“Samu, qual a sua emergência?” É assim que diariamente a telefonista auxiliar de regulação médica Fabiana Machado, de 49 anos, atende as ligações de quem precisa do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu). São as informações coletadas nas chamadas que ajudam médicos como Régis Renosto, de 47 anos, na tomada de decisão rápida para atendimento no local. Fabiana e Régis são profissionais que, em diferentes áreas do Samu, demonstram como o tempo impacta no desfecho dos casos.
Acionado pelo número 192, o Samu é gratuito e funciona 24 horas por dia e sete dias por semana. “Sabemos que a pessoa só liga se realmente está precisando. Afinal, estamos trabalhando com vidas”, diz Fabiana. “A empatia é fundamental nesses momentos para dar o direcionamento correto e ágil.” Na profissão há seis anos, ela é responsável por reunir o maior número de informações no menor tempo possível, incluindo a queixa principal, o endereço, pontos de referência, idade e nomes do solicitante e do paciente. Tudo isso em um momento de extrema tensão para quem está ligando, o que torna a tarefa ainda mais desafiadora.
O tom da voz é fundamental. É necessário mantê-lo calmo, mas firme. Os telefonistas do Samu não passam informações e orientações sobre primeiros socorros. Quem desempenha essa função é o médico regulador, responsável pela avaliação, questionamentos mais específicos, recomendações por telefone e definição do envio da ambulância e equipes ao local do ocorrido. Tudo isso – sempre – em questão de segundos.
Fabiana atua na Central de Regulação do Samu Estadual, situada na Avenida Bento Gonçalves, em Porto Alegre. Local onde, a todo momento, os telefonistas recebem chamados de socorro de mais de 260 municípios da região metropolitana e do interior do estado. Segundo a Secretaria Estadual da Saúde, o tempo médio de espera é de um a dois segundos para o telefonista atender ao chamado. Somente em 2024, mais de 865 mil ligações foram feitas ao serviço.
No entanto, nem todas viram atendimentos concretos. Existem as ligações falsas, popularmente conhecidas como trotes, que chegaram a quase 14 mil ocorrências no ano passado. “Ainda tem bastante trote nos dias de hoje, o que prejudica não só o nosso serviço, mas toda a população. Nesses casos, a experiência é uma grande aliada para nos ajudar a identificar quando não se trata de uma ligação de quem realmente precisa de atendimento”, afirma Fabiana.
Também há quem ligue solicitando informações, e algumas chamadas são por engano, quando a pessoa precisa de outro serviço público, como Brigada Militar ou Corpo de Bombeiros. Ainda assim, o número de ligações que, de fato, foram repassadas para profissionais para a realização de atendimentos é expressivo, totalizando mais de 357 mil chamados atendidos no último ano. Ou seja, uma média de quase mil atendimentos por dia.

Existem quatro cidades do estado com regulação própria: Caxias do Sul, Bagé, Pelotas e Porto Alegre, que possuem centrais e atendem municípios próximos. Porto Alegre tem uma particularidade: possui uma central, onde Fabiana trabalha, que atende a região metropolitana e o interior, e outra responsável apenas pelas ocorrências de urgência dos moradores da Capital.
Conforme o Ministério da Saúde, é recomendado ligar para o Samu em situações como problemas cardiorrespiratórios, queimaduras graves, crises convulsivas e intoxicação alimentar causada pela ingestão de produtos tóxicos ou envenenados. Além disso, o 192
deve ser acionado em caso de suspeita de infarto ou acidente vascular cerebral (AVC), acidentes ou traumas com vítimas e trabalhos de parto em que haja risco de morte para a gestante ou para o bebê.
Sempre a postos
Um dos municípios atendidos pelo Samu Estadual é Gravataí, cidade da região metropolitana de Porto Alegre, localizada a 30 quilômetros da Capital. Mensalmente, são realizados 900 atendimentos no município, uma média de 30 por dia, mas esse número pode variar conforme a época. De dezembro a março, período marcado por festas noturnas e temperaturas altas, há uma elevação de ocorrências em função de acidentes de trânsito de afogamentos. Já durante o inverno, o aumento é explicado pelas doenças respiratórias sazonais, como gripes e resfriados.
“Independentemente da situação, cada segundo importa. O maior desafio daqueles que atuam na emergência é tomar a decisão mais assertiva e de forma rápida para intervir na situação que o paciente está necessitando”, afirma Régis, diretor-médico do Samu de Gravataí. Com 18 anos dedicados ao serviço na cidade, o profissional explica que rapidez, cuidado e resolutividade são conceitos-chave para o sucesso das ocorrências.
A meta do tempo de resposta para atendimento em qualquer local da cidade é de dez minutos, desde o momento em que a Central de Regulação Estadual recebe a ligação até a chegada da ambulância. Em casos mais emergentes, como as paradas cardiorrespiratórias, a agilidade é ainda mais necessária, pois cada minuto que passa significa queda de até 10% na possibilidade de uma reanimação efetiva.
Tempo crucial
Outro tipo de ocorrência que necessita de suporte imediato para não agravar ferimentos e complicações são os acidentes de trânsito. No dia 11 de setembro de 2025, a equipe do Samu de Gravataí recebeu um chamado para atender uma colisão de veículos na Avenida Itacolomi, distante três quilômetros da base onde ficam os profissionais e as ambulâncias. Com um carro comum, esse percurso é feito em 6min47s. Com sirenes ligadas e eficiência na condução, foram exatos 3min38s para a ambulância chegar ao destino.

“Toda a equipe deve estar mobilizada para que o desfecho seja o melhor e mais rápido possível. Nesse sentido, a ação dos motoristas é fundamental para garantir a pronta
assistência”, explica Régis. Engana-se quem pensa que os condutores ficam restritos a dirigir as ambulâncias. Com preparação garantida por cursos e capacitações, eles também auxiliam no apoio aos primeiros socorros.
“Nunca vou me esquecer do giroflex da ambulância ligado. Não sabia onde estava e o que tinha acontecido, mas ver a equipe do Samu no local me acalmou. Eles são heróis para mim”
MARIA HELENA QUOOS, enfermeira atendida pelo Samu
Régis conta que 75% dos casos atendidos são de pacientes com infarto, AVC e problemas respiratórios, e 5% são de atendimentos psiquiátricos. O restante corresponde a situações envolvendo traumas e acidentes de trânsito, como o vivenciado pela enfermeira e professora da Faculdade Moinhos de Vento Maria Helena Quoos, de 30 anos.
Era 23 de janeiro de 2020, uma quinta-feira à noite, quando o carro em que Maria Helena estava saiu da pista e capotou na ERS-020, rodovia que inicia em Gravataí e se estende por 260 quilômetros até São José dos Ausentes, na divisa com Santa Catarina. “Nunca vou me esquecer do giroflex da ambulância ligado. Não sabia onde estava e o que tinha acontecido, mas ver a equipe do Samu no local me acalmou. Eles são heróis para mim”, enfatiza.

A profissional de saúde havia feito estágio no serviço de urgência gravataiense, então conhecia as pessoas que a atenderam durante a ocorrência. O acidente causou a morte de três pessoas da família dela: mãe, avó e tio. “Saber que foi feito tudo que poderia ter sido feito e no menor tempo possível minimiza o luto. A importância deles foi essencial para que eu continuasse viva.”
Em situações de traumas, tanto físicos quanto psicológicos, o tempo é determinante para que o desfecho seja o mais adequado e menos danoso ao paciente. Cinco anos depois do acidente, a enfermeira entende que o atendimento foi conduzido da forma como os protocolos de saúde ordenam. Para a vida dela e de milhares de pessoas atendidas Brasil afora pelos profissionais do Samu, o tempo de chegada faz toda a diferença.
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