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Abiodun Duro-Ladipo (1941)

Atriz, cantora e produtora nigeriana, nasceu em Ijan-Ekite e pertence a uma família real. Completou o ensino secundário em 1963 e alimentou o desejo de ser enfermeira. No entanto, seus planos mudaram quando ela se juntou à companhia teatral de Duro-Ladipo (1963). O mentor da Companhia, o teatrólogo e escritor popular Duro-Ladipo logo reconheceu o seu talento e zelo pelo teatro e a encorajou a permanecer na trupe, vindo depois a se casar com ela (1964).

Abiodun Duro-Ladipo é mais conhecida por seus papéis nas epopéias dirigidas por seu marido. Ela representou a heroína Moremi, na peça homônima. Também já personificou a divindade Oyá na peça intitulada Oba Koso, além de participar de muitas outras nos quinze anos em que trabalhou na trupe, tendo participado como atriz e cantora no Festival de Berlim, Teatros Mundo (1964), Commonwealth Arts Festival (1965), Festival Mondial du Theatre (1973), Festival Youruba em Zurique (1973), entre outros ocorridos em Belgrado, Persépolis e Roma.

Após a morte de Duro-Ladipo, em 1978, ela tomou a frente da companhia de teatro, algo inédito em seu país, zelando pela divulgação da cultura yorubá, mas ampliou o foco, produzindo também para a televisão. Algum tempo depois, foi convidada por Arthur Hall para levar a peça Oba Koso para os Estados Unidos (1987).

Para a televisão, realizou séries em diversas emissoras nigerianas, em geral tratando de temas épicos, entre as quais Oya Sings (1979), Binaku (1981), Oyinbo Ajele (O governador provincial britânico), Esentaye (1997) e Ayelaagbe (1998). Nelas e em filmes, sempre representa papéis de sacerdotisa, deusa, mãe, etc., ressaltando o caráter heroico delas, de modo a valorizar a cultura africana do passado. Em 2009 Abiodun reencenou Moremi, heroína que, segundo ela, é bem diferente dos líderes atuais, “que nos prometem o céu e a terra, mas acabam nos enganando”.

BIBLIOGRAFIA

DURO-LADIPO, Abiodun. I only wanted to help him. Bayreuth: Iwalewa- Haus, 1988.

 OGUNBIYI, Yemi (Ed.). Drama and theatre in Nigeria: a critical source book. Lagos: Nigeria Magazine, 1981.

OGUNLEYE, Foluke. “Abiodun Duro-Ladipo”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 2, p. 266-267.

RAJI-OYELADE, Remi; OLORUNYOMI, Sola; DURO-LADIPO, Abiodun. Duro Ladipo thunder-god on stage. Ibadan: Institut of African Studies – University of Ibadan, 2008.

A pessoa criativa – Duro Ladipo, com legendas em português, 1967, 29min: https://youtu.be/RyzYRNgsqIU

Ama Ata Aidoo (1942)

Poetisa, dramaturga e contista ganesa. Nasceu como Christina Ama Aidoo, filha de uma família bem situada na sociedade. O pai era governante local e educador. Frequentou o ensino secundário na Wesley Girls High School em Cape Coast e se formou na Universidade de Gana, em Legon. Em 1962, participou de uma oficina de literatura na Universidade de Ibadan, na Nigéria, e  a seguir ganhou uma bolsa de estudos que lhe permitiu estudar escrita criativa na Universidade de Stanford na Califórnia, retornando para Gana em 1969.

Uma das primeiras peças de Ama Aidoo foi uma peça, Dilemma of a ghost (Dilema de um fantasma), que foi encenada por estudantes de teatro na Universidade de Gana (1964). A obra trata do conflito que se desenvolve quando um jovem ganês retorna dos estudos nos Estados Unidos com uma esposa afro-americana. Sua notoriedade como escritora cresceu gradualmente desde sua coleção de contos No sweetness here (Nenhuma doçura aqui) (1970), e dos romances Our sister killjoy or reflections from a black-eyed squint (Nossa irmã Killjoy ou reflexões de um olho negro estrábico) (1977) e Changes: a love story (Mudanças: uma história de amor) (1991), que venceu o prêmio Commonwealth Writers Prize da área africana em 1992.

Sua obra explora temas relacionados com a mudança cultural e a posição das mulheres em uma sociedade moderna. Em Changes, seu romance mais conhecido, bem estudado pela crítica e por especialistas em relações de gênero, a personagem principal, Esi, é uma mulher com vida profissional extra-familiar em Accra que encontra o amor em um homem casado, com quem ela se casa, entrando em uma relação poligâmica. A mudança gera desconforto em parte de suas amigas, feministas, mas encontra acolhida em outras, que consideram positiva a volta às formas de relacionamento tipicamente africanas, e o tema se desenvolve pondo a nu tais ambiguidades. Ela também publicou ensaios, incluindo o amplamente conhecido To be a woman (Ser uma mulher), classificado por muitos como um manifesto do feminismo africano.

Ama Aidoo lecionou por algum tempo no Quênia e Tanzânia (1968-1969), quando teve um relacionamento com o bioquímico queniano Ernest Parsali Likimani (+ 1980), com quem teve uma filha, Kinna. Ela foi coordenadora do Programa em Literatura Africana em Cape Coast (1972-1982), e atuou na vida pública como Ministra da educação de Gana (1982- 1983). Devido a problemas gerados com o poder estabelecido em Gana, mudou–se para Harare, no Zimbábue , em 1983, onde ela viveu durante anos.

Em sua carreira universitária, lecionou com professora convidada em vários estabelecimentos norte-americanos, entre os quais o Oberlin College, a Universidade de Richmond, e a Universidade Xavier em Nova Orleans. Também foi professora visitante de Estudos Africanos e Artes Literárias na Universidade Brown (2003-2010).

Ganhadora de vários prêmios e honrarias ao longo de sua carreira, ela teve a obra literária retratada no documentário The art of Ama Ata Aidoo (A arte de Ama Ata Aidoo), dirigido por Yaba Badoe em 2014.

BIBLIOGRAFIA

ALLAN, Tuzyline Jita. Afterword to changes: a love story, by Ama Ata Aidoo. Nova Iorque: Feminist Press at the University of New York, 1993.

AZODO, Ada  Uzoamaka; WILENTZ, Gay Alden (Eds.). Emerging perspectives on Ama Ata Aidoo. Trenton: African World Press, 1998.

ODAMTTEN, Vincent O.. The art of Ama Ata Aidoo: polylectics and Reading againstt neocolonialism. Gainesville: University Press of Florida, 1994.

SHELDON, Kathleen. “Ama Ata Aidoo”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 1,  p. 140-141.

Amandina Lihamba (1944)

Atriz tanzaniana, produtora de cinema e teatro, dramaturga e acadêmica. Nasceu no Distrito de Morogoro, na então colônia britânica de Tanganica. Ela recebeu a educação primária em uma escola católica na Tanzânia e mais tarde obteve o diploma de mestrado em Belas Artes pela Escola de Teatro da Universidade de Yale. Em 1985, defendeu o doutorado na Universidade de Leeds, no Reino Unido, com a tese “A política e o Teatro na Tanzânia depois da Declaração de Arusha, 1967-1987”.

Ela foi admitida no Departamento de Belas Artes e Artes Cênicas da Universidade de Dar es-Salaam, para ensinar práticas de teatro e arte para mobilização social. Foi chefe de departamento, diretora associada, e depois diretora da Faculdade de Artes e Ciências Sociais, membra do conselho universitário e subsequentemente diretora de atuação do serviço público da Universidade Dar es Salaam.

Em sua carreira internacional Amandina lecionou como acadêmica visitante Fulbright-Hays na Universidade da Califórnia em Los Angeles (2001). Atuou como consultora para muitas instituições e organizações, como o Conselho Nacional de Artes da Tanzânia, o Ministério da Educação e Cultura, o Fórum para educadores africanos, o Teatro Popular Alliance, a Comissão tanzaniana para Ciências e Tecnologia, UNICEF, e várias agências internacionais de desenvolvimento.

Além disso, foi pesquisadora chefe para Tanzânia no projeto de “Equidade de Gênero na educação superior da Commonwealth” fundado por Carnegie e o Departamento para Desenvolvimento Internacional do Reino Unido. Fundadora do Projeto de Teatro Infantil e Festival na Tanzânia (1989) bem como do internacionalmente reconhecido programa TUSEME (Let’s Speak Out), que apoia a educação para garotas através do uso de comunicação cultural.

Amandina trabalhou também como intérprete e diretora de palco e tela. Sua atividade no teatro inclui o trabalho feito na África, no Reino Unido e nos Estados Unidos. Sua filmografia inclui interpretar, dirigir, ou produzir Arusi ya Mariamu (O casamento deMariamu) (1985), Maangamizi (O ancião) (1998), e um dos filmes mais populares do Leste Africano, Uhai Bongo (Vida Bongo), sendo que “Bongo” é como em gíria por vezes é nomeada a cidade de Dar es-Salaam.

Considerada uma das maiores atrizes africanas, na década de 1970 integrou a Companhia Negro Ensemble e excursionou com a produção da Broadway The river Niger. Ela é uma das editoras da The Eastern Region, parte da série Women writing Africa publicado pela Feminist Press na Universidade Municipal de Nova York.  Além de artigos acadêmicos em inglês ela publicou diversas peças teatrais em língua swahili. 

BIBLIOGRAFIA

LIHAMBA, Amandina. Women writing Africa: eastern region. Nova Iorque: The Feminist Press, 2007.

MWANGI, Ewan. Amandina Lihamba’s gendered adaptation of Sembene Ousmane’s The Money order. Research in African literatures, v. 40, n. 3, p. 149-173, 2009.

V.V.A.A.. Outline of Swahili literature: prose fiction and drama. Leiden; Boston: Brill, 2009.

ZUBKOVA, Elena. “Amandina Lihamba”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 3, p. 497-498.

Efua Theodora Sutherland (1924-1996)

Nascida como Efua Theodora Morgue, em Cape Coast, na então Costa do Ouro, que depois da independência passou a se chamar República de Gana, foi uma influente escritora, dramaturga, diretora de teatro, autora para crianças, educadora, pesquisadora, advogada de crianças e ativista cultural em defesa do pan-africanismo. Realizou sua formação na Inglaterra, e na década de 1950 participou intensivamente do processo de libertação colonial de seu país, sendo uma das mais influentes formadoras do teatro ganês moderno, e uma promotora cultural dos valores africanos.

No campo do teatro, é autora de diversas peças, entre as quais Foriwa (1962),  Edufa (1967),  e The Marriage of Anansewa (O casamento de Anansewa) (1975). Ela fundou o Ghana Drama Studio, a Sociedade de Escritores de Gana,  o Teatro Experimental de Gana. Foi também uma editora pioneira, fundando a empresa Afram Publications na década de 1970.Em suas peças, ela recuperou temas das histórias tradicionais veiculadas pela oralidade, transformando-as de acordo com as modernas técnicas do teatro ocidental.

Em 1963, quando assumiu o papel de pesquisadora associada no Instituto de Estudos Africanos da Universidade de Gana, levou para o campus o Ghana Drama Studio, que se tornou um espaço de treinamento fora do campus, e logo depois conceituou e estabeleceu a Escola de Artes Cênicas. Também preocupada com a narrativa tradicional e o desenvolvimento do teatro comunitário, fundou a Kodzidian (Casa das Histórias), reconhecida mundialmente como modelo pioneiro no teatro popular voltado para o desenvolvimento.  Em meados da década de 1980, escreveu uma proposta original para um festival de teatro histórico pan-africano em Gana que pudesse servir de veículo cultural para  reunião de africanos em todo o mundo, ressaltando o significado das conexões entre a África e sua diáspora. Isso foi concretizado no Pan-African Historical Theatre Festival – PANAFEST (Festival Pan-Africano de Teatro), realizado pela primeira vez em 1992.

Sutherland liderou como representante de Gana a ratificação da Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos da criança, e presidiu a Comissão Nacional da Criança de 1983 a 1990, período em que assumiu como prioritária a criação de uma advocacia infantil e a promoção da infância em todo o país.  Com esse intento, dirigiu uma série de programas inovadores, incluindo um Fundo de Educação Infantil para apoiar comunidades carentes, uma oficina estendendo o aprendizado de ciências às crianças pobres ou do campo, e a garantia de terras para criar parques e bibliotecas-modelo para crianças. Ela lançou as bases para a Fundação Mmofra, ativa desde 1997 como uma organização cívica dedicada a enriquecer a vida cultural e intelectual de todas as crianças de Gana.

Seu trabalho mais significativo no Instituto de Estudos Africanos, chamado Legon, foi o Projeto de Desenvolvimento do Drama Infantil, que teve como objetivo o desenvolvimento de materiais, métodos e pessoal treinado para o desenvolvimento de programas de teatro criativo dentro e fora da escola. Sutherland foi convidada pela UNICEF para participar de uma rede mundial de estudiosos para elaborar um código de direitos humanos para a proteção das crianças.  Escreveu diversas peças para crianças, como Playtime in Africa (Hora de brincar na África) (1960),  Vulture!Vulture! (1968), Tahinta (1968) e The voice in the forest (A voz na floresta) (1983).

BIBLIOGRAFIA

ADAMS, Anne V.; Sutherland-Addy, Esi. The Legacy of Efua Sutherland: Pan-African Cultural Activism.  Banbury: Ayebia Clarke Publishing, 2007.

GIBBS, James. Efua Sutherland: The ‘Mother’ of the Ghanaian Theatre. In:  Nkyin-kyin: Essays on the Ghanaian Theatre.  Cross/Cultures, n. 98, p. 91-12, 2009.

OGUNLEYE, Foluke. “Efua Sutherland”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 5, p. 470-471.

SALM, Stephen; FALOLA,Toyn.  Culture and Customs of Ghana. Cona: Greenwood Press, 2002.

SUTHERLAND-ADDY, Esi. Creating For and With Children in Ghana – Efua Sutherland: a retrospective.  In: Etherton, Michael (ed.). African Theatre. Youth, James Currey Ltd, 2006, pp. 1–15.

Gladys May Casely-Hayford (1904-1950)

Poetisa, dramaturga e artista,  nasceu na então Costa do Ouro, atual República de  Gana. Era filha do influente casal nacionalista e pan-africanista, Joseph Ephraim  e Adelaide Smith Casely-Hayford. Devido a problemas de saúde, passou a infância em viagens de tratamento entre a Inglaterra e a Costa do Ouro, e depois fixou-se em Serra Leoa.  Deu início aos estudos na colônia e os completou na Europa. Aos dezesseis  anos  Gladys escreveu seu primeiro poema de destaque, chamado Ears. Também durante o período de formação escolar aprendeu a tocar piano, tornando-se uma excelente pianista e valeu-se de seus talentos para escrever versos e canções.

Em 1924, retornou para a África. De início à carreira pública como jornalista do The Gold Coast Leader.  Em 1926  foi convidada a dar aulas na escola fundada por sua mãe, a The Girls Vocational School (Escola Vocacional para Meninas), na qual lecionava aulas de folclore africano e higiene pessoal.

Durante esse período escreveu diversos poemas, músicas, peças teatrais e musicais. Em 1927 um dos seus poemas foi publicado no jornal americano The Atlantic Monthly obra que ela assinou com o pseudônimo de Aqualah Laluah, quando ela recebeu, e recusou, uma vaga para a Faculdade para Mulheres de Radcliffe em Cambridge. Tempos depois, aceitou a vaga  oferecida pela Universidade de Columbia.

Em 1948 escreveu uma pequena coleção de poemas com o nome Take Um So. Foi pioneira em escrever “poemas do tipo evocativo” em língua Krio, língua falada pelosafro-mestiços  de Serra Leoa.

Casou-se com Arthur Benoni, com quem teve um filho, e tempos depois se separaram.  Ela morreu de malária em Accra.

BIBLIOGRAFIA

CROMWELL, Adelaide. An african victorian feminist: the life and times of Adelaide Smith Casely-Haiford. Abington: Routledge, 2013 (or. 1986).

HUNTER, Yema L. An african treasure: in search of Gladys Casely-Hayford, 1904-1950. Acra: Yema Lucilda Hunter, 2008.

HUNTER, Lucilda. “Gladys May Casely-Hayford”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 2,  p. 42-43.

Muthoni Gachanja Likimani (1925)

 Locutora e produtora de rádio e televisão queniana, especialista em relações públicas, educadora, fazendeira, escritora e ativista em defesa dos direitos das mulheres. Nasceu na Missão de Kahuhia, no Distrito de Fort Hall. Seu pai foi um dos primeiros ministros da Igreja Anglicana Queniana. Ela foi educada na Escola para Meninas de Kahuhia e na Faculdade Lowe Kabete. Depois de completar graduação, trabalhou como tutora em sua antiga escola, mas se mudou para Nairobi depois do casamento com o primeiro médico queniano, o Dr. Jason Clemente Likimani, do grupo étnico massai, com quem teve três filhas. 

Em 1955, devido à infidelidade conjugal do marido e ao autoritarismo dele na criação das filhas, ela o deixou e se mudou para Nairóbi, aprofundou os estudos em escola noturna e passou a se dedicar ao cuidado das meninas quenianas. Ingressou no movimento Girl Guides e ajudou a desenvolver o Maendeleo Ya Wanawake um grupo de mulheres de oficiais coloniais, além de ter participado da Associação de Jovens Mulheres Cristãs do Quênia.

Com uma bolsa de estudos do Conselho Britânico, viajou para a Inglaterra em 1958 e obteve formação em cursos de Desenvolvimento Comunitário e Educação para Adultos na Universidade de Londres, e em Nutrição na London School de Higiene e Medicina tropical. Quando retornou ao seu país, em 1960, desenvolveu programas de rádio para mulheres Kiswahili para a BBC e para o Kenya Broadcasting Services (atualmente Kenya Broadcasting Corporation). O programa de maior sucesso destinado ao público feminino e infantil, emitido em swahilo, chamava-se Shangazi na watoto (A titia e as crianças), que deu origem a publicações de literatura infanto-juvenil. 

Ela também publicou livros em língua kikuyu e kiswahili, entre os quais o romance They shall be chastised (Eles serão castigados) (1974) em que examina a situação dos primeiros convertidos gikuyu na comunidade missionária de Shimoni; e o poema narrativo What does a man want (O que um homem quer) (1974), onde comenta sobre a posição das mulheres no Quênia depois da emancipação. Apesar dela não ter se envolvido diretamente no movimento de resistência Mau Mau, mais tarde tratou da contribuição das mulheres na resistência em nove relatos fictícios de seu livro mais conhecido, Passbook number F. 47927: women and Mau Mau in Kenya (Caderneta número F. 47927: mulheres e Mau Mau no Quênia) (1985), título que se refere ao seu próprio número de identificação durante a Emergência Mau Mau.

Após diversas situações que revelavam discriminação e machismo nas instituições em que trabalhou, decidiu criar sua própria empresa em 1973, a Noni’s Publicity, que foi a primeira companhia de relações públicas de propriedade africana no Quênia, e também lidou com atividades de publicação, como o periódico Women of Kenya (Mulheres do Quênia).Nos anos 1980 foi indicada como Conselheira da cidade de Nairóbi, posição que ela manteve até o governo substituir o conselho por uma comissão. Em 2005 ela publicou sua autobiografia, Muthoni Likimani: Fighting without ceasing (Muthoni Likimani: lutando sem cessar).

BIBLIOGRAFIA

BEKERS, Elisabeth. “Muthoni Gachanja Likimani”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 3, p. 499-500.

JAMES, Adeola. Muthoni Likimani. In: In their own voices: African woman writers. Portsmouth: James Currey and Heinemann, 1990.

Patience Dabany (1937)

Primeira dama do Gabão, e cantora.   Nome adotado por Marie Josephine Kama Bongo em 1986, após o divórcio do Presidente Omar Bongo Ondimba.

Marie-Josephine Kama, conhecida informalmente como Marie-Jo, nasceu em Akiene, na região do Alto-Ogooue, que até 1946 fazia parte do Congo. Seu pai era oficial do exército colonial francês, fazia parte da Sociedade Secreta de Obamba. Ele e a mãe dela pertenciam ao clã Assele do povo de Obamba, a quem o povo Teke do seu distrito, incluindo a família de Omar Bongo, era tributário.

A menina recebeu todo a sua formação escolar em língua francesa. Formou-se em um programa do governo que preparava professores no nível primário. Depois disso, casou-se com Dieudonne Pascal Ndouna-Okogo (1937-1977), que também era de origem Obamba, tinha formação francesa e viria a se notabilizar  como poeta com o nome de Ndouna-Depenaud. Embora o breve casamento tenha terminado em divórcio, contribuiu para o desenvolvimento das habilidades e realizações literárias de Marie-Jo.  Tempos depois, em 1977 Ndouna-Okogo foi assassinado por marroquinos não identificados da guarda presidencial, mas os criminosos nunca  foram levados à justiça.

Em 31 de outubro de 1959, Marie-Jo casou-se com Omar Bongo em Brazzaville, onde ele prestava serviço militar como segundo-tenente da aeronáutica francesa.  Tornou-se assim a  madrasta de Pascaline Bongo (1956), que viria a ser ministra e diretora do gabinete presidencial, e de Ali Bongo (1959), futuro ministro da defesa que  viria a se tornar presidente do Gabão após a morte de Omar em 2009.

Devido a sua esterilidade, em um país em que a sociedade tradicional  valoriza a maternidade e abomina a infertilidade, Madame Bongo passou por grande sofrimento pessoal, ainda mais quando, ao longo do tempo, o parceiro continuou a gerar filhos durante os vinte e sete anos de casamento. Esta situação levou a que ela se preocupasse em melhorar os cuidados que cercam a maternidade no Gabão.

Ao mesmo tempo, Patience perseguia seus próprios interesses literários e artísticos. Duas de suas peças sobre temas sociais, Obali (1978) e Ayouma (1977), foram filmadas pela Les films gabonais, uma empresa de propriedade do marido. Mas não foram as  atividades culturais do casal Bongo que atraíram a atenção da imprensa parisiense, e sim o uso indevido de cargos públicos para enriquecimento pessoal em grande escala e a supressão de críticos, rivais e opositores por meios violentos.

Na década de 1980, jornais, semanários e revistas francesas denunciaram diversos casos em que o casal presidencial ou familiares próximos do casal acumularam propriedades imobiliárias ou empresas por meios ilícitos, e escândalos e assassinatos, como o dos amantes de Marie-Jo, Robert Luong e Charles Onanga. Após a morte deste último, que dirigia um nightclub frequentado por ela, Patience abandonou o país a pretexto de acompanhar duas filhas em seus estudos nos Estados Unidos, e depois pediu o divórcio. 

Pertencente a uma família que valorizava a música, Patience cultivava a prática da interpretação musical e tinha participações eventuais na banda presidencial chamada Kounabele. Depois da separação ela deu início a uma carreira profissional como cantora, alcançando grande sucesso na área francófona do continente e na França durante a década de 1990. Entre os seus álbuns gravados estão: Chen ton disque est rage, Associé, P. D., Nouvelle atitude, Article 106 e Oboniyya, que ela fez durante uma turnê junto com James Brown.

BIBLIOGRAFIA

GABON. Les 50 hommes et femmes qui comptent. Jeune Afrique, p. 50-84, 2003.

GARDINER, David E.. “Patience Dabany”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 2, p. 146-148.

YATES, Douglas. The dynastic republic of Gabon.  Cahiers d’études africaines, v. 243, n. 2, p. 483-513, 2019.

Penina Muhando (1948)

Dramaturga e estudiosa, também conhecida como Penina Mlama – seu sobrenome conjugal.  Nasceu colônia britânica de Tanganica, atual Tanzânia, na pequena sociedade Kaguru. Estudou na Universidade de Dar es-Salaam e obteve bacharelado em Arte Teatral, Mestrado em Educação e Doutorado em Linguagem e Linguística.

Penina se juntou ao Departamento de Teatro, Arte e Música da mesma Universidade como palestrante e mais tarde como professora de Arte Teatral. Em 1982 se tornou chefe do departamento tendo sido reitora da Universidade de Artes e Ciências Sociais, assim como vice-chanceler adjunta da Universidade de Dar es Salaam.

Em 2003, ganhou licença e se mudou para o Quênia para se tornar diretora executiva do African Women Educationalists – FAWE (Fórum de Mulheres Africanas Educadoras). Tornou-se membro de instituições acadêmicas, conselhos nacionais e internacionais. Também ganhou diversos prêmios, como Shaaban Roberts Writers Award (1999), pela sua escrita criativa divulgando a linguagem Kiswahili, e o National Cultural ZeZe Award (2000), por seu trabalho de promoção do teatro africano para a educação de crianças e jovens.

Nos seus trabalhos, ela explorou questões sociais mais amplas e se voltou para formas teatrais africanas tradicionais, e optou por escrever em língua kiswahili para ser lida pelos(as) tanzanianos(as). As perspectivas do socialismo africano e da idéia da Ujamaa (comunidade ) aparecem em sua obra Haitia (1972). Harakati za ukombozi (Luta pela libertação) (1982), escrita em co-autoria com Naduanao Balisidya e Amandina Lihamba, apresenta a história de Tanzânia, com muitas cenas de improviso, cantos e danças. Este entusiasmo desaparece nas obras seguintes, onde a postura torna-se crítica em relação aos limites da democracia e da igualdade social, algo que aparece em Nguzo Mama (Mãe, o principal pilar) (1982), Lina Ubani (Existe um limite para a podridão) (1984). Já em Mitumba Ndui (A varíola) (1989), ela denuncia o interesse econômico desmedido e a corrupção política colocada acima dos interesses da comunidade. 

Junto com outros(as) dramaturgos(as) africanos(as), ela é da opinião que o teatro pode vir a ser meio pelo qual pessoas marginalizadas e desprezadas possam se envolver em projetos coletivos e expressas suas visões de mundo. Sua obra explora diversos temas e situações da sociedade tanzaniana contemporânea, frequentemente relacionados às mulheres. Todavia ela não se considera feminista, e é da opinião que “o problema das mulheres não pode ser separado dos demais”.

BIBLIOGRAFIA

BALISIDYA, Nadyanao M. The construction of sex and gender roles in Penina Muhando’s works.  Sage: a scholarly journal on black women, v. 5, n. 1,  15-20, 1988.

MBUGHUNI, L.A. Old and new drama from East Africa. A review of the works of four comtemporary dramatists: Rebecca Njau, Ebrahim Hussein, Peninah Muhando and Ngugi. African Literature Today , v. 8, p. 85-98, 1976.

MULE, Katwiwa. Oral performance and the creative imagination in Penina (Mlama) Muhando’s Nguzo Mama.  Folklore Forum , v. 28, n. 1,  p. 83-102, 1997.

ZÚBKOVÁ, Elena. “Penina Muhando”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 4, p. 312-313.

Sophoniba (século III a.C.)

Aristocrata cartaginense, era filha de Asdrúbal, o notável comandante cartaginês da Segunda Guerra Púnica. Seu nome também é dado como Sophonisba e Spnb’l (“Baal pronunciou julgamento”).  Hoje tudo o que se sabe sobre ela é o modo de sua morte, preservada em uma tragédia conhecida por Tito Lívio; outros relatos existentes são de Apiano e Dion Cassio.

Ela era educada, conhecia literatura e música, e ficou lembrada por seu grande charme. Chegou a ser noiva de Massinissa, o grande rei da Numídia, mas acabou se casando com Syphax, um importante chefe rebelde da Numídia. Quando ele e ela foram capturados pelos romanos em 203 a.C Massinissa tentou, em vão, resgatá-la, e então, para evitar um destino pior para ela enviou-lhe veneno que ela bebeu. Depois Sophoniba foi enterrada com um digno funeral real. 

Este escasso relato parece ter excitado a imaginação grega e romana, pelo seu caráter dramático. A morte trágica de Sophoniba foi encenada em uma peça em 148 a.C., e lembrada nos textos dos autores romanos acima mencionados.

A morte de Sophoniba tornou-se comum na arte. O mais notável exemplo é uma pintura mural na Casa de Giuseppe II em Pompeia, datada do primeiro quartel do século I a.C., onde se vê mulher em trajes reais em um sofá segurando uma grande taça de metal enquanto outra personagem real olha por cima do ombro. Em tempos mais recentes, Sophoniba tem sido objeto de inúmeras representações artísticas em pintura, teatro e ópera.

BIBLIOGRAFIA

DOREY, T. A. Massinissa, Syphax, and Sophoniba. Proceedings of the African Classical Associations, v. 4, p.  1–2, 1961.

HORN, Hein Gunther; RUGER, Christoph B. (Eds.). Die numider. Colônia: Reinhard-Verlag, 1979.

ROLLER, Duane W. “Sophoniba”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 5, p.  441-442.

Tsitsi Dangarembga (1959)

Romancista, roteirista, dramaturga, consultora e diretora de cinema do Zimbábue. Nasceu em Mutoko, na então Rodésia do Sul  colonial, atual Zimbábue. Aos dois anos de idade mudou-se com os pais para a Inglaterra, onde frequentou a escola primária. Realizou o secundário em escola missionária localizada em Mutare. Na juventude, começou a frequentar o curso de Medicina na Inglaterra (1977) e o curso de Psicologia  na Universidade do Zimbábue, período em que teve início o seu envolvimento com teatro, escrevendo e encenando. 

Foi a primeira mulher negra do Zimbábue a  publicar um romance escrito em inglês, Nervous Conditions (Condições nervosas) (1988), que lhe rendeu reconhecimento internacional. A obra foi escrita em 1985 e não recebeu atenção de uma editora do seu país por ser considerada excessivamente crítica aos padrões patriarcais do mundo cultural xona, em que a estória transcorre. Foi publicada pela  editora The Women Press, de Londres, e logo teve outras edições nos Estados Unidos e na Dinamarca. O núcleo narrativo é a trajetória de auto-conhecimento e emancipação de Tambu das dimensões cruzadas da opressão colonial, racial e patriarcal  que envolvem a mulher negra.

Dangarembga escreveu muitas peças e contribuiu significativamente para a indústria cinematográfica do Zimbábue. Seu trabalho com o grupo de teatro Zambuko, liderado por Robert McLaren, aproximou-a do teatro comunitário, e nesta linha ela escreveu as peças Katshaa e Mavambo.

Em 1983, escreveu e dirigiu The lost of the soil (Os perdidos da terra), seguida por She no longer weeps (Ela não chorará mais) – que foi apresentada pela primeira vez na Universidade do Zimbábue em 1984. A peça conta a história de Marta, que é confrontada pelas normas familiares patriarcais e opressivas e resiste por todos os meios, lutando por sua independência pessoal. Ela também escreveu o roteiro do filme Neria (1993), que dramatiza as experiências das viúvas no Zimbábue e sua disputa pelo direito à herança familiar.  Já em Everyone’s child (Fihos de todo mundo) (1996)o o enredo gira em torno da tragédia que se abate na vida de quatro crianças órfãs  em meio aos efeitos devastadores da AIDS.

Quanto ao seu filme, Kare Kare Zvako: Mother’s day (Kare Kare Svako: o dia das mães) (2004), baseia-se em um conto popular do seu país, e tem sido exibido em mostras internacionais de cinema.

O livro The book of note: a sequel to Nervous Conditions (Livro de notas: uma sequência de Condições Nervosas) (2006), dá continuidade à busca de Tambu durante a década de 1970,  após  a independência do país, quando persistem restrições de diversa natureza em relação às mulheres, e principalmente as de natureza racial em relação às mulheres negras, a quem é constantemente negada igualdade de oportunidade sobretudo de formação educacional.

BIBLIOGRAFIA

BERNDT, Katrin.  Female identity in contemporary zimbabwean fiction. Bayreuth: Bayreuth University Press, 2005.

MKWESHA-MANYONGA, Faith. “Tsitsi Dangaremba”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 2, p. 161-162.

SUGNER, Charles. Nervous conditions: Dangarembga’s  feminist reinvention of Fanon. In: OBIAMA,  Nnaemeka (Ed.). The politics of mothering: womanhood, identity and resistence of african literature. Nova Iorque: Routledge, 1997, p.  32-49.

WILEY, Ann Elizabeth.  Negotiating the postcolonial: emerging perspectives on Tsitsi Dangaremba. Trenton: African World Press, 2002.

Werewere Liking (1950)

Escritora camaronesa, crítica, pintora, escultora, intérprete de teatro e dançarina.  Nasceu na comunidade de Bondé e foi criada pelos seus avós em ambiente tradicional, em contato com as tradições orais de seu país antes de se mudar para Abidjan, na Costa do Marfim, quando tinha vinte e oito anos.

Sua participação é notável no movimento cultural do Renascimento Africano. Fundou a internacionalmente reconhecida companhia teatral Ki-Yi Mbock, pela qual ela tem expressado obras que articulam a tradição da África ocidental com a Modernidade. Por sua formação autodidata, valoriza temas retirados de sua experiência, tratando de assuntos como modernidade, raça, opressão de gênero e a exploração econômica dos pobres pelos ricos, com forte valorização da africanidade. Ela criou para si uma performance visual pela qual expressa a sabedoria feminina e a condição de rainha, um modo de incorporar as tradições, reinventando-as e estimular a criatividade. Em entrevistas descreve Ki-Yi como “um movimento para o renascimento das artes africanas, para o nascimento de uma cultura pan-africana contemporânea e para uma aproximação e reconhecimento das culturas do mundo negro”.

Entre suas peças teatrais, estão La puissance de Um (O poder de Um) (1979); La veuve dylemme (O dilema da viúva) (1994); La queue du diable (O rabo do diabo) (1979) e Un touareg s’est marié à une pygmée (Um tuareg casou-se com uma pigmeia) (1992). Também é autora de romances repletos de intensidade e de realismo social, entre os quais estão Orphée d’Afric (Orfeu africano) (1981); Elle sera de jaspe et de corail (Ela será de jaspe e de coral) (1983);  L’Amour cent vies (Amor através de cem vidas) (2000).

Werewere Liking é altamente consciente sobre política e discurso de gênero. Da sua coleção de poesia On ne raisonne pas avec le venin (Não raciocinamos com veneno) (1977), nos Contes d’initiations féminines (Contos de iniciação femininos) (1983), e na canção-romance La mémoire amputée (A memória amputada) (2004), as questões de gênero assumem lugar central.  Em sua concepção, diante da negligência, opressão e desvalorização, só uma rainha tem suficientemente valor para falar com autoridade. Assim, valendo-se das tradições para subverter a situação atual, em uma solução teatral capaz de enfrentar os problemas sociais, torna-se uma intérprete social e uma mulher conectada aos problemas contemporâneos da sociedade africana em suas relações com o mundo.

BIBLIOGRAFIA

ADAMS, Anne. To write in a new language: Werewere Linking’s adaptation of ritual to the novel. Callaloo, v. 16, n. 1, p. 153-168, 1993.

EKOTTO, Frieda. “Werewere Liking”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 3, p. 500-501.

MILLER, Judith.  Werewere Linking: pan/artist and pan-africanism in the theatre. Theatre Research International, v. 21, p. 229-238, 1996.

TÊKO-AGBO, Ambroise. Werewere Liking et Calixthe Beyala. Le discours féministe et la fiction. Cahiers D’Études Africaines, v. 37, n. 145, p. 39–58, 1997.

Woizero Senedu Gebru (1916–2009)

Nascida em Menagesha, na Etiópia ocidental, pertencia a uma família aristocrática. Seu pai foi um escritor e ex-prefeito de Adis Abeba. Ela foi educada em uma escola missionária sueca em seu país e completou os estudos na Suiça, onde estudou na Université de Lausanne (1928). 

De retorno à Etiópia, Woizero foi professora na Escola de São Jorge em Adis Abeba, e começou a atuar como jornalista. No período da ocupação italiana (1935-1942), participou ativamente da resistência, recebendo inclusive formação em uma academia militar. Ela atuou durante a guerra na assistência médica aos combatentes. Foi presa pelos italianos em 1937, sendo mantida na prisão até 1939.

Nos anos 1940-1950 Senedu Gebru retomou a carreira como educadora, tendo atuado na direção da Escola Etege, em Adis Abeba, que era mantida pela Imperatriz Menen Asfaw e destinava-se exclusivamente a meninas, onde ela incentivou o desenvolvimento do teatro e da oratória pública. Paralelamente,  escreveu em língua amhara (amárico) uma coletânea de contos, músicas e poemas intitulada  YaLebbe Meshaf (Livro do Meu Coração) (1956), e diversas peças de teatro popular, como Keyekketit quenoch (Dias de fevereiro) (1956).

Também teve intensa participação na vida política, tendo sido a primeira mulher eleita ao Parlamento da Etiópia (1957), onde foi nomeada vice-presidente da Câmara dos Deputados. Atuou na Cruz Vermelha e foi secretária-geral do Ministério de Assuntos Sociais. Deixou o país em 1974, por ocasião da derrubada do governo de Haile Selassie, imperador da Etiópia (1930-1974). Retornou ao país alguns anos mais tardem, voltando a escrever peças teatrais e a colaborar na “coluna das mulheres” do jornal Addis Zemen.

BIBLIOGRAFIA

BIZUNEH, Belete. Women in ethiopian history: a bibliographic review. Northeast African Studies, v. 8, n. 3, p. 7–32, 2001.

BURGESS, Gemma. A hidden history: women’s activism in Ethiopia. Journal of International Women’s Studies, v. 14, n. 3, p. 96-107, 2013.

Zaynab Fawwaz (c. 1850–1914)

Romancista libanesa-egípcia, biógrafa e primeira escritora sobre política de gênero e reforma no Egito.  Nasceu na cidade de Tibnin, no sul do Líbano, em uma família simples sobre o qual sabe-se pouco.  Ao que parece, fez parte da casa  de Ali Bek al-As’ad, um poderoso governante local. Foi a esposa deste, chamada Fatimah bint As ‘ad al-Khalil, que escrevia poesia e tinha considerável educação religiosa, que parece ter ensinado Zaynab a ler e a escrever.

As fontes discordam sobre a trajetória precisa da juventude de Zaynab Fawwaz. Não há certeza sobre seu casamento, nem sobre quando e porque ela se mudou para o Cairo, talvez através de Beirute ou de Alexandria.  O certo é que, no Egito, ela começou a trabalhar com o editor literário de polímeros e jornais, Hasan Husni Pasha al-Tuwayrani (c1849- c.1896). Seu jornal, al-Nil (O Nilo), publicou muitos dos mais conhecidos e polêmicos ensaios de Fawwaz nos anos de 1890.

Esta foi a década em que as reivindicações pela educação das meninas e pelos direitos das mulheres se confundiu  com o pensamento e ativismo nacionalista após a ocupação britânica do Egito (1882). O nome mais associado a esse debate é o do advogado Qasim Amin, cujo tratado de 1899 Tahrir al-mar’ah (A Libertação da Mulher) criou um furor, especialmente em virtude de questões com a segregação de gênero e a cobertura corporal, gerando muitas críticas em livros e ensaios escritos por homens inconformados. No entanto,  naquela década uma pequena elite de mulheres emergiu e manifestou por escrito suas reivindicações, algumas delas a partir de uma perspectiva ocidental e cristã, e outras, como Fawwaz, a partir de uma perspectiva islâmica – e ainda mais, calcada na tradição do xiismo, o que era bastante incomum no Egito.

Ela foi provavelmente a mais prolífica dessa geração de mulheres escritoras. Escreveu o romance Husn al- ‘awaqib aw Ghadat al-Zahirah (Boas consequências, ou a Donzela de al-Zahirah),  uma peça de teatro al-Hawa wa’l-wafa’ (Amor e Fidelidade) – que provavelmente nunca foi encenada. Sua grande obra foi o dicionário biográfico de mulheres do mundo, al-Durr al-manthur fi tabaqat rabbat al-khudur (Pérolas espalhadas entre as classes de senhoras enclausuradas) (1894), em que apresenta vidas de mais de quinhentas mulheres, de poetisas da Arábia pré-islâmica a renomadas mulheres da Grécia e Pérsia Clássica, da realeza na Europa Medieval, escritoras, cientistas, artistas, governantes e educadoras de seu próprio tempo.

Por volta de 1905, quando a sua coleção de ensaios jornalísticos e alguns poemas foram publicados no al-Rasa’il al-Zaynabiyyah (As epístolas de Zaynab), parece que ela já não estava mais publicando imprensa periódica, embora seu segundo romance tenha saído no mesmo ano, e é dito que ela escreveu pelo menos mais dois trabalhos que nunca foram publicados.

Em sua própria vida, Fawwaz traçou um caminho notavelmente independente: o seu casamento com o escritor sírio e funcionário público otomano Adib Nazmi al-Dimashqi (c.1840- c.1915) não durou muito devido ao fato dele ser polígamo e de tê-la  mantido em isolamento em uma propriedade rural síria sem os jornais egípcios.  Manteve correspondência com Berthe Honoré Palmer, em Chicago, e pretendeu que o seu dicionário de mulheres viesse a integrar a  Biblioteca de Mulheres na Exposição Universal de Chicago de 1893.

BIBLIOGRAFIA

BOOTH, Marilyn. Exemplary lives, feminist aspirations: Zaynab Fawwaz and arabic biographical tradition. Journal of Arabic Literature, v. 26, n. 1-2,  p. 120-146, 1995.

BOOTH, Marilyn. “Zaynab Fawwaz”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 2, p. 365-366.

Zulu Sofola (1935–1995)

Nasceu com o nome de Onekwuke Nwazulu Sofola, de uma família real, os Okumabua de Issele-Uku, na localidade de Aniocha, no Estado do Delta, na atual Nigéria. Zulu é uma abreviação de seu nome igbo, Nwazuluoha, e não um nome sul-africano. Estudou no Seminário Batista da União da Virgínia onde obteve seu bacharelado em 1959, e na Universidade Católica da America, em Washington, onde obteve Mestrado em teatro (1966)  e Doutorado na Universidade de Ibadan (1977). Casou-se com J. A. Sofola, um professor de sociologia, com quem teve cinco filhos, e com quem viveu até a morte.

Ela foi a primeira dramaturga nigeriana, e teve também uma carreira acadêmica como docente nas universidades de seu país. Foi conferencista na Universidade de Ibadan(1968-1983) e trabalhou na Universidade de Ilorin até 1995, tendo sido a primeira professora de Artes da Performance e reitora da Faculdade de Artes.

Zulu escreveu dezoito peças, em geral sobre temas das tradições e da história nigeriana, e sobre as relações dessas tradições com a modernidade ocidental. Ela enfrentou algumas críticas por ser eurocêntrica demais devido a sua influência ocidental. Suas peças incluem The disturbed peace of christmas (A paz perturbada do Natal (1971), Wedlock of the gods (O casamento dos deuses) (1972), King Emene (Rei Emene) (1974), The wizard of law (O Mago da Lei) (1975), Old wines are tast (Vinhos Velhos são Saborosos) (1981), Memories in the moolinght (Memórias ao luar) (1986), e Song of a maiden (Canção da Donzela) (1991).

Ela pertenceu à primeira geração de escritoras africanas, deu voz às mulheres e à cultura igbo. Suas primeiras peças lamentavam o silenciamento das vozes femininas, sobretudo de mulheres ativas como as de sua sociedade ancestral, como por exemplo a peça Queen Omu Aliko (Rainha Omu Aliko). Ela identificou na emergência da consciência feminina das mulheres africanas um vento de mudança que iria varrer o planeta, por isso criou heroínas femininas que são agentes de mudança, resilientes, vivazes e resolutas em sua busca pela auto-expressão e auto-inscrição.

BIBLIOGRAFIA

GILBERT, Helen e Joanne Tompkins. Post-colonial drama:theory, practice, politics. London: Routledge, 1996.

KOLAWOLE, M. E. M. Zulu Sofola: her life & her works. Ibadan, Nigéria: Caltop Publications, 1999.

KOLAWOLE, Mary. “Zulu Sofola”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 5, p. 428-429.

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