Construindo Janelas

Arte pauta Isabela. Jess Endres.
Título: Janelas. Técnica: Arte digital. Data: outubro/2020. Artista: Jess Endres

Tarefas relacionadas ao lar, inclusive construções e reformas, são historicamente parte do papel social da mulher, mas o protagonismo na construção civil é um fenômeno novo e crescente

REPORTAGEM
Isabela Ribeiro
isabelarcarraro@gmail.com

ILUSTRAÇÃO
Jess Endres

Com a pandemia do Covid-19, as janelas passaram a fazer ainda mais parte do nosso cotidiano, viraram narrativa, ponte entre a gente e a rua. Viraram histórias, projetos fotográficos e reportagens de revista.  Mas de onde vêm essas janelas? De quem vêm?

Vamos do começo. Como fazer para instalar uma janela? “Tu vai abrir a espessura do tamanho da janela que tu comprou”, conta Jaqueline Lima. Depois de ajustar o tamanho do vão à medida da janela que será instalada, é necessário colocá-la na abertura da parede e, com o auxílio de um nível, deixá-la reta. O próximo passo é “chumbar” a janela com massa ou espuma expansiva. “Hoje em dia estão usando mais espuma. Assim que passar 24 horas, ou o que está nas informações da tua espuma, tu raspa com estilete [os excessos de espuma]. E faz o acabamento com os marcos.”

Segundo Jaqueline, pedreira, 29 anos, esse é o método mais comum para instalação de janelas e portas. Mas atualmente existem incontáveis modelos de janelas e, portanto, incontáveis técnicas para instalá-las. Existe também uma cadeia produtiva imensa, que representava, em 2019, antes da pandemia e da retração na economia, 6,2% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro, com faturamento de mais de 1 trilhão de reais por ano de acordo com o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae). Jaqueline, inclusive, é uma das mais de 240 mil mulheres que trabalham com construção civil no país segundo pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2018.

“No físico não tem dificuldades, porque a mulher é capaz de tudo. A mulher é forte. Dizer que a gente não vai aguentar? A mulher aguenta. A mulher aguenta tudo. De dificuldade psicológica, de ter outra pessoa, de se relacionar com colega de trabalho, com homem”

JAQUELINE LIMA, pedreira

Jaqueline fez uma capacitação, em 2015, oferecida pela Mulher em Construção, uma ONG que forma mulheres na área da construção civil. Ela morava em Balneário Pinhal, mas, quatro meses depois, recém divorciada, mudou-se para Porto Alegre para trabalhar na área. No físico não tem dificuldades, porque a mulher é capaz de tudo. A mulher é forte. Dizer que a gente não vai aguentar? A mulher aguenta. A mulher aguenta tudo. De dificuldade psicológica, de ter outra pessoa, de se relacionar com colega de trabalho, com homem.Embora tenha entrado para o ramo da construção civil profissionalmente em 2015, a relação de Jaqueline com a profissão é mais antiga. Desde os 18 anos ela trabalhava como ajudante de pedreiro do tio. “Ele me dá muito apoio para seguir em frente. Eu ligo para ele para pedir orçamento, ver o que ele acha, o que tem que ser feito. Todas as minhas dúvidas tiro com ele.” Hoje os dois não trabalham mais juntos, mas foi ele o grande incentivador de Jaqueline. “Todas as vezes que eu me machuco, eu digo para ele: ‘ah, tu que é o culpado do meu machucado, porque tu que me largou na construção civil’”, conta.

Obra sempre foi lugar de mulher
Faltava Luz. Munique Brum.
Ilustração: Munique Brum

Apesar de o debate de gênero na construção civil estar ganhando foco nos últimos anos, as tarefas relacionadas ao lar, inclusive construções e reformas, são historicamente parte do papel social da mulher. Nem sempre visto como um ofício, esses serviços eram considerados como mais uma das obrigações da mulher com a sociedade, a sua casa e a sua família. É o que Luisa Duran, professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e pesquisadora de história da arquitetura e urbanismo ressalta: “Tu não pode dizer que agora as mulheres se tornaram engenheiras. Milenarmente e em outras culturas, as mulheres são as donas das casas, e ser as donas quer dizer que são elas que fazem e consertam as casas e interferem mais que os homens.”

Mesmo sendo a casa historicamente um espaço da mulher, o protagonismo das construções não costumava ser. É o que algumas iniciativas, como o Coletivo Arquitetas Invisíveis, têm reivindicado. O grupo levanta dados e divulga nomes de arquitetas que tiveram a autoria de construções negadas. Os trabalhos, em geral, eram atribuídos a seus esposos. Luísa diz que essa invisibilidade é histórica: “Houve um apagamento das autorias das arquitetas mulheres. As mulheres ‘anônimas’ sempre estiveram presentes na construção das casas. Sempre nos deixam esquecidinhas, mas sempre estivemos lá”.

“Houve um apagamento das autorias das arquitetas mulheres. As mulheres ‘anônimas’ sempre estiveram presentes na construção das casas. Sempre nos deixam esquecidinhas, mas sempre estivemos lá”

LUISA DURAN, professora da UFRGS e pesquisadora de história da arquitetura e urbanismo

Bia Kern, fundadora da ONG Mulher em Construção, também acredita que a relação das mulheres com a construção civil não é algo novo. Durante as grandes guerras, as mulheres passaram a fazer serviços antes tidos como masculinos, como trabalhar na indústria. “E não somente as mulheres foram trabalhar na Indústria. Tem uma ponte em Londres que foi destruída no período da guerra e os maridos não tinham como voltar, então as mulheres foram lá e construíram a ponte. Isso há mais de 100 anos.” 

Em reconstrução

A ONG Mulher em Construção, criada em 2006 em Canoas, no Rio Grande do Sul, busca trazer a independência econômica e devolver a autoestima e os direitos das mulheres através da construção civil. Para isso, a iniciativa desenvolve em suas capacitações o pensamento crítico com relação à sexualidade, autoestima, empoderamento e relações interpessoais no local de trabalho. A iniciativa, que completa 14 anos, já atendeu mais de 5 mil mulheres com cursos e oficinas de capacitação em diferentes áreas da construção civil e impactou mais de 20 mil pessoas de forma indireta.

“Toda vez que a gente estimula a participação das mulheres na construção civil, deixamos elas prontas para outras esferas também. A partir do momento que quebra o paradigma, a mulher entende que ela é uma cidadã e que pode participar. O sentimento de participação é que é importante, em todos os níveis”

BIA KERN, fundadora da ONG Mulher em Construção
A atenção aos detalhes é um dos diferenciais dos serviço prestados por mulheres | Foto: Acervo Pessoal

Para Bia, levar conhecimento sobre construção civil para mulheres cria uma cadeia produtiva, que estimula também suas famílias e a sociedade através da geração de renda e da autonomia feminina. O espaço de trabalho e aprendizado da ONG também é usado como instrumento de empoderamento e enfrentamento de violência doméstica: “Na realidade, nós não empoderamos, mas ela se empodera da situação e vê que tem direitos, que ela não pode efetivamente ficar sofrendo ainda sob o abuso que está padecendo.” Por isso as oficinas acabam extrapolando as questões da construção. “Toda vez que a gente estimula a participação das mulheres na construção civil, deixamos elas prontas para outras esferas também. A partir do momento que quebra o paradigma, a mulher entende que ela é uma cidadã e que pode participar. O sentimento de participação é que é importante, em todos os níveis”, diz Bia. 

Segundo Jaqueline, que é também uma das instrutoras dos cursos da Mulher em Construção, parte fundamental do empoderamento das mulheres atendidas é estarem em um ambiente feminino. O que auxilia psicologicamente na reconstrução da autoestima ainda durante os cursos.  “Tu passa dois dias com uma mulher, capacitando e mostrando para ela que ela é empoderada e que ela pode; que ela não precisa depender de ninguém. Levanta a autoestima da mulher entrar na construção civil e se empoderar com outras mulheres.”  

Uma questão de segurança

Jaqueline acredita que uma das principais razões do aumento da procura por mão de obra feminina é a segurança. É comum que os clientes fiquem muito satisfeitos com a oferta de mão de obra exclusivamente feminina. Inclusive, é frequente que se sintam mais confortáveis de contratar serviços feitos por mulheres: “Às vezes a gente tá trabalhando, tem criança na casa e os clientes largam, deixam a gente reparando. Tem aquela confiança de que é uma mulher que tá ali dentro”.

Outro fator que influencia a contratação de mulheres na construção civil é a atenção aos detalhes e o cuidado. Para Bia, isso pode ser atribuído tanto aos seus potenciais individuais, quanto à valorização da profissão e ao comprometimento. “A mulher enxerga o que está errado. Isso fez com que elas fossem estimuladas, claro, mas as empresas começaram a ver que a mulher tinha esse potencial e que a força física não é o complemento principal de uma obra, ainda mais com a tecnologia de hoje.”

Pensando na inserção no mercado de trabalho e na oferta de serviços exclusivamente femininos, foi criada a Casa Rosa, a primeira cooperativa de trabalho da construção civil formada apenas por mulheres. A iniciativa é de alunas e ex-alunas da Mulher em Construção e de outras profissionais da área. O grupo aposta na autogestão e autonomia, além da qualificação profissional, para o fortalecimento das mulheres no mercado de trabalho. Além da Casa Rosa e da Mulher em Construção, no Brasil existem outras organizações que oferecem mão de obra e formação exclusivamente feminina. Como a mineira Arquitetura na Periferia, que capacita mulheres em instalação, reforma e construção de suas próprias casas, e a baiana Entre Minas, que oferece serviços de profissionais mulheres em reparos residenciais e marcenarias, além de oficinas que fortaleçam a autonomia feminina.

Jaqueline (à esquerda) e outras integrantes da ONG Mulher em Construção em serviço prestado para a Delegacia da Mulher de Porto Alegre | Foto: Acervo Pessoal

As iniciativas em construção civil especializadas em mão de obra feminina geram novas formas de renda e criam redes de apoio entre mulheres. Além disso, esses espaços dão destaque para suas vivências e fomentam debates a respeito das realidades enfrentadas pelas mulheres na sociedade. Foram esses espaços de reflexão e acolhimento que fizeram Jaqueline querer transformar suas vivências na Mulher em Construção em uma nova profissão, não mais na área da construção civil: “Eu tenho 29 anos e nunca pensei em fazer uma faculdade. Mas hoje a ONG me ajudou muito a pensar e a ver a realidade de outras mulheres, então eu quero muito ser assistente social. Eu quero muito trabalhar com isso. Para ajudar outras mulheres na violência e prepará-las para o mundo e dizer que elas têm uma rede de apoio.”

Isabela.
Luisa Duran, pesquisadora de história da arquitetura e urbanismo, tem o costume de fotografar janelas como esta em Laguna, SC | Foto: Luísa Duran / Arquivo Pessoal

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