O labirinto, a enciclopédia e o fantástico: sobre o processo de criação em net art

From Luísa Onofre da Silveira.

A presente monografia é parte concomitante do trabalho e apresenta a pesquisa em arte “O labirinto, a enciclopédia e o fantástico: sobre o processo de criação em net art”, explorando linguagens como internet art e hipermídia. Esta pesquisa também discorre sobre o uso fantástico, sobre o texto e sobre o labirinto hipermídia. A obra artística a que este estudo integra, disponibilizada na plataforma Verter, consiste de um labirinto de verbetes reunidos em uma enciclopédia fantástica, denominada Mazepédia.

Conteúdo

Capítulo 4

(Figura 13) Captura de tela "Felicity". Artistas: Lubi,
Mariana Schantz. Fonte: arquivo da artista. 2023

4.1 O devorar

A partir das análises anteriores de inteligência coletiva e da criação de um labirinto de informações, acredito que posso dizer que o trabalho de uma enciclopédia seja, de certa forma, devorar vários conteúdos; a rede de informações por ela construída só pode ser realmente desenvolvida quando este ato de ingestão existe. Ao escrevermos um texto, buscamos referências prévias – tal qual fazemos ao escrever artigos acadêmicos ou ao produzir trabalhos em arte, nos quais concebemos e estudamos possíveis comparações, a fim de desenvolver nossa própria ideia e repertório – e as analisamos (mastigamos), delas nos alimentamos para poder realizar a sua concepção.

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Comungamos e manifestamos uma tendência de assimilar ideais a nós mesmos, e esta dialoga perceptivamente à busca de conhecimentos mencionada anteriormente; a prática da antropofagia é, se não, um dos maiores exemplos desta propensão humana. Antropofagismo trata-se de uma tradição canibal e ritualística antiga, praticada por povos guerreiros, que desejavam incorporar a coragem, a virtude, a perspicácia de prisioneiros, supondo que estas seriam absorvidas ao ingerí-los; prática que também foi referenciada pelo modernismo brasileiro, com as manifestações artísticas de Oswald de Andrade (“Manifesto Antropofágico”) e de Tarsila do Amaral (“O Abaporu”). Alfred Jarry (2011), em seu texto “Antropofagia”, alude que “há, como se sabe, dois modos de fazer antropofagia: comer seres humanos ou ser comido por eles”. Deste estudo, formulei o que nomeei de “enciclofagia”. Este consumo de conteúdos para a circulação, no caso, na rede e para a minha enciclopédia.

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(Figura 14) Captura de tela "Filhas de Arikel". Artistas: Lubi,
Ditto Cavalcante. Fonte: arquivo da artista. 2023

Durante a estruturação de Mazepédia, uma das proposições discutidas foi desta monografia ser uma parte integrante do trabalho; ou seja, estar presente nas páginas de meus artigos e não ser um arquivo separado e disperso. Esta proposta foi o motivo da criação deste conceito de enciclofagia: a enciclopédia teria absorvido e incorporado minha monografia às suas páginas. Entretanto, havia a preocupação deste formato ser o formato final de meu trabalho decorrente da questão de permanência e a preservação dos arquivos, afinal, a produção artística e meios digitais implica e requer novas tipologias e formas de processamento (Beiguelman, 2014, s/p) – alguma eventual atualização, reprogramação ou exclusão poderia levar meu trabalho a ser perdido e corrompido. Ademais, para fins de disponibilização do Trabalho de Conclusão de Curso no Lume, foi requisitado que o arquivo fosse entregue como um PDF, com uma ressalva de que os arquivos em HTML disponibilizados poderiam ser baixados e alterados localmente pelos usuários – ainda que, todos os arquivos disponíveis na internet, pela natureza do digital, podem ser baixados e alterados localmente, incluindo PDFs.

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De qualquer maneira, após devorar minha monografia, Mazepédia insaciavelmente procurou por mais trabalhos para se tornarem parte da enciclopédia. Desta busca faminta, houve a incorporação de páginas e dos conteúdos que já havia produzido, como .give me some space. e foram concebidos os artigos: “Felicity” (Figura 13), cordialmente concedido por Mariana Schantz, que aborda o processo histérico de uma moça viciada na cor rosa; “As filhas de Arikel” (Figura 14), concedido por Ditto Cavalcante, um documento censurado sobre um caso de vampirismo; e a pesquisa de concedida por Laura Fagundes sobre as “Quimeras naturais” (Figura 15) de sua pesquisadora, que dialoga sobre novas espécies de plantas e fungos encontradas em Porto Alegre. Portanto, todos estes trabalhos mantêm seus próprios diálogos entre o real e o fantástico – e por isso foram selecionados por mim para fazer parte deste trabalho – sendo linkados e mapeados de acordo com seus temas.

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(Figura 15) Captura de tela “Garguita”. Artistas: Lubi,
Laura Fagundes. Fonte: arquivo da artista. 2023

Enquanto enrolo meus fios de Ariadne nas encruzilhadas desta monografia, retomo a pretensão insignificante de meus artigos, ao não poder afirmar com totalidade quando esta fome de Mazepédia se saciará, e se a obra, assim, chegará em um fim definitivo. Concluo que, para fins de contabilização e de navegação, esta pesquisa, em sua atual forma “final” (que potencialmente seguirá se expandindo), possui um volume de 53 páginas, divididas em 40 verbetes e contendo 18 ilustrações.

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⁴ Repositório de acesso às coleções digitais (teses, dissertações, trabalhos de conclusão de curso, artigos, etc), produzidas na UFRGS. Disponível em: Acesso em: 25 de Agosto de 2023.