Você vai morar no exterior e acaba se deparando com muitos “Brasis” que ainda não havia conhecido. Você imaginava que iria passar o tempo todo falando outro idioma, mas escuta gírias e sotaques brasileiros diferentes que nunca tinha ouvido quando morava no Brasil. Você se dá conta de que esses “Brasis” ajudam uns aos outros diariamente — essa é a realidade de muitos brasileiros e brasileiras que decidiram ir tentar a vida ou simplesmente viver por um tempo na Irlanda.
O número de brasileiros que residem na Irlanda vem crescendo consideravelmente: em 2006, o Centro de Estatística Irlandês apontava que somente 4.338 brasileiros residiam no país. Em 2011, esse número já havia duplicado. No último censo oficial irlandês, realizado em 2016, os brasileiros ultrapassavam 13 mil. Hoje, estima-se que mais de 30 mil brasileiros residam na Irlanda, de acordo com dados da empresa de intercâmbio E-Dublin. A maioria vai para estudar inglês, com um visto de estudante, o qual oferece a possibilidade de trabalho e dura oito meses, podendo ser renovado apenas duas vezes. “Muitos nem conheciam muito sobre a Irlanda antes, já que geralmente escutamos mais sobre os Estados Unidos e Inglaterra no Brasil”, diz Eduardo Giansante, fundador da E-Dublin.
“BRASIS” QUE SE MISTURAM

Sobretudo no centro da capital Dublin, ao longo dos últimos 20 anos, formou-se na Irlanda uma grande comunidade de brasileiros, que frequentam locais comuns, fazem redes de contatos, dividem habitação e interagem entre si diariamente. “Eu nunca teria conhecido tantos brasileiros de outros estados no Brasil”, conta a carioca Mayara Regalo, de 28 anos, que trabalhava como engenheira de produção no Brasil e há dois anos vive na Irlanda atuando como babá.
“A gente acaba conhecendo muita coisa diferente do nosso país. Gíria principalmente, expressões que você não é acostumado a falar. Eu sou do Rio, mas agora falo ‘mano’ a cada cinco palavras e ‘uai’ a cada 10”
MAYARA REGALO, que reside na Irlanda há dois anos

Mayara conta como, lá, acabou conhecendo outros “Brasis”: “Conheci muita gente de São Paulo, de Minas e do Sul também. A gente acaba conhecendo muita coisa diferente do nosso país. Gíria principalmente, expressões que você não é acostumado a falar. Eu sou do Rio, mas agora falo ‘mano’ a cada cinco palavras e ‘uai’ a cada 10”.
A carioca fala que muitos brasileiros compartilham quarto ou habitação, o que gera uma troca entre diferentes culinárias do Brasil. “Você aprende novas comidas também, geralmente quando mora junto. No Rio de Janeiro, a gente faz vinagrete com tomate, cebola e pimentão. Em São Paulo, ninguém come vinagrete com pimentão. No Rio, a gente come muito feijão preto. Em São Paulo, rola muito feijão marrom. Às vezes, você tá aqui na Irlanda, que é muito pequena comparada com o Brasil, e se dá conta do quão grande o Brasil é. Nosso país tem uma diversidade muito grande.”

A vitoriense Verônica Lemos, de 58 anos, mudou-se para a Irlanda em 2012, porque seu filho morava lá e não tinha previsão de volta. Como já estava aposentada e gosta de desafios, resolveu arriscar. Verônica conta que, por não falar nada de inglês quando chegou, foi muito ajudada por outros brasileiros ao longo do primeiro ano. “Os meus dois primeiros empregos eu consegui por indicação de amigos brasileiros. Eu não conseguia trabalho porque não tinha inglês.” Foi uma brasileira de Manaus quem a ajudou a conseguir seu primeiro emprego na Irlanda, como faxineira. Ela conta também que foi graças a um gaúcho de Porto Alegre que arranjou seu segundo emprego, segurando uma placa de propaganda na rua para um salão de beleza, no qual permaneceu por mais de três anos. “É uma comunidade muito unida, que se ajuda muito para qualquer coisa. Temos vários ‘classificados’ de brasileiros na Irlanda e em Dublin no Facebook, com gente de todo o Brasil”, comenta Verônica.
Adley Mota, de 31 anos e natural de São Paulo, era comissário de bordo no Brasil, mas neste ano completa nove anos vivendo na Irlanda, onde trabalha com tecnologia da informação. Ele conta que existem muitos perfis de brasileiros morando lá. “A gente encontra desde brasileiros do interior, de lugares de chão batido mesmo, até galera de cidades grandes, como Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte. Você encontra desde gente que tem dinheiro e é sustentada pelos pais, que vem estudar algo e não precisa nem trabalhar, até um pessoal que vende tudo que tinha no Brasil pra tentar uma vida melhor aqui.” Adley acredita, no entanto, que, por mais diversos que sejam, os brasileiros possuem algo em comum: “Em qualquer lugar que você for, você vai encontrar um brasileiro tentando ajudar você. Seja pra pegar o bus, ou se você tá perdido, seja na prefeitura, na fila pra fazer o GNIB [documento de identidade]. Claro, você encontra gente má em tudo que é lugar, mas em geral os brasileiros têm isso em comum, de querer ajudar uns aos outros, como em um sentimento de comunidade”. Aliás, foi um amigo brasileiro que ele conheceu lá quem o apresentou para a polonesa Joanna Szymoniak, sua atual esposa.

De fato, existem diferentes histórias de brasileiros que vão para a Irlanda, que se cruzam e acabam deixando marcas uns nos outros. Fernando Unanuê, de 31 anos, deixou Porto Alegre em 2015 para estudar Inglês em Dublin e retornar em 2016. No mesmo ano, acabou conhecendo sua atual namorada, Luiza Malschitzky, de Manaus. Por sua causa, está na Irlanda até hoje. “As nossas situações eram muito diferentes”, afirma. Enquanto Fernando pretendia ficar na Irlanda por um tempo determinado, Luiza tinha outros planos. “Ela já veio sem previsão de volta. Ela queria encontrar um trabalho e ver o que acontecia, de repente estudar algo depois. Enquanto eu vim com tudo planejado, ela simplesmente não tinha planejado quase nada. Acho que foi por isso que me apaixonei, além do sotaque, é claro.”
Fernando e Luiza se conheceram no “Forró dos Domingos”, que acontecia no terceiro andar de um típico bar irlandês no centro de Dublin. Lá, todo domingo, havia aulas gratuitas de forró, prosseguidas por um baile. “É muito doido pensar isso, que um bar de música irish colocou um espaço para forró, de tantos brasileiros que tem aqui. É gente de tudo que é canto do Brasil, mais um monte de irlandeses, e gente do mundo todo na verdade. Uns já sabem dançar, mas tem vários que são perdidos que nem eu. A Luiza dança bem e ia sempre lá. Conheci ela assim. Agora danço direitinho até.”

Espaço cultural no centro de Dublin, onde pessoas de todos os cantos do mundo se encontram nos bailes de forró | Foto: thelist.ie 
Fernando e Luiza se conheceram na Irlanda e namoram até hoje | Foto: Arquivo pessoal
SAUDADES, MÁS RECORDAÇÕES E APRENDIZADOS
Brasileiros e brasileiras que moram na Irlanda falam do que sentem mais falta, do que sentem menos falta e o que aprenderam sobre o Brasil na Irlanda:
do que sentem mais falta do Brasil?
Mayara: “Eu sinto muito falta da minha família e do clima do Rio de Janeiro, porque aqui é muito frio.”
Verônica: “Acho que de ser nativo do lugar, sabe? A sensação de estar em casa é diferente.”
Adley: “Família, sem dúvida, e do calor das pessoas. Acho que os brasileiros, de qualquer estado que sejam, são mais carinhosos do que o pessoal daqui.”
Fernando: “Sinto falta de alguns amigos de infância, porque acabo vendo eles só uma vez por ano.”
Do que sentem menos falta do Brasil?
Mayara: “Violência.”
Verônica: “Acho que o Brasil é um país mais perigoso pra gente viver. E também é mais difícil você viver bem com os salários de lá. Por exemplo, é complicado viver com o salário mínimo em Recife. Aqui na Irlanda, a gente consegue uma vida boa com o valor da hora mínima, trabalhando umas 30 horas [na semana], isso não existe no Brasil.”
Adley: “O que eu menos sinto falta do Brasil é a violência.”
Fernando: “Uma coisa que eu acho ruim é que é muito caro para viajar dentro do Brasil. Por exemplo, para ir de Porto Alegre para Salvador, tu paga uma fortuna. Aqui a gente consegue conhecer outros países da Europa por um preço melhor.”
o que aprenderam na irlanda sobre o brasil?
Mayara: “Aprendi que, se você vê um grupo de vários brasileiros no centro de Dublin, você não tem ideia de onde é o grupo, porque a gente é muito diverso mesmo. Aprendi a fazer chimarrão, porque tinha uma flatmate [colega de habitação] gaúcha, que infelizmente já voltou pro Brasil. Até hoje tomo nos ‘findes’ com um pessoal do trabalho no [parque] Stephens Green.”
Verônica: “Eu me dei conta de que é engraçado que no Brasil inteiro praticamente se fala português. Porque é muito grande e, mesmo assim, tem um só idioma. Quando você pensa, tem uns países aqui da Europa que são tão pequenos e tem vários idiomas. Você cruza uma parte da Espanha, Bélgica… Suíça também, e, dependendo, já troca o idioma. Nossa, o Brasil é enorme, e todo mundo fala português.”
Adley: “Eu já sabia que existia capoeira, mas não conhecia de verdade. Eu comecei a jogar capoeira aqui em Dublin, por causa de um amigo de Curitiba que era profissional no Brasil e me apresentou.”
Fernando: “Aprendi com minha namorada [de Manaus] que no verão chove todos os dias lá e que é calor o ano inteiro. Não é que nem no Sul, que muda bastante o clima no verão e inverno.”
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BRASILEIROS NA IRLANDA

A empresa de intercâmbios E-Dublin realiza uma pesquisa anual com vários brasileiros que residem na Irlanda. Os dados a seguir se referem à pesquisa realizada em 2020:
- 55% têm menos de 30 anos
- 10% têm 40 anos ou mais
- 29,9 é a média de idade dos brasileiros na Irlanda
- A maioria dos brasileiros é solteira
- Dos brasileiros até 25 anos, 60% são estudantes
BRASILEIROS MUNDO AFORA
Embora o número de brasileiros que residem na Irlanda venha crescendo significativamente, o país ainda não se encontra entre os 10 países estrangeiros com mais brasileiros. Os Estados Unidos estão em primeiro lugar, seguidos por Portugal e Paraguai, de acordo com os últimos dados oficiais do Portal Itamaraty, referentes ao ano de 2020. Confira a lista completa dos 10 países com as maiores comunidades brasileiras:

Também de acordo com dados oficiais do portal, exceto pelo período entre 2010 e 2012, o número de brasileiros vivendo fora do Brasil vem crescendo. Confira o gráfico:

Mayaras, Verônicas, Adleys, Fernandos e tantos outros brasileiros que se aventuram a viver fora do seu país de origem acabam não somente levando um pouco do Brasil para fora, mas também compartilhando seus “Brasis” entre si. Cada um leva um pouco de suas raízes culturais, suas histórias, seus hábitos, o que permite uma troca interessante. Conhecer outros brasileiros nos faz enxergar o quão diversos somos, e o quão bonito isso é. Diferentes entre si, mas todos brasileiros para o mundo. Brasileiros que vivem diariamente como uma comunidade, que se fortalece na união, nas similaridades e também nas diferenças.
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