Da terra ao prato

Oferecer alimentos acessíveis com distribuição em diversos pontos da cidade é o principal objetivo das feiras na capital gaúcha. Com a Covid-19, as novas regras de operação  mudaram o dia a dia de quem trabalha e de quem frequenta esses locais

REPORTAGEM
Fernanda Peron
speronfernanda@gmail.com

ILUSTRAÇÃO
Borga

De acordo com a Prefeitura de Porto Alegre, existem 35 Feiras Modelos com 92 feirantes e sete Mercadões do Produtor com 106 vendedores, além de briques, hortomercados e feiras ecológicas que acontecem toda semana em diversos pontos da cidade. A engenheira agrônoma e chefe do Setor de Feiras da Coordenação de Fomento a Atividades (CFA), vinculada à Secretaria Municipal do Desenvolvimento Econômico (SMDE), Frydda Leonardi Monteiro, aponta a relevância dessas atividades no dia a dia da capital gaúcha. “As feiras de hortifrutigranjeiros são de extrema importância no que tange ao abastecimento da cidade. Por serem realizadas em diferentes bairros, ocorre a descentralização da comercialização e, com isso, a facilidade da chegada de produtos aos consumidores.” O Largo Zumbi dos Palmares, também chamado de Largo da Epatur, na Cidade Baixa, recebe a Feira Modelo, nas terças-feiras, e o Mercadão do Produtor, aos sábados. 

Da janela da minha casa, dá para ver essa feira. Toda terça-feira à tarde e todo sábado de manhã, as barracas laranjas se armam e se enchem de vegetais, pães, cores e pessoas. Considerada como serviço essencial, a feira é um escape, um respiro ao ar livre na semana de isolamento, mas também um assombro nos momentos em que fica lotada. Ela representa ao mesmo tempo a liberdade da rua e o medo de uma doença que já tirou a vida de milhares de brasileiros. Mas a feira é também uma boa alternativa para o bolso. Durante a pandemia do coronavírus, os alimentos básicos subiram de preço: com a alta do dólar, as indústrias estão exportando mais e vendendo menos para o mercado interno. E comprar direto do produtor ajuda tanto quem produz quanto no bolso de quem consome.

“Com a pandemia, sobrou tempo, e eu consegui passar a ir. Tem também a questão financeira. Além de ser mais barato, as coisas duram mais e se joga menos fora. Politicamente também acho mais interessante, porque aproxima o consumidor do produtor, além de fortalecer a agricultura familiar e local”

ISABELA BALCONI, estudante de publicidade que retomou o hábito de ir à feira

Com o início da pandemia, novos frequentadores redescobriram esse estilo de compras, como Isabela Balconi, que cresceu acompanhando sua mãe na feira ecológica da Redenção. Agora, com 23 anos e depois do início da quarentena, adquiriu novamente esse hábito. “Com a pandemia, sobrou tempo, e eu consegui passar a ir. Tem também a questão financeira. Além de ser mais barato, as coisas duram mais e se joga menos fora. Politicamente também acho mais interessante, porque aproxima o consumidor do produtor, além de fortalecer a agricultura familiar e local”, pontua a estudante de Publicidade e Propaganda da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) .

Se para Isabela a feira foi uma redescoberta de um hábito antigo, para Ana Carolina Amin Molossi, de 19 anos, significou a adaptação de uma rotina que já existia. A estudante de cursinho pré-vestibular costuma frequentar a feira do Largo Zumbi dos Palmares desde antes do início da pandemia e também preza pelo não desperdício. “Vou nas terças-feiras, no horário de menor circulação. Assim, consigo comprar aquilo que como em uma semana e não estraga nada, além de que é a minha saída para dar uma caminhadinha e ver gente”, aponta Ana Carolina.

Feira de noite. Pauta da Fernanda.
Nas terças-feiras, as barracas laranjas seguem vendendo produtos até o início da noite | Foto: Fernanda Peron
Novas regras

A pandemia mudou também as medidas de segurança adotadas nesses locais. Cada tenda, de acordo com as regras estabelecidas pela prefeitura no artigo 2º do decreto 20709/2020, deve ter um distanciamento mínimo de cinco metros entre si e preservar a distância de um metro e meio entre cada pessoa, seja na interação entre vendedor e consumidor ou entre os frequentadores que aguardam na fila. Além disso, os feirantes devem oferecer álcool 70% e a degustação ou consumo de alimentos na área da feira estão proibidos. As bancas que disponibilizam produtos prontos para consumo precisam utilizar acrílico ou plástico protetor. Também devem ser disponibilizados espaços para higienização das mãos com água, detergente e álcool. “Não lembro de ver gente sem máscara, só fazendo o uso indevido, sem tapar o nariz ou parte da boca. Às vezes tem bastante gente e fica difícil manter a distância, mas, na medida do possível, acredito que o pessoal se esforça para cumprir as recomendações”, pontua Isabela.

Para a estudante Ana Carolina, ainda é um momento de desconfiança: “Percebi que as pessoas se aglomeram, ficam muito juntas na hora de pegar frutas, tento evitar e espero dar uma esvaziada. Ao mesmo tempo que para mim é um momento bom, porque eu saio de casa, me sinto muito nervosa, porque tem muita gente. E eu cuido, cuido de mim, mas eu não posso ter total confiança de que as outras pessoas estão tendo o mesmo cuidado que eu, então fico nervosa”, confessa.

Já Isabela, que inicialmente fazia as compras no menor tempo possível, segurando o nervosismo, hoje já vê a feira mais como uma possibilidade de passeio. “Agora eu tenho que sair mais vezes de casa, porque estou trabalhando na rua. Não levo muito mais tempo para fazer as compras, mas aproveito pra pegar um solzinho quando dá. Também tenho levado minha cachorra junto, então, enquanto meu companheiro escolhe as coisas, a gente dá uma caminhada pelas ruas próximas”, conta.

Quem vende, além de ter que cumprir regras do decreto municipal, também segue medidas de proteção antes mesmo de começar a feira. Tais Leandro, 47 anos e feirante há 15, explica que o produto deve chegar em segurança para o consumidor. “Na hora que chega da Ceasa, passamos álcool nas caixas antes de colocar no caminhão, e as coisas que a gente carrega de casa são todas higienizadas com álcool”, assegura.

Novas rotinas

Quem circula pelas feiras no Largo Zumbi dos Palmares pode não perceber, mas aqueles que estão sempre por lá – desde a hora que começam as montagens das tendas até a hora de dar partida no caminhão – acreditam que o público vem retornando aos poucos. “No começo da pandemia, o público tinha diminuído bastante, mas nas últimas quatro semanas a gente nota que está voltando quase ao normal”, observa Tais.

“As feiras nunca pararam de funcionar, e as pessoas preferiram do que ir em supermercado, porque funcionam em locais abertos. Teve bastante sistema de entrega também, principalmente para os clientes mais idosos”

FRYDDA LEONARDI MONTEIRO, engenheira agrônoma e chefe do Setor de Feiras da Coordenação de Fomento a Atividades de Porto Alegre

A engenheira agrônoma Frydda avalia que não houve uma grande alteração no fluxo de público. “Em feiras maiores, como Medianeira e Epatur [Largo Zumbi dos Palmares], temos uma circulação de 800 a mil pessoas aproximadamente, em todo o período de funcionamento”, analisa. Mesmo nas primeiras semanas do isolamento, esse número se manteve. “As feiras nunca pararam de funcionar, e as pessoas preferiram do que ir em supermercado, porque funcionam em locais abertos. Teve bastante sistema de entrega também, principalmente para os clientes mais idosos”, explica.

Mesmo com tanta gente circulando, para quem trabalha na feira, o movimento não tem sido tão bom. Neiva Bobsin Ulrich tem 55 anos e há quase 30 atua nessa atividade. Na Feira Modelo, as hortifrutis saem direto da sua lavoura para o consumidor. “Tivemos que diminuir a produção, mas, mesmo assim, não se consegue vender”, conta a feirante. E acrescenta: “As pessoas não têm mais trabalho, não têm salário e, com isso, não vão às feiras por falta de dinheiro”. Nas suas bancas, a estimativa é que as vendas caíram cerca de 40% no período de pandemia.

O caso da Neiva não é isolado. A feirante Tais, além de diminuir a produção, também observou alta nos preços dos alimentos que precisa comprar de outros produtores para oferecer na feira. Para ela, a queda no movimento teve consequências: precisou dispensar alguns dos funcionários. “A gente teve muita perda, foi bem complicado. Tínhamos bancas que trabalhavam com seis funcionários e hoje estão trabalhando com três. Mesmo sendo regime de freelance, eles sentem, porque é um serviço de três, quatro vezes na semana”, lamenta.

Vista da feira. Pauta da Fernanda Peron.
A feira de sábado sendo desmontada no início da tarde depois de uma manhã de chuva | Foto: Fernanda Peron

Se para quem vende hortifrutis o movimento pareceu despencar, na banca de laticínios e embutidos de Valci Maschmann, 62 anos, as vendas não caíram tanto. “No meu ramo, conseguimos manter todos os funcionários da banca. Quando teve rodízio [nos primeiros meses de isolamento social], o faturamento reduziu, porque a cada três semanas a gente vinha duas e falhava uma, assim baixou 33% praticamente”, pondera. Por outro lado, Valci percebe que a produção de alimentos como os derivados de leite ficou mais cara e o valor reflete no consumidor. “As pessoas não deixam de comprar, mas compram menos. Quem levava um quilo de queijo antes, agora leva meio quilo”, constata.

Mesmo com todos os cuidados, tanto dos feirantes quanto dos frequentadores, a exposição também é um fator de preocupação para quem trabalha nas tendas. “A gente continua se cuidando e esperando que acabe, porque a gente trabalha o dia todo nervoso e nunca tá tranquilo com o que pode acontecer. A gente tá sempre exposto ao perigo, cuidando cada vez mais e cada vez mais preocupado”, ressalta Valci. Para Tais, o sentimento é parecido. “A minha esperança é que saia logo a vacina e volte tudo ao normal. Nunca esperei vivenciar isso”, revela.

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