Toca um Techno!

Com as novas tecnologias do processo de produção musical, os produtores precisam estar mais atentos aos processos técnicos da atividade

REPORTAGEM
Vítor C. M. Prado
vprado223@gmail.com

ILUSTRAÇÕES
Carolina Kircher Baiocco
(Capa)
Nicolas Jorge Mollardi

Há pouco mais de um ano, a crise do coronavírus produziu uma série de mudanças de maneira quase impositiva sobre a sociedade e, com certeza, irreversíveis. Aderimos às máscaras, ao distanciamento e, sobretudo, ao isolamento social. Não de súbito, mas de forma paulatina, o recrudescimento da crise impôs novos hábitos às vidas das pessoas em qualquer que seja sua esfera. Além disso, nos vimos diante da necessidade de refletir sobre a importância da arte, do entretenimento e da cultura. Afinal, com o confinamento dentro de nossas casas, o que sobraria não fossem os filmes, livros e músicas?

Volta e meia, após esbarrarmos entre uma parede e outra, nos enxergamos sentados diante de uma tela. Na verdade, nesses últimos meses, a rendição para as telas tornou-se somente uma questão de tempo. E, assim, a repetição desse ato tornou-se hábito, e o hábito, pela força das convenções sociais, fez-se costume — serviços de streaming estão substituindo os cinemas; as lives, substituindo os shows; e o consumo de música está em plena ascensão. 


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Diante de tantas mudanças, é comum nos perguntarmos o que vai acontecer no futuro na área da cultura. As respostas para essa pergunta geralmente possuem um cunho especulativo, mas, no caso da música, o que tomamos por futuro já está ocorrendo, e as respostas são menos abstratas e mais diretas. Ainda assim, se quisermos compreender tal questão, precisamos nos debruçar nas tendências de consumo e, também, analisar a produção musical.


Spotify e o Mood Economy 

Atualmente, o maior serviço de streaming de música do mundo é o Spotify, que conta com mais de 50 milhões de faixas em todo seu acervo. E não para por aí, segundo o CEO do Spotify, Daniel Ek, são adicionadas mais de 40 mil novas faixas ao serviço de streaming todos os dias. Mas o que isso quer dizer? Do ponto de vista de quem consome, existe uma tendência — se até 2020 a busca por gêneros musicais era a predominante, atualmente 71,5% dos jovens entrevistados pela pesquisa da Flow Creative Core dizem que escolhem suas músicas por mood, ou estado de espírito. Músicas para animar e músicas para relaxar são os moods mais escolhidos. Além disso, o próprio Spotify realizou um levantamento que mostra um aumento de 25% na busca por músicas mindfullness e meditação após o início da pandemia — o que coincide com um aumento na busca por produtos de yoga de 154%. Ou seja, esse é um fenômeno que não se restringe somente à música, que é o Mood Economy.

Legenda Foto:  PARA TODOS VEREM: Foto mostra um produtor musical em seu estúdio de música, rodeado de controladoras midi, mesas e caixas de som.
Os produtores musicais precisam se adaptar aos novos cenários que a tecnologia proporciona | Foto: Unsplash / Fabio Jesman

No que diz respeito à produção musical, a resposta sobre o futuro  requer mais cuidado. Isso porque nos deparamos com algumas questões técnicas que envolvem padronagem musical, masterização do som e requisitos comerciais. Nesse sentido, Mário Arruda, que é músico, produtor musical e compositor da banda Supervão, de São Leopoldo, além de doutorando na área de Cultura e Significação, conta sobre esse processo: “Entrar no Spotify não garante nada. Quem mais circula nessa plataforma é quem consegue alcançar o padrão musical dela e que tem uma sonoridade clara para os gêneros musicais existentes. O Spotify tem padrões específicos de masterização e playlists próprias calcadas em gêneros musicais. Quando alguém submete uma música para a avaliação do Spotify, a primeira ação é enquadrar a música em um gênero musical e em um mood. Com essas informações, a música é enviada para editores de playlists, que avaliam plástica e tecnicamente a canção através de escuta humana e de escuta computadorizada, podendo ou não adicioná-la nas playlists que administram”. 

A desigualdade no mundo dos Streamings 

Ainda pelo ponto de vista do produtor, temos uma outra questão complexa: a desigualdade nos serviços de streaming. Segundo dados da empresa Alpha Data com a revista Rolling Stone, apenas 1% dos artistas que estão no Spotify são responsáveis por 90% das audições. Esse número nos faz pensar sobre as 40 mil faixas adicionadas todos os dias. Afinal, temos condições diferentes de produção musical. Segundo o professor de Produção Fonográfica do Instituto Federal do Rio Grande do Sul  (IFRS) Marcelo Bergamin Conter, a captação e edição das músicas podem ser feitas em casa, mas a masterização e mixagem precisam ser feitas geralmente em estúdio profissional. “O que é necessário, pois alguns canais como Youtube e Spotify têm requisitos. Você pode mixar e masterizar em casa com uma boa qualidade, mas um profissional vai ser capaz de deixar a música soar bem nos diferentes canais.” Dessa forma, de acordo com ele, os instrumentos ficam hierarquicamente organizados, e a música irá rodar de acordo com a estética atual. 

Assim, grande parte dos artistas da cena independente da música ainda possuem certa dificuldade de obter visibilidade e acabam recorrendo a outros streamings que possuem mais chances de serem ouvidos. São aqueles em que encontramos a música independente, underground e experimental, como o Soundcloud e o Bandcamp. Outro debate que vem tomando cada vez mais corpo acerca da produção musical é quanto ao volume “sonoro” das músicas. Um estudo realizado pela companhia Echo Nest baseado numa análise das cinco mil músicas mais famosas que foram ao ar desde 1950 até 2010 chegou à conclusão de que o volume cresceu 39% nos últimos 20 anos. Trata-se da Loudness War, ou guerra do barulho.

Arte: Nícolas Mollardi

 O produtor fonográfico Valmor Pedretti, que assina seu trabalho como “Fu_k The Zeitgeist”, concorda com a existência dessa guerra e explica como ela começou e o que tem sido feito para evitar seu avanço: “Essa escalada começou ali pela virada do milênio, quando cada produtor tentava fazer com que sua música soasse mais alta no rádio do que todas as outras, usando técnicas de compressão. Isso foi achatando a variação dinâmica nas músicas”.  Essa variação é a diferença de volume entre os pontos mais calmos e mais agitados de uma faixa. Isso  resultou no estabelecimento de uma regulamentação de loudness”. Ou seja, de volumes adequados para as músicas.

“Hoje em dia, arquivos que são colocados no Youtube ou Spotify passam por uma avaliação eletrônica automática que força o volume pra baixo caso exceda o limiar determinado. Já na televisão, arquivos que excederem o padrão determinado sequer são aceitos para veicular”

VALMOR PEDRETTI, produtor fonográfico

A dicotomia: música comercial versus música independente

Com certeza, as possibilidades técnicas de se produzir música de maneira independente aumentaram, e, embora exista a questão da desigualdade na divulgação dessas músicas, os produtores independentes parecem não recuar. Dessa forma, assinala-se para o debate sobre o futuro da música, a velha dicotomia entre a música comercial, em geral produzida nos grandes estúdios, e a música independente ou underground. Enquanto uma se configura segundo seu grande potencial de alcance de audiências, a outra tem grande importância na experimentação. Não raro encontramos algumas críticas pendendo para um ou outro polo. Contudo, faz-se necessário o comedimento e a ponderação na análise dessa dicotomia.


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 Nesse sentido, Gabriel Gobbi, artista e produtor fonográfico de Porto Alegre, fala da seguinte forma sobre essa dicotomia: “Uma coisa independe da outra, acho que não faz sentido. E precisamos separar a arte do business e entender que existem muitas músicas boas que não viraram sucesso por causa de uma má promoção ou falta de projeto, e temos músicas medianas que cederam milhares de dólares por causa de boas estratégias de marketing e outras coisas que acompanham a música, como uma pessoa famosa que a canta, ou um clipe hilário”. Ele diz que, nesse sentido, ainda há quem alimente o debate da música independente versus música comercial com a argumentação de que existe uma homogeneização do discurso musical nas canções pop e de que elas estariam se tornando simples e iguais umas às outras. 

O professor Marcelo diz que esse tipo de argumentação é abominável, mas acredita que o debate faz sentido, desde que sua proposta seja a do avanço da música. Sobre o pop, o professor relata que o gênero acaba seguindo essa estrutura específica. “E a riqueza do pop está na expansão de timbres.” Ainda no que diz respeito ao debate, Marcelo pontua o lugar de fala de cada polo da discussão: “O independente sempre foi um espaço de vanguardas — Ramones, Nirvana, house, techno, raves, rock, blues e jazz. Quando o jazz surgiu, para os elitistas, se tratava de ‘música ligeira’, como Adorno [filósofo e compositor alemão] chamava. A dicotomia podemos pensar da seguinte forma: o mainstream como aparelho de estado ideológico, e o independente, como revolucionário. Dessa forma, o capitalismo vai incorporar processos do underground e traduzir segundo seus termos. Como exemplo, o Nirvana surge numa casa underground e assina com um baita selo, e o mainstream, como aparelho de estado que é,  incorpora isso pra ele”. 

Arte: Nícolas Mollardi

Nunca houve tanto espaço para a produção musical. Ao mesmo tempo, parece nunca ter havido tanta concorrência também. Aos produtores que estão entrando nesse mercado, são inúmeras as possibilidades técnicas, e uma audiência volumosa com grande potencial de consumo futuro. Ainda assim, temos um novo imperativo, a necessidade de encaixar técnica e discursivamente as canções segundo os padrões de cada streaming, pensando em questões como a narrativa musical e o mood ao qual ela pertence. 

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