Lembrar é um exercício de eternidade. É assim que começa o prefácio do livro de memórias sobre a Colônia Africana, antigo território negro da cidade Porto Alegre. O livro, não publicado de forma oficial e cedido para a realização desta reportagem, foi escrito por Jayme Moreira da Silva, um antigo morador da região. Ele narra o dia a dia dos moradores da Colônia, assim como seus espaços de trocas e socializações. Os escritos de Jayme, que já faleceu, servem como uma lembrança de uma parte da zona central de Porto Alegre que hoje é conhecida como bairro Rio Branco.
A Colônia enquanto espaço
Os mapas de 1988, ano da abolição da escravatura, mostravam que a Colônia Africana já tinha cinco ruas traçadas: três paralelas (ruas Castro Alves, Casemiro de Abreu e Boa Vista, atual Rua Cabral) e duas transversais (ruas Mariante e Esperança, hoje Miguel Tostes). O que se sabe, por relato de antigos moradores, é que a Colônia Africana iniciava na atual rua Ramiro Barcelos e se estendia até o morro onde fica localizado o Centro Universitário Metodista, o IPA. Os registros mostram ainda que a Colônia existiu por pelo menos cinco décadas, até 1940. Mas hoje muita gente sequer sabe que ela existiu.
A professora e doutoranda em Geografia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Daniele Vieira, que mostrou os manuscritos de Jayme para a reportagem da Sextante, acabou descobrindo sobre a existência da Colônia Africana durante uma saída de campo no final da graduação, e o que inicialmente era para ser apenas uma atividade de aula se tornou seu objeto de pesquisa.

“Em 2008, foi criado pela Prefeitura de Porto Alegre um tour feito por um ônibus que percorria os Territórios Negros Afro-brasileiros da cidade. Ele era destinado às escolas públicas, mas a demanda era tão alta que acabou se estendendo à universidade, e essa era uma forma também de aumentar a formação de novos professores”, conta Daniele. “Foi nesse contexto que eu tive contato com os territórios, e, para mim, foi muito impactante, porque eu sou porto-alegrense e, naquela noite e naquele ônibus, eu descobri uma Porto Alegre que eu não conhecia.” Quando o ônibus chegou ao bairro Rio Branco, Daniele ficou espantada: “O meu maior choque foi quando eu descobri a Colônia. Lembro que fiquei me perguntando: como assim existiu um lugar chamado ‘Colônia Africana’ em Porto Alegre?”. O tour foi extinto pela prefeitura em 2017, mas ele já havia despertado o interesse em Daniele.
Em seu projeto de pesquisa no mestrado, a professora se propôs a delimitar geograficamente a Colônia Africana e outros territórios negros, como o Areal da Baronesa, a Ilhota, o Parque da Redenção e a Bacia do Mont’Serrat. Esses lugares ficavam próximos às áreas centrais da cidade, e muitos ex-escravizados e seus descendentes ali se instalaram. Em sua pesquisa, que foi inclusive premiada, Daniele mostra que esses espaços de forte presença negra foram se modificando com o passar dos anos, tanto geograficamente como socialmente. Hoje, é comum que moradores de Porto Alegre e até mesmo dessas regiões específicas da cidade não saibam que esses bairros, hoje nobres, como Rio Branco, no caso da Colônia Africana, e Cidade Baixa, como é o caso do Areal da Baronesa, eram locais onde a moradia era mais barata.

Foi com o avanço da urbanização e a valorização desses espaços que a comunidade negra foi sendo afastada para locais mais distantes, como é o caso do bairro Restinga, que nasceu como um loteamento para abrigar as pessoas que passaram a ficar desabrigadas. “A gente não tem essa memória de cidade sendo reproduzida de geração em geração. Esse apagamento não vem apenas do imaginário, mas também dos órgãos da prefeitura ou até mesmo da universidade”, afirma Daniele.
Para Daniele, a grande dificuldade da universidade é conseguir externalizar essa temática para além do meio acadêmico. “Eu não posso reclamar porque a minha dissertação, além de ser estimulada pelo meu programa de pós-graduação, foi divulgada pelos meus pares. Mas a questão que fica é: até quando isso será lembrado? O que podemos fazer para além disso?”, questiona.
Uma prática que foi adotada para reverter essa situação foi a inclusão da leitura da dissertação de Daniele em uma das matérias obrigatórias da graduação. “Acredito que isso seja apenas o começo, mas pelo menos nessa disciplina os alunos da Geografia vão saber que existe essa Porto Alegre negra”, diz Daniele.
As sociabilidades da Colônia
Apesar da Colônia ser sempre referenciada nos jornais da época apenas como um local marginalizado, cheio de violência ou crimes, antigos moradores, como Jayme, afirmavam que a realidade do local era muito diferente. “A Colônia Africana não era bairro de brigas, como muitos diziam, mas sim de muita amizade e união”, diz o autor em seu livro. De acordo com ele, ali era um espaço de muita festa, marcado principalmente pelo futebol, por festividades religiosas de matriz africana e pelo Carnaval. Em seu livro de memórias, Jayme relata que as festas da Colônia começavam em setembro e iam até a quaresma, período que antecede a Páscoa no calendário cristão.
Como era comum, na época em que existia a Colônia Africana, que clubes e associações não aceitassem pessoas negras, a formação de agremiações criadas por pessoas negras era mais uma maneira de socialização. E eram nesses espaços que aconteciam os bailes e outras festividades.
“O grande baile era abrilhantado, às vezes, por duas orquestras e bandas do Jazz, como Cruzeiro dos Irmãos Correia, mais a banda de Paulo Coelho, grande pianista de Porto Alegre e cidades do Prata. Festas bem organizadas, com vinte a trinta pares de jovens, como diretores, todos vestidos a rigor. O baile inicia às 23:00 e ia até o amanhecer. Os comestíveis e bebidas eram servidos pela madrugada, após a escolha da Rainha da Sociedade, para o próximo ano, e de seus diretores. Bebidas e aperitivos que vinham de Santo Antônio da Patrulha, muita cachaça e cerveja da cervejaria Sassem e Riter, doces da Confeitaria Rocco e empadas de camarão. Uma delícia!”, escreve Jayme em seu livro.

Na Colônia, era forte a presença de religiões de matriz africana, em especial as Casas de Nação. No livro Colonos e Quilombolas: memória fotográfica das colônias africanas de Porto Alegre, a autora, a fotógrafa Irene Santos, relata: “As Casas de Nação sempre existiram na Colônia e nos outros lugares todos onde viviam os pretos”. O antigo morador Jayme sustenta essa existência destacando a importância da mãe de santo Chininha.
“Este relato de meu avô Abel, feito em uma madrugada quando chegava de seu serviço. Lembro-me de tudo! Era uma noite com uma tempestade cheia de relâmpagos e trovões! Ele me disse: Meu neto olha lá fora. Clareava a noite, até as sete pedras de Xangô, do Morro da Piedade. Quem conhecia bem as sete pedras do Xangô era Mãe Chininha, mãe de Santo que residia nas imediações. Ela que com seus filhos de santo ali fazia suas oferendas […]. Naquele tempo, os negros se reuniam para piqueniques junto às sete pedras de Xangô para agradecer pelo atendimento de seus pedidos”, conta Jayme em seu livro.
O futebol também estava presente na Colônia. Assim como os clubes de dança, os times de futebol da elite não aceitavam negros. Segundo Jayme, a Colônia Africana foi um celeiro de craques, não só negros como brancos. Mas o autor diz que os moradores tinham sua própria liga para pessoas negras, intitulada ‘Canela Preta’.
O plano de Melhoramentos
Com o tempo, a cidade de Porto Alegre começou a se modernizar, e, em 1914, a prefeitura lançou o Plano de Melhoramentos. Nele, estavam previstas mudanças para “embelezar” a Capital. Sendo assim, lugares como a Colônia Africana foram sendo modificados e ajustados para se adequarem a essa nova cidade. A alta nos impostos fez com que muitas famílias que ali residiam se mudassem para outros bairros e até mesmo para outras cidades no entorno da capital.

“Não sei te dizer exatamente para onde cada família foi”, explica Daniele, “mas, de acordo com outros pesquisadores antes de mim, alguns moradores foram em direção ao bairro São José, mais especificamente para a rua Barão do Amazonas. Já algumas famílias acabaram indo para cidades da Região Metropolitana, como Canoas, pois lá os terrenos eram mais baratos do que Porto Alegre”. O Plano de Melhoramentos não afetou apenas a Colônia Africana, mas todos os territórios negros já existentes na cidade no pós-abolição e início da república brasileira, e a história desses espaços foi sendo apagada das narrativas oficiais da cidade.
O apagamento da Colônia também se deu pelo nome. Com as mudanças na região, o lugar passou a se chamar Rio Branco, na década de 1920, em homenagem ao Barão do Rio Branco, que foi Ministro das Relações Exteriores do Brasil de 1902 a1912. Pelo Brasil, ele atuou na Guerra do Paraguai, na Missão do Amapá e no Tratado de Petrópolis, tendo como maior legado a consolidação das fronteiras brasileiras. No entanto, a denominação Colônia Africana sobreviveu no imaginário popular até a década de1960.
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Como dar continuidade a essa história?
O ônibus que fazia o trajeto pelos antigos territórios negros em Porto Alegre foi colocado sob avaliação em 2017, na gestão do ex-prefeito Nelson Marchezan (PSDB), e até agora não voltou a funcionar. O projeto foi criado em 2008, inspirado no trajeto percorrido pelo poeta gaúcho Oliveira Silveira, um dos idealizadores do Dia da Consciência Negra no Brasil.
Em entrevista ao Jornal Sul21 em 2017, o articulador do projeto, o professor de história Manoel Ávila da Silva, explicou como funcionava o trajeto do ônibus: “A gente começava nas regiões mais antigas do Centro e fazíamos uma transição com ênfase na construção dos territórios do ponto de vista da ação dos escravizados na passagem dos períodos de abolição e pós-abolição. Então, acabava passando pela Redenção, pela Ilhota e ia até o Quilombo do Areal da Baronesa. A Colônia Africana ficava dentro desse contexto cronológico – respeitando uma logística em pontos de acesso de ônibus”.
O professor de geografia Artur Klassmann, de 31 anos, foi um dos muitos professores que utilizaram o ônibus da prefeitura para ensinar aos alunos do ensino fundamental sobre o espaço geográfico da Capital. “Eu evito usar a palavra passeio, é uma saída de campo em que os alunos precisam produzir um relatório e existe uma preparação pré-trabalho de campo e também uma reflexão pós. Eles gostavam bastante, ainda mais porque era algo além da sala de aula. Eles se interessavam em conhecer os territórios afro em Porto Alegre, pois eram locais que eles não sabiam das histórias. Então, fazer os alunos olharem para determinados locais e paisagens e fazer com que eles imaginassem como era aquela região antigamente era algo muito benéfico”, pontua.
“É preciso políticas públicas vindas dos órgãos oficiais, exposições, monumentos que expliquem aos turistas e até mesmo aos moradores de Porto Alegre o que já aconteceu naqueles espaços. É preciso fazer essa manutenção da memória”
DANIELE VIEIRA, professora e doutoranda em Geografia pela UFRGS
Em 2021, com o apoio do Sindicato dos Técnicos-Administrativos da UFRGS (Assurgs), em parceria com o Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros, Indígenas e Africanos da UFRGS (Neab) e com a prefeitura de Porto Alegre, o ônibus fez o percurso pelos territórios negros em três datas. As vagas eram limitadas e o ingresso era um quilo de alimento não perecível, destinado ao projeto UFRGS Contra a fome.
Além de ser professora da rede municipal, Daniele agora faz parte do projeto que busca a retomada permanente do ônibus pelos territórios negros de Porto Alegre, e, de acordo com ela, o poder público precisa trabalhar nesse resgate de memória. “Acho que precisa ter políticas públicas sobre a memória dessa Porto Alegre negra. Sinto que estamos indo para os 250 anos da cidade e não sei se isso vai acontecer tão cedo. É preciso políticas públicas vindas dos órgãos oficiais, exposições, monumentos que expliquem aos turistas e até mesmo aos moradores de Porto Alegre o que já aconteceu naqueles espaços. É preciso fazer essa manutenção da memória.” Porto Alegre completou 250 anos no dia 26 de março de 2022.
A Colônia Africana, assim como outros territórios negros da cidade, foi apagada e esquecida pela história e pelo poder público. No entanto, o livro de Jayme, pesquisas acadêmicas, jornais da época e relatos de moradores mostram que nada pode ser completamente esquecido.
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