Chegar à Tekoá Anhetenguá (Aldeia Verdadeira) é desprender-se da zona urbana de Porto Alegre e adentrar na mata preservada. Na zona leste da capital gaúcha, a aldeia Mbya Guarani integra as 725 terras indígenas existentes no país que estão em diferentes fases do procedimento demarcatório, de acordo com o site Terras Indígenas no Brasil.
Segundo o Censo Demográfico do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) registrado em 2010, 896.917 pessoas declaram-se indígenas e 57,7% habitam áreas reconhecidas oficialmente. São nesses espaços que cada povo encontra maneiras de valorizar e preservar a sua ancestralidade, perpetuando os saberes originários.
Na língua Mbya Guarani, essa forma de viver tem uma expressão específica: Nhanderekó. É um modo de ser, de relacionar-se em comunidade, de educar as crianças, de manifestar a espiritualidade, indo além do conceito tradicional de cultura e conectando todos os aspectos das experiências cotidianas em busca do bem viver.
Através do Nhanderekó tudo é percebido de forma integrada. As diversas nuances que tecem as vivências deixam de ser fragmentos e compõem juntas a compreensão sobre a realidade. Assim, a alimentação está diretamente ligada à medicina, a felicidade reflete a forma como é mantida a espiritualidade e os encontros em comunidade são essenciais para o bem-estar coletivo.
“É bem interessante a forma com que os Mbya Guarani lidam com as coisas. Para eles, uma pessoa pode ser arquiteta, curandeira, agricultora, construtora… ser várias em uma pessoa só. Não é preciso se limitar às estruturas, aos padrões de especialidades. Na verdade, nessa cultura nem é inteligente ser especialista. O melhor é ser generalista e saber de tudo um pouco. É uma consciência holística, que une tudo”, explica Francisco Lang, integrante da Yapó – Arquitetura e Engenharia Consciente, um escritório que desenvolve projetos com foco em bioconstrução e bioarquitetura e que se dedica a ações sociais junto a aldeias.
Francisco é arquiteto e convive com povos Mbya Guarani da região de Porto Alegre desde a faculdade, quando participou da construção biosustentável da Escola Autônoma Tekó Jeapó, na Tekoá Ka’aguy Porã (Aldeia Mata Sagrada), localizada em Maquiné, no Rio Grande do Sul. A partir da atividade de voluntariado – que chegava a reunir em torno de 80 pessoas por mutirão e resultou na circulação de mais de mil pessoas ao longo da atividade –, o estudante começou a trabalhar com Bruna Brilmann, Daniela Tatsch Baptista e Kleber Colombo. Remanescentes do coletivo que organizava os encontros de trabalho e vivências na aldeia, o grupo formou o escritório Yapó – Arquitetura e Engenharia Consciente para fazer da proposta em que acreditam o seu meio de geração de renda.
A Escola Autônoma Tekó Jeapó foi inaugurada em 2017 e, agora, a Yapó auxilia a Tekoá Anhetenguá, na Lomba do Pinheiro, a construir banheiros para visitantes não-indígenas. Em seu cotidiano, os moradores da aldeia não utilizam banheiros, fazendo seus dejetos em meio à mata. No entanto, a iniciativa de instalar sanitários comprova a intensa hospitalidade da comunidade e a vontade de compartilhar a sua cultura. Por isso, a intenção é partir em busca de recursos para a criação de um centro de convivência para acolher não-indígenas na Tekoá Anhetenguá.
“Estamos compartilhando os valores de conhecer o mundo e a nossa espiritualidade”
JOSÉ CIRILO PIRES MORINICO, cacique da aldeia Tekoá Anhetenguá
“A ideia da casa de visitantes surgiu na própria comunidade pela vontade de termos um lugarzinho para receber visitantes, receber os nossos amigos e acolher bem. Também queremos criar momentos de convívio entre os juruá keury [os não-indígenas] e os Mbya Guarani, para que quem passe por aqui entenda como a gente vive dentro da aldeia, o nosso dia a dia. Vai ser uma terapia para a sociedade”, conta o cacique José Cirilo Pires Morinico, liderança da aldeia Tekoá Anhetenguá.

Na Aldeia liderada pelo cacique Cirilo, as relações com os juruá keury sempre foram de proximidade. Por estar localizada ao lado da zona urbana de Porto Alegre, a Tekoá Anhetenguá costumava receber turmas de estudantes, desde as séries iniciais até alunos de faculdade, além de grupos voltados a ações sociais. Hoje, com a pandemia, a retomada desse compartilhamento de ensinamentos Mbya Guarani acontece a partir dos breves mutirões de construção do banheiro, que unem mão de obra guarani e não-indígena.
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“Por meio do mutirão, queremos valorizar as pessoas que vêm trabalhando e ajudando a nossa comunidade a terem fortalecimento espiritual, e não só trabalharem aqui. Fazemos com que ao mesmo tempo haja troca e convivência. A gente come junto, está junto, conversamos e temos liberdade para circular. É uma alegria para nós receber aqui e, por isso, uma casa de visitas vai ser tão importante. Os nossos amigos vão ser acolhidos, vão ter o banheiro, vão ter um lugar para dormir, já que dormir também é terapia. Não só dormir, mas estar aqui na aldeia já é uma terapia. E quando tem lugar para fazer foguinho, mais ainda. Estamos compartilhando os valores de conhecer o mundo e a nossa espiritualidade”, detalha o cacique.
Mbyarekó: o modo de ser Mbya Guarani
Na Tekoá Anhetenguá, a espiritualidade é o fio condutor do bem viver. A partir da Opy, um espaço de cerimônias de canto, dança, reza e cura, as lideranças da aldeia reconhecem quais caminhos devem seguir para preservar a cultura ancestral e a integridade de seu povo.
Na Opy é aceso o Petyngua, um cachimbo sagrado essencial para praticar as cerimônias na comunidade. Ele possibilita a conexão com falas sagradas e retira as energias negativas através da fumaça, purificando o espírito. O ritual mais sagrado realizado na aldeia é o Nhemongarai, uma cerimônia de fim de ano para abençoar as sementes e batizar as crianças, dando a elas o Tery, o seu nome indígena.

Além dos rituais na Opy, há noites em que os moradores se reúnem ao redor do fogo para ouvir lendas que contam as histórias dos deuses, da lua, do sol, das estrelas… Esse conhecimento é repassado oralmente de geração em geração, sempre à noite, e é guardado na memória.
A corporeidade também é importante para representar a espiritualidade Mbya Guarani. Na Tekoá Anhetenguá existem três árvores de urucum, fruto com um forte pigmento vermelho utilizado como tintura. Atualmente, os indígenas da comunidade pintam seus rostos para cantar nas cerimônias da aldeia e também para ir à cidade para vender seus artesanatos ou participar de eventos.
A música é um elemento espiritual muito presente na aldeia e há um estilo próprio de afinação dos instrumentos. Os mais utilizados pelos indígenas da Lomba do Pinheiro são o Mbaraka, um violão com cinco cordas, e o Ravé, um violino com três cordas. Para a afinação guarani, cada corda tem o seu próprio significado. Além disso, a música se aprende ao ouvir. Não há ensino, pois quem nasceu para ser músico desenvolve naturalmente essa habilidade. Esta maneira de educar através dos sentidos se aplica a todas as áreas.
“São muitos os meus aprendizados nessa convivência, que mudaram e mudam a forma com que eu ajo no mundo. O que eu percebo é que aprendi a impulsionar mais a minha capacidade de observação e menos a de ação. Todo mundo na aldeia tem uma capacidade muito grande de observação, e eu percebo nas vivências como eles são rápidos em fazer as coisas. Tu não precisa falar. Quando uma pessoa começa a fazer o fogo para cozinhar, a outra já está buscando a panela. Se eu estou precisando de sal, quando eu vejo o sal está ao meu lado. Então, é mágico. Mas, na verdade, é simplesmente quando a gente baixa a ansiedade sobre o que queremos falar, ou até como a gente quer se expressar no mundo, e percebe como o grupo se manifesta em coletividade. É incrível”, exemplifica Bruna Brilmann, integrante da Yapó – Arquitetura e Engenharia Consciente.
A história da Tekoá Anhetenguá tem mais de 25 anos e, atualmente, a aldeia ocupa 25 hectares de terras cedidas, sendo lar de 35 famílias, um total de 110 pessoas. Em suas terras, há também um posto de saúde e uma escola, com funcionários não-indígenas e indígenas.
As crianças têm atividades curriculares do Ensino Fundamental e do Ensino Médio na aldeia – que seguem as diretrizes tradicionais do Ministério da Educação (MEC) – e práticas da língua guarani. As aulas acontecem todos os dias, ministradas em português por seis professores juruá keury, que são acompanhados por seis professores Mbya Guarani. Assim, os jovens da aldeia se tornam bilíngues. No entanto, diferente das escolas na cidade, não existe obrigatoriedade de presença, porque a cultura indígena considera a importância dos aprendizados que surgem também junto da família.
“Para os povos guaranis, é insano o que a gente faz para criar as nossas crianças, trabalhando fora de casa para conseguir dinheiro para pagar alguém para cuidar dos nossos próprios filhos. Enquanto isso, no modo de vida deles, as crianças ficam próximas dos pais, principalmente da mãe, em todo o tempo. Se a mãe está trabalhando, a criança fica junto, porque ela está aprendendo com as rotinas do dia. Então, esse acompanhamento contribui para que a criança não se corrompa, que ela fique com raízes fortes, para que ela não chegue em uma idade em que não entenda onde é o passado dela”, explica Daniela Tatsch Baptista, integrante da Yapó – Arquitetura e Engenharia Consciente.
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Equilíbrio para unir conhecimentos de dois mundos
A tecnologia tem sido grande aliada dos povos guaranis e suas relações, proporcionando momentos de trocas e utilização da língua materna com indígenas de fora da Tekoá Anhetenguá.
“Por causa das tecnologias, nós temos um grupo de WhatsApp com guaranis do Brasil, do Paraguai e da Argentina, onde falamos só em guarani. Assim, podemos nos comunicar e saber de notícias dos nossos amigos de longe”, conta o cacique Cirilo.
Para trocar informações e mobilizar ações em prol da proteção de seus povos, também há grupos de WhatsApp com lideranças indígenas de outras etnias, residentes no Brasil. Mas o uso da tecnologia na aldeia ainda é tratado com cautela, para que a falta de equilíbrio não desestabilize as tradições da comunidade.
“Como em qualquer cultura, a gente tem cuidado principalmente com os jovens e com as crianças. Se vamos trazer o mundo do conhecimento ocidental para cá, temos que ver de que forma fazer isso e perceber como vão ficar as mentes delas. A gente sempre vê essas coisas com cuidado. Quando a gente sabe usar, faz bem, mas se a gente não sabe, acaba atrapalhando. Buscamos o equilíbrio para unir os conhecimentos de dois mundos diferentes: o mundo do branco e o mundo do indígena”, reconhece o cacique.
A comunicação facilitada também incentiva o transitar por comunidades, revelando cada aldeia em que permanecem como um ponto possível no seu Tape Porã, o antigo caminho sagrado.
“Os guaranis precisam ter esse movimento e eles encontraram uma maneira de preservar essa mobilidade ancestral mesmo no mundo de hoje. É impressionante que eles sempre estão conseguindo passagens, vão para a Região das Missões, para Maquiné, para Santa Catarina… A gente traduz tekoá como ‘aldeia’, mas tekoá é onde os guaranis podem viver e se expressar como cultura, independente de sua localização. Para eles, isso é viver. É importante para as relações sociais entre eles, que são muito comunicativos entre si”, explica Bruna, integrante da Yapó.
Além da integração entre os povos, cresce também a presença não-indígena na aldeia. Com objetivos também de pesquisa, os encontros têm auxiliado na atualização de concepções que se criam no senso comum e que representam erroneamente o que é a vivência indígena. O professor José Otávio Catafesto de Souza, do Departamento de Antropologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), já realizou diversas ações com alunos na Tekoá Anhetenguá, entre elas etnozoneamentos, levantamentos das situações das casas da aldeia para reivindicar planos habitacionais, trilhas em busca de artefatos preservados que datem a antiguidade da ocupação indígena no território e acampamentos para vivências mais profundas junto à cultura guarani.
“Eu convido meus alunos a virem até aqui não apenas para ter a parte prática de experiência de campo, mas para oferecer um retorno para a comunidade a partir do que estamos produzindo academicamente. Também buscamos alterar certas percepções que não são verdade, dentre elas a ideia de que cidade e índio não combinam. Na verdade, os primeiros a criarem cidades aqui no Rio Grande do Sul foram indígenas: os Sete Povos das Missões. Então, os indígenas foram os primeiros a construírem imensos prédios, com feitos em pedra, em telha, em metalurgia, em vida pecuária. Tudo isso que é entendido como o modo de vida do gaúcho, o guarani missioneiro já tinha introduzido”, contextualiza Catafesto.
Para o professor, que também é etnoarqueólogo e pesquisador, a proximidade das aldeias indígenas com a cidade não deve ser o principal ponto de preocupação.
“Muita gente tem dito que os índios estão indo a Porto Alegre, mas foi Porto Alegre que se criou em cima de aldeias indígenas. Não é à toa que eles estejam hoje ocupando um lugar onde a arqueologia mostra que seus antepassados já haviam ocupado há séculos. A única diferença é que hoje há a cidade. Mas perceba bem esse ambiente: a cidade está aqui, mas a natureza está aqui ao lado. Este morro inteiro deve ter uns seis mil hectares e é todo rodeado por ocupação urbana, mas nesse interim existe um espaço que está sendo pleiteado como área de preservação, e os indígenas estão no entorno e estão ocupando essas áreas. Então, é meio difícil chegar uma pessoa e dizer que tem índio morando em cidade, quando, na verdade, existem espaços dentro da cidade que não são cidade, por mais voraz que ela seja”, continua Catafesto.
É por esse reconhecimento que as vivências na Tekoá Anhetenguá mostram o quanto é preciso estimular a preservação da cultura indígena, sem negar a contemporaneidade de seus integrantes. Cada vez mais, são necessárias ações que acolham seus saberes como importantes contribuições para a sociedade como um todo, lembrando sempre que, de forma alguma, este é um “resgate cultural”. A cultura Mbya Guarani tem sua ancestralidade contínua, que jamais foi abandonada. Assim, o objetivo dessas experiências coletivas não é descobrir novos conhecimentos, mas sim revisitar esses antigos fazeres. É reacender a conexão das nossas relações com as nossas origens. É o despertar para uma ancestral forma de ser brasileiro.
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Adorei saber mais da história, muito lindo geito de viver, é como todos deveriam ser, uma parte do todo!! Parabéns queridos!!!