Foram 48 anos dividindo a mesma cama, ouvindo as mesmas músicas e desfrutando o mesmo café da manhã. Quase meio século ao lado do mesmo amor. Aos 90 anos, Noemia Acunha de Araújo construiu uma trajetória com raízes profundas – lembranças que permanecem no cotidiano, mesmo após o falecimento do marido, João Alcebíades de Araújo. A história de Noemia é um retrato de tantas outras vidas que precisam se reorganizar após a perda de um parceiro. Mais do que uma memória individual, sua jornada revela um recomeço repleto de resiliência.
O primeiro relacionamento que Noemia viveu foi marcado por cicatrizes dolorosas, mas trouxe um presente valioso: o nascimento do seu único filho. Ainda assim, a dor deixada por essa relação fez com que ela carregasse o receio de se apaixonar novamente. Até que, em 1962, durante o trajeto diário de sua casa, na zona sul de Porto Alegre, até o trabalho, na zona norte, ela conheceu, dentro do bonde, aquele que se tornaria o grande amor da sua vida. “Eu pegava o mesmo bonde, no mesmo horário, e nós íamos para o Centro. Ele sentava de frente para mim e ficava me olhando”, relembra Noemia. O casal namorou por nove anos até “juntar os panos”. Começaram a vida a dois morando de aluguel no bairro Praia de Belas, e, depois, compartilharam o restante da vida no primeiro – e único – apartamento adquirido por Noemia, onde ela vive até hoje, no bairro Menino Deus.

Com os receios adquiridos no primeiro casamento, Noemia se casou com João somente após completar 24 anos de relacionamento e ter a certeza de que ele seria seu parceiro para sempre. “Com o casamento, não mudou nada. Ao contrário, melhorou mais ainda, e o pessoal daqui ficava pasmo”, recorda, falando da vizinhança. O ano de 1988 marcou o início de uma reviravolta na vida do casal, quando João passou por sua primeira cirurgia de próstata. O procedimento foi bem-sucedido, e, com os cuidados dedicados de Noemia, os dois puderam retomar a rotina e viver normalmente por mais 12 anos, até a chegada de 2001.
“Ele não foi só o meu marido, ele foi meu pai, meu namorado, meu noivo. Ele foi tudo”
NOEMIA ARAÚJO, viúva
Aos 70 anos, João passou por uma nova cirurgia na próstata e, pouco tempo depois, enfrentou três acidentes vasculares cerebrais (AVCs) e dois aneurismas cerebrais. Coube à Noemia a responsabilidade de cuidar do parceiro durante os 12 anos seguintes. Foram inúmeros banhos dados por ela – tanto nos verões abafados quanto nos invernos rigorosos de Porto Alegre. Diversas trocas de roupa, aplicações de creme e o constante esforço de movê-lo da cadeira de rodas para a poltrona da sala, onde passava boa parte do tempo. O cafezinho, feito com carinho, era um ritual diário para aquecer os dois.
A nova rotina seguiu até o dia 2 de outubro de 2010, data em que João faleceu. Para Noemia, foi um dos momentos mais difíceis de sua vida, mas ressalta que passaria por tudo de novo. “Ele não foi só o meu marido, ele foi meu pai, meu namorado, meu noivo. Ele foi tudo”, lembra.
Coração partido
Um estudo conduzido nos Estados Unidos pela Faculdade de Enfermagem e Inovação em Saúde da Arizona State University revelou que cônjuges que perdem seus parceiros podem enfrentar uma série de problemas de saúde. Um deles é a chamada síndrome do coração partido, que ocorre quando o coração é afetado por um estresse emocional intenso e repentino, resultando no enfraquecimento do ventrículo esquerdo. Em vez de se contrair normalmente – com o formato semelhante ao de uma flecha – , o ventrículo assume uma forma arredondada. O coração, de fato, pode alterar sua forma em resposta a uma perturbação emocional profunda, como a perda de um ente querido ou o fim de um relacionamento amoroso.
O efeito viuvez também é outra realidade amplamente estudada. Trata-se do aumento na probabilidade de morte de uma pessoa que perdeu recentemente o cônjuge. Estudos realizados pelos pesquisadores Nicholas Christakis, diretor do Laboratório da Natureza Humana na Universidade de Yale, e Felix Elwert, professor de sociologia da Universidade de Wisconsin, apontam que o risco de morte de um idoso por qualquer causa aumenta entre 30% e 90% nos três primeiros meses após a perda do parceiro, diminuindo para cerca de 15% nos meses seguintes.
Apesar da dor causada pela partida de João, a história de Noemia seguiu um caminho diferente. Embora a ciência comprove que o impacto emocional da viuvez pode afetar diretamente a saúde física e mental dos idosos, ela encontrou forças para continuar. “O que me ajudou em tudo isso foram os filhos dele, que estavam sempre comigo, e eu precisava cuidar do meu filho, que tem síndrome do pânico e esquizofrenia. Ele depende completamente de mim. Eu tive onde me segurar para seguir em frente”, conta Noemia.
Segundo a psicóloga Katy Ziegler Hias, presidente da Associação Gaúcha de Terapia Familiar (Agatef), o luto é sempre uma experiência singular, mas a perda de um parceiro de muitos anos costuma provocar um impacto ainda mais profundo. “É como perder uma parte de si”, afirma. Ela explica que, em geral, as mulheres tendem a vivenciar o luto de forma mais intensa, pois o vínculo afetivo com o parceiro costuma ser mais emocional e simbólico. “Já os homens sofrem de outra maneira. Muitas vezes, perdem a pessoa que cuidava deles, que organizava a rotina, o lar, e que dava estrutura emocional ao dia a dia”, completa Katy.
Reconstrução da identidade
Normalmente, quando se fala sobre o luto, pensa-se imediatamente nas consequências que ele pode trazer: depressão, isolamento, ansiedade. De fato, a perda de um grande amor pode desestruturar o emocional de qualquer pessoa. Maria Julia Kovács, professora sênior do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP) e membro fundadora do Laboratório de Estudos sobre a Morte, lembra, no entanto, que o luto em si não é uma doença. “Embora a pessoa possa parecer completamente desequilibrada ou apresentar muitos problemas, ela está dentro do processo de luto”, explica.
Noemia encarou a experiência do luto como uma forma de reconstruir a própria identidade. “Antigamente eu não fazia pilates, nada de exercício. Hoje eu pratico exercícios e faço fisioterapia”, conta. Além das atividades físicas, ela também valoriza os momentos de lazer e doa uma quantia mensal para projetos sociais. “Eu gosto muito de viajar, sempre participo das excursões. Gosto de comer doces, sair para almoçar e jantar com as minhas amigas. Ajudo nove instituições de caridade. Procuro sempre ajudar quem precisa”, afirma.

Maria Julia enfatiza que os vínculos construídos durante o relacionamento não são rompidos. “As raízes não vão embora, as raízes estão aí e fazem parte daquela pessoa. Ela não vai perder, vai continuar lembrando, enfim, vivendo”, destaca. Noemia segue carregando no seu dedo anelar da mão esquerda a aliança do seu casamento e mantém viva as lembranças que sempre a acompanharam.
“Graças a Deus, o João foi um marido interessado no meu bem-estar, na minha família. Até hoje eu lembro dele: o lado da cama em que ele dormia, a comida de que ele gostava. Em todo aniversário que eu fazia, ele me dava meia dúzia de botões de rosas vermelhas e uma joia pendurada. Meu eterno namorado”, conta.






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