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Marcas sonoras

As diferentes relações entre música e tempo, para além das fronteiras geracionais

REPORTAGEM
Ignácio Cordeiro | Lucas Möller
ignacio.cotdeiro@gmail.com • lmollerm1907@gmail.com

Arte: Ana Ribeiro

 A cada dia, cerca de 100 mil músicas são lançadas mundialmente nas plataformas de streaming. Essa quantidade equivale a todas as músicas produzidas no mundo no ano inteiro de 1989. Os dados foram divulgados por Will Page, antigo economista-chefe do Spotify, em entrevista para o site MusicRadar. Várias relações podem ser feitas entre a música e o tempo, desde os intervalos entre as notas e a capacidade que uma canção tem de sobreviver até a adaptação dos músicos e do público ao rápido avanço tecnológico.

Gilberto Oliveira, professor musical há 37 anos e músico profissional há mais de 40, acredita que a tecnologia não atrapalha, mas sim contribui para a criatividade artística. Nascido em Rio Grande, no litoral sul do estado gaúcho, cresceu em uma família que valorizava muito a arte, sendo nutrido por ela desde a infância. Autodidata, já tocava antes mesmo de fazer um curso de violão clássico para poder dar aulas. 

Gilberto acredita que os músicos devem estar em constante atualização em relação às novas tecnologias | Foto: Guilherme Vivan

Apesar disso, Gilberto avalia que a internet também exige tempo de dedicação para a gestão da carreira. “Tu tem que estar disposto a postar todos os dias, produzir todos os dias, e isso leva tempo. A maior parte dos músicos não tem perfil para trabalhar na internet.” Com a aceleração no fluxo das informações e a dinâmica das redes sociais e plataformas de streaming, o trabalho musical também sofre impactos constantes. “É tudo na pressão”, conta, admitindo que quem não consegue acompanhar, não sobrevive na profissão.

O músico compara a duração das musicas de sua geração com as feitas atualmente | Foto: Guilherme Vivan

Gilberto relata que foi incentivado a se atualizar por seus alunos, representantes de uma geração que já nasceu imersa na internet. “A gente vê grandes músicos que param no tempo”, observa. O artista enxerga a desatualização como um entrave para a forma como os músicos irão se comunicar com o público e acessar as novidades.

Computador, instrumentos e pedais de distorção para guitarra são alguns dos equipamentos que Gilberto utiliza para trabalhar

Música e tecnologia entre gerações

Conforme pesquisa realizada em 2023, na Universidade de Nova York, com 650 ouvintes apresentados a 250 músicas, foram necessários em torno de cinco segundos de música para que cada participante decidisse se gostava ou não daquilo que escutava. Alternar entre uma música e outra é um recurso comum que encontra potência nas plataformas de streaming. “Sou de uma geração que compunha uma música de sete minutos e as pessoas ouviam uma música de sete minutos”, lembra Gilberto. “Hoje, a exigência é de dois minutos no máximo para contar uma história.” 

Outro estudo, da Universidade da Califórnia em Los Angeles, analisou 160 mil faixas do Spotify e constatou que, de 2010 para 2020, as músicas tiveram uma queda na duração média de quatro minutos e 19 segundos para três minutos e 17 segundos. Um dado curioso é que hoje elas têm um tempo médio semelhante ao das músicas dos anos 1930. A pesquisa destaca que, naquela época, as músicas eram mais curtas devido a limitações tecnológicas. Hoje, mesmo com a possibilidade de produzir músicas extensas, as novas gerações têm optado por ouvir músicas curtas.

Porto Alegre, anos 70

Mas se a tecnologia é capaz de influenciar no tamanho das músicas, os momentos históricos são um dos principais responsáveis por seus conteúdos. Nelson Coelho de Castro, de 71 anos, compositor, cantor e produtor musical porto-alegrense, afirma que a única saída para conseguir gravar na década de 1970 era ir para São Paulo ou para o Rio de Janeiro. Em 1979, contrariando o costume de boa parte dos artistas que migravam para o Sudeste em busca de melhores oportunidades no ramo, Nelson lançou seu primeiro compacto, Faz a cabeça. Dois anos depois, produziu seu primeiro disco independente, chamado Juntos. Para o artista, a música de Porto Alegre não foi estruturada a partir de grandes gravadoras, mas sim de “palafitas românticas”, no sentido de que a arte era enriquecida pelas ações coletivas, contando com alguns acasos e explorando os meios que a cidade proporcionava.

“Tem músicas que são cronistas, que são fotografias. A música Zé, por exemplo, era de um tempo romântico, apesar da Ditadura”

NELSON COELHO DE CASTRO, músico e compositor

Relembrando a década de 70, Nelson comenta sobre uma forte união dos estudantes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), que consumiam e movimentavam parte da cultura local. Ele cita a música Zé, que compôs como o relato de um assassinato de um estudante ocorrido no Julinho, apelido de um colégio da Capital, conhecido pelo forte movimento estudantil durante a Ditadura. “Tem músicas que são cronistas, que são fotografias. A música Zé, por exemplo, era de um tempo romântico, apesar da Ditadura.”

Para Nelson Coelho de Castro, vivemos para deixar saudade | Foto: Divulgação

Nelson acredita que hoje, em Porto Alegre, além da dispersão dos universitários e do enfraquecimento dos diretórios estudantis, os eventos culturais têm sido impactados pelo preconceito de classes mais altas e pelo desinteresse do poder público em fomentar a cultura. O músico destaca, no entanto, que algumas de suas músicas se transformaram com a passagem do tempo e sobreviveram. Essas, segundo Nelson, são as que falam sobre sentimentos como a paixão e o amor, em uma forma de “poesia universal” que se transforma e se mantém atual. “Elas não são fóbicas ao tempo”, define.  

Uma nova e saudosa perspectiva

Bruno Corrêa, de 25 anos, conhecido como Mec7, é estudante de graduação em Dança na UFRGS e DJ. Bruno toca em eventos como o Afrojams e a BatukBaile, espaços de fomento para públicos, artistas e ritmos negros, onde foca sua perspectiva musical no funk e em vertentes como a black music e o pop. Apesar de se relacionar com sonoridades muito atuais, ele considera as obras do passado importantes como referências para o seu processo de composição. “Isso é até algo que eu fico me policiando um pouco, porque eu gosto muito de música antiga, muito mais do que as atuais, talvez, tá ligado? Mas eu também gosto de me atualizar.”

Unindo o antigo ao novo, Mec7 explora ritmos musicais diversos | Foto: Ignácio Cordeiro

O DJ ouve, em média, 12 horas de música por dia. Pesquisa ritmos como o disco e o pop dos anos 2000, assim como boogie e house, gêneros eletrônicos que têm o blues entre suas raízes. “Eu posso dizer que eu bebo bastante na fonte do que já passou, mas tento trazer isso de uma forma mais minha, pros dias de hoje”, explica. “Misturo o antigo com o funk de agora.”

Além de estudar músicas de diferentes épocas, Bruno também percebe em seu trabalho uma outra relação das músicas com o tempo. Ele diz que existe um senso comum entre os DJs de que o setlist, a sequência de músicas na noite, possui diferentes etapas. No começo, eles apresentam para a pista o que vai ser tocado, subindo a intensidade gradualmente. No meio, a intensidade diminui para que as pessoas recuperem o fôlego, e, no fim, as músicas se encaminham para um ritmo mais explosivo. 

A experiência sensorial entre DJ e público é marcada pela sensibilidade entre esses dois agentes.
Por meio da música, o encontro entre Bruno e Nelson atravessa décadas e estilos diferentes | Foto: Ignácio Cordeiro

Bruno reflete sobre o passado de outros artistas negros que tiveram muita resistência e hoje impactam o caminho que ele trilha. O DJ deseja trabalhar de um modo diferente, reinventando-se para que seu público encontre novas formas de ouvir música, de dançar e de pensar. Nesse sentido, procura fazer com que as pessoas se permitam estar presentes, no “agora”, sem pensar em quando determinada música irá tocar ou em fazer vídeos apenas para postar nas redes sociais.

O que torna uma música atemporal?

Para o DJ Mec7, a música se torna atemporal quando atravessa barreiras, gerações e espaços. A sobrevivência de uma canção, para Bruno, está vinculada ao território onde ela ecoou antes e onde será tocada depois.

Utilizando exemplos de músicos que performam pelo mundo inteiro, como Rosa Passos, Chico César e Filó Machado, o professor Gilberto justifica que a maneira como esses artistas encaram sua própria realidade, à revelia dos holofotes midiáticos, faz com que criem músicas atemporais. “Os nossos grandes artistas, com relevância, querem contar uma história, fazer uma crítica, falar de amor sem precisar dizer especificamente do que eles estão falando. Fica tudo nas entrelinhas e entenda quem quiser.”

Nelson Coelho de Castro critica a superficialidade de músicas curtas, segundo ele, feitas pensando exclusivamente no lucro. Vincula a essas a expressão “obsolescência programada”. Por outro lado, afirma que algumas músicas não têm medo do tempo e perduram. O compositor fala que vivemos para produzir momentos de saudade. Seria na saudade, então, que moraria sua música atemporal?

Cada canção traz a marca daquilo que veio antes, assim, também deixa sua impressão nas canções que virão

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