Sextante

A chamada dos Machado

No Quilombo dos Machado, a capoeira ensina o tempo da luta, e o maculelê, o ritmo da memória. Nas rodas formadas por crianças, a tradição e o movimento caminham juntos

REPORTAGEM
Theo Dalla | José Thiago Lemes
theocomissoli@gmail.com • thiago.ruhee@gmail.com

Arte: Ítalo Teixeira

Adolescentes carregam tambores até um galpão que aos poucos também se preenche de crianças. Algumas estão ali pela primeira vez. Sábado é dia de aprender o maculelê, uma dança afro-brasileira e indígena que simula uma luta com bastões de madeira. O professor Jamaica ensina com o corpo, a voz e a memória. A meninada, atenta aos seus comandos, inicia o ritmo: um, dois, três, quatro, um, dois três quatro… “Ô boa noite pra quem é de boa noite, ô bom dia pra quem é de bom dia, a benção, meu papai, a benção, Maculelê é o rei da valentia.” 

Apelido de Luís Rogério Machado, de 44 anos, Jamaica é uma liderança do quilombo. Sua voz ecoa sob o telhado de zinco. Com a objetividade de quem traz a história na ponta da língua, vai direto ao ponto. “Tua pergunta é como era escravidão de antes pra escravidão de agora, é isso? Mais camuflada, né? Antes eles escancaravam mais, iam lá, te matavam e pronto. Hoje, te prendem e te matam dizendo que é a lei.” 

Lugar de proteção e identidade negra, desde os tempos de Palmares, quilombo não se reduz a sua tradução literal como acampamento ou local de pouso. É ação estratégica de um experiente líder militar, é movimento hábil de um mestre capoeirista, sabedoria ancestral em meio à guerra contra a escravidão, seja a colonial ou a moderna. Nasceu sem permissão legal, mas com a legitimidade de quem luta pela vida. Esses territórios eram, antes de proclamada a república brasileira, um país. Existiram e resistiram com sua própria cultura, símbolos e armas.

O atabaque faz parte das aulas de maculelê e capoeira | Foto: Theo Dalla

“O Quilombo é simples. A nossa sobrevivência é a nossa ancestralidade e identidade mantidas. É o nosso tronco. Nós somos daqui, estamos aqui, somos assim e pronto. Somos o que veio de raiz. O que nos deixou nossa avó, bisavó, tataravó, o que preto velho deixou, Zumbi e Dandara deixaram. A nossa trajetória é ser a gente”, resume Jamaica.

Sobre a terra

Segundo o Censo de 2022, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil tem 8.441 localidades quilombolas. Desse total, apenas 147 são tituladas, cerca de 1%. No papel, 1,3 milhão de brasileiros se reconhecem como quilombolas, mas poucos têm seus territórios garantidos. Mais de 95% ainda esperam o aval jurídico daquilo que já existe há gerações. No caso do Quilombo dos Machado, que abriga 265 famílias, essa guerra já dura mais de uma década.

Emigrada do interior gaúcho na década de 1970, a família de Jamaica, assim como a de tantas outras, foi parar na periferia de Porto Alegre, no Sarandi. Ele e seus amigos  praticavam, desde criança, capoeira no terreno cheio de maricás floridos ao lado de casa. Enquanto o Sarandi se tornou um dos bairros mais populosos da capital, aquela terra úmida e espinhosa entre as vilas Respeito e Minuano foi, em 2013, reivindicada como território quilombola.

Arte: Ítalo Teixeira

Os Machado têm reconhecimento da Fundação Cultural Palmares desde 2014 e aguardam que o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) avance com o Relatório Técnico de Identificação e Delimitação (RTID), que determina o tamanho do território. Segundo Sebastião Henrique Lima, chefe do Setor de Regularização de Territórios Quilombolas do Incra, o órgão pretende apresentá-lo em junho. “Em Porto Alegre, o processo da comunidade Machado é o que está em estágio mais avançado.” 

Mesmo sendo um direito constitucional, o processo de titulação de um quilombo é lento e frequentemente interrompido por disputas jurídicas e políticas. Quando concluída, a titulação garante segurança jurídica e acesso a políticas públicas específicas, como saúde, educação e financiamento para projetos produtivos. Também impede remoções forçadas e reconhece oficialmente a ocupação histórica da terra.

“O que mais mata é o poder da caneta”, resume Jamaica. “A caneta assina: tem que acabar com o Jamaica, com a Jeneci, com o Sandro, com esse pessoal porque eles estão ali. Foi o que aconteceu com Zumbi, com Tereza de Benguela e com outros vários que tentaram deixar a ancestralidade para que a gente pudesse estar aqui hoje batendo no peito e dizendo que é quilombola.”

A casa de Jamaica também é sede do Quilombo | Foto: Theo Dalla

O tempo da ginga

Na espera pela resposta do Incra, os Machado fazem uma chamada. Na capoeira, a chamada é como uma pausa no jogo. É o momento da aproximação, o instante em que os capoeiristas se medem, trocam olhares e gestos, como quem testa o terreno antes do confronto. Não se trata de um descanso, mas de uma dança silenciosa e tensa, onde cada movimento carrega o peso da intenção. A chamada é, antes de tudo, uma estratégia. Um capoeirista se aproxima, observa o outro, testa a sua reação, sente o ritmo, como se buscasse uma brecha na defesa. Pode ser uma abertura para o ataque ou um truque para uma armadilha. É um convite, mas também um aviso. Na guerra contra o opressor, é uma arma indispensável. 

“A capoeira não é só corpo. Ela é principalmente estratégia. Ela já existia nas senzalas, antes dos quilombos, pra fortalecer essa luta”

JAMAICA, liderança do Quilombo dos Machado

A capoeira foi um dos principais instrumentos de autoproteção da população negra escravizada durante o período colonial, não só por seus movimentos de luta corporal, mas por toda a cosmovisão  que ela carrega. “A capoeira não é só corpo. Ela é principalmente estratégia. Ela já existia nas senzalas, antes dos quilombos, pra fortalecer essa luta. ‘Como vamos sair daqui e ter a gingada do dia a dia pra sobreviver?’ Aí foram criados os quilombos.” Tal qual Palmares, o Quilombo dos Machado nasceu e resiste assim: com ginga.

Vídeo: A chamada dos Machado

Esse jogo de corpos e mentes também é, em certo sentido, o que define a atual fase do Quilombo dos Machado. “Até hoje a capoeira é utilizada no dia a dia pra pensar, por exemplo, quando a gente vai atacar, quando vamos defender  e quando vamos fazer uma chamada. Nesse momento, o Quilombo dos Machado está numa chamada”, compara Jamaica. À espera, ainda sem o golpe definitivo, mas atento a cada movimento ao seu redor, o quilombo se prepara para avançar, enquanto os próximos passos – tanto nas ruas do Sarandi quanto nos corredores burocráticos do Estado – são avaliados com a precisão de um mestre capoeirista que observa o oponente. O jogo está prestes a retomar.

Da raiz ao fruto

Luís Henrike Lemos, de 12 anos, saboreia uma bergamota após a aula de maculelê. Ele é uma das crianças que frequenta as aulas há mais tempo e recebe os mais novos. “Eu gosto de brincar, correr, fazer tudo, maculelê, capoeira. Eu sou quilombola por estar aqui, por causa da minha cor que as pessoas fazem muito racismo. Eu me acho quilombola e eu vou sempre ajudar eles a lutar pra não acontecer mais racismo.” Luís  relata ter sofrido racismo na escola por parte de um colega de classe, mas não quis prestar queixa na polícia. “Não queria ver ele sofrer com isso. Minha mãe chamou a mãe dele no whats para resolver. E ele nem era branco, era moreninho.”

O ruído supersônico de um avião em decolagem interrompe a fala de Luís. O barulho é recorrente, de dez em dez minutos; quando muito, de 20 em 20. “A gente já tá acostumado, mas na época da enchente tinha mais silêncio”, recorda o menino. Ele se interessa pela câmera, começa a tirar fotos do quilombo e a nos entrevistar. Pergunta quais são nossos maiores sonhos. Quando devolvemos a pergunta, ele diz que o seu é ter um cavalo e um sítio. “Porque eu também gosto de viver como um gaúcho, só não sei onde eu vou botar [o cavalo], mas é isso que eu quero.”

Para Lucas Machado, de 13 anos, o quilombo é mais do que o lugar onde vive. “É a minha grande família”, resume. Filho de Jamaica e Tamires da Silva Antunes, também liderança do quilombo, aprendeu desde cedo que o chão onde pisa é um território em disputa e entende a responsabilidade que carrega: “É muito difícil também. Eu tô sempre com eles, lutando por aí, caminhando, porque a gente vai pra frente, mas também tem que dar dois passos pra trás”. Ainda assim, há motivos para celebrar. “Eu me orgulho dos meus pais. A gente faz muita festa pras crianças. Ser quilombola é muito bom. Brincar, sorrir, tá junto com a família. Quilombo é isso. Vale muito a pena morar aqui e ver as crianças sorrindo. É tudo pra mim.” 

No quilombo, o tempo não corre – ele gira, como roda de capoeira. A memória pulsa no chão, no som do atabaque, no brilho das crianças que aprendem a lutar brincando. A cada passo, o quilombo costura o passado e o presente com o fio da ancestralidade. E mesmo quando ameaçados, é a raiz que vence: não a que se enterra, mas a que insiste em crescer. O Quilombo dos Machado está na chamada – atento, inteiro, respirando fundo antes de avançar. E quando avançar, será com a força de quem nunca saiu do lugar de onde sempre pertenceu. 

Crianças do Quilombo dos Machado aprendem o maculelê | Foto: Theo Dalla

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