Que futuro Deus dará?

capa

Durante a pandemia da covid-19, que modificou práticas religiosas, especialistas e líderes espirituais projetam o futuro da fé

REPORTAGEM
Carolina Pastl

carolinamlpastl@gmail.com

ILUSTRAÇÕES
Pann Couto
(capa)

Diz que deu, diz que dá
Diz que Deus dará
Não vou duvidar, ó nega
E se Deus não dá
Como é que vai ficar, ó nega
Diz que Deus diz que dá
E se Deus negar, ó nega
Eu vou me indignar e chega
Deus dará, Deus dará


“Partido Alto”, de Chico Buarque

A pandemia do novo coronavírus pôs em xeque o papel da fé no mundo. Se, por um lado, a ciência é a protagonista do momento, trazendo esperança ou angústia por meio dos noticiários; de outro, a fé é o que consola muitos dos brasileiros — e indigna tantos outros.

O fato é que a covid-19 trouxe para dentro das casas uma ameaça que os indivíduos não sofriam com tanta evidência, pelo menos nos últimos tempos: a morte. Ainda que morrer nunca tenha estado sob controle de ninguém, até um ano atrás, tínhamos alguma capacidade de organizar nossa vida a ponto de possibilitar certo nível de “prevenção”. Uma boa alimentação, exercícios físicos e uma visita regular ao médico poderiam contribuir para uma maior longevidade, por exemplo.

Com o novo vírus, tudo passou a ser desconhecido. E, até o início de abril deste ano, mais de 325 mil pessoas morreram em todo o país por essa doença. É nesse sentido que a professora e pesquisadora em psicologia da religião na Universidade Católica de Brasília (UCB), Marta Helena de Freitas, entende que a reclusão do confinamento nos tornou mais reflexivos. “A ciência contribui com a vacina ou com remédios, mas não necessariamente responde ao desespero, à ansiedade e à angústia, pois não consegue nos trazer o sentido mais profundo da vida e de todo o sofrimento, porque isso não é da sua alçada”, argumenta.


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Diante disso e por pressão de igrejas e de outras parcelas da sociedade civil, o Governo do Estado do Rio Grande do Sul incluiu, em julho do ano passado, as atividades religiosas na lista de serviços essenciais. Segundo o plano de distanciamento vigente, os cultos e missas estão autorizados a funcionar com 50% do público na bandeira amarela e 30% na laranja. No caso das bandeiras vermelha e preta, a lotação máxima é de 25% da capacidade do local.

Ainda assim, boa parte das práticas religiosas migraram para dentro de casa. “Essa foi a grande transformação do século 21. Jamais imaginamos que os templos iriam funcionar de forma virtual e percebemos que conseguimos da mesma forma professar nossa fé”, analisa o rabino da Sinagoga Sociedade Israelita Brasileira de Cultura e Beneficência (Sibra), de Porto Alegre, Guershon Kwasniewski. No caso da Sibra, não foram necessárias grandes modificações, como a compra de equipamentos, por exemplo, pois a entidade já tinha o hábito de transmitir cerimônias religiosas pelo Facebook e Youtube há pelo menos 10 anos.

Em Ijuí, no Noroeste do Rio Grande do Sul, a rotina religiosa do professor universitário André Gagliardi, de 54 anos, que é católico, mudou completamente. “Fui apenas uma vez à missa entre 2020 e 2021. Em casa, costumo ler a Bíblia e assistir às orações pelo canal Rede Vida de TV”, conta. Antes da pandemia, ia à missa todo domingo. “Mas, se eu não tivesse uma religião nesses tempos [de coronavírus], acho que enlouqueceria”, constata.

O presidente da Federação das Igrejas Evangélicas do Brasil (Fieb), pastor Ivonei Silva Jesus, avalia o momento como “desesperador”. “Como a maioria das igrejas é alugada, muitas tiveram de fechar sem receber o dízimo”, relata. “O culto online, que é transmitido pelas redes sociais, não é a mesma coisa, não tem aquele calor humano que é característico das práticas evangélicas”, acrescenta.

Arte: Pann Couto

Mas há líderes religiosos, como o presidente do Conselho Superior dos Teólogos e Assuntos Islâmicos do Brasil da Federação das Associações Muçulmanas do Brasil (Fambras), Sheikh Khaled Taky El Din, que entendem que as rezas online foram benéficas num certo sentido. “Conseguimos nos aproximar pelas redes sociais de muitas pessoas que estavam afastadas”, conta. “Ainda que não venham substituir as práticas presenciais, essas tecnologias na religião vieram para ficar”, acredita. Além das redes sociais, muitas instituições religiosas utilizam atualmente canais de comunicação, como o Google Meet, para estudos em conjunto, algo comum na prática espírita, por exemplo.

Antes e durante a pandemia

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Necessidade humana

Mesmo que haja um consenso entre religiosos e especialistas de que a pandemia tenha deixado em evidência a espiritualidade e a religiosidade no mundo, isso varia conforme o país. Para pesquisadores do Instituto Pew, de Washington, nos Estados Unidos, parte do apelo das religiões está na segurança que ela oferece em um mundo de incertezas. Não é por acaso que o mesmo instituto analisou que nações que registram maiores taxas de ateísmo tendem a ser aquelas que oferecem a seus cidadãos uma estabilidade econômica, política e existencial relativamente alta.

Duas mulheres estão de costas para a câmera e de frente para um muro. Suas cabeças encostam na parede. O rosto das duas parece estar inclinado para baixo. Entre as pedras, é possível ver papéis de pedidos enfiados no vão.
Judias ortodoxas rezam no Muro das Lamentações, em Jerusalém | Foto: Carolina Pastl

Ainda que concorde que existam oscilações de incremento ou não da fé devido à pandemia em diferentes países, o professor e pesquisador do Programa de Pós-graduação em Ciências da Religião da Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-Goiás) Alberto Moreira entende que a espiritualidade é intrínseca ao ser humano. Há historiadores que acreditam, inclusive, que essas manifestações teriam surgido entre os períodos Paleolítico e Neolítico, quando os primeiros seres humanos tornaram-se sedentários e passaram a venerar a natureza.

“Enquanto a espiritualidade é a impulsão à busca do sentido da vida – e neste processo dirige-se ao transcendente, estando ligada inclusive a uma questão de sobrevivência humana, a religião é um conjunto dessas crenças institucionalizadas em dogmas e doutrinas”, explica a pesquisadora Marta. “Talvez as religiões se modifiquem, mas a espiritualidade se mantém”, projeta Alberto.

Ciência versus religião

No entanto, o número de indivíduos que se dizem religiosos vem diminuindo ao longo do tempo. Segundo pesquisa da Associação Internacional Gallup, de Zurique, na Suíça, a quantidade de pessoas no mundo identificadas como religiosas caiu de 77% para 68% entre 2005 e 2011, enquanto o ateísmo cresceu 3%, englobando 13% da população. Já em 2017, o número de religiosos diminuiu para 62% da população global, assim como o de ateístas, que foi para 9%.

O professor universitário Miguel Gusmão, de 69 anos, de Porto Alegre, faz parte dessa última porcentagem desde os seus 14. Apesar de ter sido praticamente “criado em uma igreja”, já que seu pai era um pastor anglicano, desde muito cedo passou a ler textos de divulgação científica e mudar suas convicções. “A religião como crença está relacionada à não aceitação da morte. Não há uma forma científica de evitar a morte. Se não a aceitamos, só nos resta acreditar que haverá uma outra vida após”, argumenta.

Pensamentos como o de Miguel estão calcados numa sociedade secularizada, que é a que vivemos hoje. Mas, como lembra Marta, essa rixa entre ciência e religião data de mais tempo. “A acusação de heresia de Galileu Galilei pela Igreja Católica, as motivações da Revolução Francesa e a associação que Freud fez da religião como uma psicopatologia são símbolos desse embate”, recapitula. “Durante a pandemia no país, atualmente, estamos vivendo um momento político que acaba reforçando essa dicotomia. O governo, defendido por alguns grupos religiosos fundamentalistas, mostra desacreditar na ciência”, acrescenta.

“É uma ilusão acreditar que as religiões vão desaparecer. Elas sempre vão trazer uma resposta que a ciência não traz”

MARTA HELENA DE FREITAS, pesquisadora em psicologia da religião na Universidade Católica de Brasília (UCB)

Para Alberto, é curiosa essa desavença, já que as primeiras universidades foram extensões de conventos e mosteiros. “A ciência moderna surgiu da teologia e da filosofia, quando ‘tirou a magia do mundo’. Como não pode incluir Deus como um fator dentro do seu método, ela considera realidade apenas aquilo que pode ver, calcular e controlar”, explica o pesquisador. “[Ser religioso] não é sobre seguir cegamente dogmas criados por uma instituição. É sobre ter um relacionamento pessoal com Jesus”, argumenta ainda o estudante Matheus Konrath, de 17 anos, de Porto Alegre, referindo-se à sua religião, que é evangélica.

Jovens estão reunidos em um ambiente fechado, sentados em cadeiras de cor azul, usando máscara e olhando para a mesma direção, provavelmente para um palestrante.
Filho do pastor da Igreja Batista Brasa Zona Norte, Matheus (no centro, usando máscara branca) participa do culto de jovens desde os 15 | Foto: Arquivo Igreja Batista Brasa Zona Norte

“É uma ilusão acreditar que as religiões vão desaparecer. Elas sempre vão trazer uma resposta que a ciência não traz”, analisa Marta. “O que precisamos é ter respeito. Chegar em um consenso um dia é utopia. E isso é salutar”, concorda o presidente da Associação Brasileira dos Religiosos de Umbanda, Candomblé e Jurema (Abratu), Pai Paulo D’Oxossi.

Um país fora da curva

O Brasil também vive um crescimento do grupo de pessoas que se consideram sem religião. No entanto, a quantidade de indivíduos que se identifica como evangélico também aumenta. Para pesquisadores como Marta e Alberto, o movimento mais significativo dentro do âmbito religioso nacional é o crescimento das igrejas pentecostais e neopentecostais – como a Igreja Universal do Reino de Deus e a Renascer em Cristo. Em 2014, segundo o Instituto Pew, um em cada cinco brasileiros dizia ser ex-católico. No mesmo ano, 54% dos evangélicos disseram ter sido criados como católicos.

É o caso da professora Silvana Konrath, de 52 anos, de Porto Alegre. “Até os meus 16 anos eu era católica praticante, mas sentia que faltava algo na minha vivência religiosa. Foi em um retiro de uma igreja Batista que tive um encontro com Deus e passei a ter um relacionamento de pai e filha com o Senhor”, conta, mencionado sua troca para a religião evangélica.

Para o pastor evangélico Ivonei, casos como o de Silvana ocorrem por uma expectativa frustrada. “A Igreja Católica perdeu muitos fiéis para a Evangélica por causa da sua falta de ações com a comunidade e interações com a família”, avalia. O arcebispo metropolitano de Porto Alegre e vice-presidente da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), Dom Jaime Spengler, concorda. “Talvez nós não tenhamos conseguido transmitir nossa mensagem, e talvez falte nossa presença na sociedade, que convive com outras expressões religiosas”, observa.

Já para o diretor da Federação Espírita Brasileira (FEB), João Rabelo, essa migração, que também ocorre para o espiritismo, acontece pela busca de explicações. “A doutrina espírita dá respostas mais reconfortantes, que não se encontram nas religiões comuns”, entende.

Papa Francisco veste batina branca e se desloca pelo papamóvel cumprimentando a multidão de fiéis em Roma.
Papa Francisco cumprimenta multidão de fiéis em Roma, na Itália | Foto: Pixabay / Reynaldo Amadeu Dal Lin Junior Juba

Segundo o Instituto Pew, em 2014, no Brasil, dos que ainda se mantinham católicos, apenas 37% declararam ir à igreja ao menos uma vez por semana. No caso dos evangélicos, essa frequência era de 76%. “Se temos hoje o primeiro papa latino-americano, é principalmente por causa da competição pentecostal na América Latina”, analisou, para a BBC Brasil, Andrew Chesnut, professor da Virginia Commonwealth University e um dos autores da pesquisa. “O Brasil ainda tem a maior população católica do planeta, mas agora só 61% se dizem católicos. Em 2030, o país já não deverá ter uma maioria católica”, complementou.

Na visão do professor Alberto, a maior atração pelas igrejas pentecostais também se dá pelo desenvolvimento de uma mentalidade não conformista, de enfrentamento das dificuldades, pela valorização do indivíduo e pela atmosfera alegre dos cultos. “Isso atrai muito a juventude, inclusive”, observa. “Cada vez mais o meio evangélico tem se tornado um movimento de jovens. Grandes igrejas internacionais, como Hillsong e Bethel, atraem esse público com louvores modernos. Isso influencia as igrejas menores a se adaptarem também”, concorda Matheus.

Mas, para o Pai Paulo, o Brasil deixou de ser católico “há muito tempo”. “Nós temos um grande problema que é o preconceito e a perseguição religiosa no país. É por isso que os fiéis não aparecem. Quando vão fazer o censo, muitos dizem que são católicos, mas se fores olhar mesmo estão é dentro dos templos de umbanda, candomblé, jurema”, argumenta, referindo-se às religiões afro-brasileiras.

Falta de pertencimento

Outro movimento muito comum é a falta de pertencimento ou mesmo o multipertencimento religioso. Segundo Alberto, desde o século 18, há mudanças na sociedade ocidental, como as ciências modernas e o desenvolvimento do capitalismo, que estimularam a criação de uma consciência individual. “Nós vivemos na época do individualismo. Muitas pessoas criam para si uma religião, com partes de diferentes religiões”, explica o pesquisador. É o caso da dona de casa aposentada Libânia Garcia, de 82 anos, de Cachoeirinha, que nasceu em lar católico e, até anos atrás, frequentava uma terreira de umbanda na sua cidade. “Não vejo problema em seguir várias religiões. Acho que uma acaba complementando a outra”, relata.

Mulher usa vestido branco dança no meio de uma roda com outras mulheres usando vestido branco
Libânia (no centro da roda) participou da festa em homenagem à Ogum, na terreira Cacique Tarumã, em Cachoeirinha. O que ela mais gosta na Umbanda são as festividades | Foto: Arquivo Pessoal

É nesse sentido que muitos jovens também não têm herdado mais as religiões dos seus pais. “Até os anos 1960, era muito forte essa tradição. Hoje, a religião é de escolha do indivíduo”, observa Alberto. Para o advogado que integra o corpo diretivo da Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos (Atea) Thales Bouchaton, isso ocorre pela democratização do acesso à internet. “Mas a religião ainda é vital como respirar ou ir ao banheiro na cultura em que vivemos”, diz.

O estudante universitário Vilson Fraga Júnior, de 28 anos, de Canoas, era católico por conta da sua família, mas, depois de adulto, passou a frequentar um centro espírita. “Quando comecei a pesquisar o que representava cada religião e o que cada uma dizia, percebi que me encaixava nesta”, conta.

Já David Knijinik, também estudante universitário, de 22 anos, de Porto Alegre, se considera um judeu não praticante. “Para mim, a parte boa de ter uma religião é o senso de tradição ou comunidade que me dá. É menos o sentido de fé ou religião propriamente dito, mas de integrar um grupo com costumes e história em comum”, explica, afirmando que segue costumes judaicos, como o Pessach, a páscoa judaica em que se comemora a fuga dos hebreus do Egito.

Futuro religioso não será sobre sobrevivência

Milhares de pessoas estão ajoelhadas em volta do Caaba, edifício quadrado, predominante preto, que fica no centro de uma mesquita.
A peregrinação feita à cidade santa de Meca, localizada na Arábia Saudita, reúne milhares de muçulmanos todos os anos | Foto: Pixabay / Ekrem

Quando se fala sobre o futuro religioso do mundo, diversos especialistas entendem que não se pode desconsiderar questões demográficas. A previsão do Instituto Pew de 2015, por exemplo, indica que, a partir de 2070, o número de muçulmanos, pela primeira vez, vai superar o de cristãos em todo o mundo. Proporcionalmente, a quantidade de pessoas sem religião deve diminuir.

Uma justificativa para essas duas mudanças pode ser a mesma: a taxa de fertilidade. A média de filhos em famílias que não possuem religião mal passa de um. Já a média de filhos em famílias muçulmanas é de três ou mais. Entre os cristãos, os casais têm em média de dois a três filhos.

No entanto, Sheikh Khaled afirma não se interessar muito sobre esses dados. “Isso pode contribuir para a disseminação de discurso de ódio contra os muçulmanos. O que importa, para mim, é saber que eu estou trabalhando para divulgar a religião”, justifica.

Ainda que exista essa projeção, ela depende de muitas variáveis. É por isso que Dom Jaime projeta que haverá, sim, um crescimento do catolicismo no mundo. “Na Europa, há uma diminuição muito grande da religião e na América Latina uma estabilidade, mas na Ásia e na África têm se registrado um crescimento significativo”, analisa.

Já para o espírita João, o espiritismo será o futuro das religiões. “Nós entendemos que todas as religiões vão admitir a existência de Deus, a imortalidade da alma, a adaptabilidade dos mundos e a reencarnação”, acredita. “Nós também vamos chegar a um momento em que não iremos mais às igrejas, vamos nos encontrar com Deus dentro de nós. Algo parecido com o que estamos tendo que fazer durante esta pandemia”, acrescenta.

O rabino Guershon entende que a tendência do judaísmo é se manter. “O judaísmo não é só religião, é cultura, é política, é ideologia, é nação. Isso dá abertura para cada judeu viver o seu judaísmo conforme entender”, analisa. “O desafio é oferecer atrativos aos jovens que concorram com festas e celulares”, complementa.

E, para o Pai Paulo, o principal problema a ser enfrentado no futuro será o preconceito. “Nós precisamos estar mais unidos e perder a vergonha de dizer o que somos. Nós precisamos que as sociedades nos respeitem. Porque, senão, nós podemos desaparecer”, preocupa-se.

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