O Martírio da Primavera

Bruna Klein. Janela.
Autora: Bruna Klein Lummertz. Título da obra: Sem lenço nem documento. Técnica: aquarela, caneta nanquim e lápis de cor. Data: 10/2020.

Alergias são uma resposta exagerada do sistema imunológico desencadeada pelo contato com alérgenos em pessoas com predisposição genética. Entenda como elas podem influenciar na vida de quem convive com a doença

REPORTAGEM
Stéfani Fontanive
tefifontanive@gmail.com

ILUSTRAÇÃO
Bruna Klein

Final do inverno e início da primavera. As temperaturas costumam ser amenas e as imagens são lindas: árvores e flores por todos os lados. Bom, eu odeio esse período. Dizer que odeia algo é um método pouco ortodoxo de começar uma reportagem, mas também estamos vivendo em um período atípico, o que seria ortodoxo neste momento? O motivo do meu ódio é simples: minhas alergias.

Abro a janela do meu quarto. É uma janela antiga e um pouco feia, que, de acordo com a minha mãe, foi a única que eles conseguiram pagar quando construíram a casa. Já foi pintada e reformada e segue no meu quarto. Não dá para abri-la totalmente, porque senão ela não fecha. Mas o que importa aqui não é a estrutura física da janela, mas o que eu vejo ao abri-la e que é meu inferno pessoal: árvores. O maior problema é que, agora na pandemia, tenho passado muito mais tempo na frente dessa janela.

Janela da casa da Stefani, autora da reportagem.
Janela que inspirou a reportagem | Foto: Stéfani Fontanive

Durante os meses de agosto e setembro, essas árvores têm flores. Flores essas que possuem pólen. Pólen que por anos considerei serem os responsáveis pelas minhas alergias, mas que na produção desta reportagem descobri que não. A alergista e imunologista Melissa Tumelero, uma das fundadoras do Imunocentro, clínica especializada em alergia e imunologia na cidade de Passo Fundo, no Rio Grande do Sul, me explicou: “O que dá alergia é o que é polinizado pelo vento, o que é feio, que não tem flor, então são as gramíneas, os capins, os matos, algumas árvores”. 

A reação alérgica ocorre quando esse pólen, levado pelo vento, entra em contato com pessoas sensibilizadas por meio da inalação ou pelas mucosas. “Os sintomas, em geral imediatos, são rinite e conjuntivite”, explica Betina Schmitt, presidente da Associação Brasileira de Alergia e Imunologia da Regional Rio Grande do Sul (Asbai-RS). Tanto Betina quanto Melissa afirmam que o nosso estado tem uma gramínea específica que causa muita alergia, o azevém. E o pior é que esse pólen é leve, podendo viajar para mais de 100 quilômetros de onde ele está plantado, conta Melissa.

Infográfico sobre quantas pessoas tem alergias
Mas, primeiramente, o que são alergias?

As alergias são uma resposta exagerada do sistema imunológico, que ocorre em pessoas que foram sensibilizadas. Betina explica que essa sensibilização acontece pelo contato de pessoas predispostas geneticamente com agentes ou antígenos, que são substâncias estranhas ao organismo. Melissa concorda e resume dizendo que, para se ter uma alergia, são necessárias a predisposição genética e a exposição ambiental. Inclusive, uma pessoa pode ter o gene e nunca desenvolver uma alergia, enquanto outras podem ter ainda na fase infantil.

A estação da primavera pode ser agravante para algumas alergias. “Como rinite, rinoconjuntivite alérgica, asma e dermatite”, afirma Betina. Ela também explica que houve um aumento, nos últimos anos, nos casos de alergia e na sua intensidade. Isso se deve a vários fatores, começando pelo consumo de alimentos industrializados e transgênicos, já que alimentos que não eram alérgenos acabaram se tornando. “As alterações climáticas também tiveram um impacto no aumento de alergias”, explica a médica.

Infográfico Tipos de Alergia
Mas essas alergias são tão ruins assim?

Sim, são. E eu não sou a única a pensar assim. A estudante de direito Valentina Reck, de 21 anos e natural de Passo Fundo, teve os primeiros sintomas de alergia respiratória em 2013. Começou com uma alergia leve ao ácaro, que é um minúsculo aracnídeo presente no pó que se encontra nas casas. Mas a alergia leve evoluiu para uma sinusite, que por anos ficou descontrolada até ser diagnosticada. Por isso, sua casa precisa estar sempre limpa. Melissa recomenda que não se tenha tapetes ou cortinas – já que o bichinho pode ficar ali – além de uma rotina de limpeza e um aspirador de pó específico, que possui um filtro chamado HEPA, que retém micropartículas, como ácaro e pólen, do ambiente.

“Na rinite a dor não é tanta, é mais um incômodo, algo suportável, mas que não te abandona, o que se torna um martírio em certo ponto”

VALENTINA RECK, estudante de direito que possui rinite alérgica e sinusite

Os sintomas da alergia para Valentina são os mais comuns: nariz entupido, dor de cabeça e olhos coçando. Quando as crises alérgicas tornam-se mais agudas, a pessoa pode estar com rinossinusite, e os sintomas são mais intensos. “Dói toda minha cara, o corpo parece que foi espancado, que levei um soco nos pulmões, além de ter febre e dor no peito algumas vezes”, conta Valentina. Ela também afirma que, durante a crise de sinusite, não tem vontade de fazer nada. “Tenho que me arrastar para fazer algo. Na rinite, a dor não é tanta, é mais um incômodo, algo suportável, mas que dura mais e não te abandona, o que se torna um martírio em certo ponto.”

Ilustração: Borga

Cláudia Bueno, jornalista, 27 anos, que mora em Porto Alegre, também tem uma longa história com a doença. Ela desenvolveu asma quando era bebê, tendo severas crises. “Com qualquer mudança, clima, poeira, ambientes muito fechados, eu tinha crises bem severas de asma e rinite”, conta. Aos nove anos, teve que passar três dias internada na CTI devido a uma crise. A saúde começou a melhorar ao começar a praticar natação, então manteve a prática dos 12 aos 20 anos. Ela também tinha alergia a pelos de animais, como cães e gatos, mas isso melhorou com a idade.

“A gente aprende a lidar, porque acaba acostumando a conviver com a alergia”

CLÁUDIA BUENO, Jornalista, possui alergias respiratórias desde a infância

 A imunologista Melissa diz que não é comum pessoas deixarem de ter alergia com a idade. “Se você teve uma reação quando era criança e ficou muitos anos sem ter contato com o pelo do animal, 10, 15, 20 anos, pode ser que você perca essa sensibilidade e fique tolerante, ou tem algumas situações que, de tanto você ter contato, bastante, todos os dias, em quantidades pequenas, o seu próprio organismo se desensibilize a isso, mas não é o normal”, explica a médica.

Atualmente, a rinite de Cláudia está associada ao clima frio e à umidade. “É bem visível, as crises de rinite começam ali por abril, maio e vão até outubro”, conta. A dificuldade de respirar atrapalha a jornalista para dormir e também nas atividades físicas, como em subidas íngremes. “Sou uma pessoa bem ativa, corro, faço yoga. E, no alto do inverno, sofro muito, porque fica bem difícil de respirar.” Inclusive, a doença pode até influenciar na decisão de onde ela irá morar no futuro. Cláudia pretende se mudar para um estado mais quente. “A gente aprende a lidar, porque acaba acostumando.”

Melissa confirma que o lugar onde a pessoa mora pode fazer diferença. “Só não vai ficar alérgico ao pólen se você não morar aqui. Se você morar na praia, não vai ter alergia ao pólen.” Ela afirma que a qualidade de vida de quem tem rinite fica prejudicada devido aos constantes espirros e coriza. Além disso, atrapalha na hora de dormir, já que, devido à inflamação e à dificuldade de respirar, o sono não chega na fase REM. “Que é aquele sono que recupera”, explica. Talvez eu também deva considerar uma mudança de endereço.

E os outros tipos de alergia?

Não são apenas as alergias respiratórias que pioram o bem estar, as cutâneas também afetam negativamente. A jornalista Karine Dal Piva, 24 anos, de Porto Alegre, começou a ter sintomas mais graves de uma alergia na pele em 2014, mas só teve o diagnóstico em 2018: dermatite atópica. 

Melissa explica que trata-se de uma alteração na barreira cutânea. “Consideramos a nossa pele uma barreira, e a dermatite atópica é uma falha nessa barreira, o que faz com que a pele perca sua hidratação natural e fique seca.” E pele seca é o principal sintoma da doença, que não tem exame para a confirmação, apenas análises clínicas.

A dermatite causa coceiras fortes, e, ao coçar a pele, pode ocorrer a formação de feridas, também chamadas de eczemas. Essas feridas podem afetar o cotidiano de quem convive com a doença, como conta Karine, que por anos teve até vergonha de sair de casa com vestidos. Além disso, a doença lhe causa algumas limitações, como não poder nadar em piscinas, não tomar banhos muito quentes e não usar produtos estéticos.

“Aprendi a lidar com os fatores externos que desencadeiam a alergia, então sei o que devo ou não fazer. Aprendi a me adaptar às situações”

KARINE DAL PIVA, jornalista, possui dermatite atópica

Samuel Mandelbaum, médico dermatologista da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD), explica que é possível viver bem com a doença desde que se tome alguns cuidados. “Banhos mornos, rápidos e sem esfregar. Passar hidratantes sobre toda a pele logo após o banho. Usar roupas de algodão, frescas. Evitar variações bruscas de temperatura. Tomar remédios para diminuir a coceira. Passar sobre a pele remédios anti-inflamatórios receitados por seu médico dermatologista”, são alguns conselhos de Samuel .

Karine diz que já se acostumou com a doença, como acontece com a maioria das pessoas alérgicas. “Aprendi a lidar com os fatores externos, então sei o que devo ou não fazer. Fui aprendendo a me adaptar às situações”, conta. 

Infográfico Sintomas mais comuns
E na pandemia, piorou ou melhorou?

Depende de cada pessoa. As minhas pioraram, já que, devido à quarentena, voltei para a casa do meu pai, que possui um pátio grande – com gramas – e, por ser na cidade de Passo Fundo, que tem extensas plantações de azevém ao redor. Para Valentina também piorou, já que uma das indicações para diminuir os sintomas da doença é sair, passear ao sol, coisa que ela ficou impossibilitada de fazer. Karine também enfrentou uma piora significativa, e a causa é o estresse causado pela pandemia. Já para Cláudia, os sintomas melhoraram, por ela estar nesse período com a família no interior do Paraná, na cidade de Assis Chateaubriand, que é mais quente, onde seus sintomas se tornaram mais amenos.

Mas a alergia tem cura? 

Tem apenas uma possível cura, mas que não é garantida: a imunoterapia. Betina explica que o tratamento é chamado de “vacinas para alergia”. O alérgeno é dado ao paciente aos poucos, para que o sistema imunológico “troque de resposta”, como explica Melissa, não causando uma resposta exagerada.

Enquanto minhas alergias não são curadas, sigo trancada em casa e mantendo as janelas fechadas, torcendo para que o pólen não me encontre e para que eu siga, como concordam Valentina, Cláudia e Karine, convivendo e me acostumando com a doença.

É Covid ou é rinite?

Com sintomas iniciais semelhantes, como tosse, coriza e até dor de garganta, e em uma época propensa para o aparecimento da rinite, é comum que a dúvida ocorra: é Covid ou rinite? A principal diferença entre as duas, aponta a imunologista Melissa, é o desenvolvimento da doença: enquanto a rinite mantém os mesmos sintomas, a Covid pode causar dor no corpo e febre, que a primeira não causa.

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