O labirinto, a enciclopédia e o fantástico: sobre o processo de criação em net art

From Luísa Onofre da Silveira.

A presente monografia é parte concomitante do trabalho e apresenta a pesquisa em arte “O labirinto, a enciclopédia e o fantástico: sobre o processo de criação em net art”, explorando linguagens como internet art e hipermídia. Esta pesquisa também discorre sobre o uso fantástico, sobre o texto e sobre o labirinto hipermídia. A obra artística a que este estudo integra, disponibilizada na plataforma Verter, consiste de um labirinto de verbetes reunidos em uma enciclopédia fantástica, denominada Mazepédia.

Capítulo 2

2.1 O formato

A ideia utópica de uma enciclopédia remete ao século XVIII, quando estabeleceu-se uma nova ideologia ao acúmulo de conhecimento (Castro, 2021, p. 33). Encyclopédie, ou Dictionnaire Raisonné des Sciences, des Arts et des Métiers, possui uma série de verbetes, organizados por uma forma sistemática, que alcança as marcas totais de 28 volumes e 71 818 artigos, divididos em 17 volumes e 11 pranchas. Este desenvolvimento enciclopédico, produzido por Denis Diderot e Jean le Rond d’Alembert, baseava-se em uma ideia de que – em sua essência considero fantástica – a sabedoria humana poderia ser documentada, arquivada e distribuída. Para que, dessa forma, todos os que possuíssem a capacidade de ler, pudessem acessá-lo a fim de promover o pensamento crítico e emancipar o intelectualismo.

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(Figura 7) Freakpedia. Autores: Fábio FON e Edgar Franco. Web art. 2007.
Autores: Fábio FON e Edgar Franco. Web art. 2007.
Disponível em: Acesso em: 30 de Junho. 2023.

A idealização e realização de uma enciclopédia, ao meu ver, pode-se ser considerada fantástica decorrente do vigor físico necessário para sua realização e da labuta cognitiva de acumular e organizar toda sabedoria possível em, utilizando a Encyclopédie como exemplo, apenas 28 volumes. No Prefácio do Dicionário Aurélio (Aurélio, 1999), há uma passagem que ele transcreve a dificuldade de realizar estes apanhados de conhecimentos, visto que, dos três acadêmicos da Academia de Ciências de Lisboa que operaram o projeto de criação de tal dicionário, um veio a falecer por conta de “lentas e dolorosa enfermidades contraídas nas vigílias da mais opressiva tarefa” e outros dois ficaram cegos. E este incrível esforço coletivo dialoga diretamente com a pesquisa do filósofo e sociólogo Pierre Lévy (2011), que investiga e argumenta sobre a ideia de inteligência coletiva, uma vez que, a concepção enciclopédica baseia-se também nos princípios da mesma.

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Lévy refere-se à inteligência coletiva como um fenômeno que surge quando um grupo de indivíduos trabalha em conjunto para resolver problemas, tomar decisões e criar conhecimento de maneira colaborativa. “É uma inteligência distribuída por toda parte, incessantemente valorizada, coordenada em tempo real, que resulta em uma mobilização efetiva das competências” (Lévy, 2011, p. 28). Ou seja, Lévy afirma, primeiramente, que não há ser ignorante. Todos possuem algum tipo de sabedoria e que esta deve ser valorizada e empregada, levando em conta a exclusão social trazida pelos modos arcaicos dos parâmetros de inteligência, e que, baseado nas novas tecnologias de informação, estas deveriam proporcionar meios de integrar todos em um universo dinâmico e uma rede de conhecimentos, valorizando os saberes dos outros.

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A enciclopédia, e especialmente a Wikipédia, desta forma, exemplifica a aplicação prática desse conceito de uma forma consideravelmente efetiva. A Wikipédia é uma enciclopédia online colaborativa que permite que pessoas de todo o mundo contribuam com seu conhecimento, a fim de criar e editar artigos em uma variedade de tópicos. Essa plataforma se baseia na concepção de inteligência coletiva – embora, comparada às ideias de coordenação e distribuição de Pierre Lévy, seja menos idealista, uma vez que não é todo conteúdo intelectual que é admitido em seu website devido às suas regulamentações – pois ativamente dispõe (e necessita) da colaboração de muitos indivíduos para criar um recurso abrangente e confiável de informações.

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O artista e pesquisador Fábio Oliveira Nunes (Fábio FON), em conjunto com o artista Edgar Franco, debateram sobre a produção e categorização colaborativa de verbetes, deturpando estas regras criadas pela Wikipédia e introduzindo a “pretensão insignificante” (Nunes, 2007, p. 24) da Freakpedia. A enciclopédia digital criada pelos artistas seguia o formato wiki, que permite a participação ativa de colaboradores para sua criação, mas era caracterizada por aceitar contribuições de assuntos de pouca ou nenhuma relevância, questionando a intitulada “enciclopédia livre” sobre a exclusão de matérias que vão além da norma enciclopédica. Almejando, assim, incorporar o nonsense e, ironicamente (uma vez que o trabalho discute o incorporar a insignificância) a importância da liberdade de um espaço coletivo, multilinear e democrático (Nunes, 2007, p. 99).

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E, quando falamos na categorização dos verbetes, ou seja, dos textos de carácter informativo, segue-se um padrão sistemático. Em Encyclopédie (Figura), por um exemplo, seus conteúdos se dividem entre “Memória”, “Razão” e “Imaginação”, e cada um desses, por sua vez, são divididos em outras séries de categorias que organizam cada página da enciclopédia, a fim de sistematizar seus 71 818 artigos de forma efetiva. Atualmente, a Wikipédia, em sua versão inglesa, possui um total de cerca de 58 446 237 páginas e 6 676 197 artigos, totalizando uma diferença de 6 604 379 verbetes com a Encyclopédie de Diderot e Rond d’Alembert. De acordo com a própria Wikipédia, para imprimí-la seriam necessários 3298 volumes de 25 x 5cm contendo 1 600 000 palavras ou 8 00 000 caracteres cada, ou seja, considerando os dois exemplares com as mesmas medidas, resultaria em um pouco mais de 117 vezes a quantidade de volumes da Encyclopédie.

(Figura 8) Volume I (1751), p.
Système figuré des connoissances humaines. Encyclopédie
Dictionnaire Raisonné des Sciences, des Arts et des Métiers,
Disponível em:
Acesso em: 20 de julho. 2023.

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Com absurdo número de artigos, o ordenamento destes dá-se pela utilização de um sistema de hipertextos que permitem que você navegue por estas páginas de forma dinâmica, com o auxílio de hiperlinks; sendo interessante pensar que, quando tratamos de enciclopédias online, os verbetes tornam-se páginas individuais para cada assunto e que, desta forma, nós perdemos a suposta linearidade dos livros. Mesmo a ENCCRE (Édition Numérique Collaborative et Critique de l’Encyclopédie, ENCCRE), responsável por digitalizar e disponibilizar o acesso da Encyclopédie online, faz uso destes atalhos de links e de pesquisa, permitindo que você se desloque por seus vinte oito volumes de forma não-linear e diligente.

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É neste lugar que explora o dinamismo do labirinto de informações da rede e da “pretensão insignificante”, dialogado por Fábio FON e Edgar Franco que “O labirinto, a enciclopédia e o fantástico: sobre o processo de criação em internet art” encontra-se. Acredito ser igualmente importante ressaltar que, embora eu esteja propondo a criação de uma enciclopédia online, que baseia-se no princípio wiki, que a colaboração (ou o “coletivo”), surge através de outros paralelos, posteriormente discutidos no capítulo 4. Essencialmente, com os meus trabalhos e incorporando os de outrem, busco explorar um diálogo com o fantástico, o real e a minha poética artística.

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2.2 A hesitação

O fantástico, parafraseando Tzvetan Todorov (1981, p. 20), apoia-se em uma necessidade de dubiedade e titubeação do leitor. A ambiguidade gerada ao identificar-se com o personagem de sua leitura – e ao tornar-se, assim, parte integrante de tal universo – de considerar a explicação dos fatos apresentados natural ou sobrenatural seria a primeira condição do fantástico. Este, desta forma, exigiria o cumprimento de pelo menos três circunstâncias: primeiramente que o texto submeta aquele que o lê a considerar tal um mundo real, gerando assim a dúvida ao leitor, ao mesmo tempo que ao personagem, e, por fim, que o leitor tome uma determinada atitude frente aos acontecimentos: rejeitar a explicação poética e alegórica; ou seja, que o leitor abandone a explicação metalinguística e a “ao pé da letra”. Todorov (1981, p.24) exemplifica, relatando que, quando um leitor sai do mundo dos personagens e vira novamente apenas um leitor, a interpretação de texto ameaça a definição do fantástico – se, por um exemplo, os animais daquele universo fictício falarem, sabemos que o texto se trata de um texto alegórico.

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(Figura 9 ) Captura de tela da página “Toca de Coelho”.
Fonte: arquivo da artista. 2023.

Todorov (1981, p.24) também esclarece que o fantástico não perdura mais do que esta simples vacilação, ele situa-se no limite entre as decisões que os leitores e personagens fazem dos acontecimentos sobrenaturais a eles interferidos. E que, ao decidir que as leis da realidade permitem explicar os fenômenos ali transcrevidos, estamos falando de um fantástico, denominado pelo autor, estranho; já quando é necessário admitir novas leis da natureza, tratamos de um fantástico maravilhoso.

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No desenvolver de meu trabalho, me assombrava a idealização de uma página enciclopédica que conectava este conceito de literatura fantástica à realidade e como, além do mais, como tais páginas conversariam com minhas poéticas artísticas. Inicialmente, neste projeto, surgiram páginas como “Toca do Coelho” (Figura 8) e “Escuro” (Figura 8), ambas possuíam um enfoque maior em explorar a interatividade com o usuário a partir de elementos visuais, utilizando scripts adicionados ao HTML. A primeira tratava-se de uma transcrição de formato centralizado, criando uma ilusão de túnel com o texto, do capítulo “Descendo pela Toca do Coelho” de Alice no País das Maravilhas, por Lewis Carroll (2017), e, com a rolagem da página, elementos (como ilustrações feitas por mim e imagens do livro e do texto) apareceriam no decorrer da mesma; já a segunda se aproveitava do elemento “escuridão” para criar um foco de luz na página, similar ao de uma lanterna e, conforme o usuário movimentasse o mouse para iluminar a página, poderia ler o texto.

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Inicialmente, “O labirinto, a enciclopédia e o fantástico: sobre o processo de criação em internet art”, aspirava explorar a ideia de trazer elementos da literatura fantástica e suas interpretações para a web, através da utilização de títulos do gênero literário, por meio de páginas interativas. Contudo, ao me debruçar sobre a leitura de Tzvetan Todorov, este trabalho passou a ter uma conexão direta, em especial, com duas páginas da Internet: Wikipédia: Artigos peculiares, e sua versão em inglês Wikipedia: Unusual Articles. Estes nexos surgiram a fim de criar paralelos entre os artigos peculiares da enciclopédia real e os fantásticos da minha enciclopédia (que seguiriam a definição de estranho e maravilhoso argumentadas pelo autor), com o propósito de induzir tal vacilo, necessário para a existência do fantástico, àqueles que nela navegassem.

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(Figura 10) Captura de tela da página “Escuro”.
Fonte: arquivo da artista. 2023.

As páginas da Wikipédia: Artigos peculiares trazem fatos autênticos, de situações que transitam a história ou o dia a dia de nossas vidas, mas que, ao serem colocados em conjunto com minhas páginas fantásticas, condicionam o público a desconfiar e estranhar tais acontecimentos. Assim, com o intuito de conceber tal equívoco entre o real e o fictício, tornou-se essencial para este trabalho que as páginas seguissem necessariamente o formato e a estrutura padrão conhecida da Wikipédia – para minha felicidade, o material que havia produzido encontrava-se dentro destes modelos e pude mantê-los. Fundamentando-me nestes estudos e reflexões, elaborei verbetes que conversariam com itens que selecionei da lista de Artigos peculiares e utilizei o software de anotações Obsidian (Figura 12). Acrescento que este software de anotações pode ser descrito como uma “enciclopédia pessoal” (uma vez que o mesmo não possibilita o acesso de terceiros aos seus arquivos), criada para ordenar informações e artigos e para interligar suas relações.

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Para exemplificar estes nexos, apresento as páginas criadas a partir dos verbetes de Histeria e Histeria Coletiva, presentes na Wikipédia e seus artigos peculiares. A partir do nome androcêntrico que estas condições neurológicas, analisadas por Jean-Martin Charcot e Sigmund Freud, que de acordo com o dicionário Aurélio, derivam da palavra grega hystera (matriz, útero), concebi um verbete de um distúrbio psicopatológico que afetaria essencialmente aos homens, nomeado a partir de seus órgãos reprodutores. Testisia masculina (derivado da palavra testis: testículos, testemunhar), descreve um distúrbio de instabilidade emocional provocada pela fragilidade do sexo masculino, que fariam com que os homens perdessem o controle devido à um movimento irregular de sangue, que afetam sua visão do mundo, seu testemunho. Retomo, desta forma, as ideias compartilhadas por Tzvetan Todorov e permito, aqui, a criação de um vacilo ao leitor: pode se tratar de uma doença real. A fim preservar tal dúvida, em minha enciclopédia, encontram-se anexados através de links outros relatos de distúrbios neurológicos, psicopatológicos e situações fictícias de histeria coletiva que exploram a figura humana em seu estado deturpado.

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A partir destas ligações, passei a produzir outros artigos que não estariam interligados necessariamente à uma página da Wikipédia ou da web, mas sim às minhas próprias páginas fantásticas. Pretendendo incorporar, assim, diferentes áreas do conhecimento humano (tal qual uma enciclopédia “padrão” e “real”), a fim de dar conta de esclarecer e apresentar todo este conhecimento fantástico. Vagarosamente, fui criando um labirinto de artigos e em meio às suas encruzilhadas, enquanto estruturava estas relações entre o que era real e o que era fantástico, ao apresentar este trabalho àqueles próximos a mim, o maior elogio que recebi foi: “Se a Wikipédia verdadeira não tivesse sido aberta em uma nova aba, eu nunca teria visto que eu saí do teu trabalho.”.