Tag: Tradições africanas

Abiodun Duro-Ladipo (1941)

Atriz, cantora e produtora nigeriana, nasceu em Ijan-Ekite e pertence a uma família real. Completou o ensino secundário em 1963 e alimentou o desejo de ser enfermeira. No entanto, seus planos mudaram quando ela se juntou à companhia teatral de Duro-Ladipo (1963). O mentor da Companhia, o teatrólogo e escritor popular Duro-Ladipo logo reconheceu o seu talento e zelo pelo teatro e a encorajou a permanecer na trupe, vindo depois a se casar com ela (1964).

Abiodun Duro-Ladipo é mais conhecida por seus papéis nas epopéias dirigidas por seu marido. Ela representou a heroína Moremi, na peça homônima. Também já personificou a divindade Oyá na peça intitulada Oba Koso, além de participar de muitas outras nos quinze anos em que trabalhou na trupe, tendo participado como atriz e cantora no Festival de Berlim, Teatros Mundo (1964), Commonwealth Arts Festival (1965), Festival Mondial du Theatre (1973), Festival Youruba em Zurique (1973), entre outros ocorridos em Belgrado, Persépolis e Roma.

Após a morte de Duro-Ladipo, em 1978, ela tomou a frente da companhia de teatro, algo inédito em seu país, zelando pela divulgação da cultura yorubá, mas ampliou o foco, produzindo também para a televisão. Algum tempo depois, foi convidada por Arthur Hall para levar a peça Oba Koso para os Estados Unidos (1987).

Para a televisão, realizou séries em diversas emissoras nigerianas, em geral tratando de temas épicos, entre as quais Oya Sings (1979), Binaku (1981), Oyinbo Ajele (O governador provincial britânico), Esentaye (1997) e Ayelaagbe (1998). Nelas e em filmes, sempre representa papéis de sacerdotisa, deusa, mãe, etc., ressaltando o caráter heroico delas, de modo a valorizar a cultura africana do passado. Em 2009 Abiodun reencenou Moremi, heroína que, segundo ela, é bem diferente dos líderes atuais, “que nos prometem o céu e a terra, mas acabam nos enganando”.

BIBLIOGRAFIA

DURO-LADIPO, Abiodun. I only wanted to help him. Bayreuth: Iwalewa- Haus, 1988.

 OGUNBIYI, Yemi (Ed.). Drama and theatre in Nigeria: a critical source book. Lagos: Nigeria Magazine, 1981.

OGUNLEYE, Foluke. “Abiodun Duro-Ladipo”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 2, p. 266-267.

RAJI-OYELADE, Remi; OLORUNYOMI, Sola; DURO-LADIPO, Abiodun. Duro Ladipo thunder-god on stage. Ibadan: Institut of African Studies – University of Ibadan, 2008.

A pessoa criativa – Duro Ladipo, com legendas em português, 1967, 29min: https://youtu.be/RyzYRNgsqIU

Adelaide Casely Hayford (1868–1960)

Nascida como Adelaide Smith, em Freetown, durante o período de colonização inglesa em Serra Leoa. Pertencia a uma família originária da miscigenação de povos hauçá, fanti, de retornados  e britânicos, tendo pertencido a uma elite “crioula”, euro-africana. Passou boa parte de sua infância e adolescência na Inglaterra com a família, e  estudou música no Conservatório de Stuttgart, na Alemanha. Casou-se em 1903 com o ganês Joseph Ephraim Casely-Hayford, com quem teve uma filha, Gladys May. Separaram-se posteriormente, e ambos tiveram destacada atuação como nacionalistas e pan-africanistas.  

Na década de 1920 aproximou-se das ideias de Marcus Garvey. Em Nova Iorque, junto com a sobrinha, Gladys, ingressou e presidiu a divisão de mulheres negras, inteirando-se dos programas de promoção para educação industrial. Após o retorno a Freetown, criou a Girl’s Vocational School (EscolaVocacional para Meninas) em outubro de 1923, que funcionou sob sua direção até 1940. Nesta escola, defendeu a implementação de um nacionalismo cultural africano por meio de um currículo que continha elementos de história, folclore, música e dança tradicionais.  Ela propôs também a comemoração anual do Dia da África, quando as meninas deveriam comparecer vestidas com roupas de origem africana, de modo a evitar o assimilacionismo cultural.

Foi vice-presidenta do Congresso Internacional de Mulheres de Cor, presidenta da Associação de Jovens Mulheres Cristãs, presidenta da divisão local da Associação Universal do Progresso Negro (fundada por Marcus Garvey) e oradora na filial do Congresso Nacional do Oeste Africano Britânico em Serra Leoa, ajudando na recepção de W.E.B Dubois em 1924. Ela também teve a idéia de se criar uma universidade nacional com professores que ensinassem valendo-se das línguas africanas.

Publicava periodicamente no jornal de notícias de Serra Leoa assuntos sobre educação e nacionalismo africano, sendo uma figura com impacto significativo no movimento pan africanista. Também publicou suas memórias em uma série de artigos no West African Review, intitulada The life and times of Adelaide Casely-Hayford (A vida  e a época de Adelaide Casely-Hayford) (1953-1954).

BIBLIOGRAFIA

BAIR, Barbara. Pan-africanism as process: Adelaide Casely-Hayford, garveyism, and the cultural roots of nationalism. In: Lemelle, Sydney J; KELLEY, Robin D. G. (Eds.).  Imagining home: class, culture and nationalism in the african diáspora. Londres: Verso, 1994, pp. 121-144.

BAIR, Barbara. “Adelaide Casely-Hayford”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 2,  p.  40-41.

CROMWELL, Adelaide. An african victorian feminist: the life and times of Adelaide Smith Casely-Haiford. Abington: Routledge, 2013 (or. 1986).

OKONKWO, Rina. Adelaide Casely Hayford cultural nationalist and feminist. Phylon, v. 42, n. 1, p. 41-51, 1981.

Agnés Agboton (1960)

Nascida em Porto Novo, no Benin, filha de um consultor da ONU, realizou os estudos primário e secundário na Costa do Marfim, foi para a Espanha aos 18 anos e cursou filologia na Universidade de Barcelona.

Com bom domínio das línguas catalã, castelhana,  francesa e gun,  sua língua natal, tornou-se desde 1990 uma contadora de histórias em escolas, bibliotecas e instituições culturais, levando ao público europeu as lendas e contos tradicionais do seu povo e do continente africano.

Como autora, Agnés Agboton escreveu obras sobre gastronomia africana:  La cucina africana (1988), África en los fogones (2001) e Las cocinas del mundo (2002). Sobre as tradições orais e contos tradicionais beninenses, escreveu: Contes d’arreu del món (1995), Abenyonhú (2003) e Na Mitón. Também é autora de poemas e ensaios, como La mujer en los cuentos y leyendas africanas (2004).  

BIBLIOGRAFIA:

N’GOM, M’bare (Editor). AGBONTON, Agnés. In: Palabra aberta: conversaciones com escritores africanos de expressión em español. Madrid, Editorial Verbum, 2013, p.127

Amelia Seeiso (1902-1964)

Amelia Matsaba Mantsebo Seeiso foi a filha primogênita do chefe Sempe Nkorbe, uma das principais chefaturas do reino de Quthing, no Lesoto, conhecido na época como Basutolândia. Ela também é conhecida como Mofumahali, nome que designa as esposas dos chefes supremos, equivalente a rainha.

Após concluir a educação primária ela foi casada e instituída como primeira-esposa do chefe supremo Seeiso Grifith, de quem teve a filha chamada Ntsebo, e daí em diante recebeu o título de M’a rona, isto é, a “mãe da nação”. Depois da morte do marido (1941) ela determinou que fosse chamada de Ntale, isto é, “pai”, porque o ofício de governo era tradicionalmente considerado masculino.

Ela foi a primeira e única mulher do Lesoto a ocupar o cargo de Chefe Supremo, em uma das mais longas regências femininas da África Austral, pois governou efetivamente o seu povo de 1941 até 1960 em nome do sucessor legal, Constantine Bereng Seeiso, que tinha na ocasião de sua posse apenas dois anos. A ascensão ao governo ocorreu em meio a uma tensa luta pelo poder com o cunhado e seus partidários, e a sua vitória foi decidida e confirmada por um tribunal inglês.

Seu governo foi marcado por uma série de medidas de apoio ao governo colonial britânico. Durante a II Guerra Mundial ela deu suporte local aos europeus, arrecadou fundos de apoio e enviou 21.468 homens para prestar serviços militares de apoio e limpar os destroços de guerra, motivo pelo qual foi criticada por tira-los de suas famílias e enviá-los para morrer nas guerras dos homens brancos.  Em contrapartida, suas iniciativas foram reconhecidas pela monarquia britânica. Durante uma visita ao Lesoto pelo rei Georges VI ela foi agraciada com a Ordem do Exército Britânico (OBE).

Também foram introduzidas uma série de medidas reformistas visando adaptar a sociedade ao mundo moderno que pavimentaram o caminho para a monarquia constitucional que hoje vigora no Lesoto, como o estabelecimento de conselhos distritais (1943), o Conselho Nacional da Basutolândia e a formação de um setor do Tesouro (1946). As campanhas de vacinação, muito impopulares, a o fortalecimento da Igreja Católica, e sobretudo o aumento do deslocamento de pessoas do Lesoto como trabalhadores migrantes nas minas, fazendas e indústrias sul-africanas, mesmo após a introdução do apartheid em 1948, por causa da negligência britânica de desenvolver o Lesoto, foram motivos de crítica ao seu governo.

Isto levou a que, na década de 1950, ela e o seu governo passassem a ser objeto de duras críticas tanto por nacionalistas quanto por monarquistas, que levaram à formação de partidos políticos modernos entre 1952 e 1959, que acabou por levar ao seu pedido de demissão em 12 de março de 1960, quando Constantinus Bereng Seeiso foi considerado legalmente como chefe supremo.         

BIBLIOGRAFIA

EPPRECHT, Marc. “This matter of women is getting very bad”: gender, development and politics in colonial Lesotho. Pietermaritzburg: University of Natal Press, 2000.

GILL, Stephen J. A.. Short History of Lesotho: from the late Stone Age until the 1993 elections. Morija: Morija Museum & Archives, 1993.

MACHOBANE, L. B. B. J. Government and change in Lesotho, 1800-1966: a study of political institutions. London: Macmillan, 1990.

NTABENI, Mary Nombulelo. “Amelia ‘Matsaba’ Mantsebo Seeiso”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 5, p. 320-321.

Ana Clara Guerra Marques (1962)

Dançarina e coreógrafa angolana, pioneira na dança contemporânea africana. Cresceu em um ambiente artístico e intelectual, com diversas pessoas revolucionárias visitando a casa de seus pais em Luanda, capital de Angola. Começou a praticar balé aos oito anos de idade na Academia de Dança de Luanda.

Com a independência do país, a escola que era portuguesa acabou fechando, sendo que alguns anos depois, Ana Clara, que tinha apenas quinze anos assumiu a liderança do estabelecimento, uma vez que já tinha completado o grau para dar aulas. Foi um período difícil, segundo ela mesma afirmou em uma entrevista, porque a Angola pós-independência estava redescobrindo sua cultura e o balé remetia muito ao colonialismo europeu – ainda mais porque ela ser uma angolana branca.

Em 1987 ela vai à Portugal estudar dança e pedagogia na Escola Superior de Dança de Lisboa. Retorna ao país em 1991 para abrir a primeira escola de dança contemporânea até então, a Companhia de Dança Contemporânea de Angola – CDCA. O seleto grupo de dançarinos escolhidos, muitos dos quais formados em reconhecidas instituições dos EUA e da Europa, costumava apresentar suas coreografias em lugares públicos pouco convencionais. Durante a década de 1990 apresentaram-se em vários países africanos e foram pela primeira vez aos países europeus em 1992.

O trabalho de Ana Clara Guerra se estende para além da dança, incluindo pesquisa e publicação de novas interpretações das danças tradicionais e populares da Angola. Tem pesquisado, em particular, sobre o uso de máscaras nas danças rituais do povo Chokwe que habita, predominantemente, o nordeste de Angola.  Entre suas obras estão: A alquimia da dança (1999), A Companhia de Dança Contemporânea de Angola (2003), e Para uma História da Dança em Angola – Entre a Escola e a Companhia – Um percurso Pedagógico (2009).

A crítica social foi outro caminho escolhido pela coreógrafa, que acredita que a dança não é algo passivo, mas que pode ser utilizada como um instrumento de intervenção. Marques também é integrante do Conselho Internacional de Dança da UNESCO. Atualmente leciona Antropologia na Universidade Agostinho Neto, em Luanda, além de fazer parte do Ministério da Cultura e Educação, onde participa da elaboração de programas artísticos e acadêmicos em Angola.

BIBLIOGRAFIA

ARMANDO, João. Ana Clara Marques: bailarina, coreógraa, professora e investigadora: entrevista Revista Vida. O país – o jornal da Nova Angola, n. 29, 29/05/2009.

MARQUES, Ana Clara Guerra. A alquimia da dança. Luanda: Edições CC, 1999.

MARQUES, Ana Clara Guerra; TAVARES, Rui; FERREIRA, João. A companhia de dança contemporânea de Angola. Angola: Mukixe e Caxinde Editora, 2003.  

MARQUES, Ana Clara Guerra. As máscaras de dança cokwe na perspectiva de uma estética africana. Via Atlântica, v. 10, p. 151-166, 2006: https://doi.org/10.11606/va.v0i10.50586

RUIGROK, Inge Mariette. “Ana Clara Guerra Marques”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 4, p. 115-116.

Baba de Karo (1890-1951)

Baba de Karo (1890-1951). Também conhecida como Baba Hasetu Dantsoh.  Mulher integrante do povo hauçá da aldeia de Karo,  na então província de Zaria, ao norte da atual República da Nigéria.  Seu pai, Tosho, pertencia ao grupo étnico Kanuri, era um bem sucedido fazendeiro e professor do Alcorão. O trabalho em sua propriedade era baseado na exploração do trabalho escravo, e a prosperidade familiar diminuiu após a proibição da escravidão, no período colonial.  Sua mãe, Fatsuma, era uma mulher muçulmana que vivia isolada e preparava comida e algodão fiado para venda.

Tudo o que se sabe sobre Baba baseia-se em entrevistas que ela concedeu a Mary Smith, a esposa de Michael Smith, um antropólogo social jamaicano que fez pesquisa de campo no norte da Nigéria nos anos 1940-1950. As entrevistas ocorreram entre novembro de 1949 e janeiro de 1950, nas cidades de Giwa e Zaria. Elas foram gravadas em hauçá quase literalmente como ditado por Baba, e mais tarde foram traduzidas e publicadas em inglês como uma autobiografia, Baba of Karo: A woman of the muslim hausa (Baba de Karo: uma mulher muçulmana hauçá) (1954),   com uma introdução por Michael Smith e notas finais elaboradas que ajudam a contextualizar certos episódios e contextos da biografia.

A história de vida de Baba de Karo se confunde com a história das mulheres comuns hauçá de meados do século XIX a meados do século XX, onde se pode entrever as experiências da infância e juventude, genealogia familiar e relações de parentesco. Desde a infância ela trabalhava para ajudar a mãe vendendo comida, aos quatorze anos foi, conforme o costume, entregue em casamento a um parente, Duma Sidi (1904). Após enfrentar oposição familiar, divorciou-se, vindo a se casar em período posterior com Malam Maigari, com Yari Malam Hasan e com Ibrahim Dantsoho, os dois últimos, fazendeiros polígamos.

Ao longo da vida, cuidou das cabras que herdou do pai, trabalhou como fiandeira e vendedora de lenha, prestava assistência nos serviços de parto. Seu depoimento contribui para se conhecer melhor a situação das mulheres comuns no período anterior ao colonialismo e as alterações introduzidas pelos britânicos no período colonial. Com papéis políticos limitados, que não iam além de atuarem como jakadiya, isto é, mensageiras de chefes locais, as mulheres alcançavam alguma notoriedade quando se tornavam magajiya – chefes das dançarinas de Bori ou prostitutas.

O testemunho de Baba de Karon revela igualmente aspectos importantes da vida religiosa, seja aqueles relacionados à continuidade das práticas tradicionais anteriores ao islã, vinculado ao culto do Bori e a possessão por espíritos, quanto ao papel do islã na regulação das relações sociais através do casamento e da definição da sucessão familiar. 

Baba faleceu em 3 de junho de 1951. O registro de sua palavra permite acessar aspectos da vida cotidiana de mulheres comuns, que, não ocupando posições de poder ou de liderança, compartilharam experiências e tradições ancestrais, mesmo em período de inovação e transformação. Ela é lembrada como mulher corajosa, com vontade própria, cujo intelecto e memória afiada levaram à produção de sua biografia.

BIBLIOGRAFIA

COLES, Catherine; MACK, Beverly (Eds.). Hausa women in the twentieth century. Madison: University of Wisconsin Press, 1991.

CHUKU, Gloria. “Baba of Karo”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 1,  p. 336-338.

SMITH, Mary F.. Baba of Karo: A woman of the muslim hausa. Yale: Yale University Press, 1981 (or. 1954).

Catherine Obianuju Acholonu (1951-2014)

Escritora nigeriana, pesquisadora e professora, também referida como Catherine Obianuju Acholonu-Olumba. Nasceu em Orlu, de ascendência Igbo. Em casamento arranjado, aos dezesste anos tornou-se esposa de Douglas Acholonu, com quem teve quatro filhos: Ifunanya, Nneka, Chidozie e Kelechi. Após a formação escolar e universitária, estudou na Alemanha, obtendo o título de mestrado (1977) e doutorado (1982) em Língua e Literatura inglesa e americana e Linguística germânica na Universidade de Dusseldorf.

Durante a década de 1980, na Nigéria, atuou como docente na Universidade de Educação Alvan Ikoku em Owerri; fundou AFA Publications e AFA: A Journal of Creative Writing (1982), dois importantes meios de divulgação de produção acadêmica.  Ela foi uma das duas africanas designadas para o Encontro do Grupo de especialistas em Santo Domingo (1986), com o objetivo de priorizar a questão de gênero nos planos de ação das três Conferências da ONU, do Rio de Janeiro, Cairo e Pequim.

Como pesquisadora, realizou estudos sobre as raízes Igbo do ex-escravo africano e abolicionista Olaudah Equiano, também conhecido como Gustava Vassa, proferindo palestras sobre ele e os vínculos da família dele com a região de Imo, na Nigéria, em universidades inglesas e norte-americanas. Foi escritora residente na Westchester Consortium for International Studies (1990-1991) e professora visitante em Manhattanville College, Marymount College, Iona College, e College of New Rochelle em Nova Iorque. Trabalhou como professora de história africana e filosofia no campus nigeriano da Universidade de Pilgrim e no Seminário Teológico de Aba.

Seu livro Motherism: The afrocentric alternative to feminism (Maternismo: a alternativa afrocêntrica ao feminismo) (1995), é descrita como a primeira teoria completa de estudos de gênero na África e base para teoria maternal introduzida no Canadá e outros países ocidentais. Também escreveu The Gram Code of African Adam: Stone Books and Cave Libraries, Reconstructing 450.000 Years of Africa’s Lost Civilizations (O código do Adão africano: os livros das rochas e cavernas reconstruindo 450.000 anos de civilizações perdidas da África) (2005), They lived before Adam: prehistoric origins of the Igbo (Nós vivemos antes de Adão: origens pré-históricas dos Igbos) (2009) e The lost testament of the ancestors of Adam. Unearthing Heliopolis/Igbo Ukwu, the celestial city of the gods of Egypt and India (O testamento perdido dos ancestrais de Adão. Desenterrando Heliópolis/Igbo Ukwu, a cidade celestial dos deuses do Egito e da Índia) (2010).

Acholonu foi a primeira nigeriana homenageada com a fundação do Centro de Pesquisa Catherine Acholonu. Foi Embaixatriz do Renascimento Africano para a Conferência do Renascimento Africano em Benin. Até 2002, atuou como conselheira especial sobre arte e cultura do presidente da República Federal da Nigéria. Foi a única representante da Nigéria no Fórum Global de Arte e Cultura para a implementação da Convenção da ONU para combate a desertificação (UNFAC) (2003).

BIBLIOGRAFIA

UMEH, Marie. “Catherine Obianuju Acholonu”.  In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 1, p. 85-86.

EZEMWA-OHAETO. Contemporary nigerian poetry and the poetics of orality. Bayreuth:  E. Breitinger, 1998.

OTIONO, Nduko. Catherine Acholonu: the female writer as a goddess. Nkoko: Institute of African Studies – Carleton University, v. 4, 2014: https://ojs.library.carleton.ca/index.php/nokoko/article/download/2192/1975

Charlotte Maxeke (1874-1939)

Fundadora do Bantu Women’s League BWL(Liga das Mulheres Bantu) e missionária  da African Methodist Episcopal Church – AME (Igreja Episcopal Metodista Africana).

 Nasceu com o nome de Charlotte Manye, na Colônia do Cabo, na África do Sul. Recebeu a instrução primária perto da cidade de Port Elizabeth, de professores Xhosa. Nos finais da década de 1880, ela e sua família se transferiram para a cidade mineira de Kimberley, onde ela e sua irmã mais nova Kate se distinguiram como cantoras no coral da Free Church of Scotland. Entre 1891 e 1893 ela e sua irmã Kate viajaram pela Grã-Bretanha cantando no coro junto ao African Jubilee Choir (Coro do Jubileu Africano)., Charlotte continuou no coral em uma viagem para os Estados Unidos enquanto Kate se casou em Johannesburgo.

Em 1894, através da AME, Charlotte e outras cinco pessoas do coral ganharam a oportunidade de estudar artes na universidade de Wilberforce, em Ohio. As cartas de Charlotte para sua irmã Kate, contando inspiradamente sobre suas experiências foram compartilhadas por Kate com o Ministro Mangena Mokone, de uma igreja independente na Etiópia. As correspondências inspiraram a afiliação da igreja à AME em 1896.

Charlotte Manye conheceu seu marido Marshall Maseke na universidade. Tiveram um filho, Edward Clarke Maxeke. Os dois montaram uma escola em solo americano que, porém, faliu por falta de recursos e alunos. Em 1906 reergueram outra escola na África do Sul e lá ensinaram e passaram a organizar os ofícios religiosos nos moldes de uma escola da AME, até ser nacionalizada no período do apartheid em 1953, através do Bantu Education Act (Lei da Educação Bantu).

O marido de Charlotte era um membro do South African Native National Congress – SANNC (Congresso Nacional dos Nativos Sul-Africanos), que depois se tornaria apenas African National Congress – ANC (Congresso Nacional Africano). Até 1943 os membros podiam ser apenas homens, o que a levou a fundar a BWL, uma espécie de auxiliar da SANNC ou ANC. As integrantes da BWL não votavam nas reuniões, mas participavam ativamente das mobilizações políticas contra as tentativas oficiais de estender leis que ferissem os direitos das mulheres africanas.

Durante sua carreira, Charlotte Maseke serviu como uma ponte consciente entre grupos sociais, religiosos e políticos dedicados ao progresso da população negra quanto à educação, auto-ajuda e protestos coletivos. Sua influência ressoou no trabalho da Liga das Mulheres do Congresso Nacional Africano, que se formou em 1943 como organização sucessora da BWL.

BIBLIOGRAFIA

HEALY, Meghan. “Charlotte Maxeke”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 4, p. 141-142.

JAFFER, Zubeida. Beauty of the heart: the life and times of Charlotte Mannya Maxeke. Cape Town: ZJ Books, 2016.

MAXEKE, Charlotte Manye. Social conditions among bantu women and girls. In: DAYMOND, M. J. (Ed.). Women writing Africa: the southern region. Nova Iorque: Feminist Press, 2003.

MCCORD, Margaret. The calling of Katie Makanya. Cape Town: David Philip, 1995. 

Clémentine Faïk-Nzuji Madiya (1944 )

Poetisa congolesa e especialista em Estudos Africanos de língua Bantu, nasceu na cidade de Tshofa no então Congo Belga, atual República Democrática do Congo. Enquanto fazia curso superior na Universidade de Kinshasa,  no início da década de 1960, participou do movimento literário conhecido como Pléiade du Congo, através do qual foram publicados muitos trabalhos de escritores congoleses de 1966 a 1968. Obteve o título de Doutorado em Estudos Africanos na Universidade de Paris III no início da década de 1970. 

Alcançou renome internacional, com trabalhos publicados pelo Ministério da Cultura do país em 1968 como um meio de promoção da literatura nacional. No ano seguinte, recebeu o Prêmio Literário Senghor, e escreveu em francês e em chiluba, sua língua nativa, a primeira coletânea de poemas conhecida como Murmures (Murmúrios) (1969) – primeiro trabalho de poesia feminina publicado por uma africana em francês.  A maioria de seus poemas eram pessoais: tratam de sua relação com o marido e os cinco filhos. Sua outra coletânea, Kasala, de 1969, contém poemas que expressam suas frustrações com a situação econômica do país.

Entre 1972-1981 passou pelos Estados Unidos, morou no Níger e na Bélgica. Trabalhou como professora de disciplinas de literaturas orais e estilística africana Universidade de Niamey (1978-1980) e a partir de 1981 na Universidade Católica de Louvain  (Bélgica) – onde deu contribuição fundamental para o surgimento do Centro Internacional das Línguas, Literaturas e Tradições da África, que ela dirigiu a partir de 1986.  Neste núcleo de pesquisa, desenvolveu estudos de linguística bantu, com trabalhos sobre antroponímia, semântica, literaturas orais, estudo da simbologia das escarificações e tatuagens corporais, cujos resultados estão reunidos nos livros Arts africaines: signes et symboles (Artes africanas: signos e símbolos) (2000) e La puissance du sacré: l’homme, la nature et l’art en Afrique Noire (O poder do sagrado: o homem, a natureza e a arte na África negra) (2003).

Recebeu diversos prêmios em reconhecimento de sua carreira  como poetisa e como estudiosa, e  publicou o livro Tu le leur diras. Le récit véridique d’une famille congolaise plongée au coeur de l’histoire de son pays. Congo, 1890-2000) (Tu dirá a eles. Narrativa verídica de uma família congolesa imersa no coração da história de seu país. Congo, 1890-2000) (2005), em que trata de sua própria biografia e da relação entre  história de sua família do regime colonial à primeira guerra civil do Congo no início dos anos 1960, à ditadura e a guerra civil do Congo de 1996 a 2003.

BIBLIOGRAFIA

FAIK-NZUIJI, Clementine.  In: Reading women writers and african literature. The University of Western Australy, 2013.

CLÉMENTINE FAIK-NZUIJI , Clementine. La puissance du sacré: l’homme, la nature et l’art en Afrique Noire. Waterloo: La Renaissance du Livre,  2003.

NGANDU, Pius Nkashama (Ed.). Itinéraires et trajectoures du discours littéraire à l’Anthropologie: Mélanges offerts à Clémentine Faïk-Nzuji Madiya. Paris: L’Harmattan, 2009.

RICH, Jeremy. “Clémentine Faik-Nzyji Madiya”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 2, p. 331-332.

Constance Magogo Kadinuzulu (1900-1984)

Princesa e rainha-mãe Zulu e compositora musical, nasceu em Nongoma, num momento em que o reino Zulu tinha sido corroído pela guerra civil e pelo colonialismo na África do Sul.  Seu pai passou a maior parte da infância de Constance exilado, tendo morrido em 1913.

Nesse meio de reviravolta política, encontrou consolo na música. Frequentou uma escola de missão Anglicana e em 1923 seu irmão arranjou o seu casamento com o chefe do clã Buthelezi. Foi a décima e principal esposa do Chefe Mathole, com quem teve um filho e duas filhas. Assim, enquanto se aplicava à maternidade também se aplicava às habilidades musicais, servindo como uma imbongi, uma espécie de cantora e tocadora em ritos religiosos.

Sua proeminência nesse meio predominantemente masculino foi marcante. Em 1939 foi gravada pela primeira vez por um etnomusicólogo britânico que reconheceu seu talento, e no período de 1950-1960 suas performances originais e tradicionais passaram a ser gravados regularmente, através da South African Broadcasting Corporation. Foi então que a gravadora lançou suas composições na coleção The Bantu Composers of Southern Africa (Compositores bantu da África do Sul) (1969) e alguns anos mais tarde a Tracey’s International Library of African Music (Biblioteca Internacional de Música Africana da Tracey) lançou o álbum The Zulu Songs of Princess Constance Magogo KaDinuzulu (As canções da Princesa Zulu Constance Magogo KaDinuzulu ) (1973).

No mesmo momento em que Constance alcançava prestígio nacional e internacional como artista, o seu filho conquistava simultaneamente reconhecimento por liderar os Zulus durante o regime do Apartheid. Como rainha-mãe e imbongi, ela reverenciava a ideologia do Partido da Liberdade Inkhata, e quando uma brigada feminina do Inkhata se formou em 1977 ela foi coroada como a heroína das mulheres Zulu.

Constance Magogo Kadinuzulu continuou sendo reconhecida e relembrada por muitos nacionalistas e amantes da boa música da África do Sul e do continente.

BIBLIOGRAFIA

GUNNER, Liz. A royal woman, na artist, and the ambiguities of national belonging: the case of Princess Constance Magogo. Kunapipi: journal of postcolonial studies, v. 24, n. 1, p. 205-223, 2002.

HEALY, Meghan. Constance Maggo KaDinuzulu”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 4, p. 30-32.

HUSKISSON, Yvonne. The bantu composers of Southern Africa. Johanesburgo: South Africa Broadcasting Corporation , 1969.

RYCROFT, David. Princess Constance Magogo. In: LUCIA, Christine (Ed.). The world of South African music: a reader. Newcastle: Cambridge Scholars Press, 2005.

Constance Stuart-Larrabee (1914-2000)

Nasceu como Constance Stuart na Cornualha, Inglaterra, e foi levada pela família para a Cidade do Cabo, na África do Sul, país em que viveu durante décadas. Estudou na escola primária em pretória, na Arcadia School, e frequentou a escola secundária na High School for Girls. Seu interesse por fotografia teve início aos dez anos de idade, quando ganhou de presente de aniversário uma máquina Kodak Box Brownie.

Teve a oportunidade de, na Inglaterra, estudar na Escola Politécnica de Fotografia Regent Sreet, passando a atuar em estúdios, e continuou os estudos em Munique, onde passou a trabalhar com a câmara fotográfica Rolleiflex, que ela usou em toda a sua carreira. De retorno à África do Sul, fundou em 1936 o Constance Stuart Portrait Studio em Pretória. Ela se tornou uma renomada retratista e fotografou muitos dos principais estadistas, generais, artistas, escritores, sociedade e personalidades teatrais da época. Em 1946, ela abriu um segundo estúdio em Johanesburgo.

No período de 1937-1949, desenvolveu o seu interesse pelo registro fotográfico de grupos étnicos desaparecidos da África do Sul, qualificados como “grupos tribais”, como os Ndebeles, Lobedu, Zulu, Suazi, Sothos, Tranksei, Khoi e outros, em seus trajes e costumes tradicionais, e as obras foram exibidas em Pretória, Johanesburgo e Cidade do Cabo.

Em 1945 serviu no Egito, Itália, França e Inglaterra, ligada ao 7º Exército Americano e à 6ª Divisão Sul-Africana. Embora ela tenha sido contratada para fotografar as tropas sul-africanas no exército, foi muito além de sua missão: fotografou as tropas americanas, francesas, britânicas e canadenses, bem como seus compatriotas sul-africanos. Ela também fotografou os civis que os soldados encontraram no caminho para a Alemanha e as aldeias, vilas e cidades devastadas em seu caminho.

Quando, em 1948, o Partido Nacional instituiu a política de segregação racial estrita ela abandonou o país, passando a morar nos Estados Unidos, onde passou a viver com o marido, Sterling Larrabee, onde permaneceu até o fim da vida.  

BIBLIOGRAFIA

CONSTANCE, Larrabee. Constance Stuart Larrabee: Time Exposure. New Haven: Yale Center for British Art, 1995.

ELLIOTT, Peter. Constance: One road to take: the life and photography of Constance Stuart Larrabee (1914-2000). Cantaloup Press, 2000.  

NEWBURY, Darren. “Constance Stuart-Larrabee”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 5, p. 463-464.

Dimi Mint Abba (1958)

Musicista mauritana.  Nasceu como Loula Bint Siddati Ould Abba. Seus pais eram de uma família iggawin, músicos pertencentes à casta  inferior da sociedade mauritana, similares aos griots mas sem o mesmo prestígio destes. A mãe a ensinou a tocar o ardin, um instrumento de cordas semelhante ao instrumento mandinga conhecido como kora, embora um pouco menor. Ela também executa o tidinit, um instrumento semelhante ao alaúde.

Dimi Mint Aba estreou nas rádios locais em 1976 e no ano seguinte deu início à carreira internacional, quando executou a música Sawt elfan (“voz da arte”, em árabe) no concurso de música anual internacional Umm Kulthum, em Túnis, vencendo a competição. Foi patrocinada pelo governo para representar a Mauritânia em competições e concertos na década de 1980.  Em 1989 realizou a primeira turnê europeia junto com seu marido, o conhecido violonista Khalifa Ould Eide.

Em 1990 lançou o álbum Moorish music from Mauritania (Música moura da Mauritânia), em que combina influências ocidentais e afro-saarianas, com letras que tratam de temas de amor e relações familiares. Ela defende o direito das mulheres escolherem seus maridos, e algumas de suas músicas criticaram a falta de liberdade das mulheres mauritanas.

Nas turnês que realizou pela Europa e Estados Unidos nos anos 1990  chamou a atenção de artistas conhecidos da África Ocidental, como Youssou N’Dour e Ali Farka Touré.

Em 2002, participou do Festival de Música Sagrada em Fez, no Marrocos e do Festival Internacional das Músicas na capital mauritana de Nouakchott (2004). Apresentou-se num concerto com o famoso baterista de jazz Jack DeJohnette em Paris (2009).

Suas performances frequentemente incluem as duas filhas, Zeyrouz Mint Seylami e Garmi Mint Abba, que tocam tambores. Dimi permanece como uma das mais amadas artistas na sua terra natal.

BIBLIOGRAFIA

MUDDYMAN, Dave. Mauritania and Western Sahara: ways of the moors. In: BROUGHTON, Simon; Ellingham, Mark.  World Music: 100 Essential CDs: the rough guide: Africa, Europe, and the Middle East.  Londres: Rough Guides, 2000, p. 562-566.

RICH, Jeremy. “Dimi Mint Abba”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 2, p. 202.

SALEM, Lemine Ould M. Les sources de la musique maure.  Hommes et Migrations, n. 1245, p. 122-124, 2003.

Efua Theodora Sutherland (1924-1996)

Nascida como Efua Theodora Morgue, em Cape Coast, na então Costa do Ouro, que depois da independência passou a se chamar República de Gana, foi uma influente escritora, dramaturga, diretora de teatro, autora para crianças, educadora, pesquisadora, advogada de crianças e ativista cultural em defesa do pan-africanismo. Realizou sua formação na Inglaterra, e na década de 1950 participou intensivamente do processo de libertação colonial de seu país, sendo uma das mais influentes formadoras do teatro ganês moderno, e uma promotora cultural dos valores africanos.

No campo do teatro, é autora de diversas peças, entre as quais Foriwa (1962),  Edufa (1967),  e The Marriage of Anansewa (O casamento de Anansewa) (1975). Ela fundou o Ghana Drama Studio, a Sociedade de Escritores de Gana,  o Teatro Experimental de Gana. Foi também uma editora pioneira, fundando a empresa Afram Publications na década de 1970.Em suas peças, ela recuperou temas das histórias tradicionais veiculadas pela oralidade, transformando-as de acordo com as modernas técnicas do teatro ocidental.

Em 1963, quando assumiu o papel de pesquisadora associada no Instituto de Estudos Africanos da Universidade de Gana, levou para o campus o Ghana Drama Studio, que se tornou um espaço de treinamento fora do campus, e logo depois conceituou e estabeleceu a Escola de Artes Cênicas. Também preocupada com a narrativa tradicional e o desenvolvimento do teatro comunitário, fundou a Kodzidian (Casa das Histórias), reconhecida mundialmente como modelo pioneiro no teatro popular voltado para o desenvolvimento.  Em meados da década de 1980, escreveu uma proposta original para um festival de teatro histórico pan-africano em Gana que pudesse servir de veículo cultural para  reunião de africanos em todo o mundo, ressaltando o significado das conexões entre a África e sua diáspora. Isso foi concretizado no Pan-African Historical Theatre Festival – PANAFEST (Festival Pan-Africano de Teatro), realizado pela primeira vez em 1992.

Sutherland liderou como representante de Gana a ratificação da Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos da criança, e presidiu a Comissão Nacional da Criança de 1983 a 1990, período em que assumiu como prioritária a criação de uma advocacia infantil e a promoção da infância em todo o país.  Com esse intento, dirigiu uma série de programas inovadores, incluindo um Fundo de Educação Infantil para apoiar comunidades carentes, uma oficina estendendo o aprendizado de ciências às crianças pobres ou do campo, e a garantia de terras para criar parques e bibliotecas-modelo para crianças. Ela lançou as bases para a Fundação Mmofra, ativa desde 1997 como uma organização cívica dedicada a enriquecer a vida cultural e intelectual de todas as crianças de Gana.

Seu trabalho mais significativo no Instituto de Estudos Africanos, chamado Legon, foi o Projeto de Desenvolvimento do Drama Infantil, que teve como objetivo o desenvolvimento de materiais, métodos e pessoal treinado para o desenvolvimento de programas de teatro criativo dentro e fora da escola. Sutherland foi convidada pela UNICEF para participar de uma rede mundial de estudiosos para elaborar um código de direitos humanos para a proteção das crianças.  Escreveu diversas peças para crianças, como Playtime in Africa (Hora de brincar na África) (1960),  Vulture!Vulture! (1968), Tahinta (1968) e The voice in the forest (A voz na floresta) (1983).

BIBLIOGRAFIA

ADAMS, Anne V.; Sutherland-Addy, Esi. The Legacy of Efua Sutherland: Pan-African Cultural Activism.  Banbury: Ayebia Clarke Publishing, 2007.

GIBBS, James. Efua Sutherland: The ‘Mother’ of the Ghanaian Theatre. In:  Nkyin-kyin: Essays on the Ghanaian Theatre.  Cross/Cultures, n. 98, p. 91-12, 2009.

OGUNLEYE, Foluke. “Efua Sutherland”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 5, p. 470-471.

SALM, Stephen; FALOLA,Toyn.  Culture and Customs of Ghana. Cona: Greenwood Press, 2002.

SUTHERLAND-ADDY, Esi. Creating For and With Children in Ghana – Efua Sutherland: a retrospective.  In: Etherton, Michael (ed.). African Theatre. Youth, James Currey Ltd, 2006, pp. 1–15.

Fadhma Ait Mansour Amrouche (1882-1967)

Escritora argelina, era a filha de uma camponesa Berber pobre e analfabeta. Muçulmana por nascimento, ela se converteu ao cristianismo, produziu uma das primeiras, se não a primeira, autobiografia escrita por uma mulher argelina, tornou-se uma cidadã francesa naturalizada, e criou dois filhos que se tornaram escritores(as) franceses(as) famosos(as): Marguerite Taos Amrouche (conhecida como Taos Amrouche), uma poetisa, cantora, e romancista, e Jean Amrouche, romancista e poeta.

Nasceu em uma aldeia situada na região de Kabylia, depois que integrantes da comunidade tentaram matar sua mãe, durante a gravidez, por ela ser mãe solteira, conforme ditava o costume. Esta se salvou apelando às autoridades coloniais e denunciou os atacantes, inclusive de sua própria família. Talvez para evitar que tal ato se repetisse em nome do islã, a mãe, Fadma Aini, matriculou a filha em uma escola de freiras missionárias, e em uma escola secular, onde foi aluna de Madame Malava – conhecida educadora de meninas “indígenas”.  Quando completou o secundário, trabalhou na Missão Católica Francesa, onde conheceu Belkacem, com quem se casou (1899), convertendo-se, como ele, ao catolicismo.

Como o clã familiar de Belkacem, de fé islâmica, dificultou o relacionamento com o casal, e a situação de Fadhma e o marido ficou difícil, ambos se mudaram para Túnis, na Tunísia, antes da eclosão da Primeira Guerra Mundial. Ao todo, ela teve oito filhos(as), mas muitos não sobreviveram, o que a inspirou a escrever, durante a Segunda Guerra Mundial, o poema L’Hirondele (A andorinha). Em 1946, a convite do filho, Jean, que já era escritor conhecido na França, ela foi incentivada a escrever suas memórias, o que fez, mas só as publicou após a morte do marido, em 1958.

Fadhma ficou também conhecida pelo seu talento como cantora, e através da música ela divulgou o extenso repertório das tradições orais de Kabylia – suas canções, poesias, lendas e folclore, então em grave perigo de desaparecer. Foi ela quem incentivou a filha, Marguerite, a se interessar e valorizar tais tradições, algo que esta fez ao publicar o livro Le grain magique (O grão mágico) (1960) e ao interpretar canções populares argelinas.

Seus últimos anos foram passados na França, onde faleceu. A história de Fadhma Amrouche, retratada em suas memórias, constitui um capítulo único na história das mulheres em situação colonial; ela incorpora tanto a dura realidade da sociedade local e as contradições da França-Argélia, particularmente como a vida era experienciada por mulheres de origem humilde. Exemplifica a abertura de pequenas frestas no patriarcado, e o esforço para preservar as tradições orais berberes que alimentaram a identidade cultural desse grupo.

BIBLIOGRAFIA

AMROUCHE, Fadhma.  Histoire de ma vie. Paris: Maspero, 1968.

CLANCY-SMITH, Julia A.. “Fadhma Amrouche” In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 1,  p. 222-223.

DIRECHE-SLIMANI, Karima. Chrétiens de Kabylie: histoire d’une communauté sans histoire. Une action missionaire d’Algérie coloniale. Paris: Bouchène, 2004.

MALTI, Nathalie. Voix, mémoire et écriture: transmission de la mémoire et identité culturelle dans l’oeuvre de Fadhma et Taos Amrouche. Doctoral Dissertations, Louisiana State University and Agricultural and Mechanical College, 2006:  https://digitalcommons.lsu.edu/gradschool_dissertations/3839  

Fanta Damba (1923-1987)

Nascida na região de Segou, área cultural bambara, na então África ocidental francesa, atual República do Mali, foi uma djelimuso, isto é, uma cantora de músicas tradicionais em língua mandinga pertencente a uma família de djélis, uma família de griots. Alcançou grande popularidade e é lembrada como “a grande vedete maliana”. 

Fanta começou a cantar quando criança, e aos vinte anos passou a se apresentar em programas de rádio, o que a levou a ser uma das artistas mais famosas nas décadas de 1960-1970.

Em 1975 ela se tornou a primeira djelimuso a fazer uma turnê pela Europa, e logo depois representou no Mali no Festival Africano de Artes e Culturas Negras de Lagos – FESTAC (Nigéria) (1977). Passou a ser reconhecida como Ngara, uma grande mestra, algo em geral reservado apenas aos homens tradicionalistas até aquele momento.

BIBLIOGRAFIA

DURAN, Lucy. Jelimusow: the superwoman of malian music.  In: FURNISS, Graham;  GUNNER, Liz (Ed.). Power, marginality and african oral literature. Cambridge: Cambridge University Press, 2008 (1995), p. 197-210.

FANTA, Damba. Baya Lah: https://www.youtube.com/watch?v=dxp6VZoCyPU

Fatima Hadad (1969)

Cantora marroquina e diretora artística. Nasceu em Kenitra, e seus pais eram originalmente da cidade costeira de Essaouira.  O pai, Hadad al-Ragragui, era imã da mesquita local. 

Cresceu em ambiente musical com os irmãos, que tinham uma banda. Ela própria iniciou a carreira interpretando canções de artistas famosos do Líbano, mas logo foi atraída pela poesia, enquanto estudava Direito na Universidade de Rabat.

Aos poucos foi sendo atraída pela poesia cantada conhecida como malhun, e se interessou pelo seu mais importante intérprete, o cantor de Meknès chamado al-Hajj al-Husayn al-Tulali (1924-1998), a quem diz dar continuidade ao trabalho. Ela criou o o grupo  Jawg Huwwat fann al-malhun (Entusiastas pela Arte Malhun), que em 2004 deu origem a um associação oficial composta por dezenas de pessoas interessadas em manter viva a tradição musical do malhun.

Junto com o marido e a filha, Fatima se dedicou a organização de concertos e peças de teatro em âmbito local, regional e nacional. Também se dedicou a divulgar a poesia malhun e estuda-la no Conservatório de música de Salé, sendo além disso professora e atraindo numerosos jovens talentos interessados em ver preservada essa herança cultural magrebina.  

BIBLIOGRAFIA

CLOUSER, Melanie. “Fatima Hadad”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 2, p. 529-530.

SCHUYLER, Philip D. Malhun: colloquial song in Morocco. In: DAMIELSON, Virginia (Ed).  The Garland Encyclopedia of world Music. Nova Iorque: Routledge, 2002, p. 495-500

Ladi Kwali (c. 1930-1984)

Nascida na aldeia de Kwali, na região de Gwari, ao Norte da Nigéria, de uma família cujas mulheres oleiras e ceramistas mantinham a tradição cerâmica Gbagyi, aprendeu o ofício quando tinha nove anos com uma tia que a ensinou modelar pelo método de enrolar a argila. Desde o início suas peças chamavam atenção pela qualidade estética e pela simetria, o que fez dela mais tarde uma das artesãs nigerianas mais conhecidas e respeitadas até a atualidade.

Ladi Kwale fabricava manualmente panelas, jarros de água, tigelas e frascos decorados com padrões geométricos e figurativos estilizados que incluíam figuras de escorpiões, lagartos, crocodilos, camaleões, cobras, pássaros e peixes. Seus vasos eram conhecidos por rara beleza e elegância formal.  Reconhecida pelo valor artístico, a obra passou a ser exibida em grandes museus,  galerias e mostras internacionais, em Londres, Paris e Nova Iorque.

Nos anos 1950, já como ceramista consagrada, foi convidada por Michael Cardew, do Departamento de Comércio e Indústria, para atuar no Centro de Treinamento em Cerâmica de Abuja, onde aprendeu novas técnicas e se tornou instrutora. Entre 1958 e 1962, viajou pela Europa para mostrar o seu trabalho, e de 1962 a 1970 realizou diversas oficinas nos Estados Unidos. Ministrou palestras aos estudantes de artes da Universidade Ahmadu Bello, onde foi agraciada com o título de Doutora Honoris Causa em 1977.  Alguns anos mais tarde, em 1981, foi consagrada com o título honorário de Oficial da Ordem do Império Britânico. Entre inúmeras homenagens, sua imagem  aparece no verso da nota de 20 nairas – a moeda circulante na Nigéria.

BIBLIOGRAFIA

OKUNNA, E.. Living through two pottery traditions and the story of an icon: Ladi Kwali. Mgbakoigba: Journal of African Studies, V. 1, 2012.

CARDEW, Michael. Ladi Kwali: the potter from england writes on the potter from Africa. Craft Horizons, v.  32, p. 34–37, 1972.

Mamohato Bereng Seeiso (1941-2003)

Integrante da família real de Lesoto, rainha e três vezes regente. Nasceu Masentle Mojela, logo que encerrou o ensino fundamental foi frequentar a Bath Training College of Home Economics (Faculdade de economia doméstica do treinamento de Bath), no Reino Unido. Também participou de cursos relacionados às mulheres de área rural e sobre assuntos internacionais.

De princesa, Mamohato passou a ser reconhecida como “mãe da nação” pelos povos Soto quando Moshoeshoe II a escolheu para ser sua esposa, em 1962, dentre tantas outras princesas aspirantes. Os dois tiveram dois filhos meninos e por fim uma menina. Em 1995, quando seu primeiro filho assumiu o trono ela tomou o título de “rainha-mãe”, e ao nascer a sua primeira neta, chamaram-lhe de Nkhono, “avó da nação”. Mamohato era conhecida por sua gentileza, sensatez, e por ser de fácil acesso a todas as pessoas, que costumava chamar de “meu irmão” ou “meu querido”.

A sua posição social e a sua condição como consorte real conferiu-lhe o encargo natural da liderança. Aceitou e performou com muita humildade e determinação todas as suas responsabilidades, como regente nas duas vezes em que o marido foi exilado (1970, 1996) e após a morte dele. Como se trata de uma monarquia constitucional, seus encargos eram majoritariamente cerimoniais, mas ela estava sempre pronta a participar das cerimônias de abertura do Parlamento, visitar e receber emissários e representantes de outros estados. Dedicou-se ao cuidado dos enfermos da família real, em particular das co-esposas mais idosas, mas também de outros membros da linhagem com problemas mentais ou físicos.

Mamohato fundou uma instituição de caridade para crianças deficientes e órfãs chamada Take Care of The Children (Cuide das Crianças), além de ser representante da Lesotho National Council of Women – LNCW (Conselho Nacional das Mulheres do Lesoto).

Ela também encorajou as mulheres a preservarem suas danças tradicionais, participando dos festivais e competições nas comunidades do interior. Ela mesma dançava graciosamente. Por isso é descrita como uma “tradicionalista”. Foi muito admirada por seus discursos firmes quando era uma convidada oficial ou anfitriã em eventos.

BIBLIOGRAFIA

NTABENI, Mary Nombulelo. “ Mamohato Bereng Seeiso”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 4, p. 76-77.

THAKALEKOALA, T.. Lesotho:  Queen Mother seen as a mother, a christian, a leader and a traditionalist. Mopheme (26/09/2003):  https://allafrica.com/stories/200309290289.html

Micere Githae Mugo (1942)

Estudiosa e escritora transnacional e pan-africanista do Quênia, tem interesse de pesquisa em literatura e oratura na África e na Diáspora Africana, com ênfase em poesia, drama e teatro; estudos de mulheres e gênero; estudos culturais e filmográficos; e educação.

Em uma competição da Commonwealth Scholarship Award para alunos de graduação, Mugo recebeu bolsa para seu mestrado em literatura em 1971 e depois realizou o doutorado em literatura na Universidade de New Brunswick, no Canadá.

Micere Githae foi professora associada na Universidade de Nairóbi, a qual ela se juntou em 1973 como palestrante e onde, mais tarde, se tornou a primeira mulher reitora da Faculdade de Artes (1980-82).  Ela e suas filhas mais novas, Mumbi e Njeri, deixaram o Quênia como exiladas políticas durante o regime do presidente Daniel Arap Moi. Passou a viver nos Estados Unidos desde 1991 e é professora de Estudos africanos na Universidade Syracuse, onde ela recebeu o prêmio Meredith por excelência de ensino entre 2004 e 2007.

Destacada ativista na luta contra a mutilação genital feminina, ela é igualmente crítica de feministas ocidentais que ignoram o que feministas não-ocidentais têm a dizer sobre o que consideram equivalente à mutilação feminina no Ocidente, como os implantes mamários, a bulimia nervosa, a anorexia, entre outros.

Dentre muitos trabalhos estão: Muthoni wa Kirima Mau Mau  field marshall: interrogating silencing and, erasure and manipulation off female combatents’ texts (Muthoni wa Kirima marechal de campo Mau Mau: interrogando o silenciamento, apagamento e manipulação dos textos de mulheres combatentes) (2004); Re-envisioning pan-africanism: what is the role of gender, youth and masses? (Repensando o pan-africanismo: qual o papel do gênero, da juventude e das Massas?) (2002).

Os trabalhos de Micere Mugo têm sido incluídos em críticas que envolvem opressão feminina e de gênero, resistência à globalização e às guerras dos Estados Unidos por lucro e dominação, em trabalhos como Feminism and war: confronting U.S. imperialism (Feminismo e guerra: confrontando o imperialismo dos Estados Unidos) (2008).

Paralelamente, coloca-se como teoriza como oratura e tece críticas à literatura oral que reproduz os elementos da dominação masculina, lamentando que muitas escritoras africanas não tenham se dado conta disto. Em seu poema To be feminis tis (Ser feminista é), ela declara guerra a qualquer forma do racismo, sionismo, apartheid, tribalismo, homofobia, classismo.

BIBLIOGRAFIA

AGBETU, Olayemi. Micere Mugo, history, and the quest for justice and human right. In: FALOLA, Toyin Ed.).. The dark webs: perspective on colonialism in Africa.. Durham: Carolina Academic Press, 2005, p. 245-256.

MABURA, Lilly. “Micere Githae Mugo”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 4, p. 295-297.

MUGO, Micere Githae. Elitist anti-circumcision discourse as mutilating and anti-feminist colloquium: riding society,, culture and law : the issue off emale circuncision. Case Western Reserve Law Review , v. 47, n. 2,  p. 461-466, 1997: https://heinonline.org/HOL/Page?handle=hein.journals/cwrlrv47&div=25&collection=journals.

Mosadi Seboko (1950)

Primeira mulher a se tornar chefe suprema em Botswana, é a filha mais velha do kgosi (chefe supremo; rei) Mokgosi III.  Mosadi, que se traduz como “mulher” na língua setswana, nasceu em Ramotswa, uma aldeia a cerca de 32 km ao sul da capital, Gaborone, que é também a capital do grupo étnico Balete ou Bamalete.

Ela realizou os estudos no Colégio de Moedin, na aldeia de Otse e na Escola de Ultramar de Cambridge, onde se formou em 1969. Na juventude, começou a trabalhar para ajudar a mãe e os(as) sete irmã(o)s, uma vez que, depois que o pai morreu (1966) a regência passou ao irmão dele. Entrou no Barclays Bank (1971-1995) onde se tornou gerente e administradora de departamento, e depois foi gerente em um escritório em Broadhurst (2001).

 Quando o tio dela morreu (1996), a função real passou ao seu irmão, que foi nomeado como chefe supremo como kgosi (rei) Seboko II, e após a morte deste em 2001 sem deixar herdeiros os tios paternos indicaram um primo dela alegando que as mulheres não serviam para serem chefes supremos.

Tradicionalmente as mulheres eram autorizadas a participar nas assembleias de aldeia (kgotlas) apenas se fossem convidadas a fornecer informações ou evidências em processos judiciais, como testemunhas, mas poderiam, no entanto, servir como regentes. Seboko desafiou o costume e, com o apoio da mãe e das irmãs, assumiu a regência. Estando na função, desafiou uma vez mais as tradições e exigiu que fosse nomeada como chefe supremo, uma posição que ela argumentava ser legitimamente sua, e tomou como base a Constituição do Botswana, que proíbe qualquer forma de discriminação, inclusive de gênero.

Mosadi foi apoiada em suas demandas pelo movimento de mulheres representado por Emang Basadi, um grupo de ativistas e políticos de alto escalão, incluindo mulheres ministras de gabinete. Em dezembro de 2001, em uma reunião em Ramotswa com centenas de representantes da etnia Balete, a corte real a elegeu como a primeira chefe suprema feminina, e o ministro do governo local de Botswana, Dr. Margaret Nasha, aprovou sua nomeação. Em 7 de janeiro de 2002 Seboko assumiu oficialmente a posição de chefe supremo dos Balete e prestou juramento na Ntlo-ya-Dikgosi (Casa dos Chefes), uma assembleia consultiva de grande influência e dotada de poder de decisão em certas matérias.

No dia 03 de agosto de 2003 ela foi instalada como Kgosigadi (chefe) Mosadi Seboko em uma cerimônia em que compareceram mais de trinta mil pessoas. Devido à grande repercussão assumida pela controvérsia o próprio presidente e o alto escalão do governo compareceram. Ela foi envolta em uma pele de leopardo e recebeu uma lança e um escudo, símbolos de poder da monarquia tradicional.

Seboko preside a corte tradicional dos Balete, resolvendo determinados processos judiciais, e representa os interesses de seu povo junto ao governo federal. Em 2010 ela esteve à frente de um grupo no Supremo Tribunal de Lobatse para defender os seus direitos contra as violações promovidas por uma grande empresa de extração de pedras. Ela defendeu o empoderamento das mulheres e é reconhecida como um símbolo delas, e sua instalação no poder foi vista como um grande passo em frente para as mulheres no Botswana.

BIBLIOGRAFIA

LESLIE, Agnes. “Mosadi Seboko”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 5, p. 316-317.

MATEMBA, Yonah Hisbon. A chief called “Woman”: historical perspectives on the changing face of Bogosi (chieftainship) in Botswana, 1834-2004. JENDA: a Journal of Culture and African Women Studies, v.7, 2005.

Nike Monica Okundaye (1951)

Artista têxtil e pintora nigeriana, nasceu em Ogidi-Ijumu, Estado de Kogi, na Nigéria.  Ela trabalha com adire, uma técnica tradicional de tecelagem desenvolvida pelas mulheres yoruba da Nigéria. Sua bisavó, a yalode chamada Osadaun Ibitola, produzia tecidos adire e apresentou à Nike essa arte tradicional. Tais conhecimentos são tradicionalmente femininos e fazem parte de suas responsabilidades domésticas.

A técnica consiste em tingir os tecidos com tonalidades de azul obtido a partir do uso de tinta extraída das folhas da planta chamada indigo. Nike adicionou um novo ingrediente à arte, utilizando o batique, uma pintura de tecidos de origem indonésia, em pinturas sobre tela e em painéis de madeira. Suas obras representam a história, as tradições e a cosmologia do povo yoruba.

Aos seis anos de idade, sua mãe faleceu e aos sete sua avó Oraun Iyawo Amujobi também faleceu. Por conta do costume de as mães pagarem pela escolarização dos filhos, Nike teve que sair da St Michael Primary School (Escola Primária de St. Michael) quando estava no sexto ano. Então ela passou a trabalhar, carregando concreto para obras e realizou outros trabalhos pesados, porém continuou a produzir os tecidos.

Aos dezesseis anos, seu pai quis forçá-la a se casar com um importante político local. Ela decidiu fugir com um teatro itinerante para Osogbo, e mesmo menor de idade trabalhou como dançarina para o grupo dirigido por Taiwo Olaniyi Oyewale no Mbari Mbays Club (Clube de Mbari Mbay). Este local, de propriedade de Uli e Georgina Beir, dois imigrantes alemães, na década de 1960 foi um espaço importante para os artistas no renascimento da arte na Nigéria.

Apesar das dificuldades enfrentadas Okundaye desenvolveu-se profissionalmente e se tornou artista, educadora e filantropa, cujo trabalho ajudou a dar oportunidades econômicas para mulheres e jovens. Desde 1983 ela é diretora da Nike Center for Art and Culture (Centro de Arte e Cultura Nike), núcleo que ela fundou sem ajuda governamental. O centro oferece cursos em diversas ramos da arte sem custo para jovens nigerianos.

Em 1985 ela participou de uma exposição organizada pela ONU, em 1989 participou de uma exposição no National Museum of Women in the Arts (Museu Nacional das Mulheres nas Artes) em Washington. Dez anos mais tarde abriu uma fábrica de adire, empregando milhares de mulheres em Kabba, no estado de Kogi. Em 2000 ministrou oficinas de treinamento na Itália como parte de um evento contra a prostituição no país.

Em 2002 Nike abriu um museu e uma galeria de arte e centro de pesquisa para estudo sobre os tecidos adire, o Nike Research Centre for Art and Culture (Centro de Arte e Cultura Nike) na aldeia de Piwoyi. Em janeiro de 2007 a artista participou como facilitadora e painelista da conferência mundial Vital Voices: Pan-African leadership summit and initiative for women and girls (Vozes vitais: Iniciativa da cúpula pan-Africana para a liderança de mulheres e jovens), com o trabalho intitulado Art, actvism and women empowerment (Arte, ativismo e empoderamento feminino). Logo depois foi convidada a ministrar palestras e oficinas sobre batique e adire na Universidade do Sul da Flórida.

Nike Okundaye é membro da Society of Nigerian Artists (Sociedade dos Artistas Nigerianos) e da Society of Nigerian Women Artists (Sociedade das Mulheres Artistas Nigerianas). É casada com o chefe Reuben Osaruyi Okundaye e é mãe e seis filhos. Por sua liderança, ativismo e compromisso com as comunidades tradicionais, com as mulheres e jovens, ela recebeu diversos títulos e distinções, entre os quais os de “Yeye Oba”, “Ogidi-Ijumu” e “Yeye Tasase” em Osogbo.

BIBLIOGRAFIA

CASTELLOTE, Jess. Tola Wewe, Nike Okundaye and the emergence if third artist: “Nike & Wewe. In:  A view from my corner, 2009: http://jesscatellote.wordpress.com/2009/11/

VAZ, Kim Marie. The woman with the artistic brush: a like history of youruba batik artist Nike Davies. Armonk; M. E, Sharpe, 1995.

VAZ, Kim Marie. “Nike Monica Okundaye”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 5, p. 25-26.

Penina Muhando (1948)

Dramaturga e estudiosa, também conhecida como Penina Mlama – seu sobrenome conjugal.  Nasceu colônia britânica de Tanganica, atual Tanzânia, na pequena sociedade Kaguru. Estudou na Universidade de Dar es-Salaam e obteve bacharelado em Arte Teatral, Mestrado em Educação e Doutorado em Linguagem e Linguística.

Penina se juntou ao Departamento de Teatro, Arte e Música da mesma Universidade como palestrante e mais tarde como professora de Arte Teatral. Em 1982 se tornou chefe do departamento tendo sido reitora da Universidade de Artes e Ciências Sociais, assim como vice-chanceler adjunta da Universidade de Dar es Salaam.

Em 2003, ganhou licença e se mudou para o Quênia para se tornar diretora executiva do African Women Educationalists – FAWE (Fórum de Mulheres Africanas Educadoras). Tornou-se membro de instituições acadêmicas, conselhos nacionais e internacionais. Também ganhou diversos prêmios, como Shaaban Roberts Writers Award (1999), pela sua escrita criativa divulgando a linguagem Kiswahili, e o National Cultural ZeZe Award (2000), por seu trabalho de promoção do teatro africano para a educação de crianças e jovens.

Nos seus trabalhos, ela explorou questões sociais mais amplas e se voltou para formas teatrais africanas tradicionais, e optou por escrever em língua kiswahili para ser lida pelos(as) tanzanianos(as). As perspectivas do socialismo africano e da idéia da Ujamaa (comunidade ) aparecem em sua obra Haitia (1972). Harakati za ukombozi (Luta pela libertação) (1982), escrita em co-autoria com Naduanao Balisidya e Amandina Lihamba, apresenta a história de Tanzânia, com muitas cenas de improviso, cantos e danças. Este entusiasmo desaparece nas obras seguintes, onde a postura torna-se crítica em relação aos limites da democracia e da igualdade social, algo que aparece em Nguzo Mama (Mãe, o principal pilar) (1982), Lina Ubani (Existe um limite para a podridão) (1984). Já em Mitumba Ndui (A varíola) (1989), ela denuncia o interesse econômico desmedido e a corrupção política colocada acima dos interesses da comunidade. 

Junto com outros(as) dramaturgos(as) africanos(as), ela é da opinião que o teatro pode vir a ser meio pelo qual pessoas marginalizadas e desprezadas possam se envolver em projetos coletivos e expressas suas visões de mundo. Sua obra explora diversos temas e situações da sociedade tanzaniana contemporânea, frequentemente relacionados às mulheres. Todavia ela não se considera feminista, e é da opinião que “o problema das mulheres não pode ser separado dos demais”.

BIBLIOGRAFIA

BALISIDYA, Nadyanao M. The construction of sex and gender roles in Penina Muhando’s works.  Sage: a scholarly journal on black women, v. 5, n. 1,  15-20, 1988.

MBUGHUNI, L.A. Old and new drama from East Africa. A review of the works of four comtemporary dramatists: Rebecca Njau, Ebrahim Hussein, Peninah Muhando and Ngugi. African Literature Today , v. 8, p. 85-98, 1976.

MULE, Katwiwa. Oral performance and the creative imagination in Penina (Mlama) Muhando’s Nguzo Mama.  Folklore Forum , v. 28, n. 1,  p. 83-102, 1997.

ZÚBKOVÁ, Elena. “Penina Muhando”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 4, p. 312-313.

Rebeka Njau (1932)

Nascida em Kanyariri, é uma influente escritora queniana, além de designer têxtil, editora e pesquisadora. Foi educada na Escola Secundária Aliança para Meninas, e recebeu seu diploma em Educação pela Universidade de Uganda.

Os temas tratados em sua prolífica obra incluem temas das tradições africanas, narradas pela perspectiva das mulheres, o que significa uma revisão e crítica do papel da mulher na sociedade, em particular, da importância da resistência às tradições cruéis como a mutilação genital feminina. Na obra The Scar (A cicatriz) (1965), a escritora trata deste tema, além do abuso e do estupro perpetrados pelo personagem do pastor na personagem principal, Mariana. A questão do estupro, bastante presente em sua obra, é usada como símbolo do abuso e da violação a que as mulheres africanas são comumente submetidas.

Outro elemento fundamental em suas obras é o mito e sua importância como ferramenta educacional no contexto africano. É por meio do mito e das narrativas orais que Rebeka Njau se comunica com uma ampla gama de leitores, abordando questões como a moralidade, os padrões culturais, a corrupção política e principalmente, a esperança e a liberdade da mulher africana.

Obras como  Ripples in the Pool (Ondulações na Piscina) (1975), e The Sacred Seed (A semente sagrada) (2003) tratam destes temas a partir dos pontos de vista de suas protagonistas. No caso de A semente sagrada, o tema do abuso e do estupro de Tesa, uma jovem e talentosa professora de música, é acrescido pelo tema do sobrenatural (representado pela personagem Mumbi, uma mulher com poderes mágicos, e que é oriunda de uma aldeia africana). A semente sagrada é o símbolo da capacidade de superação dos traumas pessoais, permitindo que Tesa canalize seus poderes para ajudar outras mulheres que sofreram violências semelhantes às quais ela própria foi submetida.

Outras obras de Njau incluem a coleção de contos The hypocrite and other stories (O Hipócrita e outras Histórias) (1977), e a co-autoria na coleção de biografias intitulada  Kenya woman heroes ad their mystical power (Heroinas quenianas e seu poder místico(1984).

  BIBLIOGRAFIA

JONES, Eldred Durosimi. African Literature Today. Londres: Heinemann,  1980.

KILLIAM, Douglas and Ruth Rowe. The Companion to African Literatures. Oxford: James Currey,  2000.

NJAU, Rebeka; MUluki, Gideon. Kenya women heroes and their mystical power. Nairobi: Risk Publications, 1984.

MUCHIRI, Jennifer. “Rebeka Njau”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 4, p. 473-474.

Véronique Tadjo (1955)

Filha de mãe francesa e pai marfinense, a escritora, pintora, ilustradora e acadêmica nasceu em Paris, mas foi em Abidjan, capital da Costa do Marfim, que ela cresceu. Foi lá também que se graduou em Inglês pela Universidade Nacional de Abidjan, onde teve contato com os textos de poetas da Négritude que futuramente teriam grande influência em sua escrita. Após um doutorado na Sorbonne e uma bolsa de pesquisa na Universidade de Howard, em Washington, ela voltou à Universidade de Abidjan, onde lecionou até 1993 – momento em que decidiu dedicar-se à carreira de escritora.

A escrita de Véronique, além de conter a mistura de “comprometimento político e lirismo” da Négritude, é também fortemente marcada pelas impressionantes experiências da autora, que já visitou e morou em diversas partes do mundo. Segundo ela, para ser um escritor competente, é preciso não “[se] confinar às fronteiras de [sua] nacionalidade”, visão que permite que suas obras, de fato, não se restrinjam às fronteiras em que foram criadas, sendo facilmente assimiladas pelos mais diferentes leitores.

Dentre os assuntos que surgem em sua produção, está o amor, considerado por Véronique o bem mais precioso que podemos ter. A autora tem interesse também pela relação entre memória e história, e tem se dedicado a observar mais de perto a história africana, com especial atenção às tradições orais e mitos de origem.

Ganhadora do Prêmio Literário da L’Agence de Coopération Culturelle et Technique (Agência de Cooperação Cultural e Técnica) (1983), do Prêmio UNICEF (1993) e do Grand prix littéraire d’Afrique Noire (Grande Prêmio Literário da África Negra) (2005) por Rène Pokou, Véronique não escreve apenas para o público adulto. Além de escrever (e ilustrar) obras infanto-juvenis, como o livro La Chanson de la vie et autres histoires (A canção da vida e outras histórias) (1989), a autora também oferece workshops de escrita para jovens de várias partes do mundo.

Suas principais obras são:Latérite (1984); La Chanson de la vie et autres histoires (A canção da vida e outras histórias)  (1989); Le Royaume aveugle (O reino cego) (1990); Champs de bataille et d’amour (Campos de batalha e de amor) (1999); L’Ombre d’Imana – voyages jusq’au bout du Rwanda (A sombra de Imana: viagens aos confins de Ruanda) (2000);  Reine Pokou: concerto pour un sacrifice (A Rainha Poku: concerto por um sacrífico) (2005).

BIBLIOGRAFIA

HITCHCOTT , N. Travels in Inhumanity: Véronique Tadjo’s Tourism in Rwanda. French Cultural Studies, n.20, p. 149–164, 2009.

MAGNIER, Bernard. Véronique Tadjo, a collector of travel souvenirs. The UNESCO Courier, v. 2, p. 5–7, 2008.  

NYATETU-WAIGWA, Wangari. “Veronique Tadjo”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 5, p. 486-487.

RICE-MAXIMIN, Micheline. Nouvelle écriture from the Ivory Coast: a reading of Véronique Tadjo’s A Vol d’oiseau.  In: Post-colonial subjects francophone women writers. Minneapolis: University of  Minnesota Press, 1996,  p. 157–172.

Werewere Liking (1950)

Escritora camaronesa, crítica, pintora, escultora, intérprete de teatro e dançarina.  Nasceu na comunidade de Bondé e foi criada pelos seus avós em ambiente tradicional, em contato com as tradições orais de seu país antes de se mudar para Abidjan, na Costa do Marfim, quando tinha vinte e oito anos.

Sua participação é notável no movimento cultural do Renascimento Africano. Fundou a internacionalmente reconhecida companhia teatral Ki-Yi Mbock, pela qual ela tem expressado obras que articulam a tradição da África ocidental com a Modernidade. Por sua formação autodidata, valoriza temas retirados de sua experiência, tratando de assuntos como modernidade, raça, opressão de gênero e a exploração econômica dos pobres pelos ricos, com forte valorização da africanidade. Ela criou para si uma performance visual pela qual expressa a sabedoria feminina e a condição de rainha, um modo de incorporar as tradições, reinventando-as e estimular a criatividade. Em entrevistas descreve Ki-Yi como “um movimento para o renascimento das artes africanas, para o nascimento de uma cultura pan-africana contemporânea e para uma aproximação e reconhecimento das culturas do mundo negro”.

Entre suas peças teatrais, estão La puissance de Um (O poder de Um) (1979); La veuve dylemme (O dilema da viúva) (1994); La queue du diable (O rabo do diabo) (1979) e Un touareg s’est marié à une pygmée (Um tuareg casou-se com uma pigmeia) (1992). Também é autora de romances repletos de intensidade e de realismo social, entre os quais estão Orphée d’Afric (Orfeu africano) (1981); Elle sera de jaspe et de corail (Ela será de jaspe e de coral) (1983);  L’Amour cent vies (Amor através de cem vidas) (2000).

Werewere Liking é altamente consciente sobre política e discurso de gênero. Da sua coleção de poesia On ne raisonne pas avec le venin (Não raciocinamos com veneno) (1977), nos Contes d’initiations féminines (Contos de iniciação femininos) (1983), e na canção-romance La mémoire amputée (A memória amputada) (2004), as questões de gênero assumem lugar central.  Em sua concepção, diante da negligência, opressão e desvalorização, só uma rainha tem suficientemente valor para falar com autoridade. Assim, valendo-se das tradições para subverter a situação atual, em uma solução teatral capaz de enfrentar os problemas sociais, torna-se uma intérprete social e uma mulher conectada aos problemas contemporâneos da sociedade africana em suas relações com o mundo.

BIBLIOGRAFIA

ADAMS, Anne. To write in a new language: Werewere Linking’s adaptation of ritual to the novel. Callaloo, v. 16, n. 1, p. 153-168, 1993.

EKOTTO, Frieda. “Werewere Liking”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 3, p. 500-501.

MILLER, Judith.  Werewere Linking: pan/artist and pan-africanism in the theatre. Theatre Research International, v. 21, p. 229-238, 1996.

TÊKO-AGBO, Ambroise. Werewere Liking et Calixthe Beyala. Le discours féministe et la fiction. Cahiers D’Études Africaines, v. 37, n. 145, p. 39–58, 1997.

Younouss Seye (1940)

Artista plástica e atriz de formação autodidata, nasceu em Saint-Louis, no Senegal.  Participou do Primeiro Festival Mundial de Artes e Culturas Negras de Dakar (1966) e do Primeiro Festival Cultural Pan-Africano de Argel (1969). Nesta ocasião, ganhou apoio financeiro da UNESCO para realizar uma residência de treinamento na Costa do Marfim – que deu origem a uma exposição individual no Hotel Ivoire (1972), e uma exposição no Grand Palais, em Paris (1974). Ela também participou do II Festival de Artes e Culturas Negras de Lagos – FESTAC (1977).

Sua arte visual é conhecida pelo uso de conchas de búzios denominadas cauris, e escultura em mármore. Seu interesse e investigação sobre as propriedades e o peso simbólico dos cauris colocaram-na em linha com os círculos de patrocínio na África pós-independência, em que estados, organizações internacionais e intelectuais pós-coloniais valorizavam os vocabulários visuais pan-africanos.  Mas o seu interesse por estes pequenos artefatos vai além dos padrões estéticos valorizados pela chamada “Escola de Dakar” e pela Negritude. Seu trabalho preocupa-se em valorizar o que os búzios representam dos elementos sagrados e seculares da vida cotidiana – como representação monetária, como instrumentos empregados na geomancia (previsão), como marcadores de status e identidade, como portadores da história e como indicadores do trabalho feminino.

O sucesso de Younouss abriu caminho para outras mulheres em uma profissão dominada por homens, como Madeleine Senghor e Germaine Anta Gaye. Esse interesse pelas implicações sociais mais amplas do trabalho artístico e o papel das mulheres nas sociedades contemporâneas africanas também informariam sua escolha de projetos cinematográficos e seu ativismo, levando-a a ser co-fundadora de um coletivo de artistas, Le Collectif Artistes Plasticiens (Coletivo de Artistas Plásticos), que patrocina o intercâmbio artístico entre a Europa, Dakar e a cidade senegalesa oriental de Tambacounda.

Ela também teve grande sucesso como atriz, e atuou em papéis importantes nos filmes do cineasta Ousmane Sembene, primeiro em Xala (1974) e trinta anos depois, em Faat Kiné (2000),  onde representa Venus Seye, uma mulher injustiçada e abusada por homens ao longo da vida.

BIBLIOGRAFIA

FALL, Youma. Of some women in the history of art in Senegal. In: KONATÉ, Yacouba (Éd). DAKART 2006 – 7ème Biennale de l’Aart Africain Contemporain. Grenoble: Imprimerie Les Deux-Ponts, 2006.

HARNEY, Elisabeth. “Younouss Seye”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 5, p. 340.

SYLLA, Abdou. Les arts plastiques senegalais contemporains: evolution et tendances. Ethiopiques: revue negro-africaine de litterature et de philosophie, n. 81, 2008: http://ethiopiques.refer.sn/spip.php?article1618

Zulu Sofola (1935–1995)

Nasceu com o nome de Onekwuke Nwazulu Sofola, de uma família real, os Okumabua de Issele-Uku, na localidade de Aniocha, no Estado do Delta, na atual Nigéria. Zulu é uma abreviação de seu nome igbo, Nwazuluoha, e não um nome sul-africano. Estudou no Seminário Batista da União da Virgínia onde obteve seu bacharelado em 1959, e na Universidade Católica da America, em Washington, onde obteve Mestrado em teatro (1966)  e Doutorado na Universidade de Ibadan (1977). Casou-se com J. A. Sofola, um professor de sociologia, com quem teve cinco filhos, e com quem viveu até a morte.

Ela foi a primeira dramaturga nigeriana, e teve também uma carreira acadêmica como docente nas universidades de seu país. Foi conferencista na Universidade de Ibadan(1968-1983) e trabalhou na Universidade de Ilorin até 1995, tendo sido a primeira professora de Artes da Performance e reitora da Faculdade de Artes.

Zulu escreveu dezoito peças, em geral sobre temas das tradições e da história nigeriana, e sobre as relações dessas tradições com a modernidade ocidental. Ela enfrentou algumas críticas por ser eurocêntrica demais devido a sua influência ocidental. Suas peças incluem The disturbed peace of christmas (A paz perturbada do Natal (1971), Wedlock of the gods (O casamento dos deuses) (1972), King Emene (Rei Emene) (1974), The wizard of law (O Mago da Lei) (1975), Old wines are tast (Vinhos Velhos são Saborosos) (1981), Memories in the moolinght (Memórias ao luar) (1986), e Song of a maiden (Canção da Donzela) (1991).

Ela pertenceu à primeira geração de escritoras africanas, deu voz às mulheres e à cultura igbo. Suas primeiras peças lamentavam o silenciamento das vozes femininas, sobretudo de mulheres ativas como as de sua sociedade ancestral, como por exemplo a peça Queen Omu Aliko (Rainha Omu Aliko). Ela identificou na emergência da consciência feminina das mulheres africanas um vento de mudança que iria varrer o planeta, por isso criou heroínas femininas que são agentes de mudança, resilientes, vivazes e resolutas em sua busca pela auto-expressão e auto-inscrição.

BIBLIOGRAFIA

GILBERT, Helen e Joanne Tompkins. Post-colonial drama:theory, practice, politics. London: Routledge, 1996.

KOLAWOLE, M. E. M. Zulu Sofola: her life & her works. Ibadan, Nigéria: Caltop Publications, 1999.

KOLAWOLE, Mary. “Zulu Sofola”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 5, p. 428-429.

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