGS
R.I.P. Tânia Mara Galli Fonseca
Você nos acolheu no afã de nossa juventude e nos conduziu pelas aberturas de novas práticas, na saúde do trabalhador, na expressão pelas artes, no incentivo a acreditar em outros olhares possíveis e a se lançar no futuro com ousadia e coragem. Você foi arco de tantos vôos, valorizando cada desajeitado ensaio. Sua jornada deixa o pólen e a germinação de sementes, pela seiva de generosidade de suas profundas raízes desabrochando em flor.
Maria De Lourdes Scarparo – Mestra em Psicologia Social PPGPSI UFRGS e membro da APPOA
PPG em Psicologia Social e Institucional
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