Resgatando afetos

Pauta adoção e abandono de animais. Artista Sabrina Azeredo
Artista: Sabrina Azeredo

No início da quarentena, o número de pessoas que adotaram animais aumentou, mas, depois de meses de pandemia, a situação se estabilizou novamente

REPORTAGEM
Amanda Araújo
amandam.araujo99@gmail.com

ILUSTRAÇÃO
Sabrina Azeredo

Agnes e Hércules são os meus gatos. Eles amam ficar na janela do meu quarto olhando para a rua. Ficam observando um passarinho, o movimento dos carros, briga de vizinhos ou algum inseto que insistem em tentar caçar. Eles amam mesmo aquela janela. Às vezes, eu fico admirando e pensando o que passa na cabeça deles vendo tantos lugares para desbravar, mas que estão atrás da tela de proteção do nosso apartamento.

Em dezembro de 2019, nós adotamos o Hércules quando ele tinha 10 meses, já era praticamente um gato adulto, o que fez sua adaptação ser complicada. Ele é um gatinho albino, peludo, de olhos azuis, que hoje está com um ano e oito meses e tem cara de mau, mas no fundo só é um bobão carinhoso que tem medo de qualquer barulho que escuta. Ele morava em uma casa com outros seis gatos e sua antiga tutora. Ela decidiu se mudar de uma casa para um apartamento, onde não teria espaço para todos os gatos. Foi aí que eu e meus pais ficamos sabendo do anúncio de adoção através de uma amiga da minha irmã. E então meu sobrinho de sete anos insistiu muito para que nós o adotássemos. E, assim, o Hércules se tornou um membro da família. 

Já Agnes foi encontrada na rua com um mês e meio junto com seu irmãozinho Bruce, que foi adotado por outra família. Ela era minúscula e estava em pele e osso, muito desnutrida. Em maio de 2020, durante a pandemia, foi encontrada no bairro Moinhos de Vento, em Porto Alegre, por um casal que a acolheu e encontrou um lar temporário para ela. Os lares temporários normalmente estão ligados a ONGs e são de pessoas que disponibilizam sua casa para abrigar animais resgatados até serem adotados. Descobrimos Agnes através de outra amiga da minha irmã. Foi aí que ela veio aqui para casa e se tornou a melhor amiga do Hércules. Os dois têm sido nossos grandes companheiros durante a pandemia do coronavírus.

Um ato de responsabilidade

Segundo o Instituto Pet Brasil, existem no país 172 mil animais abrigados em ONGs e outras instituições, como lares temporários. Desses, 96% são cães e os outros 4%, gatos. Porém, ainda existem 3,9 milhões de animais em situação de vulnerabilidade, sendo o Sudeste a região com a maior população de animais abandonados, que seria de 78 mil.

Em setembro de 2020, foi sancionada a Lei 1.095/2019 que aumenta a pena de punição para maus-tratos a animais silvestres, domésticos ou domesticados, nativos ou exóticos. A lei existe para que o direitos dos animais sejam assegurados, por isso, vale ressaltar que o ato de adotar deve ser feito com responsabilidade.

“Durante a quarentena, os animais ajudam diminuindo a ansiedade, a angústia e os pensamentos negativos que as notícias ocasionam”

HAISSA NARA FERREIRA DE ALMEIDA, psicóloga

Segundo a psicóloga Haissa Nara Ferreira de Almeida, os benefícios de adotar um animal de estimação são vários e se manifestam em todas as etapas da vida. “Para a criança, ajuda na questão da interação, da responsabilidade, do autocontrole e a ter empatia com todos os animais e, também, com os humanos.” Já na terceira idade, os animais são ótimas companhias, se tornam um dos sentidos da vida dos idosos, fazendo com que se sintam produtivos. 

“Durante a quarentena, os animais ajudam diminuindo a ansiedade, a angústia e os pensamentos negativos que as notícias ocasionam”, explica Haissa. O animalzinho traz para as famílias algo positivo e novo, principalmente no caso de quem adotou durante o isolamento social. Para quem já tinha animais antes da quarentena, Haissa explica que fortalece ainda mais o laço entre os tutores e os bichinhos e que a troca de carinho e amor incondicional melhoram a saúde mental dos humanos.

ResGatinhos
Garfield, um dos gatos resgatados, posando para seu ensaio fotográfico. Foto: Cuscopics / Divulgação
Garfield, um dos gatos resgatados, posando para seu ensaio fotográfico | Foto: Cuscopics / Divulgação

A ResGatinhos é uma instituição de Porto Alegre que resgata animais e os abriga. O projeto começou em 2013 com duas amigas, Ana Luiza Ratier e Maitê Brackmann, que começaram a resgatar gatinhos nos seus bairros e encaminhá-los para adoção. Atualmente, há em média cinco voluntários fixos e, esporadicamente, 15 pessoas ficam divididas entre oferecer lar temporário, dar carona, fotografar os animais, entre outras tarefas. A verba do projeto é proveniente de doações. Tem pessoas que doam todos os meses e outras que doam especificamente para as necessidades de cada gatinho. Há também produtos que são colocados à venda.

“Nosso maior desafio é conseguir verba suficiente para manter e tratar os gatinhos resgatados”, explica Ana Laura Fernandes, uma das voluntárias. Ela também diz que a maior parte dos pedidos de ajuda acontecem através das redes sociais, mas tem um limite de gatos que eles podem atender de uma só vez. Por isso, infelizmente, quando esse limite é excedido, precisam recusar os pedidos de resgate, mas sempre auxiliam, explicando qual a melhor forma para que o gatinho seja encaminhado para outro lugar. 

A ResGatinhos não possui uma sede física, por isso todos os animais ficam em lares temporários. Nessas casas, eles normalmente ficam isolados em uma peça, principalmente se a pessoa tiver outros gatos. Nos lares temporários, os bichinhos ficam com areia, água, comida e mais tudo que necessitarem. “Então, o gato vive como se estivesse em família mesmo, até que a gente garanta que ele estará em segurança com alguém que tenha  condições de mantê-lo. Aí ele faz essa transição do lar temporário pro lar definitivo”, explica Ana Laura.

“Nosso maior desafio é conseguir verba suficiente para manter e tratar dos gatinhos resgatados”

ANA LAURA FERNANDES, voluntária da ResGatinhos

O processo de adoção é feito através do site. Os interessados em adotar acessam o site, decidem qual gatinho querem adotar e preenchem um formulário. Nele são feitas diversas perguntas sobre o candidato a tutor, como quem morará com o gato, quais são as condições financeiras, se precisa de orientação, se o lar é telado, se o gato não terá acesso à rua. “A gente seleciona  os adotantes de acordo com essas respostas”, diz Ana Laura. Primeiro os voluntários falam com o candidato a tutor por e-mail, depois iniciam um bate-papo virtual, até o dia em que levam pessoalmente o gatinho do lar temporário até a família escolhida.

Sobre a quantidade de adoções durante a pandemia, Ana Laura diz que, quando as pessoas estavam no primeiro e segundo mês de home office, elas aumentaram. “Mas, depois de passados todos esses meses, sentimos que estabilizou.” Ana Laura afirma que, como são bem rigorosos na escolha de tutela dos gatinhos, não acontecem tantas devoluções. Em 2020, até novembro, só havia acontecido uma devolução. 

Quanto ao estado de saúde dos gatos resgatados, Ana Laura diz que eles frequentemente chegam com pulga. “A gente dá remédio para vermes, machucadinho de briga, enfim, mas é um estado razoável.” Mas também há gatos com estado de saúde mais grave, que necessitam de tratamento. Até novembro, havia quatro gatinhos com algum problema mais sério. “O Blue, por exemplo, é um gatinho que teve o rabo arrancado, estamos com ele  desde março no projeto. Vai ser um gato bem difícil de encontrar um lar, porque ele precisa de cuidados muito especiais.”

Oliver
Larissa e seu gato. Pauta Amanda Araújo
Oliver com sua tutora, Larissa Hansen Marcondes | Foto: Arquivo Pessoal

Larissa Hansen Marcondes é médica e adotou o Oliver durante a quarentena. Ela se disponibilizou, através dos ResGatinhos, para oferecer lar temporário para Oliver e sua irmã, a Lollo. Os dois eram de uma ninhada de sete gatinhos que foram encontrados juntos, vivendo em um ambiente fechado e comendo restos de comida humana. Todos foram para lares temporários em pares ou em trios, para que pudessem ficar juntos. 

Oliver e Lollo não tinham nenhum machucado, mas estavam desnutridos e com vermes. Aos seis meses, eram bem pequenos, e os veterinários afirmaram que provavelmente não cresceriam muito por causa da desnutrição. Larissa levou os dois para fazer o exame de FIV e FelV, conhecidas como a Aids felina e a leucemia felina, então descobriram que Oliver era o único gatinho da ninhada que testou positivo para FelV. Logo após o resultado, tiveram que separar os dois, pois a doença pode passar de um gato para outro. Larissa conta que, antes do resultado, estava pensando em adotar os dois, mas teve que escolher entre um deles. “Foi bem difícil e triste, por eles, porque eles eram bem grudados, faziam tudo juntos.”

Gato Oliver e gata Lollo. Pauta Amanda Araújo.
Oliver e sua irmã Lollo, que foi adotada por outra família
Foto: Arquivo Pessoal

Larissa se solidarizou com a situação de Oliver e resolveu escolhê-lo. “Ele é um gatinho preto, que eu já sabia que iria demorar mais para ser adotado, e ainda com FelV. Fiquei imaginando uma vida para ele em que passaria por vários lares temporários. E porque ele é muito grudado em mim. Foi bem difícil, porque gostava muito da Lollo, me apeguei muito nela também.” Ela diz que ficou impactada com a notícia da doença e demorou alguns meses para decidir adotar Oliver definitivamente, já que nunca teve um gato na vida e ficou imaginando como seria cuidar de um com FelV.

“Os cuidados são basicamente os mesmos do que com qualquer outro gato. Ele precisa comer uma ração de qualidade, mas esta é uma recomendação padrão. Também fico bem de olho no xixi, no cocô, se mudou algo. Mas, por enquanto, ele não teve nenhum sintoma, ele é um gato bem ativo”, conta Larissa. A única especificidade é fazer mais revisões no veterinário do que os gatos sem FelV.

Larissa diz que acredita que muitas pessoas se recusam a adotar gatos com FelV por falta de informações. “Um fator muito importante é o de você estar preparado para ter custos com qualquer intercorrência. Os tratamentos veterinários não são baratos, e é uma coisa que deve ser pensada com responsabilidade. Mas pode ser que não aconteça nada.”

Lollo também já foi adotada. Mas, segundo Larissa, ela passou por cerca de quatro lares temporários. Foi a última da ninhada a encontrar um lar definitivo, mesmo sendo muito carinhosa. Larissa associa essa demora ao fato de ela ser preta, já que as pessoas associam gatos pretos à má sorte. “Imagina se fosse o Oliver, eu acho que ele ainda estaria em lar temporário e mudando a cada poucos meses. Isso me conforta um pouco, saber que os dois foram adotados finalmente.”

O resgate

Ketelin Batista e Silva estava a caminho do Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre, em maio de 2020, quando encontrou a Agnes. “Era um final de tarde, eu estava indo para o hospital quando escuto uns miadinhos. A Agnes estava no meio de uns arbustos, muito assustada. Se eu não tivesse escutado miados, acharia que era um morcego. Não pensei duas vezes e peguei. Ela cabia em uma mão, de tão magra.” Assim que Ketelin resgatou a gatinha, um taxista que estava perto comentou que tinha outro filhote abandonado perto dali.  Como tinha que retornar ao trabalho, Ketelin pediu ao seu namorado e a seu sobrinho que fossem atrás do outro gatinho. Não foi fácil pegá-lo, pois ele era mais forte e arisco, mas, ao final, conseguiram.

Os dois filhotes ficaram no apartamento de Ketelin, o que gerou certo conflito com as duas gatas que já moravam com ela. “Naquela noite, postamos fotos em nossas redes sociais e enviamos muitas mensagens na tentativa de encontrar um lar para os irmãos. Felizmente conseguimos”, lembra Ketelin. Bruce foi adotado por outra família.

Já a Agnes está bem aqui.

Hércules e Agnes pegando sol na janela. Pauta Amanda Araujo
Janela que inspirou a reportagem | Foto: Amanda Araújo

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