Com a cabeça no amanhã

Procurar respostas sobre o futuro é tentador, e a ciência traz previsões precisas, mas o desejo de saber o que nos espera pode também tirar a nossa paz

REPORTAGEM
Camile Belmonte
camilebelmonte@yahoo.com.br

ILUSTRAÇÕES
Brenda Klein

Eliseu Sauthier (capa)
Luiza Griebeler Souza

Frequentemente nosso pensamento está no amanhã. Às vezes, parece até impossível se manter no presente. Existem muitos motivos para isso: ansiedade, precaução, curiosidade, otimismo, pessimismo. O futuro nos atrai.

A verdade é que estamos sempre planejando nossas ações e realizando pequenas previsões. Quando vamos ao mercado fazer as compras do mês, de certa maneira,  estamos tentando prever a quantidade de comida necessária para as próximas semanas. Quando nos preparamos para encontrar alguém em um restaurante, calculamos a hora de tomar banho, se arrumar, sair de casa, pegar o ônibus, até chegar lá. Afinal, nós precisamos de planejamento para organizar o dia a dia. 

Mas nem tudo está totalmente nas nossas mãos. Planejamentos podem dar errado, imprevistos podem acontecer. Para pessoas com maior necessidade de controle, situações de incerteza podem ser um pesadelo, e de tanto pensarem no futuro, esquecem de viver o presente. Segundo a psicóloga Ketlin da Rosa Tagliapietra, de Cachoeirinha, no Rio Grande do Sul, o presente, passado e  futuro estão interligados. Quando estamos constantemente presos e preocupados com o que ainda não aconteceu, podemos acabar esquecendo de olhar para o passado e ressignificá-lo.  

“Quando olhamos para as coisas do passado, modificamos o presente e o futuro. E, de uma certa forma, o passado também se modifica”

KETLIN DA ROSA TAGLIAPIETRA, psicóloga

Ketlin explica que a psicanálise trata de um passado que continua presente, e quando o paciente não o coloca em palavras, as situações continuam se repetindo: “Quando olhamos para as coisas do passado, modificamos o presente e o futuro. E, de uma certa forma, o passado também se modifica”. É comum querermos ter a certeza de que estamos vivendo da melhor forma, fazendo as escolhas certas, na profissão certa, com a companhia certa. Contudo, a psicóloga afirma que esse pensamento é ilusório: não só não é possível ter certeza de tudo, pois a vida não vem com um manual, como também é necessário fazer escolhas e planejar o futuro sem esquecer do presente.


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A psicóloga Carla Otoboni, de São Paulo, afirma que temos dificuldade em reconhecer a nossa finitude: “É a única garantia que temos. Desta forma, tentar adivinhar o futuro, como uma forma de controle, nos dá a sensação de termos garantias de boas escolhas, diminuindo a angústia”. Carla lembra que somos seres temporais, e essa é uma questão fundamental à nossa existência. A forma como estabelecemos nossa relação com o tempo pode nos causar extrema ansiedade, culminando, assim, em estados de adoecimento e dor. Para levar a vida de forma mais equilibrada, a psicóloga aconselha exercitar a consciência do presente, realizando escolhas no agora que nos encaminhem aos nossos projetos futuros. 

O incerto

Mas nem sempre conseguimos controlar a ansiedade e a curiosidade. É nesse momento que surge a vontade de saber o que não está no nosso controle, e algumas pessoas acabam procurando respostas sobre o seu futuro no mundo esotérico. Ao longo da história da humanidade, os oráculos tiveram papel importante, e até hoje a busca por previsões mesmo sem comprovação científica sobrevive. Um post de fevereiro de 2020 do vidente Valter Arauto no Facebook viralizou em novembro do mesmo ano, pois ele previa a morte do jogador Diego Maradona após uma cirurgia – o que acabou por acontecer. Valter, que é de Birigui, no interior de São Paulo, conta que descobriu seu dom aos 13 anos. Hoje, se dedica inteiramente ao trabalho espiritual, fazendo consultorias e mantendo o grupo com quase oito mil pessoas no Facebook, no qual posta insights e suas principais profecias. 

Arte: Luiza Griebeler

De acordo com o vidente, ele não escolhe o que prevê, sobretudo ao se tratar de famosos ou desastres. Ele diz que as visões vêm em flashes durante o dia, ou aparecem em seus sonhos. Para o consultor espiritual, “receber as visões” sobre famosos também é uma boa forma de chamar o público: “Costumo dizer que fazer previsões de famosos é lançar a rede ao mar. Lançando essa rede de entretenimento, consigo atrair milhares de pessoas para as visões principais do grupo”. As projeções centrais giram em torno de um enigma milenar que o vidente diz ter descoberto, sobre seu papel no mundo, que é “abrir um portal dimensional entre a Terra e o céu”. No caso das consultorias pagas, para ver o futuro de seus clientes, ele diz que precisa ativar o que chama de “antena”. Valter garante  que essa antena fica localizada em sua glândula pineal, no cérebro. 

As cartas também são utilizadas para esclarecer os questionamentos de quem gosta das terapias holísticas. Porém, ao contrário do que muitos podem pensar, o tarô vai além das previsões: o tarô terapêutico, por exemplo, foca no autoconhecimento. A taróloga Aleana Santos, de Maricá, no Rio de Janeiro, explica que esta prática propõe o acolhimento: “Ele não é focado em previsões, como os outros métodos, ele apenas busca trazer conforto para a situação atual”. Nas leituras desta modalidade, de acordo com Aleana, as cartas expressam o inconsciente do cliente, trazendo aconselhamentos e clareza sobre o momento atual vivido pela pessoa.

“É possível prever, mas o futuro pode mudar, dependendo das suas escolhas, suas ações, e do livre arbítrio de outras pessoas”

ALEANA SANTOS, taróloga

Porém, muitos preferem outra abordagem do tarô e respostas mais específicas para suas dúvidas. Aleana afirma que, geralmente, os clientes a procuram  para saber sobre seus relacionamentos amorosos ou sua vida financeira. Nessas ocasiões, conforme a taróloga, são feitas previsões com base na leitura de energias do momento. Mas ela  também diz que outros fatores podem mudar os caminhos: “É possível prever, mas o futuro pode mudar, dependendo das suas escolhas, sua ações, e do livre arbítrio de outras pessoas”.

O tempo e a ciência

Arte: Brenda Klein

A ciência também trabalha com previsões, essas possíveis de serem comprovadas. A meteorologia, por exemplo, é uma das áreas cujo objeto de estudo se relaciona com o futuro e está presente no nosso cotidiano. Basta uma rápida pesquisa no Google  para  sabermos como estará a temperatura nos próximos dias, mas não é nada simples para quem tem que fornecer essas informações. “Para fazer a previsão do tempo, nós contamos com computadores de altíssimo desempenho”, explica a meteorologista Cátia Braga, que trabalha como autônoma na cidade de Rio Grande. Ela afirma que esses aparelhos são capazes de fazer muitas operações matemáticas em poucos segundos a partir de modelos meteorológicos que contém dados como vento, temperatura, pressão e umidade. 

Cátia Braga, de pé, segurando um microfone, com papéis na mão. Um cinegrafista filma ela. No fundo da imagem, há uma vista ao ar livre.
A meteorologista Cátia já trabalhou na TV Record de Santa Catarina | Foto: Arquivo pessoal

Às vezes, porém, as previsões podem errar. O tempo e o clima são fenômenos complexos, e os estudos ainda não conseguem contemplar todas as leis da natureza que os envolvem. Cátia explica que muitos erros acontecem porque o sistema meteorológico que iria ocasionar algum fenômeno atrasou ou adiantou. Tal sistema é o que causa instabilidades no clima, como  frentes frias e fenômenos de baixa pressão. 


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A meteorologia, contudo, não estuda apenas como será o dia de amanhã. A ciência lida com previsões que envolvem física, química, cálculos e estatísticas, tudo isto para compreender os fenômenos climáticos. Além disso, ela tem um papel social importante. “Muitas vezes, com o auxílio da Defesa Civil, são retiradas  pessoas de lugares de vulnerabilidade sabendo que pode ter chuva volumosa e, por consequência, desmoronamento”, ressalta a meteorologista. Assim, as consequências de desastres naturais podem ser amenizadas a partir das orientações passadas pelo profissional da meteorologia. 

Os planejamentos

E quanto ao futuro da nossa própria saúde? Segundo dados do Ministério da Saúde, em 2030, o Brasil terá a quinta população mais idosa do mundo. O médico geriatra Virgílio Olsen, doutor em cardiologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), explica que o crescimento da população idosa é um processo novo e que vem acontecendo de forma rápida: “Vemos que a nossa população idosa não se preparou para viver essa fase da vida, e isso se reflete na saúde deles, que ainda têm muito foco em doenças e pouco em prevenção”. Portanto, em geral, as pessoas evitam em pensar sobre enfermidades futuras para tentar, ainda jovens, evitá-las.

Uma pessoa idosa sentada, segurando uma bola pequena de brinquedo, aparecendo da cabeça para baixo. Outra pessoa, mais jovem, segura a mão do idoso, auxiliando ele.
No Brasil, uma pessoa é considerada idosa a partir dos 60 anos | Foto: Banco de Imagens Pixabay / Usuário StockSnap

Poucos sabem que a geriatria também trabalha com a medicina preventiva, uma área que se dedica à prevenção de doenças ao invés do seu tratamento. Ou seja, é uma especialidade que olha, sobretudo, para o futuro e que pode ser procurada por pessoas que ainda não chegaram na velhice. O médico explica que existem dois principais grupos de doenças nos quais é possível atuar pensando na prevenção e promoção da saúde: as doenças cardiovasculares e as doenças oncológicas. Fazendo exames de rotina e tomando alguns cuidados básicos, é possível melhorar a qualidade de vida na velhice, evitando tratamentos mais agressivos no futuro. 

Porém, um problema afeta a especialidade da geriatria no Brasil: a falta de médicos geriatras.  No país, segundo dados do Ministério da Saúde, existem apenas 869 profissionais dessa área registrados no Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde – enquanto a Organização Mundial da Saúde (OMS) estipula que, em um cenário ideal, deve haver um geriatra para cada mil idosos. Em 2019, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística divulgou que o número de idosos no país chegou a 32,9 milhões. Assim, para suprir o número ideal de médicos geriatras, seriam necessários 32,9 mil profissionais atuando.

Guilherme Saraiva, de pé, com um microfone headset e gesticulando com a mão. Atrás dele, quatro telas de televisão com a legenda “Mentoria para Empreendedores”.
Guilherme defende que estudar sempre é fundamental para atingir o sucesso | Foto: Arquivo pessoal

Além de envelhecer de forma saudável, muitos almejam construir uma carreira brilhante, viajar bastante, ser feliz. É fácil perder horas pensando no futuro dos sonhos, pois imaginar desejos sendo realizados é prazeroso. Mas, para quem se preocupa com a vida profissional, por exemplo, não basta sonhar: o planejamento é essencial. Segundo Guilherme Saraiva, empreendedor e vice-presidente executivo do Complexo de Ensino Renato Saraiva, empresa que oferece cursos para concursos em diferentes regiões do Brasil, planejar é diminuir o grau de incerteza: “É questão de probabilidade mesmo”. Para ele, as coisas podem até tomar um rumo diferente do que projetamos, mas quanto mais planejamento, mais chances de sucesso teremos. 

E como realizar o planejamento perfeito? Não existe uma fórmula mágica, nem manual. Guilherme acredita que o primeiro passo é o autoconhecimento: “Sabendo quem você é, fica muito mais fácil saber onde quer chegar”. Dessa forma, de acordo com ele, conseguimos compreender como absorvemos melhor os aprendizados. O segundo passo, segundo o empreendedor, é estudar e, em seguida, colocar em prática um sistema de metas e objetivos que contemplem ações reais para chegar no futuro desejado.


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Existem, inclusive, estudos que se dedicam a tentar prever os possíveis caminhos que a humanidade pode tomar. É o caso da futurologia, que busca traçar projeções para o futuro de diversos campos da ciência e da humanidade. Guilherme, que fez parte do podcast “Futurologia Para Amadores”, conta que é possível antecipar uma série de situações que podem vir a afetar o futuro da humanidade, permitindo que as sociedades planejem ações a longo prazo para amenizar cenários indesejados. 

Independente da forma como cada um olha para o seu futuro, o mais importante é não esquecer que ele está sendo construído hoje, e viver o presente sem ansiedade pode ser o primeiro passo para conseguir planejar e se preparar para o que virá.

4 comentários em “Com a cabeça no amanhã

  1. Sensacional a matéria, conseguiu trazer temas atuais de uma maneira didática e simples, expondo de fato o que ocorre com exemplos do cotidiano. Ao citar o tempo, frisando o quão é importante nos planejarmos sobre algo tão crucial, os exemplos do mundo esotérico reiteram o que William Shakespeare disse ”Há mais coisas entre o céu e a terra do que pode imaginar nossa vã filosofia.”

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