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Ana Clara Guerra Marques (1962)

Dançarina e coreógrafa angolana, pioneira na dança contemporânea africana. Cresceu em um ambiente artístico e intelectual, com diversas pessoas revolucionárias visitando a casa de seus pais em Luanda, capital de Angola. Começou a praticar balé aos oito anos de idade na Academia de Dança de Luanda.

Com a independência do país, a escola que era portuguesa acabou fechando, sendo que alguns anos depois, Ana Clara, que tinha apenas quinze anos assumiu a liderança do estabelecimento, uma vez que já tinha completado o grau para dar aulas. Foi um período difícil, segundo ela mesma afirmou em uma entrevista, porque a Angola pós-independência estava redescobrindo sua cultura e o balé remetia muito ao colonialismo europeu – ainda mais porque ela ser uma angolana branca.

Em 1987 ela vai à Portugal estudar dança e pedagogia na Escola Superior de Dança de Lisboa. Retorna ao país em 1991 para abrir a primeira escola de dança contemporânea até então, a Companhia de Dança Contemporânea de Angola – CDCA. O seleto grupo de dançarinos escolhidos, muitos dos quais formados em reconhecidas instituições dos EUA e da Europa, costumava apresentar suas coreografias em lugares públicos pouco convencionais. Durante a década de 1990 apresentaram-se em vários países africanos e foram pela primeira vez aos países europeus em 1992.

O trabalho de Ana Clara Guerra se estende para além da dança, incluindo pesquisa e publicação de novas interpretações das danças tradicionais e populares da Angola. Tem pesquisado, em particular, sobre o uso de máscaras nas danças rituais do povo Chokwe que habita, predominantemente, o nordeste de Angola.  Entre suas obras estão: A alquimia da dança (1999), A Companhia de Dança Contemporânea de Angola (2003), e Para uma História da Dança em Angola – Entre a Escola e a Companhia – Um percurso Pedagógico (2009).

A crítica social foi outro caminho escolhido pela coreógrafa, que acredita que a dança não é algo passivo, mas que pode ser utilizada como um instrumento de intervenção. Marques também é integrante do Conselho Internacional de Dança da UNESCO. Atualmente leciona Antropologia na Universidade Agostinho Neto, em Luanda, além de fazer parte do Ministério da Cultura e Educação, onde participa da elaboração de programas artísticos e acadêmicos em Angola.

BIBLIOGRAFIA

ARMANDO, João. Ana Clara Marques: bailarina, coreógraa, professora e investigadora: entrevista Revista Vida. O país – o jornal da Nova Angola, n. 29, 29/05/2009.

MARQUES, Ana Clara Guerra. A alquimia da dança. Luanda: Edições CC, 1999.

MARQUES, Ana Clara Guerra; TAVARES, Rui; FERREIRA, João. A companhia de dança contemporânea de Angola. Angola: Mukixe e Caxinde Editora, 2003.  

MARQUES, Ana Clara Guerra. As máscaras de dança cokwe na perspectiva de uma estética africana. Via Atlântica, v. 10, p. 151-166, 2006: https://doi.org/10.11606/va.v0i10.50586

RUIGROK, Inge Mariette. “Ana Clara Guerra Marques”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 4, p. 115-116.

Germaine Acogny (1944)

Dançarina e coreógrafa. Nasceu em Porto Novo, na atual República do Benin. Seu pai, Togoum Servais Acogni, era filho de uma sacerdotisa yoruba.

Ela foi levada ainda criança para o Senegal, onde o pai se estabeleceu para receber curso de formação e se tornar administrador colonial.  Estudou em escola de freiras cluniacenses na Medina de Dakar e em 1962, aos dezoito anos, foi estudar educação física esportiva e ginástica harmônica na Escola Simon Siegel, na França, onde estudou dança clássica e moderna com a professora Marguerite Lamotte.

Ao retornar ao Senegal, começou a dar aulas de dança no pátio de sua casa e no liceu, onde foi contratada para ser a responsável pela disciplina de educação física. Nessas aulas ela começou a desenvolver uma codificação do que chamou de “Dança Africana”, uma técnica de dança baseada em uma estética de aterramento –  uma sensação de dinamismo subindo através dos pés e depois habitando o corpo inteiro, que ela descreve como especificamente africana. Em 1968, divorciada e com dois filhos, abriu um estúdio de dança em Dakar – um feito extraordinário numa sociedade tradicionalista e marcadamente patriarcal como a senegalesa.

 Acogny chamou a atenção do Presidente Léopold Senghor depois que ela coreografou seu poema “Femme noire, femme nu” (Mulher negra, mulher nua), transpondo a poética da Negritude para a dança.  Em 1972 ela se tornou chefe de departamento do Instituto Nacional de Artes de Dakar, onde introduziu um programa de formação de dança negro-africana.  Depois, no período de 1977-1982, dirigiu, junto com Maurice Béjart, o Centre Africain de Recherche et de Perfetionnement de l’Interprete (Centro Africano de Pesquisa e Aperfeiçoamento do Intérprete), visando a formação de dançarinos(as) e coreógrafos(as).

Esta atuação institucional teve início quando ela recebeu apoio do governo de Senghor para ir a Bruxelas, na Bélgica, onde conheceu e passou a trabalhar com o coreógrafo Maurice Béjart, diretor do Ballet du vingtème siècle (Balé do Século XX). Em parte, devido ao seu interesse em codificar um léxico dos movimentos corporais, Acogny foi escolhida por Senghor e por Béjart para ajudar na criação do Mudra Afrique, uma escola pan-africana de dança. Como diretora artística do Mudra Afrique ela desafiou o conceito ocidental de uma oposição entre tradição e inovação sobre o qual o Ballet Nacional do Senegal tinha sido baseado, tratando a tradição da dança africana como em perpétua auto-renovação, e começou a forjar uma estética pan-africana, um produto híbrido do encontro entre a dança contemporânea europeia e as formas africanas.

Germaine Acogny teorizou e publicou suas idéias artísticas no livro Danse Africaine/ Afrikanischer Tanz/ African Dance (Dança africana) (1980). Alguns anos mais tarde, em 1985, ela e o marido Helmut Vogt, criaram o Studio-École-Ballet-Théâtre du Troisième Monde em Toulouse, França.

Em 1998, inaugurou a École des Sables, na aldeia de Toabab Julau localizada cerca de 40 milhas ao sul de Dakar. Como no programa de dança Mudra Afrique, ela manteve o interesse por incentivar um forte senso de comunidade entre os habitantes locais e os estudantes internacionais que compareciam à escola, integrando-os nas atividades.  Alguns de seus projetos foram apresentados em uma turnê internacional, em parceria com as coreógrafas Susanne Linke, Jawole Willa Jo Zolar, e o artista japonês Butoh Kota Yamasaki.

Ela continua a desenvolver técnicas de dança contemporânea pan-Africana, estabelecendo uma competição anual em coreografia para novos trabalhos inspirados na tradição, promovendo o trabalho de coreógrafos mais jovens de toda África.

Por sua trajetória, contribuição e inovação artística, foi premiada com o grau de Cavaleiro da Ordem de Mérito e com o grau de Oficial de Artes e Letras da República Francesa, e recebeu o grau de Cavaleiro da Ordem Nacional do Leão do Senegal.

BIBLIOGRAFIA

CASTALDI, Francesca. Choreographies of African identities: négritude, dance and the National Ballet of Senegal. Urbana: University of Illinois Press, 2006.

FOSTER, Susan Leigh. “Germaine Acogny”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 1,  p. 86-88

WELSH-ASANTE, Kariamu. African dance: an artistic, historical and philosphical inquiry. Trenton: African World Press, 1996.

SILVA, Luciane. Corpo em diáspora: colonialidade, pedagogia da dança e técnica Germaine Acogny. Tese (Doutorado em Artes da Cena), Universidade Estadual de Campinas, 2017: http://repositorio.unicamp.br/jspui/bitstream/REPOSIP/331753/1/Silva_LucianeDa_D.pdf

Werewere Liking (1950)

Escritora camaronesa, crítica, pintora, escultora, intérprete de teatro e dançarina.  Nasceu na comunidade de Bondé e foi criada pelos seus avós em ambiente tradicional, em contato com as tradições orais de seu país antes de se mudar para Abidjan, na Costa do Marfim, quando tinha vinte e oito anos.

Sua participação é notável no movimento cultural do Renascimento Africano. Fundou a internacionalmente reconhecida companhia teatral Ki-Yi Mbock, pela qual ela tem expressado obras que articulam a tradição da África ocidental com a Modernidade. Por sua formação autodidata, valoriza temas retirados de sua experiência, tratando de assuntos como modernidade, raça, opressão de gênero e a exploração econômica dos pobres pelos ricos, com forte valorização da africanidade. Ela criou para si uma performance visual pela qual expressa a sabedoria feminina e a condição de rainha, um modo de incorporar as tradições, reinventando-as e estimular a criatividade. Em entrevistas descreve Ki-Yi como “um movimento para o renascimento das artes africanas, para o nascimento de uma cultura pan-africana contemporânea e para uma aproximação e reconhecimento das culturas do mundo negro”.

Entre suas peças teatrais, estão La puissance de Um (O poder de Um) (1979); La veuve dylemme (O dilema da viúva) (1994); La queue du diable (O rabo do diabo) (1979) e Un touareg s’est marié à une pygmée (Um tuareg casou-se com uma pigmeia) (1992). Também é autora de romances repletos de intensidade e de realismo social, entre os quais estão Orphée d’Afric (Orfeu africano) (1981); Elle sera de jaspe et de corail (Ela será de jaspe e de coral) (1983);  L’Amour cent vies (Amor através de cem vidas) (2000).

Werewere Liking é altamente consciente sobre política e discurso de gênero. Da sua coleção de poesia On ne raisonne pas avec le venin (Não raciocinamos com veneno) (1977), nos Contes d’initiations féminines (Contos de iniciação femininos) (1983), e na canção-romance La mémoire amputée (A memória amputada) (2004), as questões de gênero assumem lugar central.  Em sua concepção, diante da negligência, opressão e desvalorização, só uma rainha tem suficientemente valor para falar com autoridade. Assim, valendo-se das tradições para subverter a situação atual, em uma solução teatral capaz de enfrentar os problemas sociais, torna-se uma intérprete social e uma mulher conectada aos problemas contemporâneos da sociedade africana em suas relações com o mundo.

BIBLIOGRAFIA

ADAMS, Anne. To write in a new language: Werewere Linking’s adaptation of ritual to the novel. Callaloo, v. 16, n. 1, p. 153-168, 1993.

EKOTTO, Frieda. “Werewere Liking”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 3, p. 500-501.

MILLER, Judith.  Werewere Linking: pan/artist and pan-africanism in the theatre. Theatre Research International, v. 21, p. 229-238, 1996.

TÊKO-AGBO, Ambroise. Werewere Liking et Calixthe Beyala. Le discours féministe et la fiction. Cahiers D’Études Africaines, v. 37, n. 145, p. 39–58, 1997.

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