O esquecimento é um fenômeno normal e comum à grande maioria dos seres humanos. Geralmente, os lapsos de memória são simples e inofensivos, como esquecer de responder um e-mail. Outras vezes, o esquecimento pode trazer alguns problemas maiores e ter consequências graves, como quando testemunhas oculares esquecem de detalhes sobre um crime. As informações necessárias podem estar armazenadas, mas o processo de buscá-las falha – isso é o esquecimento.
Por que lembramos?
De acordo com Cristiane Regina Guerino Furini, pesquisadora no Centro de Memória do Instituto do Cérebro da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), para abordar o esquecimento é necessário entender a importância da memória. “Nós lembramos porque isso tem um papel extremamente crucial na nossa vida e em quem somos. Eu sou formada pelas experiências que vivi e pela recordação que eu tenho dessas experiências”, explica.

Recordar e a recordação em si são previamente condicionados pelo passado. Portanto, as experiências não são lembradas da mesma forma por dois sujeitos, individuais em suas próprias vivências, mesmo que tenham vivido o mesmo momento juntos. É justamente o ato de relembrar que faz cada ser humano reter e incorporar experiências em seu repertório de ideias, interpretar situações e desenvolver opiniões, sendo assim único e independente.
Por vezes, lembrar de algo pode levar ao esquecimento de outras coisas. Recuperar algumas informações da memória demanda energia, e a seleção do que realmente importa define o que será mantido. Uma pesquisa do Departamento de Psicologia da Universidade de Illinois e da Universidade de Stanford sugere que esse tipo de esquecimento pode ser adaptativo. Ao esquecer uma memória em favor de outra, a chance de uma nova interferência acontecer é reduzida, colocando a memória relembrada em posição de prioridade.
Tipos de memórias
De forma prática, não há diferenciação biológica ou física da memória em tipos. “As informações estão chegando todas ao mesmo tempo no cérebro e ele não para para dizer se é um tipo de memória X ou um tipo de memória Y”, esclarece a pesquisadora Cristiane. Cientistas podem buscar caracterizar as memórias em tipos para facilitar o estudo, mas não existe um consenso sobre essa classificação.
Segundo Cristiane, estruturas diferentes estão envolvidas no processamento de diferentes memórias. As memórias explícitas se dividem em episódicas, com informações autobiográficas, e em semânticas, que dizem respeito ao conhecimento geral. As implícitas armazenam habilidades motoras, nomes de objetos e palavras. Além disso, a memória pode ser simplesmente operativa, servindo somente para gerenciar o dia a dia, como decorar um número de telefone antes de ligar. Em seguida, essa informação será descartada parcial ou completamente.

Outra forma de caracterização é o tempo de duração ou fixação da memória. Ela pode ser “ultra-rápida”, com a retenção de somente alguns segundos, de curto prazo, que dura minutos ou horas e cria a continuidade do nosso sentido do presente, e a memória de longo prazo, que estabelece traços duradouros por dias, semanas ou anos.
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Evocação de memórias
As memórias podem até estar armazenadas no cérebro, mas, mesmo com esforço, por vezes não é possível acessá-las. Isso pode acontecer porque a recuperação da memória depende de pistas e gatilhos para decodificar o que está memorizado. Outra razão comum é simplesmente porque essas informações nunca chegaram à memória de longo prazo, ou seja, nunca foram consolidadas.
Alguns processos auxiliam na evocação das memórias, como é o caso da psicoterapia. A prática, quando gerida por um profissional, cria um repertório de “dicas” e formas de impulsionar a decodificação e relembrança das informações. Apesar disso, é importante notar que as memórias não são estáticas, e estão sujeitas a modificações quando são evocadas.
A modificação de uma informação memorizada é chamada, no campo da neurociência, de reconsolidação. A informação que em algum momento foi armazenada pode ter adições, atualizações e modificações no processo de evocação. Isso ocorre de acordo com o método de evocação, por exemplo, pelas perguntas que são feitas numa sessão de terapia.
Falsas memórias
Em 1974, a psicóloga e especialista em memória humana norte-americana Elizabeth Loftus, junto ao pesquisador John Palmer, conduziu um estudo chamado “Reconstrução da Destruição de Automóveis”. O objetivo era testar a hipótese de que a linguagem usada em depoimentos de testemunhas oculares pudesse alterar a memória.
No laboratório, um grupo de 45 pessoas assistiu a sete vídeos de acidentes de trânsito, com duração de cinco a 30 segundos cada. Eles foram apresentados em ordem aleatória para cinco grupos de nove pessoas. Os participantes tiveram de descrever o que aconteceu como se tivessem testemunhado o evento a partir da pergunta a seguir, com a variação do verbo utilizado: “o quão rápido estavam os carros quando eles esmagaram/colidiram/atingiram/bateram/entraram em contato um ao outro?”.

A velocidade relatada pelas testemunhas oculares foi diretamente afetada pelo verbo. Isso, portanto, afetou a memória dos participantes do acidente. A média das respostas de acordo com o verbo utilizado foi de 66 quilômetros por hora para “esmagaram”, 63 para “colidiram”, 61 para “atingiram”, 55 para “bateram” e 51 para “entraram em contato”.
O lado bom do esquecimento
Esquecer faz bem, e o esquecimento nem sempre é um defeito. Em um artigo para a revista Psychology Today, o pesquisador Eric Leuthardt escreve: “Esquecemos não porque temos um hipocampo (órgão de memória do nosso cérebro) imperfeito; é realmente uma solução evoluída. A capacidade de perder informações permite a entrada de novas informações mais relevantes, mais pertinentes a uma realidade em andamento. Esquecer nos permite atualizar”.
“Se eu lembrar exatamente de todos os detalhes de ontem, eu vou praticamente levar um outro dia inteiro para relatar e pensar nesse dia anterior. Será que isso é produtivo e adequado para minha vida?”
CRISTIANE FURINI, pesquisadora no Centro de Memória do Instituto do Cérebro (PUCRS)
Pessoas com a condição de hipertimesia, ou Síndrome da Supermemória (na sigla em inglês HSAM), de acordo com Cristiane, relatam que mal conseguem gerenciar a vida diária. A enxurrada de informações que recebem todos os dias os impede de processar completamente tarefas banais. “Se eu lembrar exatamente de todos os detalhes de ontem, eu vou praticamente levar um outro dia inteiro para relatar e pensar nesse dia anterior. Será que isso é produtivo e adequado para minha vida?”, questiona a pesquisadora.

A designer Rita de Cássia Miranda, de 26 anos, não possui hipertimesia, mas tem uma ótima memória. “Quando era criança, com quatro anos, tinha algumas lembranças, porém não tinha certeza se eram reais. Após questionar aos meus pais, tive a confirmação, o que causou admiração, pois nessa memória eu tinha aproximadamente dois anos de idade”, relata. Para ela, que mora em Charqueadas, na região metropolitana de Porto Alegre, é muito fácil lembrar como era a iluminação do ambiente que estava em certo dia, os sons, cheiros e sensações.
“Dia nove de março comentei de forma aleatória que fazia nove anos que eu conectava o celular no rádio do carro para ouvir determinada música”, conta. Entretanto, quando esses momentos acabaram de acontecer, ou seja, antes de serem consolidados em sua memória, ela tem dificuldade em lembrá-los. “Às vezes tenho dificuldade de lembrar o que fiz na manhã daquele dia, mas existe uma grande chance de que eu lembre ano que vem que dei esta entrevista nesse dia.”
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