Tag: Multiculturalismo

Cabra Casay (1982)

Nascida em um campo de refugiados no Sudão, é originária da comunidade falasha, os judeus da Etiópia. Ela foi levada ainda criança para Israel pela Operação Moisés, quando tinha pouco mais de um ano de idade.

Adotada por uma família israelense, morou primeiro na comunidade de Ma’alot-Tarshiha, e depois em Kiryat Malakhi, onde cresceu.  Aos 18 anos, Cabra Casay prestou o serviço obrigatório, e durante esse período conheceu Idan Raichel, e junto com ele começou a se apresentar como cantora.

Participou do programa Kochav Nolad (a versão israelense do American Idol), onde se tornou conhecida e alcançou o sucesso em 2002.   Ela é conhecida por combinar em suas músicas em estilo pop técnicas vocais árabes e etíopes, da cultura amhara.

BIBLIOGRAFIA

CASAY, Cabra. Beyne: https://www.youtube.com/watch?v=kach92F–uU

WEIL, Shalva. Ethiopian jewish women: trends and transformations in the context of transnational change. Nashim: a journal of jewish women’s studies & gender issues, n. 8,  p. 73–86, 2004.

Danielle de St Jorre (1943 – 1997)

Danielle Mrie-Madeleine Jorre de St Jorre foi uma linguista, política e diplomata, nascida em Mahé, a maior ilha do arquipélago de Seychelles, no Oceano Índico.  Seu nome de nascimento era Danielle d’Offay. Estudou na Universidade de Edinburgo, e realizou estudos de pós-graduação na Universidade de Londres e na Universidade de York, onde se especializou em linguística.

Nas ilhas Seychelles, atuou como professora no Teachers Training College, e ocupou durante muitos anos cargo executivo no Ministério da Educação. Em um país ocupado por ingleses e franceses, onde o bilinguismo e o fenômeno da mestiçagem cultural e linguística mostram-se como um traço relevante, ela se destacou internacionalmente por ter sido a pioneira na promoção da língua crioula, o kreol. Em 1976 participou do I colóquio internacional de estudos crioulos, em Nice, França, e alguns anos depois fundou o International Committee for Creole Studies (1979), o que levou a que as três línguas fossem adotadas no país como oficiais.

Sua atividade mais intensa ocorreu no período de 1989-1997, quando foi Ministra das Relações Exteriores, Meio Ambiente e Turismo da República das Seychelles e membro do Albert René.

BIBLIOGRAFIA

BENEDICT, Burton; BENEDICT, Marion. Men, women and Money in Seychelles: two views. Berkeley: University of California Press, 1982.

ST JORRE, Danielle de; Lionnet, Guy. Inventaire des spécificités lexicales du français aux Seychelles. Mahé, Seychelles. 1989.

Fatou Diome (1968)

Nascida na ilha de Niodior, Senegal,  foi criada pela sua avó e aí frequentou a escola, tendo aprendido francês e despertado a sua paixão pela literatura francesa. Licenciou-se em Literatura Moderna na Universidade de Marc Bloch de Estrasburgo, onde defendeu a tese de doutoramento  Viagens, intercâmbios e formação, na obra literária e cinematográfica de Ousmane Sembene (1994).

Em 2001 a escritora publicou uma colecção de histórias curtas, intitulada La Préférence nationale (A preferência nacional).  O seu primeiro romance – Le Ventre de l’Atlantique (O ventre do Atlantico) (2003) – transformou-se num êxito de vendas em França e foi traduzido para inglês, espanhol, alemão e em lingua portuguesa. Também escreveu os romances  intitulado Kétala (2006) Inassouvies, nos vies (2008).

Entre 2004 e 2005 realizou a redacção e apresentação da emissão cultural mensal na televisão France 3 Nuit blanche. Também deu cursos de escrita de direção de cinema na Universidade Marc Bloch, UFR Arts/Cinéma et Audiovisuel; e  de literatura francesa do século XIX e literatura africana francófona no Instituto Superior de Pedagogia de Karlsruhe, na Alemanha.

Sua participação em programa no canal de televisão France 2, em 2015, teve ampla repercussão nas redes sociais por ter abordado de forma crítica a questão da imigração dos africanos na Europa e a postura “desumana” de determinados Estados europeus frente ao problema, chamando a atenção para o respeito aos direitos humanos.

BIBLIOGRAFIA

CHEVRIER, Jacques. Fatou Diome, une écriture entre deux rives.  Revue des littératures d’Afrique, des Caraïbes et de l’océan Indien, n. 166, p. 35-38, 2007.

Fatou Diome sobre migração: “Chega de hipocrisia: ou seremos ricos juntos,ou afundaremos juntos”. In: Por dentro da África (Portal Geledés):  http://www.pordentrodaafrica.com/cultura/fatou-diome-sobre-migracao-chega-de-hipocrisia-ou-seremos-ricos-juntos-ou-afundaremos-juntos

FOUCHET, Eugénie.  La représentation romanesque de la femme africaine chez Fatou Diome et Fatou Keïta. Mémoire de Master (Litterature),   Université de Metz, 2009.

Germaine Acogny (1944)

Dançarina e coreógrafa. Nasceu em Porto Novo, na atual República do Benin. Seu pai, Togoum Servais Acogni, era filho de uma sacerdotisa yoruba.

Ela foi levada ainda criança para o Senegal, onde o pai se estabeleceu para receber curso de formação e se tornar administrador colonial.  Estudou em escola de freiras cluniacenses na Medina de Dakar e em 1962, aos dezoito anos, foi estudar educação física esportiva e ginástica harmônica na Escola Simon Siegel, na França, onde estudou dança clássica e moderna com a professora Marguerite Lamotte.

Ao retornar ao Senegal, começou a dar aulas de dança no pátio de sua casa e no liceu, onde foi contratada para ser a responsável pela disciplina de educação física. Nessas aulas ela começou a desenvolver uma codificação do que chamou de “Dança Africana”, uma técnica de dança baseada em uma estética de aterramento –  uma sensação de dinamismo subindo através dos pés e depois habitando o corpo inteiro, que ela descreve como especificamente africana. Em 1968, divorciada e com dois filhos, abriu um estúdio de dança em Dakar – um feito extraordinário numa sociedade tradicionalista e marcadamente patriarcal como a senegalesa.

 Acogny chamou a atenção do Presidente Léopold Senghor depois que ela coreografou seu poema “Femme noire, femme nu” (Mulher negra, mulher nua), transpondo a poética da Negritude para a dança.  Em 1972 ela se tornou chefe de departamento do Instituto Nacional de Artes de Dakar, onde introduziu um programa de formação de dança negro-africana.  Depois, no período de 1977-1982, dirigiu, junto com Maurice Béjart, o Centre Africain de Recherche et de Perfetionnement de l’Interprete (Centro Africano de Pesquisa e Aperfeiçoamento do Intérprete), visando a formação de dançarinos(as) e coreógrafos(as).

Esta atuação institucional teve início quando ela recebeu apoio do governo de Senghor para ir a Bruxelas, na Bélgica, onde conheceu e passou a trabalhar com o coreógrafo Maurice Béjart, diretor do Ballet du vingtème siècle (Balé do Século XX). Em parte, devido ao seu interesse em codificar um léxico dos movimentos corporais, Acogny foi escolhida por Senghor e por Béjart para ajudar na criação do Mudra Afrique, uma escola pan-africana de dança. Como diretora artística do Mudra Afrique ela desafiou o conceito ocidental de uma oposição entre tradição e inovação sobre o qual o Ballet Nacional do Senegal tinha sido baseado, tratando a tradição da dança africana como em perpétua auto-renovação, e começou a forjar uma estética pan-africana, um produto híbrido do encontro entre a dança contemporânea europeia e as formas africanas.

Germaine Acogny teorizou e publicou suas idéias artísticas no livro Danse Africaine/ Afrikanischer Tanz/ African Dance (Dança africana) (1980). Alguns anos mais tarde, em 1985, ela e o marido Helmut Vogt, criaram o Studio-École-Ballet-Théâtre du Troisième Monde em Toulouse, França.

Em 1998, inaugurou a École des Sables, na aldeia de Toabab Julau localizada cerca de 40 milhas ao sul de Dakar. Como no programa de dança Mudra Afrique, ela manteve o interesse por incentivar um forte senso de comunidade entre os habitantes locais e os estudantes internacionais que compareciam à escola, integrando-os nas atividades.  Alguns de seus projetos foram apresentados em uma turnê internacional, em parceria com as coreógrafas Susanne Linke, Jawole Willa Jo Zolar, e o artista japonês Butoh Kota Yamasaki.

Ela continua a desenvolver técnicas de dança contemporânea pan-Africana, estabelecendo uma competição anual em coreografia para novos trabalhos inspirados na tradição, promovendo o trabalho de coreógrafos mais jovens de toda África.

Por sua trajetória, contribuição e inovação artística, foi premiada com o grau de Cavaleiro da Ordem de Mérito e com o grau de Oficial de Artes e Letras da República Francesa, e recebeu o grau de Cavaleiro da Ordem Nacional do Leão do Senegal.

BIBLIOGRAFIA

CASTALDI, Francesca. Choreographies of African identities: négritude, dance and the National Ballet of Senegal. Urbana: University of Illinois Press, 2006.

FOSTER, Susan Leigh. “Germaine Acogny”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 1,  p. 86-88

WELSH-ASANTE, Kariamu. African dance: an artistic, historical and philosphical inquiry. Trenton: African World Press, 1996.

SILVA, Luciane. Corpo em diáspora: colonialidade, pedagogia da dança e técnica Germaine Acogny. Tese (Doutorado em Artes da Cena), Universidade Estadual de Campinas, 2017: http://repositorio.unicamp.br/jspui/bitstream/REPOSIP/331753/1/Silva_LucianeDa_D.pdf

Helen Olajumoke Oyeyemi (1984)

 Romancista e dramaturga anglo-nigeriana, nasceu em Ibadan e faz parte de uma família de imigrantes nigerianos na Inglaterra. Cresceu em um bairro multirracial ao sul de Londres desde quando tinha quatro anos de idade.  Seu pai trabalhou de vigia enquanto estudava para ser professor,  e sua mãe trabalhou de supervisora no metrô.

Seu primeiro romance, The Icarcus Girl (A garota Ícaro)  foi escrita quando ela tinha dezoito anos e estudava para os exames preparatórios de ingresso na universidade, equivalente ao vestibular, obra aclamada pela crítica em 2005. Estudou ciência política e social na Universidade de Cambridge, período em que escreveu duas peças teatrais e um segundo romance foi concluído meses antes da formatura.

Com obra publicada por importantes editoras, o trabalho de Oyeyemi é representativo da terceira geração de escritores nigerianos, junto com Chimamanda Adichie, Sefi Atta, Chris Abani, Helon Abila, e outros(as). Algumas de suas obras tem como protagonistas crianças imigrantes caribenhas e africanas que cresceram em Londres, motivo pelo qual alguns críticos afirmam que ela não poderia ser enquadrada na literatura nigeriana. Ela própria já disse que não se sente totalmente africana, nem totalmente inglesa. Suas maiores influências são Edgar Allan Poe e Emily Dickinson e alguns estudiosos inserem sua literatura como transnacional, diaspórica e  multicultural, situando-a  ao lado de autoras negras britânicas como Diana Evans e Bernardine Evaristo.

Sua escrita ecoa as diversas identidades culturais e lugares, incorpora a língua yoruba, a religiosidade afro com a mitologia grega e a literatura britânica. Em 2010 a autora participou do Calabash International Literary Festival na Jamaica. Oyeyemi mantém um blog chamado Bedtime stories for immigrant kids.

BIBLIOGRAFIA

BRYCE, Jane. ‘Half and Half Children’: third generation women writers and new nigerian novel. Research in African Literatures, v. 39, n. 2, p. 49-67, 2008.

COOPER Brenda. The middle passage of the gods and the new diaspora: Helen Oyeyemi’s The Opposite House.  Reaserch in African Literatures, v. 40, n. 4, p. 108-121, 2009.

IMMA, Z’Etoile. “Helen Olajumoke Oyeyemi”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 5, p.  67-68.

Ken Bugul (1947)

Pseudônimo utilizado pela romancista senegalesa Mariètou Mbaye Biléoma, que na língua wolof significa “alguém não desejado”. Nasceu em Ndoucoumane, foi criada em ambiente polígamo, de um pai que era um marabu de 85 anos. Depois de concluir o ensino fundamental em sua aldeia natal, ela estudou na Escola Secundária Malick Sy, em Thiès, em Dakar, obteve uma bolsa de estudos que lhe permitiu continuar os estudos na Bélgica na década de 1970. 

Em 1980, quando voltou ao país, foi uma das vinte e oito esposas do marabu de sua comunidade, e depois da morte dele ela se estabeleceu em Dakar, a partir de onde  se envolveu em trabalhos para a Federação Internacional  de Planejamento Familiar, com atividades em Nairobi  (Quênia), Brazzaville (Congo) e Lomé  (Togo). Posteriormente, ela se casou com um médico do Benin e deu à luz uma filha.

Como romancista Ken Bugul é ganhadora do  Grand Prix Littéraire d’Afrique Noire pelo romance Riwan ou le Chemin de sable (Riwan ou o caminho de areia) (2000), mas é mais conhecida entre os leitores americanos por seu romance Le baobab fou (O baobá louco) (1984), com traços autobiográficos e onde tece uma poderosa crítica aos resquícios do colonialismo na África. Em suas próprias palavras,  escrever é “matar a morte”. Seus textos contém uma escrita de urgência para aliviar o sofrimento pelos traumas herdados do período colonial, uma escrita contra a alienação e o assimilacionismo cultural. 

BIBLIOGRAFIA

CHUNG, Chorok Sally. “Ken Bugul”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 3, p. 333-334.

MAGNIER, Bernard. Ken Bugul ou l’écriture thérapeutique. Notre librairie, v. 81, p.151-155, 1985.

GARANE, Jeanne. “La femme moderne, c’est moi; la femme traditionnelle, c’est aussi moi”: entretien avec Ken Bugul. Women in French Studies, v. 11, p. 101-112, 2003.

Leila Aboudela (1964)

Nascida no  Cairo,  de mãe egípcia e pai sudanês, mudou-se para Cartum aos seis anos de idade e lá viveu até 1987. Frequentou a Escola Americana de Cartum e um escola católica de freiras,  onde aprendeu inglês.  Mais tarde, estudou na Universidade de Cartum , graduando-se em 1985 em Economia e depois realizou mestrado em Estatística pela London School of Economics (Escola de Economia de Londres).

Em 1990, Aboulela mudou-se para Aberdeen com marido e filhos, quando trabalhou como professora no Aberdeen College e mais tarde como assistente de pesquisa na Universidade de Aberdeen.

Ela é muçulmana devota e seu trabalho ficcional envolve o papel da fé na vida dos seus personagens. Foi na Grã-Bretanha, onde ela se sentiu alienada, que começou a usar o hijab (véu) porque queria demonstrar publicamente a sua fé. Entre 2000 e 2012, viveu em Jacarta, Dubai, Abu Dhabi e Doha . Ela é muçulmana devota e sua fé inspira muito de seu trabalho como escritora.

Seu primeiro romance The translator (O tradutor) (1999), foi indicado ao Prêmio Literário Orange (2000) e ao IMPAC Dublin Literary Award (2001), sendo pré-selecionado para o Saltire Scottish Book Prize (2000).  Em 2002 ele foi adaptado para uma série de rádio e transmitido pela BBC Radio 4. Também foi traduzido para o espanhol, alemão, holandês e árabe, e considerado o “livro do ano” pelo New York Times (2006).

O conto The Museum (O museu) (2001) venceu o prêmio inaugural Caine de escrita africana (2000). É considerada a narrativa mais marcada por um posicionamento político de Aboulela, com ênfase aos discursos coloniais na África. Esta obra também foi adaptada e transmitida em programa de rádio pela BBC Radio 4. Outras peças para rádio incluem The Mystic life (A vida mística) (2003) e o drama histórico The Lion of Chechnya (O leão da Chechênia) (2005).

O seu segundo romance, Minaret (Minarete) (2005) foi apreciado pela crítica inglesa, e em The Kindness of Enemies (A bondade dos inimigos) (2015) ela retratou na ficção a vida do imã Shamil, que uniu as tribos do Cáucaso para lutar contra a expansão imperial russa. Ela também é autora de contos, publicados em diversas coletâneas, e é colaboradora da antologia New Daughters of Africa (Novas filhas da África) (2019), editada por Margaret Busby.

Sua obra de ficção de Aboulela põe em evidência a marginalização da mulheres norte-africanas e muçulmanas na Grã Bretanha e as causas do patriarcado Ocidental e Islâmico, bem como a má compreensão das diferenças culturais e religiosas. Ela afirma o caráter transnacional do Islã, ressaltando o papel da identidade africana, e, mais particularmente, sudanesa, na constituição da memória e identidade de seus/suas personagens ficcionais.

BIBLIOGRAFIA

HASSAN, Waïl S. Leila Aboulela and the Ideology of muslim immigrant fiction. Novel: a forum on fiction, v. 41, n. 2/3, pp. 298–319, 2008.

ABBAS, Sadia. Leila Aboulela, religion, and the challenge of the novel. Contemporary Literature, v. 52, n. 3, p. 430-461, 2011.

STEINER, Tina. “Leila Aboudela’.   In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 1, p. 48-49.

Leila Sebbar (1941)

Escritora e crítica cultural, nasceu em Aflou, na Argélia, filha de mãe francesa e de pai argelino, ambos(as) professores(as) durante o período colonial e a guerra de libertação nacional. Esta situação ambígua é parte do projeto intelectual geral que dá sentido à sua obra, que pretende em última instância responder à pergunta: quais as implicações da descendência heterossexual, de lidar com híbridos ou estar entre culturas?

De 1979 a 1981 Leila foi uma importante colaboradora da revista Immigration and the Third World: Whitout Borders (Imigração e Terceiro Mundo: Sem Fronteiras). Sua coluna “Memória da Imigração” era popular entre os imigrantes. Com seu amplo conhecimento sobre identidade cultural e imigração, ela passou a ser frequentemente consultada para falar ou escrever sobre esses tópicos. É uma das debatedoras mais articuladas sobre os dilemas de culturas minoritárias e literaturas franco-magrebinas. Quase todos os seus livros discutem o passado colonial bem como a juventude marginalizada dos antigos territórios coloniais da França.

Leila relê meticulosamente o discurso oriental reinventando a linguagem e restituindo agência a um sujeito pós-colonial para resistir às categorias fixas criadas a partir do século XVIII. Isso é claramente visto em sua conhecida e muito celebrada trilogia em que ela repensa o orientalismo: Shérazade: 17 ans, brune, frisée e les yeux verts (Sherazade: 17 anos, loira, cabelos encaracolados e olhos verdes (1984); Les carnets de Shérazade (Cadernos de Sherazade) (1985) e Le fou de Shérazade (O louco de Sherazade) (1991).  A personagem Sherazade, como sujeito pós-colonial, revisita pinturas orientalistas, desconstruindo-as e redefinindo-se através de um estudo detalhado de sua história e memória cultural, bem como desenvolve as múltiplas conexões e ressonâncias entre elas para criar uma nova imagem de outra Sherazade.

Seu trabalho trata das estratégias da memória social e os dilemas da identidade em conexão com a herança colonial, tema desenvolvido no Parle mon fils, parle à ta mere (Fale me filho, fale com sua mãe) (1984), onde ela explora a frustração de duas gerações que não compartilham uma língua comum. Outra linha mestra de seu pensamento diz respeito ao exílio, que ela concebe como um espaço de criação, produção e reinvenção. Em seu romance Le Chinois vert d’Afrique (O chinês verde da África) (1984), o protagonista, chamado Mohamed Mehmet ou “Momo”, é originário da Argélia e tem uma avó vietnamita, o que lhe permite explorar a identidade em situações de hibridismo cultural.

Sebbar editou três grandes coletâneas de histórias sobre a infância, o colonialismo e a condição pós-colonial. Estas coletâneas representam o seu desejo de descobrir memórias históricas e culturais. São elas: Une enfance d’ailleurs avec Nancy Huston (Uma Infância estrangeira com Nancy Huston (1993), Une enfance algérienne (Uma Infância Argelina (1997), e Une enfance outremer (Uma Infância além-mar) (2001). Nesses livros, a produção literária se concentra na tensão do que significa pertencer a diferentes espaços, examinando tecnologias íntimas de exclusão, nas quais os sujeitos pós-coloniais estão constantemente recuperando suas identidades.

BIBLIOGRAFIA

EKOTTO, Frieda. “Leila Sebbar”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 5, p. 313-314.

MORTIMER, Mildred P. Coming home: exile and the memory in Sebbar’s Le silence des rives. Research inAfrican Literature, v. 30, n. 3, p.125-134, 1999.

NUNLEY, Charles. From Shéherazade to Sherazade: self-fashioning in the Works of Leila Shebar. In:  BISHOP, Michael (Ed.). Thirty voices in the feminine. Amsterdam: Ed. Rodopi, 1996, p. 238-248.

Ribka Sibhatu (1956)

Poetisa eritreana, crítica e acadêmica, com atuação na Itália. Nasceu em Asmara e escreve em tigrinia, a língua originária da região de Tigré. Foi aprisionada em 1979, durante a ocupação da Eritréia pelas forças militares da Etiópia por se recusar a se casar com um oficial etíope.

Ela viveu por algum tempo em Addis Abeba, capital da Etiópia, onde estudou no Instituto Técnico Galileu Galilei. Lá conheceu um francês com quem se casou em 1985 e a quem acompanhou à Paris e à Lyon. Com o fim do casamento em 1996 ela se estabeleceu na Itália, onde realizou estudo de doutorado na Universidade La Sapieenza, em Roma.

Publicou em 1993 sua primeira coletânea de poesia, Aulò: canto-poesia dall’Eritrea, em texto bilíngue tigrinia-italiano, onde expressa sentimentos pessoais, familiares, e elementos da identidade eritréia inspirados na tradição oral através de canções, provérbios, rimas e lendas.  Também escreveu as obras Cittadino che non c’è. L’immigrazione nei media Italiani (1999) e L’esatto numero delle stelle e alia fiabe dell’altopiano eritreo (2012).

BIBLIOGRAFIA

CANTALUPO, Charles. “Ribka Sibhatu”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 5, p. 199-200.

PONZANESI, Sandra. Living in translation: Ribka Sibhatu, Aulo – Canto-poesia dall’Eritrea. In: IDEM. Paradoxes of postcolonial culture:  contemporary women writers of the indian and afro-italian Diaspora. Albany: State University of New York Press, 2004, pp. 167-183.

PARATI, Graziella. Living in translation: thinking with an accent. Romance Languages Annual, v. 8, p. 272-277, 1993.

Suzanne Tanella Boni (1954)

Nascida em Abidjan, capital da Costa do Marfim. Frequentou escolas de ensino fundamental e médio no norte do país e seguiu os estudos universitários na França, primeiro na Universidade de Toulouse e depois na Universidade de Paris IV, onde concluiu o Doutorado.

Durante anos lecionou filosofia na Universidade de Cocody, em Abidjan, onde também exerceu outras atividades acadêmicas e administrativas, inclusive como vice-reitora no período de 1993-1997. Neste mesmo período foi presidenta da Associação de Escritores da Costa do Marfim.  Ela participa de diversas comunidades e redes de interlocução intelectual e acadêmica, entre os quais o Instituto Internacional de Filosofia, a Academia de Ciências, Artes e Culturas da África e da Diáspora – ASCAD, e o Grupo de Estudos e Investigações sobre as Mundializações.

Como filósofa e pesquisadora, seus interesses maiores dizem respeito aos direitos humanos; arte, cultura e diversidade cultural; às questões de gênero e da participação feminina na sociedade; as relações entre a ética e a política e o lugar da África no mundo contemporâneo.

É autora de obras de ficção em prosa e em poesia, como o romance Les nègres n’iront jamais au paradis (Os negros jamais irão ao paraíso) (2006). Nas obras de não-ficção, merecem destaque os livros (La diversité du monde: reflexion sur l’écriture et les questions e notre temps (A diversidade do mundo: reflexão sobre a escrita e as questões de nosso tempo) (2010), e o ensaio Que vivent les femmes d’Afrique? (Como vivem as mulheres na África?) (2008), que trata dos lugares sociais das mulheres, do feminismo e das estratégias de resistência em revoltas femininas. Para o público infanto-juvenil, escreveu, entre outros, Myriam Makeba: une voix pour la loberté (Miriam Makeba: uma voz pela liberdade) (2009).

BIBLIOGRAFIA

Tanella Boni. In: Archived: lire les femmes écrivains et les litteratures africaines, 2013: https://aflit.arts.uwa.edu.au/BoniTanella.html

Véronique Tadjo (1955)

Filha de mãe francesa e pai marfinense, a escritora, pintora, ilustradora e acadêmica nasceu em Paris, mas foi em Abidjan, capital da Costa do Marfim, que ela cresceu. Foi lá também que se graduou em Inglês pela Universidade Nacional de Abidjan, onde teve contato com os textos de poetas da Négritude que futuramente teriam grande influência em sua escrita. Após um doutorado na Sorbonne e uma bolsa de pesquisa na Universidade de Howard, em Washington, ela voltou à Universidade de Abidjan, onde lecionou até 1993 – momento em que decidiu dedicar-se à carreira de escritora.

A escrita de Véronique, além de conter a mistura de “comprometimento político e lirismo” da Négritude, é também fortemente marcada pelas impressionantes experiências da autora, que já visitou e morou em diversas partes do mundo. Segundo ela, para ser um escritor competente, é preciso não “[se] confinar às fronteiras de [sua] nacionalidade”, visão que permite que suas obras, de fato, não se restrinjam às fronteiras em que foram criadas, sendo facilmente assimiladas pelos mais diferentes leitores.

Dentre os assuntos que surgem em sua produção, está o amor, considerado por Véronique o bem mais precioso que podemos ter. A autora tem interesse também pela relação entre memória e história, e tem se dedicado a observar mais de perto a história africana, com especial atenção às tradições orais e mitos de origem.

Ganhadora do Prêmio Literário da L’Agence de Coopération Culturelle et Technique (Agência de Cooperação Cultural e Técnica) (1983), do Prêmio UNICEF (1993) e do Grand prix littéraire d’Afrique Noire (Grande Prêmio Literário da África Negra) (2005) por Rène Pokou, Véronique não escreve apenas para o público adulto. Além de escrever (e ilustrar) obras infanto-juvenis, como o livro La Chanson de la vie et autres histoires (A canção da vida e outras histórias) (1989), a autora também oferece workshops de escrita para jovens de várias partes do mundo.

Suas principais obras são:Latérite (1984); La Chanson de la vie et autres histoires (A canção da vida e outras histórias)  (1989); Le Royaume aveugle (O reino cego) (1990); Champs de bataille et d’amour (Campos de batalha e de amor) (1999); L’Ombre d’Imana – voyages jusq’au bout du Rwanda (A sombra de Imana: viagens aos confins de Ruanda) (2000);  Reine Pokou: concerto pour un sacrifice (A Rainha Poku: concerto por um sacrífico) (2005).

BIBLIOGRAFIA

HITCHCOTT , N. Travels in Inhumanity: Véronique Tadjo’s Tourism in Rwanda. French Cultural Studies, n.20, p. 149–164, 2009.

MAGNIER, Bernard. Véronique Tadjo, a collector of travel souvenirs. The UNESCO Courier, v. 2, p. 5–7, 2008.  

NYATETU-WAIGWA, Wangari. “Veronique Tadjo”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 5, p. 486-487.

RICE-MAXIMIN, Micheline. Nouvelle écriture from the Ivory Coast: a reading of Véronique Tadjo’s A Vol d’oiseau.  In: Post-colonial subjects francophone women writers. Minneapolis: University of  Minnesota Press, 1996,  p. 157–172.

Werewere Liking (1950)

Escritora camaronesa, crítica, pintora, escultora, intérprete de teatro e dançarina.  Nasceu na comunidade de Bondé e foi criada pelos seus avós em ambiente tradicional, em contato com as tradições orais de seu país antes de se mudar para Abidjan, na Costa do Marfim, quando tinha vinte e oito anos.

Sua participação é notável no movimento cultural do Renascimento Africano. Fundou a internacionalmente reconhecida companhia teatral Ki-Yi Mbock, pela qual ela tem expressado obras que articulam a tradição da África ocidental com a Modernidade. Por sua formação autodidata, valoriza temas retirados de sua experiência, tratando de assuntos como modernidade, raça, opressão de gênero e a exploração econômica dos pobres pelos ricos, com forte valorização da africanidade. Ela criou para si uma performance visual pela qual expressa a sabedoria feminina e a condição de rainha, um modo de incorporar as tradições, reinventando-as e estimular a criatividade. Em entrevistas descreve Ki-Yi como “um movimento para o renascimento das artes africanas, para o nascimento de uma cultura pan-africana contemporânea e para uma aproximação e reconhecimento das culturas do mundo negro”.

Entre suas peças teatrais, estão La puissance de Um (O poder de Um) (1979); La veuve dylemme (O dilema da viúva) (1994); La queue du diable (O rabo do diabo) (1979) e Un touareg s’est marié à une pygmée (Um tuareg casou-se com uma pigmeia) (1992). Também é autora de romances repletos de intensidade e de realismo social, entre os quais estão Orphée d’Afric (Orfeu africano) (1981); Elle sera de jaspe et de corail (Ela será de jaspe e de coral) (1983);  L’Amour cent vies (Amor através de cem vidas) (2000).

Werewere Liking é altamente consciente sobre política e discurso de gênero. Da sua coleção de poesia On ne raisonne pas avec le venin (Não raciocinamos com veneno) (1977), nos Contes d’initiations féminines (Contos de iniciação femininos) (1983), e na canção-romance La mémoire amputée (A memória amputada) (2004), as questões de gênero assumem lugar central.  Em sua concepção, diante da negligência, opressão e desvalorização, só uma rainha tem suficientemente valor para falar com autoridade. Assim, valendo-se das tradições para subverter a situação atual, em uma solução teatral capaz de enfrentar os problemas sociais, torna-se uma intérprete social e uma mulher conectada aos problemas contemporâneos da sociedade africana em suas relações com o mundo.

BIBLIOGRAFIA

ADAMS, Anne. To write in a new language: Werewere Linking’s adaptation of ritual to the novel. Callaloo, v. 16, n. 1, p. 153-168, 1993.

EKOTTO, Frieda. “Werewere Liking”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 3, p. 500-501.

MILLER, Judith.  Werewere Linking: pan/artist and pan-africanism in the theatre. Theatre Research International, v. 21, p. 229-238, 1996.

TÊKO-AGBO, Ambroise. Werewere Liking et Calixthe Beyala. Le discours féministe et la fiction. Cahiers D’Études Africaines, v. 37, n. 145, p. 39–58, 1997.

Zoë Wicomb (1948)

Escritora e professora, nasceu em Vanrhynsdorp, na província do Cabo Ocidental, e cresceu em uma pequena cidade da Namaqualândia. Frequentou o ensino secundário e a Universidade do Cabo Ocidental, criada em 1960, durante o regime do Apartheid para a população dos “coloured” – a população mestiça que, na classificação oficial, era incluída entre os racialmente discriminados.

Após se formar, Zoë Wicomb partiu para a Escócia, onde morou em Nottingham e em Glaslow, no Reino Unido, no qual viveu até o início da década de 1990, quando assumiu o cargo de professora de língua inglesa na Universidade do Cabo Ocidental. Depois, mais uma vez na Europa, foi contratada pela Universidade de Stellenbosh (2005) e Universidade de Strahclyde, onde lecionou escrita criativa até a sua aposentadoria (2009).

Como autora, a ficção de Zoë Wicomb concede grande espaço aos problemas relacionados com os dilemas identitários das populações “coloured” durante o regime do Apartheid, e os impasses sociais vividos por elas na “nova” África do Sul.  A sua primeira obra de sucesso, You can’t get lost in Cape Town (Você não pode se perder na Cidade do Cabo) (1987), é uma coleção de contos curtos e contém visivelmente marcas autobiográficas. Já o livro seguinte, David’s story (A história de David) (1991), trata da ambiguidade das identidades na “Nova África do Sul”, os recalques decorrentes da segregação racial anterior e os perigos do exclusivismo étnico.

Lançado em 2006, o romance Playing in the light (Jogando às claras) explora a situação dos sujeitos sul-africanos que, da condição de “colored” (pessoas de cor) passaram a ser reclassificados como brancos” sul-africanos. Este cruzamento de fronteira racial coloca em foco a auto-humilhação resultante do discurso do Apartheid e a “vergonha” herdada do sistema de reclassificação. A estrutura narrativa permite que as ambivalências ocultadas no passado racializado da África do Sul venham à tona, desnudando o desconforto do discurso do nacionalismo arco íris, que minimiza o peso dos traumas político e pessoal na África do Sul.

Zoë também é autora de extensa lista de trabalhos relacionados com a crítica literária e temas culturais. Seu trabalho questiona abordagens simplistas dos problemas nacionais e identitários em uma sociedade multirracial e multicultural, a autonegação e a luta contra a homogeneidade.

BIBLIOGRAFIA

LEWIS, Desiree. Writing hybrid selves: Richard Rive and Zoë Wicomb.In: ERASMUS, Zimitri (Ed.). Coloured by history, shaped by place: new perspectives on coloured identity in Cape Town. Cape Town: Kwela Books, 2001, p. 131-158.

MARAIS, Mike. Bastards and and bodies in Zoë Wicomb’s David’s Story”. Journal of Commonwealth Literature, v. 40, n. 3, p. 21-36, 2005.

MORKEL, Nancy Laura. “Zoe Wicomb”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 6, p. 170-172.

SAMUELSON, Meg. The disfigured body of the female guerilla: (de)militarization, sex violence, and redomestication in Zoë Wicomb’s David’s Story. Signs: journal of women in culture and society, v. 32, n. 4, p. 833-856, 2007.

WICOMB, Zoë. Shame and identity: the case of the coloured in South Africa. In: Attridge, Derek; JOLLY, Rosemary (Eds.). Writing South Africa: literature, Apartheid, and democracy, 1970-1995. Cambridge: Cambridge University Press, 1998, p. 91-107

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