A Revolução dos Bichos ou A Fazenda dos Animais? “É alguém que me bate à porta de mansinho” ou “‘Uma visita’, eu me disse, ‘está batendo a meus umbrais’”? A obra de George Orwell, com dois títulos brasileiros em uso, e o trecho do poema O Corvo, de Edgar Allan Poe, nas traduções de Machado de Assis e de Fernando Pessoa, são exemplos dos resultados possíveis para a tradução de uma mesma obra.
No Brasil, o ranking da revista Publish News aponta que 12 dos 20 livros mais vendidos em 2023 têm autores estrangeiros, e o da plataforma Bookinfo aponta 11 entre os 20. No audiovisual, segundo dados da Agência Nacional do Cinema (Ancine), 97% do público que foi ao cinema em 2023 assistiu a um filme de outro país. Na TV paga, de janeiro a setembro do mesmo ano, 68% da programação veio do exterior, e no streaming, em 2023, 91% dos conteúdos disponíveis eram estrangeiros ou de origem não identificada. Na TV aberta, em 2016, último ano em que a pesquisa foi realizada, 15% do conteúdo tinha origem estrangeira.
Esses conteúdos possuem diversas origens, e sua tradução é indispensável para o consumo no país. “Cada projeto editorial vai solucionar aquele texto de uma maneira”, destaca Denise Sales, tradutora e pesquisadora de russo do Núcleo de Estudos de Tradução Olga Fedossejeva (NET) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Esse trabalho afetará na inclusão ou não de notas de rodapé, na linguagem utilizada e em outros aspectos. Por isso, ler diferentes traduções da mesma obra é uma forma de ampliar a compreensão sobre ela.
“É mais ou menos tentar se colocar no lugar do autor ou da autora e pensar: como essa pessoa escreveria essa obra se ela estivesse escrevendo na minha língua?”
AUGUSTO PAIM, tradutor do alemão
Tanto a língua do texto de partida, na qual foi escrito originalmente, quanto a do texto de chegada, para a qual é traduzido, carregam consigo aspectos culturais. Preservar essas diferenças mantendo a tradução compreensível para quem fará a leitura no Brasil pode ser um desafio. “O Brasil é um país multicultural que tem muitos sotaques, muitas variantes da língua, então a gente precisa ter uma definição. A gente quer aproximar mais de um português aqui do Sul, por exemplo, e utilizar a pessoa tu? Ou a gente vai pensar numa tradução mais geral e pensar no você?” , explica Liliam Ramos da Silva, tradutora e pesquisadora de espanhol do mesmo núcleo.
Escolhas
Tradutor do alemão e jornalista, Augusto Paim, que morou por oito anos na Alemanha antes de retornar a Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, define seu modo de traduzir: “É mais ou menos tentar se colocar no lugar do autor ou da autora e pensar: como essa pessoa escreveria essa obra se ela estivesse escrevendo na minha língua?”.

O conhecimento da cultura de ambos os países é essencial no momento da tradução. Denise cita como exemplo um provérbio russo em uma novela de Tchekhov. Apesar de haver um equivalente parecido em português, ela optou pela tradução literal de “cuspir no poço em que bebeu”, mantendo a imagem russa e gerando um estranhamento no leitor, um lembrete de que o texto que está lendo foi escrito em outro lugar, mas sem prejudicar o entendimento da obra.
Sotaques e diferenças no modo de falar entre personagens também representam escolhas. A pesquisadora explica que traduzir utilizando um modo de falar de uma região específica do Brasil é a opção defendida por alguns tradutores, mas isso pode localizar aquele personagem, dentro do imaginário do leitor, naquela região brasileira. Também podem ser usadas marcas para diferenciar a fala do personagem dos demais da trama sem se aproximar de uma variação específica do português.

Algumas vezes, especialmente quando há pouco tempo para elaborar uma solução, essas marcas são apagadas. Carlos Freires, paulista especializado na tradução para dublagens, conta que nos audiovisuais essa situação geralmente acontece, pois há o medo de que a substituição de dois ou mais sotaques estrangeiros por sotaques brasileiros seja considerada ofensiva, apesar de ser uma solução aceita em casos específicos, em que há maior uso do humor e da ironia, como na animação Rick & Morty. Porém, mesmo nos casos de apagamento, podem ser incluídas referências à origem do personagem ou seus costumes nos diálogos.
“A poesia se vale de jogos de linguagem, sonoridade e relações minuciosas entre coisas que, muitas vezes, são peculiaríssimas a uma única língua”
LEONARDO ANTUNES, tradutor e pesquisador da língua grega
No caso das poesias, o tradutor do grego e pesquisador do NET-UFRGS Leonardo Antunes explica: “É um terreno ainda mais complicado, pois a poesia se vale de jogos de linguagem, sonoridade e relações minuciosas entre coisas que, muitas vezes, são peculiaríssimas a uma única língua”. O objetivo principal da tradução, nesses textos, pode ser a preservação da parte estética, ou manter o sentido da informação. Há ainda a opção de buscar equivalências que permitam manter a estética adaptando o texto sem que o sentido original seja perdido, mas é necessário ter cuidado para não se afastar demais do texto de partida. Em geral, essas três soluções são usadas em conjunto e adequadas a cada situação. Liliam, que trabalha em um projeto de tradução para o espanhol das obras do poeta gaúcho Oliveira Silveira, cita como exemplo de desafio o poema Atabaques, escrito no formato dos instrumentos usados no Candomblé e com várias onomatopéias. “Todo texto tem tradução, é possível encontrar traduções, agora as onomatopéias vão permanecer. E aí a gente só vai traduzir verbos e outras partes gramaticais aqui, mas muita coisa a gente vai ter que manter”, ressalta.

As questões culturais também influenciam nas traduções simultâneas. Cristina Kahl, gerente comercial de uma empresa de traduções em Porto Alegre, explica que no momento do trabalho é levada em conta a região dos falantes: “O espanhol da Argentina, o espanhol da Colômbia, o espanhol da Bolívia, eles têm diferenças sutis entre eles. Então a gente pede para um tradutor experiente que faça. ‘Olha, isso é para a Argentina, vai ter algum tipo de nomenclatura que será usada que talvez não fosse usada se fosse para o Peru ou para a Colômbia’”.
Na tela e no som
Na tradução para a dublagem, a isocronia, ou seja, os tamanhos e ritmo das falas, devem ser considerados. Além disso, as palavras bilabiais, que começam com m, p e b, recebem atenção especial, pois o movimento bucal dos atores ao pronunciá-las pode ser percebido em closes. Risos, respirações e gritos precisam ser marcados, pois também serão dublados. Esses detalhes garantem a sincronia entre a imagem e a voz do dublador.
As adaptações feitas no texto dependem das diretrizes de cada estúdio. No caso de filmes e séries para o público infantil ou para a TV aberta, podem haver restrições no uso de algumas palavras e expressões, mesmo que estejam presentes no idioma original. No caso dos streamings direcionados ao público adulto, a regra é manter o mesmo peso do original, apesar de haver exceções – quando se busca diminuir a classificação indicativa, por exemplo.

No momento da dublagem, o dublador recebe apenas o texto referente ao seu personagem e tem em média uma hora para concluir a gravação de oito minutos de voz. Esse tempo inclui a leitura e a preparação para a cena assistindo o material no idioma original, sem conhecer a história completa. José Florêncio, dublador e professor de dublagem em um curso em Porto Alegre, explica que a intenção é passar o máximo de realidade na cena, mas em português. “A gente vai escutar o tempo de fala, a gente vai escutar a tonalidade da voz daquela pessoa, a intenção dela, e repetir em português.” Também podem ser feitas pequenas adaptações no texto, para que se encaixe melhor no tempo e movimentos dos atores, mas sem que haja mudança de sentido.
Igual ou diferente?
Liliam e Denise concordam que o texto traduzido é uma obra autônoma, apesar de manter sua relação com aquele na língua original. “Se eu pego um texto e traduzo, e eu te dou para traduzir, cada uma de nós vai fazer uma tradução diferente”, explica Liliam. “O que tu produzir vai ser um original, o que eu produzir vai ser um original, e nunca os nossos dois textos vão ser iguais”, sintetiza. Essa visão, porém, não é unânime. Leonardo entende que a tradução é uma obra autônoma quando há uma distinção em relação à obra de partida, a ponto de o tradutor ser admirado também.
Os tradutores concordam que, apesar do avanço das inteligências artificiais, será muito difícil substituir o papel humano na tradução. Além da necessidade de repertório cultural, a capacidade de perceber sutilezas também é importante. No caso da tradução para dublagem, é preciso considerar ainda a imagem junto ao som: “Como ela vai saber como um personagem está gesticulando, se ele tá franzindo a testa, se ele tá com cara de bravo, né? Porque tudo isso pode mudar o que você vai usar ali na hora, na tradução”, comenta Carlos.

Cristina considera difícil que o contato pessoal seja substituído nas traduções simultâneas: “O tradutor chega lá no evento uns minutos antes e ele vai até o palestrante se apresentar, ‘olha eu tô aqui, vou ser o seu tradutor. Tem alguma palavra que o senhor quer que eu traduza de algum jeito?’”. Perguntas como essa, ao menos por enquanto, somente podem ser feitas por um humano.
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