Cyberpunk e a pílula vermelha

Arte: Yhasmin Selena

Carros voadores e robôs sobre-humanos convivem com crime, desigualdade social e exploração. Na ficção cyberpunk, tecnologia não é sinônimo de progresso

REPORTAGEM
Matheus Leite

m.r.leite@outlook.com

ILUSTRAÇÕES
Bruna Klein Lummertz
Yhasmin Selena
(capa)

Como você se sente em relação ao futuro da humanidade? Está otimista e acredita que a evolução tecnológica pode nos proporcionar ferramentas para a cooperação e solução de problemas coletivos? Ou acha que esses avanços podem nos dividir ainda mais ao concentrar tamanho poder sobre a sociedade nas mãos de poucos? Se você se identificou mais com a visão pessimista, talvez se sinta representado pelo gênero de ficção cyberpunk. 

As obras cyberpunk se passam num futuro distópico onde, apesar do evoluído estágio de desenvolvimento tecnológico, aprofundaram-se muito a desigualdade social e a exploração — e a qualidade de vida da população é péssima. Nesse universo, a tecnologia não só não resolveu problemas sociais, como inclusive potencializou alguns deles.

“Nesse subgênero, encontramos sociedades onde as fronteiras entre o real e o virtual possuem limites frágeis e há diferenças sociais que marcam as maiores preocupações do que seria o ‘avanço’ — posto que muitas das tecnologias apresentadas coexistem em cenários de destruição do meio ambiente e pobreza extrema. Desse modo, as histórias com temática cyberpunk incitam as percepções sobre as promessas fantásticas de um futuro tecnológico”, define a escritora e pesquisadora Juliane Vicente, mestranda em Comunicação e Informação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Ultraglobalização, protagonistas anti-sistema, o isolamento de um indivíduo impotente frente a um inimigo muito maior do que ele próprio, dilemas filosóficos, submundos urbanos e finais nem tão felizes também são elementos quase sempre presentes nas obras distópicas do cyberpunk. A premissa do gênero vai de encontro à filosofia do “transhumanismo”, vertente que acredita na melhora da condição humana a partir do uso da tecnologia para aumentar as nossas capacidades físicas e cognitivas. No cyberpunk, a tecnologia apenas altera as circunstâncias, só que acaba por evidenciar ainda mais os males de uma sociedade que passa a ser controlada por grandes corporações. Mas de onde saiu esse pessimismo todo?

Arte: Bruna Klein Lummertz

De onde saiu esse pessimismo todo

High tech, low life, [ou alta tecnologia, baixa qualidade de vida], é um lema que pode expressar tanto o universo cyberpunk como o descompasso histórico entre o desenvolvimento tecnológico e a falência do Estado de Bem-Estar Social

RODOLFO RORATO LONDERO, doutor em Estudos Literários

A situação político-social dos Estados Unidos da década de 1980 nos ajuda a entender como a ficção cyberpunk decolou logo após o boom de ficção científica “light” encabeçado pelo estrondoso sucesso de Star Wars, lançado em 1977. A constante ansiedade gerada pela Guerra Fria, os recordes de índices de criminalidade e o aumento do desemprego e da inflação são fatores que ajudam a explicar o crescimento do gênero durante a década. Além disso, com a eleição de Ronald Reagan em 1980, existia um receio sobre quais poderiam ser os efeitos de um capitalismo desregulado. É nesse contexto que surgem os títulos que são considerados os precursores do cyberpunk: o filme Blade Runner (1982), do diretor Ridley Scott, e o livro Neuromancer (1984), de William Gibson. Influenciado pelo caos da época, e por um avanço tecnológico já vertiginoso fomentado pela disputa entre EUA e URSS, o gênero adiciona realismo e crítica social a uma ficção que já fazia sucesso.

Capa do livro Neuromancer, de 1984. Homem com o rosto machucado e implantes cibernéticos fuma cigarro. Não é possível ver seus olhos, cobertos pelo aparelho.
O romance de 1984 foi o primeiro livro a ganhar a “tríplice coroa” da ficção científica: os prêmios Hugo, Nebula e Philip K. Dick | Foto: Editora Aleph / Divulgação

High tech, low life, [ou alta tecnologia, baixa qualidade de vida], é um lema que pode expressar tanto o universo cyberpunk como o descompasso histórico entre o desenvolvimento tecnológico e a falência do Estado de Bem-Estar Social: enquanto vivíamos — e ainda vivemos — a terceira revolução industrial, trazendo a automação para o trabalho intelectual graças aos avanços da informática, as garantias sociais desapareciam — e ainda desaparecem — no mesmo passo, devido à implementação e desenvolvimento de políticas neoliberais”, explica Rodolfo Londero, professor na Universidade Estadual de Londrina (UEL) e doutor em Estudos Literários pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). “Ocupando o vazio deixado por esses estados, que antes alimentavam a imaginação distópica de um governo controlador, a ficção cyberpunk aponta para as empresas multinacionais e suas redes financeiras, em consonância com o debate da globalização”, completa.

A arte imita a vida

Os núcleos urbanos poluídos e perigosos característicos do gênero são reflexo de um abandono dos centros das cidades que estava em curso desde o fim da Segunda Guerra. Com o fortalecimento da indústria automobilística, ganhou força, nos Estados Unidos, uma visão de planejamento urbano que priorizava a abertura de largas avenidas e construção de prédios cada vez mais altos para fins comerciais, enquanto as residências foram se afastando para os subúrbios. Essa tendência fez com que os centros fossem gradualmente sendo deixados de lado pelo poder público, o que causou um aumento na criminalidade e no número de moradores de rua, tornando os centros das cidades norte-americanas lugares temerários.

Fonte: FBI

A ambientação das cidades cyberpunk também inclui elementos do planejamento urbano japonês, e a decadência urbana tem influência da ficção policial da década de 1920. Ela retratava detetives anti-heróis, que muitas vezes agiam mais por interesses pessoais do que pelo senso de justiça, combatendo um crescente crime organizado em cidades estilo “Gotham City”, do Batman. O contexto social dos Estados Unidos na década de 1920, com crise econômica, proibição de bebidas alcoólicas e criminalidade em alta, responde por que a ficção escrita na época tinha essa cara. Foi uma mudança significativa em relação à ficção policial do século 19, que falava sobre detetives “gentlemans” e com interesses puramente intelectuais em seus casos, do tipo Sherlock Holmes. Essa literatura da década de 1920, chamada de hard-boiled, inspirou o cinema Noir das décadas de 1940 e 1950, que retrata cidades escuras, misteriosas, perigosas e com o tempo quase sempre chuvoso.

O cyberpunk também está profundamente ligado à escola New Wave das décadas de 1960 e 1970, tendência que marcou o cinema e a música, além da literatura. Na ficção, ela adicionou elementos das ciências humanas às narrativas, em consonância com as pautas de subversão e contracultura que cresciam na época, como o movimento pelos direitos civis dos negros, feminista, LGBT e hippie: todas elas “punks” no sentido de questionar o sistema estabelecido.

“Na virada para os anos 1980, essa geração punk, ou mesmo aquela herdeira da Geração Beat, e toda aquela geração de jovens contestadores nascentes nas contraculturas de décadas precedentes, parecem ter descoberto e se identificado com a ciência dos sistemas cibernéticos e midiáticos, a ponto de se estabelecerem neles e fazerem deles um lócus de ações neocontraculturais apoiadas na coletividade e no anonimato, como aquelas que podemos ver nos quadrinhos e sua tradução para o cinema de V de Vingança”, explica Lucas Moreira de Souza, professor de Letras e doutor em Cultura e Sociedade pela Universidade Federal da Bahia (UFBA).

Além da influência do cinema Noir e do movimento New Wave, os autores cyberpunk incorporaram às obras aspectos de seu próprio tempo, numa década de 1980 onde o futuro não parecia nada promissor, e os adaptaram para suas cidades fictícias num futuro (nem tão distante) que ainda sofre com os mesmos problemas, mas que é altamente tecnológico. Seus habitantes vivem sob imponentes arranha-céus de megacorporações sem escrúpulos, numa megalópole caótica cuja principal fonte de luz é o brilho de opressivos neons publicitários.

A pílula vermelha

A estética nos ajuda a identificar e representar, mas o que define realmente um gênero literário são as suas características em relação ao enredo. Vejamos dois exemplos mais recentes de narrativas cyberpunk: o filme Matrix (1999), das diretoras Lana e Lilly Wachowski, e a série Mr. Robot (2015-2019), do roteirista Sam Esmail.

O personagem principal de Mr. Robot é o programador Eliott, que trabalha para uma megacorporação bancária como engenheiro de segurança e ao mesmo tempo age por conta própria como um justiceiro virtual. Assim como Case, o protagonista de Neuromancer, ele é abordado por um grupo que o deixa sem escolha senão cometer crimes. Eliott ajuda o coletivo hacker “fsociety” a sabotar a empresa onde ele mesmo trabalhava, usando seu conhecimento interno para perdoar as dívidas de cartão de crédito de toda população. Apesar de esteticamente Mr. Robot não remeter ao retrofuturismo inaugurado por Blade Runner, que marca o gênero, e mesmo não tendo elementos de ficção científica tecnológica, a série se caracteriza como cyberpunk por retratar uma grande corporação como o inimigo a ser enfrentado, um grupo de hackers (punks) rebeldes contra o capitalismo e temas como isolamento e a batalha pessoal de Eliott para conseguir controlar a sua própria mente frente ao caos mundano e tecnológico. 

A série ainda consegue atualizar o gênero ao trazer para ele as preocupações contemporâneas relacionadas ao mundo virtual: privacidade, desinformação e saúde mental. “Em Mr. Robot não há futuro arquitetônico, tecnológico, urbano e tóxico que esteja desenraizado da contemporaneidade do século XXI, onde as corporações detém os aparelhos de vigilância que o Estado detinha”, explica Lucas.

Em Matrix, aparece novamente a subcultura hacker, representada por Morpheus e sua tripulação, desta vez lutando contra forças maiores representadas pelas máquinas que cultivam humanos numa realidade simulada. O filme também traz uma série de conceitos filosóficos ao questionar o real, sendo mais conhecido o da escolha entre a pílula vermelha ou a azul, uma analogia à alegoria da caverna, de Platão. A pílula azul representa a escolha pela ignorância abençoada, pela continuidade da vida na simulação da Matrix, enquanto a vermelha representa a opção por encarar a realidade, por mais difícil que ela seja.

Para o pesquisador Lucas Moreira, o fato de Matrix ser uma trilogia representa uma “guerra contínua”: “Nunca atingiremos um tempo futuro no qual o estado de nirvana global reinará em absoluto. São as euforias niilistas da subcultura punk que irão detonar quaisquer inclinações filosóficas de representar otimismos futuristas no discurso religioso, político ou ficcional”.

No cyberpunk, são recorrentes os debates quanto aos limites da inteligência artificial e sobre o que exatamente nos torna humanos, o que nos diferencia de uma máquina. Blade Runner, por exemplo, conta a história de replicantes (clones de humanos) que se tornam rebeldes após sentirem emoções, ultrapassando um limite para o qual eles não haviam sido programados. Além dos elementos realistas, portanto, questionamentos filosóficos sobre a relação homem-máquina e sobre a definição de vida e de indivíduo são muito presentes no gênero.

Arte: Yhasmin Selena

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Derivações

O cyberpunk também cresce no Oriente, representado pelo mangá Akira e pelo filme Ghost in The Shell. As obras japonesas têm maior foco em temas filosóficos e existencialistas, como os efeitos da tecnologia em personagens alterados por ela física ou psicologicamente por meio de biomodificações. Ao mesmo tempo, têm como plano de fundo as metrópoles sujas e caóticas que caracterizam a distopia, além de conflitos entre facções.

Em paralelo, surgiram também outros subgêneros derivados do próprio cyberpunk. O steampunk, por exemplo, viaja ao passado para recriar um cenário alternativo onde dominava a tecnologia das máquinas a vapor: “O steampunk volta-se para o futuro do pretérito, reimaginando um passado em que tecnologias fora do tempo são inseridas, buscando refletir sobre o ‘e se’ de tais ucronias, em termos de consequências sociais, culturais, políticas”, define a professora e pesquisadora Éverly Pegoraro, doutora em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Uma ucronia é uma recriação da história de forma especulativa, imaginando uma hipotética existência em realidades alternativas.

No Brasil, o tupinipunk traz às histórias temas locais e ainda adota um tom que resiste ao domínio das grandes corporações. “A ficção cyberpunk brasileira — e latino-americana em geral — explora os lugares fora do capitalismo tardio como elementos utópicos”, explica Rodolfo. O pesquisador aponta o filme Bacurau (2019), de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, como um expoente do gênero cyberpunk no Brasil: “Os lugares fora do capitalismo tardio estão muito bem representados nesse filme, desde o lugar geográfico — sertão nordestino — até o lugar da tecnologia — adaptada às necessidades locais. E eles também carregam elementos utópicos, como, por exemplo, repensar a tecnologia para além do ciberespaço onipresente”.

Este ano, o projeto “Queerpunk: contos de um Brasil plural” reuniu sete escritores de diferentes regiões do país para produzir contos que trabalhassem com estilos punk. “Nesse livro digital, todos os escritores são pessoas LGBTQ+, e as narrativas possuem personagens LGBTQ+ partindo da necessidade de protagonismo tanto na autoria quanto nas tramas”, explica a pesquisadora Juliane, uma das autoras da antologia. O dinheiro arrecadado pelo projeto via financiamento coletivo foi doado para a Casa Florescer, uma instituição que acolhe mulheres transexuais e travestis em situação de vulnerabilidade.

Homem branco vestindo chapéu de cowboy aponta fuzil. Ao fundo, uma vegetação típica da região do agreste.
O invasor imperialista (Udo Kier) em cena do sucesso de bilheteria Bacurau | Foto: Victor Jucá / Divulgação

A vida imita a arte

Não é o objetivo da literatura prever como será o futuro, mas, ainda assim, a ficção antecipou e inclusive inspirou a chegada de várias inovações. Realidade virtual, chamadas de vídeo, internet, reconhecimento facial, USBs, telas planas, superfícies touch screen… São inúmeros dispositivos e conceitos que foram retratados no Sci-Fi antes de se tornarem realidade, e com o cyberpunk não é diferente. Neste caso, para além das previsões técnicas, a própria premissa do gênero parece estar se tornando cada vez mais real: muitas profissões estão sumindo ou sendo precarizadas devido à tecnologia; as “Big Techs” Google e Facebook registram cada movimento dos usuários e têm o poder de influenciar eleições; bilionários ampliaram suas fortunas durante uma pandemia; o sistema de blockchain consome mais energia — logo, recursos naturais — do que nações inteiras; enquanto os 1% mais ricos concentram metade da riqueza do planeta, planeja-se a colonização de Marte.

“Se pensar no próprio termo quando cunhado por Bruce Bethke nos anos 1980, dizia respeito à rápida mudança tecnológica, imbuída de uma atmosfera de informações ambíguas e conflitantes. É impossível não relacionar tais características com o panorama que se apresenta a nível mundial sobre fake news e pós-verdade”, afirma Juliane. Não são poucas as evidências que levam a crer que a ficção cyberpunk pode estar se tornando uma verdade dura, mas inevitável.


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Um comentário em “Cyberpunk e a pílula vermelha

  1. Parabéns pela matéria, venho estudando sobre o universo cyberpunk e este foi o material mais completo que li até o momento.
    Tenho uma marca de roupa, sou designer de roupas e ha tempos venho desenvolvendo roupas inspiradas no cyberpunk.

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