A força do vento e do sol

Com consumo de energia elétrica cada vez maior, Brasil começa a estudar alternativas mais limpas e renováveis, como a solar e a eólica

REPORTAGEM
Daniel Giussani
danielgiussani@gmail.com

ILUSTRAÇÕES
Cerise Gomes
Tamires de Oliveira (capa)

Passava das 13h quando o avião do presidente Jair Bolsonaro pousou em Vitória do Xingu, no Pará, com destino à cidade vizinha de Altamira. A data era 27 de novembro de 2019. Acompanhado da primeira-dama, Michelle, Bolsonaro estava indo inaugurar a última turbina de Belo Monte, a quarta maior usina hidrelétrica do mundo. 

Imaginada ainda na década de 1970, Belo Monte tomou forma durante os governos de Lula e Dilma e foi comemorada por sua grande capacidade energética. A potência da usina chega a 11 mil megawatts quando funcionando ao máximo, o que significa conseguir abastecer 40% de todo o consumo elétrico residencial do país. Porém, o rio Xingu, como na batida de um coração, enche e esvazia ao longo do ano. Por isso, apesar da grande potência instalada, Belo Monte não consegue produzir sequer metade do valor estimado, já que depende das águas do rio. A maior usina hidrelétrica nacional também trouxe consigo grandes problemas socioambientais, como o deslocamento de ribeirinhos do Xingu e aumento populacional na cidade de Altamira, que causou especulação imobiliária e crescimento no índice de violência. 

Mesmo assim, foi motivo de orgulho, tanto do presidente Bolsonaro, que inaugurou a última turbina em 2019, como da ex-presidente Dilma Rousseff, que, quatro anos antes, inaugurava o funcionamento da primeira turbina. Governantes com ideologias e apoiadores muito diferentes, mas que compartilharam a mesma satisfação, durante seus mandatos, de exaltar a força das hidrelétricas no país. 

A força do sistema hidrelétrico é notável. No Brasil, são 875 hidrelétricas — algumas colossais, como a Binacional Itaipu, a segunda maior do mundo, operada em parceria com o governo paraguaio. Segundo a Empresa de Pesquisa Energética (EPE), do Governo Federal, 64,9% de toda matriz elétrica do país é hídrica.

“Historicamente, a matriz elétrica brasileira se fez pela disponibilidade do recurso hidrelétrico. Há 100 anos, o Brasil começou a investir em hidrelétrica e, até o início dos anos 2000, teve uma abundância desse recurso”, explica Elbia Gannoum, presidente da Associação Brasileira de Energia Eólica (Abeeólica).

Mas a chegada do novo século também trouxe alguns problemas para o setor. Estiagens prolongadas em 2001 e 2002 reduziram os níveis dos principais reservatórios de água no país e criaram a “crise do apagão”, obrigando o governo a começar a estudar fontes alternativas de energia. Vinte anos depois, o que se percebe é um grande aumento de potência de energia vinda do sol e do vento. As energias do futuro. 

O Sol que nos ilumina

Em uma área rural de Santo Antônio da Patrulha, no Rio Grande do Sul, 195 placas solares geram energia para cinco imóveis do empresário porto-alegrense Eduardo Winkler, de 53 anos. “Além de abastecer o consumo no local, eu utilizo a energia solar na minha casa de praia, em Atlântida, no meu apartamento em Porto Alegre e em mais três endereços comerciais que tenho na Capital”, conta. 

O sistema fotovoltaico de Eduardo Winckler, construído em Santo Antônio da Patrulha, tem capacidade para abastecer cinco imóveis de diferentes municípios | Foto: Elysia / Divulgação

Desde que começou a gerar luz pelo sol, no início do ano, Eduardo tem mudado alguns dos seus hábitos. Além de instalar iluminação noturna para seus negócios, ele utiliza o ar-condicionado de sua casa com mais frequência e está mudando o sistema de aquecimento da água do gás para o elétrico. Tudo isso, economizando cerca de 80% da conta de luz: “Antes, minha conta de luz dava cerca de R$ 10 mil por mês, contando todos os imóveis”. Segundo cálculos da Elysia, empresa que instalou a usina para Eduardo, ele deve economizar cerca de R$ 84 mil por ano e recuperar o valor do investimento em cerca de 4,5 anos. 

“[A energia solar] colabora com a meta mundial de queda da emissão de CO2 e ajuda a deixar a matriz energética brasileira mais sustentável”

LUCCAS PRIOTTO, sócio e diretor comercial da Elysia 

“Na área econômica, acredito que os números falam por si. Mas o impacto ambiental do uso de energia solar chama ainda mais atenção. Ele colabora com a meta mundial de queda da emissão de CO2 e ajuda a deixar a matriz energética brasileira mais sustentável”, explica Luccas Priotto, sócio e diretor comercial da empresa.


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A energia solar ganhou muito espaço no debate sobre a matriz elétrica brasileira, já que seus custos de instalação têm caído. Em 2015, quando houve a revisão da normativa que regulamentava a instalação de mini-usinas em casa, a procura cresceu de forma exponencial, derrubando os preços. Hoje, segundo dados da Associação Brasileira de Energia Solar (Absolar), já são cerca de 411 mil sistemas fotovoltaicos instalados pelo país na categoria “energia distribuída”, que é quando a eletricidade é gerada no local de consumo ou próximo a ele. A energia solar ainda pode ser centralizada, quando há construção de parques com placas fotovoltaicas que geram energia para distribuir a diversas residências. Além de proprietários de casas, o sistema solar tem chamado a atenção de donos de lojas, comércios e indústrias.

“Com o aumento das tarifas de luz, a procura está cada vez maior. Quando fazíamos os primeiros cálculos de retorno do investimento para uma indústria, não era economicamente viável. Nesses últimos anos, tem se tornado também viável para as indústrias, e vemos um crescimento muito forte nesses setores”, comenta Mara Schwengber, diretora da Absolar no Rio Grande do Sul.

Arte: Cerise Gomes

A percepção é correspondida pelo diretor da Elysia. Mesmo continuando a atender residências, a empresa aposta forte na instalação do serviço para outras áreas da economia.

Para os próximos anos, deve ganhar força o debate sobre a democratização desse tipo de sistema — que, apesar de já ser mais acessível, ainda é um investimento alto. Para uma conta de luz de R$ 250, por exemplo, é preciso investir cerca de R$ 20 mil. E o preço dos equipamentos não deve baixar a médio prazo: “De uns dois anos pra cá, os preços têm se mantido estáveis e até subido em função do dólar e do cenário mundial, porque existe um limite de capacidade de produção. Para o futuro, a gente tem, sim, um avanço da tecnologia no sentido de conseguir produzir mais energia por metro quadrado, mas não uma queda de preços como a que a gente viu nos últimos anos”,  fala Mara. 

Mesmo sem diminuição de preços, o Plano Nacional de Energia 2050 (PNE 2050), desenvolvido pelo governo para analisar o futuro da energia no país, prevê que a energia solar deve ter um crescimento nos próximos 30 anos. Contando apenas a energia centralizada, a estimativa é de que o Brasil chegue a 2050 com capacidade instalada entre 27 a 90 gigawatts. Em 2020, este número foi de 3 gigawatts.

O vento que nos move

Outra fonte de energia que deve crescer nos próximos anos é a eólica. Atualmente, são 621 parques eólicos no país, como o Complexo Eólico de Osório. Às margens da Lagoa dos Barros, 148 enormes cataventos tecnológicos giram pela força do vento e dão energia a 55 mil famílias. Com isso, ajudam a colocar a energia eólica no segundo lugar no ranking da matriz elétrica brasileira. Em 2019, no Brasil,  28,8 milhões de residências foram abastecidas pela força do vento. Sete anos antes, o número era de 2,5 milhões. 

Complexo Eólico de Osório começou a operar comercialmente em janeiro de 2007 | Foto: Complexo Eólico de Osório / Divulgação

“A fonte eólica é a que mais cresceu no Brasil nos últimos 10 anos e é a que mais vai crescer nos próximos 10”, destaca Elbia,  presidente da Abeeólica.

Para ela, o que justifica esse forte aumento é a competitividade econômica das novas fontes de energia, que reduziram de preço nos últimos anos: “Quando olhamos para 2002, o custo de outras formas de energia era muito alto e tínhamos uma abundância dos recursos de hidrelétricas. Não fazia sentido fazer investimento nas outras fontes. Depois, os custos de produção alternativa caíram muito. Em 2011, a eólica custava um pouco a mais da hidrelétrica. E, na medida que a tecnologia foi chegando e ficando cada vez mais competitiva, a eólica foi ganhando espaço na matriz elétrica brasileira”. 

Para o futuro, novos avanços tecnológicos permitirão ainda mais capacidade de produção da energia pelo vento. Para 2050, a fonte eólica deve atingir entre 110 a 195 gigawatts de capacidade instalada — em 2019, eram 15 gigawatts —, podendo chegar até 40% de toda matriz elétrica brasileira.

“Nada é futurístico mais, tudo é presente. O futuro está sendo contratado agora. Tudo que é futuro está sendo definido agora”

ELBIA GANNOUM, presidente da Associação Brasileira de Energia Eólica

E o setor tem outra carta na manga. Para os próximos anos, uma nova tecnologia vem aí: os parques eólicos construídos fora do continente, dentro do mar. A tecnologia offshore, como é chamada, já é utilizada em países europeus desde o início do século e deve surgir no horizonte do Brasil nos próximos 10 anos. Entre os benefícios, está a possibilidade de construir hastes mais altas e pás maiores, o que capta mais força dos ventos. “É bem razoável que, nos próximos cinco ou seis anos, já tenhamos projetos em construção”, lembra Elbia. “Nada é futurístico mais, tudo é presente. O futuro está sendo contratado agora. Tudo que é futuro está sendo definido agora.”

A empresa Orsted, da Dinamarca, inaugurou o maior parque de usina eólica offshore do mundo em 2018 | Foto: Orted / Divulgação

Cada vez mais elétrico

Seja por energia hidráulica, solar ou eólica, a verdade é que o futuro será cada vez mais elétrico. O PNE 2050 estima que o consumo de energia elétrica no país vai triplicar nos próximos 30 anos. Isso se dá pelo aumento de produtos que trabalham à base de eletricidade, como os veículos, até pelo desenvolvimento do Brasil. 


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“Cada vez que a sociedade brasileira cresce, o consumo de energia também aumenta, porque as pessoas que vão saindo da classe E, F, vão subindo para classe C, classe B, elas vão, naturalmente, tendo mais acesso ao serviço e ao consumo de energia elétrica”, explica Elbia.

Por isso, uma das soluções para atender essa demanda é a diversificação da matriz elétrica. Uma matriz que contará, cada vez mais, com a força do vento e do sol: “As hidrelétricas são muito boas para o país, porque temos os reservatórios e guardamos água e conservamos. E vamos usando eólica enquanto tem vento, usando o sol enquanto tem sol”, diz a presidente da Abeeólica . Ela acredita que combinar  o uso desses recursos renováveis  traz para o Brasil  segurança  para atender a necessidade de energia. “E são fontes que realmente estão trazendo muitos investidores, com forte desejo em investir, porque estamos caminhando para uma economia de baixo carbono. Então, investir em energia renovável é o melhor investimento.” E Elbia conclui: “Nós estamos trabalhando no negócio do futuro”. 

Arte: Cerise Gomes

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