Recarregando As Energias

Melissa Terres. Janelas.
Janelas. Artista: Melissa Terres

Comparado à antiga rotina, o período de isolamento faz com que nossas energias sejam gastas muito mais rapidamente. No entanto, existem diversas maneiras para recuperá-las dentro de casa

REPORTAGEM
Marcelle Marichal
marichalmarcelle@gmail.com

ILUSTRAÇÃO
Melissa Terres

No último dia em que abriu, a pizzaria que fica abaixo do meu apartamento nunca esteve tão vazia. Era a terceira semana de março, e a maioria dos locais de trabalho estavam interrompendo suas atividades ou adaptando-as para o home office. A população ficou receosa demais para sair de casa, e os clientes da pizzaria preferiram deixar o rodízio para quando tudo estivesse mais calmo. O silêncio no restaurante era atípico. Até a semana anterior, a energia do local era renovada com o movimento: lotado de famílias cantando parabéns ao comemorar aniversários, casais se encontrando e grupos de amigos compartilhando momentos. E todo esse movimento era mais que suficiente para cobrir os gastos.

O dono do local decidiu encerrar temporariamente as atividades no dia 21 de março, depois de não receber quase nenhum cliente por três dias consecutivos — incluindo a sexta-feira, o dia da semana em que pessoas faziam filas fora do estabelecimento aguardando que mais mesas fossem liberadas. A solução encontrada foi tornar o local um ponto de tele-busca para conseguir pagar os funcionários que não foram afastados. O pouco lucro conseguiu pagar as contas de água e luz do mês de abril, mas o dinheiro não seguraria as pontas até julho. 

Placas solares. Pauta Marcelle Marichal.
Na janela que inspirou a reportagem, é possível ver os painéis solares, que cobrem o telhado da pizzaria e que resolveram o problema de energia do estabelecimento | Foto: Marcelle Marichal

Numa segunda-feira de maio, notei, ao olhar pela janela da cozinha, uma movimentação no extenso telhado da pizzaria. Duas pessoas deixavam sobre ele materiais que pareciam paredes pretas envidraçadas e muitas barras de ferro. Dias depois, a construção tomou forma, e o telhado estava coberto por painéis solares. Uma solução bem pensada para o problema de energia, já que o restaurante ficava em um local privilegiado e recebia muito sol. No fim, isso reduziu em 60% o valor da conta de luz do estabelecimento, como me contou o proprietário. Se até um restaurante sofreu problemas de falta de energia no isolamento, o que sobrou para as pessoas, que possuem muito mais fragilidades? 

“Sou um tipo de pessoa que não pode ficar parada de jeito nenhum, eu tenho ansiedade, e o exercício me ajuda a externalizar isso” 

GIULIA MINUZZO, estudante de filosofia

A estudante de filosofia Giulia Minuzzo, 20 anos,  conta que tentou continuar fazendo exercícios em casa assim que as academias de Porto Alegre fecharam. “Sou um tipo de pessoa que não pode ficar parada de jeito nenhum, eu tenho ansiedade, e o exercício me ajuda a externalizar isso.” Giulia, que antes frequentava uma academia, passou a assistir a vídeos no Youtube com dicas para se exercitar e não perder o costume de se movimentar. Ela relata que construiu uma rotina de atividades físicas, na qual se comprometeu a se exercitar no mínimo três vezes por semana. Ao longo dos meses, a estudante testou diversos tipos de exercício até encontrar o yoga, atividade que passou a realizar antes de dormir.

Estudante fazendo yoga. Pauta Marcelle Marichal.
A estudante Giulia passou a praticar yoga antes de dormir | Foto: Arquivo Pessoal

Giulia teve certa relutância no início, não acreditou que conseguiria realizar os movimentos nem que o yoga a faria se sentir mais leve. Ela só decidiu dar uma chance para a atividade após seu namorado, praticante de yoga, lhe ensinar algumas posições. “Eu passei a fazer sempre antes de dormir, pelo menos por uns dez minutinhos, movimentos básicos, e as minhas noites de sono acabaram sendo bem mais prazerosas.” Ela relata que seu sono estava desregulado desde a adolescência e havia piorado ainda mais durante o isolamento, pois passou a dormir de madrugada e acordar muito tarde: “Acho que isso aconteceu por eu não ter obrigações para horários específicos. Na quarentena é tudo muito livre, em aberto, então tu não sabe exatamente o que tu pode ou não pode fazer, e essa confusão pode acarretar um sentimento de que tu não precisa fazer nada, então tu não vai fazer nada”.

A educadora física pós-graduada em medicina esportiva Laura Maciel afirma que durante a quarentena é muito comum as pessoas se depararem com uma desorganização dos horários. Segundo ela, se empenhar em manter uma rotina estabelecida de exercícios auxilia muito na organização da mente. “Quando tu tem uma prática regular de atividade física, isso te dá um norte. Quando tu reserva um horário do teu dia para fazer atividade física em casa, tu tem algo que ajuda a organizar essa rotina.” Além de os exercícios auxiliarem Giulia na reorganização de seus horários, agora ela também consegue recarregar sua energia com uma boa noite de sono. Essa força a ajudou até mesmo a aprender a tocar instrumentos como ukulele e violão, atividades que sempre teve interesse em iniciar.

Ukelele. Pauta Marcelle Marichal.
Giulia aprendeu a tocar ukulele durante o período de isolamento | Foto: Arquivo Pessoal

No entanto, a estudante de filosofia relata que sua energia era sugada cada vez mais rápido conforme o tempo de isolamento passava. Por volta do terceiro mês, ela recebeu o baque de perceber que não sabia quando isso tudo acabaria, o que a fez se sentir limitada e presa. “Eu me travei total, perdi a inspiração de fazer as coisas. Aí a ansiedade veio com tudo, fiquei deitada, sem vontade de fazer nada, energia totalmente sugada só com pensamentos.” Depois de duas semanas vivendo a fase, Giulia conta que, após diversos momentos de reflexão, conseguiu a força necessária para recarregar suas energias novamente: “Continuando assim, eu teria tendência a piorar, então resolvi voltar aos poucos, respeitando as minhas limitações.”

Reinventar a Rotina

A psicóloga e mestre em psicologia social Ana Paula Eid considera de extrema importância focar na organização da rotina. “Em tempos de pandemia e de transformação, é importante que as pessoas ocupem o seu tempo com atividades produtivas, como realizar algum tipo de atividade física, meditar, manter uma alimentação saudável, aquarela, crochê, entre outras atividades.” O isolamento imposto para prevenir a contaminação do coronavírus pode trazer várias consequências no emocional das pessoas. A psicóloga afirma que os impactos negativos podem ser diversos: estresse agudo, humor deprimido, irritabilidade, sono desregulado, exaustão emocional, nervosismo, medo, raiva, ansiedade e outras preocupações. “É preciso ficar atento para que esses impactos não tragam consequências a sua saúde”, diz a profissional. Ela também menciona que o período da quarentena não é nada confortável, por isso é preciso se reinventar e adotar hábitos que favoreçam o bem estar; e que ater-se a atividades que se gosta de fazer é uma saída muito mais viável. 

Danieli e seus amigurumis. Pauta Marcelle Marichal.
Danieli voltou a construir bonecos em amigurumis, uma técnica japonesa de fazer crochê, quando seu contrato de trabalho foi encerrado durante a pandemia | Foto: Arquivo Pessoal

Para recarregar suas energias nesta quarentena, a estudante de biologia Danieli Stacke, 23 anos, que vive em Gravataí, optou por retomar o antigo hábito de crochetar, herança de ambos os lados de sua família: tanto sua bisavó paterna quanto sua avó materna praticavam o trabalho manual. Anos atrás, quando a bisavó de Danieli faleceu, a estudante herdou todos os seus materiais de crochê. O processo de aprendizado foi tão cansativo que ela desistiu por alguns meses. Em 2018, ao navegar pelo Twitter, Danieli encontrou uma foto do personagem de desenho japonês Pikachu feito em amigurumi, uma técnica japonesa para criar pequenos bonecos de crochê. Com isso, ela se apaixonou pelo estilo do artesanato e decidiu focar seus aprendizados nesse método. “O amigurumi é bem diferente de fazer tapetes, toucas e outras coisas que se costuma fazer no crochê”, afirma ela. O crochê tradicional é feito na forma plana, em 2D, enquanto os amigurumis são tridimensionais. Além disso, também há grandes diferenças na maneira de crochetar, pois a forma tradicional é feita em carreiras, enquanto o amigurumi é construído em círculos, com as linhas interligadas. 

Amigurumis. Pauta Marcelle Marichal.
Amigurumis construídos pela estudante de biologia | Foto: Arquivo Pessoal

Depois de ser contratada em um novo emprego em 2019, a estudante ficou sem tempo para se dedicar à atividade. Danieli retornou a construir amigurumis durante a quarentena, após seu contrato ser encerrado em abril. Ela reconhece a importância da atividade nesse período de isolamento: “Ajuda muito. Tu te distrai e vê algo tão bonitinho tomando forma, aí termina e percebe que foi tu que fez aquela coisa mais fofa, é muito bom. Não tem explicação quando tu vê pronto. Acho que se eu não soubesse fazer os amigurumis, eu ia acabar ficando só no computador, e meus horários estariam bem mais desregulados”.

“Na aquarela tu tem que mexer no pincel, tem que pegar água, se molha, se suja de tinta, é uma coisa que te tira um pouco da frente das telas”

PAOLA CRESCENCIO, estudante de medicina 
Paola e suas criações. Pauta Marcelle Marichal.
Paola diz que pintar com aquarela recarrega sua energia durante a quarentena | Foto: Arquivo Pessoal

Assim como Danieli, a estudante de medicina Paola Crescencio, 24 anos, de Porto Alegre, retomou um hábito que a faz se sentir realizada. A história da jovem com a aquarela começou no ano passado, quando seu irmão a presenteou com um estojo das tintas. Na época, ela vivia o seu quarto ano de cursinho preparatório para o vestibular. “Era bem estressante. Era um lugar que eu não gostava de estar, lá eu aprendia sempre as mesmas coisas, e foi bom ter um objeto de estudo diferente.” Depois de conseguir entrar em medicina, Paola teve momentos de desconexão com a aquarela devido à rotina cheia. No entanto, além de proporcionar mais tempo livre, o cansativo período do isolamento despertou na estudante a necessidade de voltar às aquarelas. Ela relata que, quando as aulas online começaram, o que sugava sua energia era a quantidade de tempo passada em frente à tela do computador. “E na aquarela tu tem que mexer no pincel, tem que pegar água, se molha, se suja de tinta, é uma coisa que te tira um pouco da frente das telas.” 

Aquarelas. Pauta Marcelle Marichal.
Aquarelas prontas, pintadas pela estudante de medicina | Foto: Arquivo pessoal

Para Paola, a arte das aquarelas vai muito além da beleza. Segundo a estudante, a técnica requer abrir mão de boa parte do controle por ser uma tinta que se dissolve na água e se espalha sozinha. “A aquarela sempre vai ficar um pouco mais livre do que tu espera. Eu acho que isso é como uma metáfora pra vida, saber que tu não vai ter tanto controle.” A atividade também requer muita paciência, já que a pintura, feita em camadas, não depende só do artista para ficar pronta. Há o processo de esperar a tinta secar entre uma camada e outra, o que é muito influenciado pelo clima. “Tudo isso torna a atividade muito terapêutica e revigorante”, reconhece a estudante. 

Sobre começar novas atividades, a educadora física Laura reforça: “O amanhã de ontem é hoje. É agora, não deixa pra depois.” Nessa quarentena, olhar pra si e dedicar um tempo de autocuidado, seja ele qual for, recupera energias e é saudável emocionalmente. Sejam exercícios, pinturas ou artesanatos, o importante é, assim como fazem os painéis solares da pizzaria, otimizar o gasto de energia do corpo e da mente. 

Foto na janela. Pauta Marcelle Marichal.
Paola tira um tempo do dia para si e realiza pinturas em aquarela em sua janela | Foto: Arquivo Pessoal
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