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No Brasil se fala brasileiro

A importação de expressões estrangeiras transforma a língua portuguesa falada no país

REPORTAGEM
Bolívar Cavalar
bolicavalar@gmail.com

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Não é novidade que a língua portuguesa falada no Brasil se difere da europeia e da dos demais países colonizados por Portugal. É comum, inclusive, que nós brasileiros façamos piadas das formas diversas com que alguns termos são utilizados aqui e na nação que nos colonizou. Um exemplo é a palavra “rapariga”, que para os portugueses significa “moça” e para nós é uma expressão pejorativa. Mesmo com as diferenças marcantes de como se emprega o português do Brasil em relação ao de outros países lusófonos, não nos desprendemos completamente da obra de Camões; nós apenas adaptamos a língua conforme as nossas necessidades e características.     

A cultura brasileira mescla elementos dos próprios colonizadores com traços de povos indígenas, africanos e de outros países da Europa além de Portugal. Dessa forma, ela tem na diversidade a sua natureza mais marcante, e com a língua não é diferente. Podemos nem perceber, mas há uma série de palavras e expressões que, por mais que pareçam, não são oriundas do português. Quem imaginaria, por exemplo, que o termo “líder” já foi grifado em itálico em publicações brasileiras por ter sua origem no inglês (leader)? Essa é uma palavra que se tornou tão comum no nosso dia a dia que surgiram até variações dela – liderança, liderar. 

Quando pensamos na inclusão de palavras estrangeiras no cotidiano brasileiro, é comum que os primeiros termos que venham à mente sejam de origem inglesa ou francesa. O senso comum e o preconceito costumam desconsiderar a importação de expressões africanas e indígenas. Nesse segundo caso, é irônico, inclusive, dizer que termos dos nativos desta terra são importados. Peguemos três palavras bastante utilizadas no cotidiano brasileiro: moleque, cafuné e bunda. Poucos devem saber, mas essas três expressões foram trazidas e adaptadas ao português brasileiro a partir do quimbundo, língua falada em Angola. Acontece que esses termos já estão tão intrínsecos no vocabulário da população que o fato de não serem originários do idioma dos nossos colonizadores passa despercebido.

Arte: Ditto Cavalcante

O professor do Departamento de Linguística da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Pedro Garcez explica como ocorre a inserção desses vocábulos na língua portuguesa falada no Brasil: “As palavras se acomodam rapidamente ou simplesmente desaparecem. O termo entra tanto no funcionamento corriqueiro das coisas que ele começa a ser produtivo”.  Essas expressões são o que chamamos de estrangeirismos. 

Estrangeirismo vem de estrangeiro

A noção de países independentes e de cultura nacional própria pode ser considerada natural pelo senso comum no momento em que se observa que não há um brasileiro vivo que tenha experimentado o período colonial, já que a Independência do Brasil ocorreu em 1822 e a Proclamação da República, em 1889. Apesar de todos convivermos com a existência de estados nacionais e a noção de “estrangeiros” desde o nascimento, essa é uma construção artificial e relativamente recente na história humana. Assim, a noção de estrangeirismos também é nova.

“Ideologias de linguagem vêm principalmente do capitalismo europeu industrial do século 19, que criou esta ideia de que o estado nacional moderno tem uma jurisdição sobre um território onde está uma população que constitui uma nação”, explica o professor Garcez. “Para se ter um pertencimento legítimo, esta população precisa se conformar a uma ideia de nação, que lá pelas tantas passa a incluir crucialmente uma adesão a uma ideia de que este estado tem uma língua legítima com uma delimitação relativamente explícita e, portanto, separada das outras.”

Os países colonizados por europeus tiveram os seus processos de independência e de delimitação territorial mais tardios se comparados com os dos colonizadores. A ideia de Estado português, portanto, é mais antiga que a de Estado brasileiro. O resultado disso é que a formação da identidade nacional brasileira é muito mais recente do que a das nações europeias e, com isso, a noção de pertencimento a uma certa personalidade do país ocorreu de forma mais rápida.

No dia a dia, palavras de origem estrangeira se misturam com termos lusófonos | Foto: Tábata Kolling

Debate de purificação da língua

No início dos anos 2000, um projeto de lei que previa punições a quem abusasse do uso de expressões estrangeiras dominou parte do debate público brasileiro à época. As penas previam inclusive multas em dinheiro para quem desrespeitasse essa legislação. A partir da premissa de que esse projeto buscava valorizar a língua portuguesa, o proponente da lei, o então deputado federal Aldo Rebelo (no período, no PCdoB-SP), capitalizou apoio político de setores tanto da esquerda, quanto da direita. Afinal, qual político eleito se posicionaria contrário à língua portuguesa? O debate inquietou os linguistas, que se mobilizaram para combater a aprovação do projeto de Rebelo.

O professor Garcez participou da discussão e explica que essas tentativas de barrar a importação de termos não são exclusivamente do nosso tempo. “Isso ocorre em vários momentos, e tipicamente o que acontece é que as elites se unem num movimento. É o sinal de que se tem a identificação de alguma ameaça à definição do que é a língua legítima das classes dominantes. Vem um movimento, típico da modernidade, de purificação”, afirma o linguista. É tão recorrente esse debate que o próprio Machado de Assis escreveu uma crônica em 1889 em que satirizou as tentativas da época de “limpar” a língua. 

Evidentemente a língua culta embasa o padrão linguístico e unifica de Norte a Sul o português falado pelos brasileiros. Sem essa padronização, talvez a comunicação de pessoas de diferentes localidades do país fosse dificultada. Isso não significa, no entanto, que a língua está imóvel, estagnada. Muito pelo contrário: ela está viva e, mesmo que não seja perceptível, sofre modificações todos os dias. Assim, a língua culta deve acompanhar as adaptações do que se é falado – e não o contrário.

A cultura bacharelesca de uma elite

As línguas estão em constante mutação e esse processo é natural, ainda mais em um mundo globalizado e altamente conectado pela internet. Isso não significa, todavia, que não haja exageros no uso de expressões estrangeiras – principalmente inglesas – por parte de setores da sociedade. A fim de destacar a overdose de termos anglicanos utilizados pela classe média alta brasileira, o escritor, jornalista e colunista do jornal Folha de S. Paulo Sérgio Rodrigues publicou, em 2005, o livro What língua is esta?.

“Essa língua é nossa há séculos, e a gente fala ela do jeito que a gente bem entender”  

SÉRGIO RODRIGUES, jornalista e escritor

Rodrigues explica o que motivou a publicação dessa obra: “Tanto para apontar o que havia de excesso, de ridículo nesta paixão da classe média brasileira pelo inglês quanto para entender o processo linguístico, que faz com que todas as línguas peguem empréstimos umas das outras, e que isto só as enriquece”. O autor avalia que essa paixão de setores da elite do país pelos anglicanismos se deve muito a uma cultura “bacharelesca”, que se estende desde o período colonial. Naquela época, os brasileiros mais afortunados iam à Europa para estudar e, ao retornarem, se destacavam linguisticamente da população por falarem de forma mais sofisticada e europeia. “A coisa toda é uma afirmação de uma linguagem de classe. Não é só de região, é de classe”, afirma Rodrigues.

O abuso de termos estrangeiros é facilmente observável no meio corporativo, algo que o escritor chama de “corporativês”. Rodrigues relaciona esses excessos com uma certa baixa autoestima linguística e cultural dos brasileiros – o que Nelson Rodrigues chamava de complexo de vira-lata. “Os brasileiros de classe média gostariam de ser uma outra coisa que eles não são, e a língua tem este papel de espelho da cultura muito forte”, pontua o escritor. “Essa língua é nossa há séculos, e a gente fala ela do jeito que a gente bem entender”, conclui Rodrigues. 

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Um comentário em “No Brasil se fala brasileiro”

  1. Adorei a reflexão, estou pesquisando sobre o tema para o meu mestrado. Vou procurar mais artigos e publicações do professor Sérgio Rodrigues.

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