Já se passaram 20 anos desde que o líder comunitário Luis Isaias Pires, de 52 anos, mudou-se para a capital gaúcha em busca de melhores condições de trabalho. Natural de Bagé, no interior do Rio Grande do Sul, ele conta que, quando chegou em Porto Alegre, escolheu a região das ilhas como moradia devido à semelhança que o espaço possuía com as áreas rurais de sua cidade natal. Porém, não demorou muito para perceber as dificuldades que enfrentaria no local.
Pouco tempo depois de sua chegada na Ilha das Flores, no início dos anos 2000, passou pela primeira enchente. As obras de sua casa, próxima às margens do Lago Guaíba, ainda não estavam concluídas quando foram destruídas pela cheia. A situação se repetiu nos anos seguintes e foi modificando parte da paisagem do local e da rotina de seus moradores, que precisaram aprender a conviver com uma área que carece de políticas públicas.
“É uma situação que cada vez se agrava mais. O pessoal das Ilhas têm a prerrogativa de ser resiliente, mas a situação só está se agravando. É inconcebível ficar construindo casas de tempos em tempos”, comenta Luis ao falar que as cheias no local têm se tornado mais frequentes. Com o lago invadindo as casas, muitas vezes as pessoas ficam sem acesso às suas moradias, o que impede as crianças de irem para a escola e seus pais de trabalharem. “Isso é inaceitável, porque não dá condições de as pessoas se desenvolverem”, completa.

Segundo o relato de outra moradora da Ilha, a dona de casa Josenete Silva, de 58 anos, que desde os 12 mora na região, as enchentes se intensificaram nas últimas duas décadas. A cada alagamento, as águas arrastam lixo e esgoto para os pátios das residências. Em razão disso, uma mudança significativa que ocorreu no local foi o fim dos chamados cercados, grandes hortas que eram cultivadas na comunidade. Com as cheias e a poluição, a terra se tornou imprópria para o plantio.
“Antigamente, a gente podia plantar, colher, fazer várias coisas. Mas depois, com os impactos ambientais, muitas coisas mudaram. Como aqui nós não temos esgoto [encanado], é tudo à céu aberto, essas águas que vêm, elas são todas contaminadas”, comenta Josenete.
O que vivem Luis, Josenete e parte dos moradores do bairro Arquipélago, formado pelas ilhas de Porto Alegre, ilustra uma forma de desigualdade que relaciona os sujeitos com as condições do território onde vivem. É o racismo ambiental, termo surgido nos Estados Unidos que levanta um questionamento: quem são as pessoas e as comunidades que mais sentem os impactos gerados pela degradação do meio ambiente?
A relação entre racismo e território
O conceito de racismo ambiental foi criado na década de 1980 por Benjamin Franklin Chavis, um dos líderes do movimento pelos Direitos Civis nos Estados Unidos. O termo surgiu a partir de uma pesquisa que o ativista desenvolveu em que investigava a relação que existia entre o descarte de resíduos tóxicos e a população negra. Em oito estados do sul dos EUA, em 1983, 75% dos depósitos de rejeitos eram instalados em bairros negros.
A partir disso, raça e territórios aparecem como recortes importantes para se identificar as populações mais afetadas pelas ações dos seres humanos na natureza. E não são apenas os eventos extremos, como as cheias, que representam esse fenômeno. A falta de acesso à água potável, à moradia, ao saneamento básico ou mesmo à alimentação de qualidade são também exemplos de problemas que são mais recorrentes em determinados grupos da sociedade, como os povos indígenas, negros, quilombolas e ribeirinhos. São situações que se conectam com o racismo justamente por inferiorizar grupos a partir da negação de direitos.
“O racismo ambiental está presente nas periferias quando não há a regularidade de serviços básicos para determinada população”
CAMILA GÓES, educadora agroecológica
O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou, em 2020, dados que mostram que cerca de 39,7% dos municípios brasileiros não possuem acesso a serviço de esgotamento sanitário, com 34,1 milhões de domicílios desassistidos. Além disso, apenas 62,8% do volume desse esgoto recebe tratamento adequado, sendo o restante descartado em locais impróprios. A cidade de Porto Alegre é um exemplo desse cenário. Somente 56% do esgoto na capital gaúcha é destinado para tratamento.
“O racismo ambiental está presente nas periferias quando não há a regularidade de serviços básicos para determinada população, como a coleta de lixo, o tratamento de esgoto, o abastecimento de água potável. O impacto na vida das pessoas é imenso e limita o bem viver, atingindo em cheio a saúde das comunidades periféricas, que estão mais expostas à presença de doenças como tuberculose, dengue e leptospirose”, explica Camila Góes, educadora agroecológica de Olinda, que desenvolve projetos nas periferias de Pernambuco. A ação visa ensinar a população das comunidades a como se relacionar melhor com o meio ambiente.
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PLANETA EM CRISE

Tema cada vez mais presente em nosso cotidiano, as mudanças climáticas se tornam motivo de preocupação devido à ameaça que representam para a vida na Terra. Causadas pelas ações do próprio ser humano, como mostrou o mais recente relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), essas transformações têm efeitos que já podem ser percebidos em todo o planeta. O estudo faz um alerta para o aumento de ondas de calor, secas, alagamentos e outros eventos climáticos extremos nos próximos 10 anos.
“O racismo ambiental e as mudanças climáticas estão intimamente ligados, pois o racismo ambiental envolve questões territoriais e tem conexão direta entre a exploração da terra e das pessoas. E as mudanças no clima do mundo inteiro são justamente o resultado dessas explorações”, fala Camila, que cita como exemplo a crise hídrica que ameaça o Brasil, relacionando-a com o aumento expressivo do desmatamento ocorrido nos últimos anos.
Segundo o boletim do Imazon, no período entre agosto de 2020 e julho de 2021, houve um aumento de 57% do desmatamento na área que corresponde à Amazônia Legal. “Além das espécies de fauna e flora que habitam as áreas de mata que estão sendo invadidas pela monocultura do agronegócio, comunidades tradicionais também habitam [essas regiões], e estão todas com suas vidas ameaçadas. Preservar o meio ambiente é também salvaguardar a vida dessas comunidades”, afirma.
Lutando contra as águas
Outro termo que faz conexão com o racismo ambiental é “justiça climática”, conceito que também vincula o tema com os direitos humanos, pautando a impossibilidade de se pensar o futuro sem olhar para os grupos mais afetados pelo aquecimento global e seus impactos. Pesquisadora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), a socióloga Júlia Menin defende a necessidade de se olhar para as emergências climáticas não apenas a partir das ciências naturais. Para compreender e levar em conta as particularidades vivenciadas pelas populações de determinados ambientes que, historicamente, possuem problemas ocasionados pela falta de serviços públicos essenciais, é necessário, de acordo com a socióloga, considerar suas realidades e a forma como essas pessoas se relacionam com seus territórios.
“Quando os eventos extremos acontecerem, as pessoas não irão sofrer as mesmas consequências. É um evento extremo, mas ele está ocorrendo em um local que já tem outras vulnerabilidades, outras questões atravessadas, como renda, moradias inseguras, falta de atendimento médico. Essas coisas são aumentadas em eventos extremos”, comenta a pesquisadora que, em seu mestrado, acompanhou comunidades ribeirinhas do Amazonas para estudar as adaptações que os moradores da região têm feito para lidar com as mudanças climáticas. A partir dos relatos dos seus entrevistados, Júlia constatou que eles já sentem esses impactos e mostra que considerar os conhecimentos tradicionais dessas populações para a elaboração de políticas ambientais é fundamental.
“Justiça climática está relacionada com essa questão, de que as pessoas sofrem de maneiras diferentes em relação às mudanças climáticas, da mesma forma que os impactos causados não são os mesmos”
JÚLIA MENIN, socióloga e pesquisadora da UFRGS
A socióloga explica que o clima amazônico possui particularidades que, em seu estado natural, delimita ciclos anuais que caracterizam os rios da região: são os períodos de enchentes, cheias, vazante e secas. Acostumados com o ambiente, seus moradores foram aprendendo a lidar com essas alterações do tempo, adaptando suas rotinas ao curso do rio. Porém, isso tem mudado.
A cada ano os rios têm se tornado mais imprevisíveis, com cheias extremas e secas mais longas. As casas, invadidas pelas águas, estão tendo que se tornar cada vez mais altas. É que, para preservarem seus lares, as famílias precisam realizar um processo onde suas residências são erguidas por macacos hidráulicos e, em seguida, novos e maiores pilares de madeira são adicionados embaixo delas para aumentar a distância do rio.
“E na seca, onde o rio baixa mesmo, fica estreito, é ruim para a navegação e irrigação, porque a água se torna escassa. Nos anos 2005, 2010 e 2015, a gente viu que foram secas extremas. São períodos muito pequenos entre si, então elas estão se tornando mais frequentes”, comenta a professora e pesquisadora Ana Cristina Nascimento, moradora de uma comunidade ribeirinha de Careiro da Várzea, cidade localizada na Região Metropolitana de Manaus. No tempo de seus avós, comenta, esses eventos extremos ocorriam de 30 em 30 anos.

Os impactos de eventos extremos já estão sendo sentidos pelos grupos que mais são afetados pela desigualdade social. O novo relatório da Organização Meteorológica Mundial e do Escritório da ONU, lançado em setembro deste ano, aponta que 91% das mortes atribuídas a eventos climáticos, nos últimos 50 anos, ocorreram em países em desenvolvimento. Foram mais de 11 mil desastres.
Suas causas? A pesquisadora Júlia identificou em sua pesquisa que, dentre as explicações dos próprios moradores para os fenômenos, estão o desmatamento, as queimadas, a entrada massiva de criações de gados e agrotóxicos e as grandes construções, como de hidrelétricas, por exemplo. Em um trecho de seu trabalho, ela escreve que “não são ‘os responsáveis’ pela tragédia que se avizinha os que serão atingidos primeiro, muito pelo contrário”. As pessoas que mais sentirão os impactos extremos causados pelas ações do homem na natureza são justamente aquelas que já convivem diariamente com a falta de condições básicas para terem uma vida de qualidade.
“Justiça climática está relacionada com essa questão, de que as pessoas sofrem de maneiras diferentes em relação às mudanças climáticas, da mesma forma que os impactos causados não são os mesmos. É necessário pensar a partir desses fatores, de que existe um abismo em relação a essas questões”, finaliza.
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