O labirinto, a enciclopédia e o fantástico: sobre o processo de criação em net art

From Luísa Onofre da Silveira.

A presente monografia é parte concomitante do trabalho e apresenta a pesquisa em arte “O labirinto, a enciclopédia e o fantástico: sobre o processo de criação em net art”, explorando linguagens como internet art e hipermídia. Esta pesquisa também discorre sobre o uso fantástico, sobre o texto e sobre o labirinto hipermídia. A obra artística a que este estudo integra, disponibilizada na plataforma Verter, consiste de um labirinto de verbetes reunidos em uma enciclopédia fantástica, denominada Mazepédia.

Capítulo 3

3.1 O (hiper)texto

O texto, desde a invenção da escrita, foi pensado como um dispositivo linear, ou seja, um segmento alinhado de caracteres ou de elementos apoiados num suporte igualmente plano (Machado, 1997. p 146). Vilém Flusser (2007, p. 104) aponta que, de acordo com o pensamento e estruturação ocidental da escrita, seguimos uma premissa cartesiana de pensar, lendo as linhas de um texto da esquerda para a direita, mudamos de linha de cima para baixo e viramos as páginas da direita para a esquerda. Flusser também diferencia este modo cartesiano do texto de quando "lemos" uma pintura, onde podemos ver a totalidade da obra de e captar sua mensagem primeiro. Quando lemos linhas na escrita, temos de tentar decompô-la primeiro, antes de aprender e absorver o seu significado.

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A não-linearidade da leitura, no entanto, não é algo novo; vemos a sua presença em poemas concretistas, em contos e livros do escritor e poeta Jorge Luis Borges – como o “Ficções” (1999) e “O livro de areia” (2011). E, enquanto escritores, mesmo ao planejarmos um texto linearmente, realizamos uma série de decisões: cogitamos possibilidades, corrigimos, descartamos e mudamos as ordens de nossos textos. Somos produtores de uma série de descaminhos, de estruturas não lineares, elaboradas a fim de chegar a um desfecho linear suficientemente satisfatório (que muitas vezes não é alcançado, pois desejamos poder modificá-lo mais).

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Em 1945, com os conceitos iniciais de hipermídia disponibilizados por Vannevar Bush¹, de que a mente humana trabalha por meio de associações (Leão, 2005, p. 19), temos os primeiros trajetos de leitura baseados por interesses e não só por uma linearização predisposta. No início dos anos 60, também vemos o desenvolvimento do compartilhamento de ideias entre pessoas por Ted Nelson², inventor do termo hipertexto. Hipermídia seria a tecnologia que engloba o recurso do hipertexto, ou seja, esta possibilidade não-linear de leitura ligada por elos, os links, à multimídia (a incorporação de sons, imagens, vídeos, textos, etc). Possibilitando a deriva e a dispersão não linear, que o texto, salvo suas exceções, limita.

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A partir desses descaminhos e desta estrutura de leitura, comecei a produção de verbetes que, inicialmente partiam de uma ideia linear, mas que eram linkados a outras páginas, relacionados às minhas produções artísticas, pesquisa ou interesses. Operei com ideias que, relacionadas ao fantástico, ainda me traziam o prazer de escrever sobre. Roland Barthes, em “O prazer do texto” (1987) dialoga sobre a intensidade da leitura e o prazer da mesma, sobre o íntimo e o gozo dos textos que lemos. “Nestas, estabelecemos um ritmo, e nosso conhecimento nos faz “sobrevoar ou a passar por cima de certas passagens (pressentidas como “aborrecidas”) para encontrarmos o mais depressa possível os pontos picantes da anedota.” (Barthes, 1987, p. 17).

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Ao escrever meus textos-verbetes, pratiquei exercícios de escrita a partir de OuLiPo³, que pesquisava matrizes – como I-Ching, tarô, jogos retóricos e recursos lógico-matemáticos (Queneau, 1995, p. 13) – para aplicar em obras literárias. A partir destas práticas, quando desejava escrever uma matéria pertencente à Wikipédia, segui um dos métodos de Raymond Queneau. Em “Exercícios de Estilo”, Queneau busca reescrever o mesmo texto utilizando de diferentes formas de escrita (retrógrada, metafórica, onírica, etc). Para a página A Lua, me inspirei na abordagem de Ítalo Calvino em “O castelo dos caminhos cruzados” (1991), e utilizei as cartas de tarô para guiar-me.

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Concluo que, como autora, não espero que os leitores se atentem a todos os textos criados neste labirinto. Espero que eles pulem, sobrevoem e naveguem, a fim de encontrar o que consideram os pontos picantes dos meus artigos.

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… na hiperficção e na poesia a questão principal não é se seguir um link satisfaz principalmente uma necessidade intelectual, mas se seguir o link produz surpresa e deleite. (Landow, 2006, p. 255, tradução nossa).

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¹ Engenheiro, inventor e político estadunidense. Criador do Memex (Memory Extension), uma máquina antecessora ao computador que permitia armazenar dados de diferentes tipos, criando elos entre os documentos (Landow, 2006. p. 33)
² Filósofo e sociólogo estadunidense, pioneiro da Tecnologia da Informação. Fundador do projeto Xanadu, uma espécie de biblioteca online universal. (Leão, 2005, p. 21)
³ OuLiPo (Ouvroir de Littérature Potentielle), é um atelier, criado na França em 1960 para fabricar o que se lê e se rabisca, da literatura de quantidade ilimitada. Seus membros incluem Marcel Duchamp, Pierre Rosenstiehl, Raymond Queneau, Italo Calvino, George Perec, entre outros matemáticos e escritores. (MARCEL, Bénabou; ROUBAUD Jacques. “Qu’est-ce que l’Oulipo”. Disponível em: Acesso em: 31 de Julho. 2023.)

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3.2 O labirinto

Navegar, ordinariamente, refere-se à façanha de atravessar um meio, percorrendo um caminho e utilizando de uma forma condução para isto. Na rede, atravessamos por dentre as hipermídias em um ciberespaço, através de elos, montando por este um percurso. A partir disto, vemos o surgimento e a utilização da conhecida metáfora de “navegar na web”, constantemente relacionada à interação que a mesma provoca com aqueles que nela transitam (Leão, 2005, p. 122) – o desbravamento de uma imensidão.

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Em decorrência da estrutura descentralizada proporcionada pela hipermídia, sua mais usada comparação alegórica é a do labirinto, onde os caminhos derivam e a leitura do texto entra em circulação. Portanto, um trabalho em hipermídia não precisa se limitar apenas à uma linha de raciocínio, são programados várias entradas que permitem que você avance num documento ou parta para outro lugar da rede; cada um dos links, dos elos, permite uma alternativa de percurso diferente. Em cada encruzilhada, o usuário considera cada decisão antes de ir em frente (Machado, 1997. p 147), podendo, desta forma, seguir dois teoremas apresentados por Rosenstiehl (Leão, 2005, p. 99): o Teorema de Ariadne Sábia e escolher procurar voltar sempre aos próprios passos, ou o Teorema de Ariadne Louca e tentar conhecer o maior número possível de caminhos. Arlindo Machado (1997. p 149) também dialoga sobre como o labirinto desafia a astúcia do participante, afinal, o objetivo não, necessariamente, é chegar ao final depressa, mas sim explorar o labirinto como um todo.

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... é difícil resistir a tentação de explorar todas as suas veredas, na tentativa de descobrir os mistérios que se escondem nos seus detalhes mais discretos. Mais do que chegar a um fim ou ganhar o jogo, o prazer desses trabalhos está na investigação infinita das suas possibilidades de desdobramento. Se o labirinto é a metáfora da hipermídia, a metáfora do labirinto poderia ser o próprio pensamento. Pensar, num certo sentido, é também percorrer um labirinto (de idéias, de memórias, de criações da imaginação etc.), é investigar exaustivamente e descobrir alternativas, é ainda explorar as várias possibilidades e examinar o problema de todos os seus ângulos. (Machado, 1997, p. 150)

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Esta possibilidade de voltar ao caminho já realizado, pertencente ao Teorema de Ariadne Sábia, quando tratamos de uma obra disponibilizada na Internet, está sempre presente no browser com o botão de voltar, back, que faz retornar à página visitada anteriormente e que o fará retornar pelo exato mesmo caminho que fora percorrido anteriormente, enrolando o fio de Ariadne de volta ao início do labirinto – assim como uma saída imediata do labirinto está sempre disponível no botão fechar, exit. De acordo com Leão (2005, p. 101), o que ocorre ao percorremos um labirinto da hipermídia é um alternar entre os dois modos de percurso, ou seja, o leitor que começou sua navegação utilizando do Teorema de Ariadne Sábia pode decidir seguir sua atração pelo desconhecido e explorar o todo e vice-versa.

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O labirinto, segundo o labirintólogo Rosenstiehl (1988, p. 251), só passa a existir quando o seu viajante o percorre, este “sem a visão global da construção” o torna, de certa forma, infinito em suas encruzilhadas, idas e vindas. Em contrapartida, os arquitetos dos labirintos trabalham com uma sequência que sabem ser finita de possibilidades, ainda que tenham diversas combinações; eles constroem e asfaltam as estradas para que os viajantes possam passar.

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(Figura 12) Captura de tela do programa Obsidian. Fonte: arquivo da artista. 2023

Enquanto arquiteta de meu labirinto, procurei produzir o maior número possível de verbetes, dentro de meu prazo, abrangendo diferentes áreas de interesse: antropologia, arte, astronomia, botânica, casos surreais, entretenimento, história, fenômenos da natureza, etc. Nestes, também foram incluídas páginas incorporadas ao meu trabalho, como .give me some space, e páginas que operavam o site em si como, por exemplo, Política de privacidade e os Termos e condições. A partir destes focos, apliquei os conceitos fantásticos anteriormente discutidos e pude concretizar novas páginas associadas a tais. Idealmente, cada página linkaria à pelo menos outras três da enciclopédia, e, por relação ou poética, estas também redirecionariam para páginas não-pertencentes à Mazepédia (Figura). Mantendo, desta maneira, a metáfora de “navegar” presente, da possibilidade de nos perdermos e de percorrer trajetórias inesperadas na infinidade da Internet – com caminhos que, inclusive, mas não exclusivamente, não nos levam a lugar algum.

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Há uma crescente e estável presença de redes que não nos levam a lugar nenhum no momento atual; vivenciamos uma época em que as redes sociais dominam a Internet com suas plataformas. Estas, fazem uso de sistemas como as piscinas infinitas (Medium, 2017), ou infinity pools – o “puxar para atualizar” de plataformas como Twitter e do Facebook, sistemas de scroll infinitos do Instagram e do Tiktok – para prender sua atenção e evitar sempre que possível que você saia de seu conteúdo (as poucas oportunidades de saída que percebo são quando se tratam de anúncios, pagos às plataformas). Muitas vezes, em minha experiência pessoal de uso destas redes, me vejo horas detenta, procurando aflitamente algo que não existe e que desconheço. Náufraga, em meio de um mar de conteúdo que não me permite nem mesmo partir para outro lugar, afinal, não há outros elos, há apenas o próximo “rolar para baixo”.

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Acredito vir deste anseio a criação da minha enciclopédia, de necessitar procurar por algo que me permita sentir o contentamento de navegar novamente. Esta possibilidade de exploração permitiu que este trabalho incorporasse outras obras (minhas e de colegas), incluindo esta própria monografia, e possibilitou que eu explorasse a ideia do que chamei de “enciclofagia” – da etimologia ἐγκυκλο (enkyklios, enciclo) “circular” + φαγεῖν (phagein, fagia) “comer”.